quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Congresso Nu





CONGRESSO EM NOTAS - LEMEP 
no.2, 03/11/2015 

 
O Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública do IESP-UERJ passa a divulgar notas sobre o cotidiano do Congresso Nacional. São informações públicas e relevantes, mas pouco noticiadas pela grande imprensa.

Recentemente dois projetos relevantes para os movimentos feministas e LGBT foram
aprovados em comissões da Câmara. O PL 5069, do Deputado Eduardo Cunha, foi
aprovado pela CCJC. A proposta altera regras sobre o aborto. O projeto criminaliza
quem instiga o aborto ou quem preste qualquer auxílio ou até mesmo orientação à
mulher. No caso de estupro o aborto só será permitido com exame de corpo delito. O
projeto ainda prevê que “nenhum profissional de saúde ou instituição, em nenhum caso,
poderá ser obrigado a aconselhar, receitar ou administrar procedimento ou medicamento
que considere abortivo”. Ou seja, se o profissional de saúde considerar que pílula do dia
seguinte é um abortivo, ou que aborto em caso de estupro não é adequado, ele não é
obrigado a dar as devidas orientações para uma vítima. O PL segue para Plenário. Destaque para a atuação das Deputadas Maria do Rosário, Érika Kokay e Cristiane Brasil.

O segundo é o Estatuto da Família, de autoria do Deputado Anderson Ferreira, que
proíbe o casamento e a adoção por famílias formadas por casais homossexuais, foi
aprovado há poucos dias. A proposta era de apreciação conclusiva pelas comissões, mas
recurso encabeçados pelos Deputados Jean Wyllys e Érika Kokay garantiram que o PL
ainda não fosse enviado ao Senado. Além desses, trabalharam na Comissão Especial
contra a proposta os Deputados Glauber Braga e Bacelar e a Deputada Maria do
Rosário. Ambos os PLs agora devem ser deliberados pelo Plenário da Câmara. Mas há
outros tramitando na Casa que representam retrocessos em pautas feministas e LGBT.

ABORTO COMO CRIME HEDIDONDO. Quatro PLs em tramitação pretendem tornar
o aborto um crime hedidondo – tão grave quanto homicídio praticado por grupo de
extermínio e estupro de criança, por exemplo. Os crimes hediondos não são suscetíveis
a graça ou indulto. São os projetos PL 4703/1998 (do Deputado Francisco Silva), PL
4917/2001
 (do Deputado Givaldo Carimbão), PL 7443/2006 (do Deputado Eduardo
Cunha) e PL 3207/2008 (do Deputado Miguel Martini). Todos tramitam em conjunto e
aguardam designação de relator na CCJC.

Além desses, há o PL 1545/2011 (do Deputado Eduardo Cunha) que agrava punição
para o crime de aborto e o PL 6115/2013 (Deputado Salvador Zimbaldi), que exige o
exame de corpo de delito comprovando estupro para que o médico possa realizar aborto
– o que já foi aprovado pela CCJ no PL 5069.

NASCITURO. Há diversos projetos que dispõem sobre os direitos do nascituro. O
único arquivado, PL 2155/2007, do Deputado Dr. Talmir, previa o Dia do Nascituro. Os
demais ainda estão em tramitação. São os seguintes: PL 478/2007 (do Deputado Luiz
Bassuma), PL 1763/2007 (da Deputada Jusmari Oliveira), PL 489/2007 (do Deputado
Odair Cunha), PL 1085/2011 (do Deputado Cleber Verde), PL 3748/2008 (da Deputada
Sueli Vidigal), PL 8116/2014 (do Deputado Alberto Filho). Tramitam em conjunto, sob
o nome de Estatuto do Nascituro, que já foi aprovado em duas comissões – Finanças e
Tributação e Seguridade Social e Família. A proposta dá uma pensão à mãe de filho
gerado a partir de um estupro, além de prever direitos de paternidade ao agressor.

CONTRA O RECONHECIMENTO DE DIREITOS DE PESSOAS LGBT. Além do
Estatuto da Família, tramitam o PL 4508/2008 (do Deputado Olavo Calheiros) e o PL
620/2015 
(da Deputada Júlia Marinho), que propõem a vedação de adoção por casal
homoaetivo; o PL 7382/2010 (do Deputado Eduardo Cunha), que criminaliza
heterofobia; o PL 1672/2011 ( do Deputado Eduardo Cunha), que cria o "Dia do
Orgulho Heterossexual"; o PL 3875/2012 (do Deputado Manato), que cria nova causa
de anulação do casamento: “a ignorância, anterior ao casamento, da condição de
transgenitalização, que por sua natureza, torne insuportável a vida do cônjuge enganado
com a impossibilidade fisiológica de constituição de prole.” Este último projeto
recentemente foi aprovado pela Comissão de Seguridade Social e Família e seguiu à
CCJC.

EDUCAÇÃO. Há também em tramitação na Câmara algumas propostas de ensino
religioso nas escolas: PL 309/2011 (do Deputado Pastor Marco Feliciano), PL
7180/2014
 (do Deputado Erivelton Santana) e PL 3044/2015 (do Deputado Takayama).
O PL 943/2015 (do Deputado Alfredo Kaefer) propõe o ensino da Bíblia e o PL
8099/2014 
(do Deputado Pastor Marco Feliciano) propõe o ensino do criacionismo. O
PL 867/2015 (do Deputado Izalci) cria o "Programa Escola sem Partido". Inclui, como
diretriz da educação nacional, o “respeito às convicções do aluno, de seus pais ou
responsáveis, tendo os valores de ordem familiar precedência sobre a educação escolar
nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa, vedada a
transversalidade ou técnicas subliminares no ensino desses temas.” Segundo algumas
análises o próprio ENEM teria sido uma resposta dos educadores contra o movimento
Escola sem Partido, que já existe em alguns estados brasileiros. O PL 2731/2015 (do
Deputado Eros Biondini) estabelece que a educação não terá nenhum conteúdo que
tenda “a aplicar a ideologia de gênero, o termo ‘gênero’ ou ‘orientação sexual.’” O
mesmo deputado apresentou o PL 477/2015, que altera Lei Maria da Penha substituindo
o termo gênero por sexo. No mesmo sentido o PL 3236/2015 (do Deputado Marco
Feliciano), exclui expressamente a promoção da ideologia de gênero por qualquer meio
ou forma do sistema de educação.

Por fim, o PL 3235/2015 (do Deputado Marco Feliciano) criminaliza a conduta de
veicular, “em atos normativos oficiais, em diretrizes, planos e programas
governamentais, termos e expressões como ‘orientação sexual’, ‘identidade de gênero’,
‘discriminação de gênero’, ‘questões de gênero’ e assemelhados, bem como autorizar a
publicação dessas expressões em documentos e materiais didático-pedagógicos, com o
intuito de disseminar, fomentar, induzir ou incutir a ideologia de gênero”.

A ditadura nazista do estado de israel


Por Rafael Fortes, em seu blog

Também na caixa postal, excelente texto sobre a situação atual na Palestina. Trechos:



Contudo, este é o melhor e definitivo parágrafo, que devo reproduzir outras vezes neste blogue:


Pra encerrar (e para reflexão dos que acham que é – apenas – no Brasil que carecemos de lideranças políticas capazes de conduzir às mudanças que tornem melhor a vida da maioria da população):


As cartas ainda estão nas mãos de Israel, e são poderosas. Israel pode iniciar novas conversações de paz com alguns gestos simples. Pode até decidir com quem: o Fatah ou um governo de unidade palestino. Pode organizar uma coalizão internacional para apoiá-las ‒ dos estados árabes à Turquia, Rússia, EUA e União Europeia. O nosso é um dos poucos temas no mundo pelos quais todos esses estados dariam alegremente sua cooperação. Israel poderia encerrar unilateralmente o regime militar na Margem Ocidental. Em resumo, Israel tem uma gama de ferramentas à sua disposição que, a médio e longo prazo, poderia alterar fundamentalmente as relações entre judeus e árabes nesta terra. Mas fazê-lo tem um preço: encerrar a construção de assentamentos, soltar prisioneiros, e todos os demais passos que não só a liderança política, mas também a maioria do público judeu, rejeita de cara neste momento.“

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A greve dos bancários e a função do PT na luta de classes


Rosa Luxemburgo, uma das maiores teóricas e militantes que o movimento comunista já teve, nos esclareceu, em sua polêmica com a ala direitista da social-democracia, que o projeto reformista, de conciliação de classe, traz, como elemento indispensável, um rebaixamento teórico (abandono da teoria revolucionária) e de nível de consciência dos trabalhadores/as e movimentos sociais. Não à toa os principais nomes do revisionismo abandonaram a dialética (e substituíram por Kant ou o positivismo), passaram a adotar teorias econômicas não marxistas (keynesianismo, economia neoclássica etc.) e uma teoria política institucionalista e um foco de análise não-classista. Todo projeto reformista, em qualquer época histórica e formação social, com conteúdos diferentes, é claro, toma a mesma posição: a direção reformista precisa expurgar a teoria revolucionária para controlar a "base".
Com o PT não Brasil a coisa não foi diferente. No geral, a maioria das organizações e militantes de esquerda, na atualidade, têm dificuldades de operacionalizar análises marxistas. Conceitos como progressista, conservador, direita, esquerda, mídia golpista, extrema direita, classe média, etc. acabaram criando uma extrema confusão na esquerda brasileira (a "crise do marxismo" com a derrubada da URSS e o neoliberalismo ajudaram nessa tarefa da direção do PT). A pergunta fundamental na crítica marxista de qualquer projeto político, isto é, qual a função que cumpre o projeto político analisado na luta de classes, é raramente formulada e dificilmente respondida pela maioria da esquerda (prova disso é a simpatia que Ciro Gomes tem em setores da esquerda que se declaram socialista). A greve dos bancários esse ano explícita isso. 

O projeto político do PT prometia atacar o "capital financeiro", especulativo, e fortalecer o "capital produtivo" que geraria emprego, desenvolvimento e distribuição de renda. Na prática o PT fortaleceu como nunca os bancos e grupos financeiros, aumentou seu grau de controle na economia, ampliou a participação do capital privado nos bancos públicos, fortaleceu a lógica privada nos bancos públicos (terceirização, funcionamento por metas coercitivas, fracionamentos das funções para reduzir salários, etc.) e garantiu lucros astronômicos a esse setor da burguesia. Isso significa que o ciclo do PT enfraqueceu o  trabalho (os bancários) e fortaleceu o capital (os banqueiros).  

Ao mesmo tempo, a CUT, o braço sindical do PT, procura paralisar e rebaixar o nível das lutas. Transforma os sindicatos em prestadores de serviços, para de realizar a formação política e na ação reivindicativa privilegia o consenso com os patrões frente ao enfrentamento (o que só prejudica os trabalhadores/as). A atual greve dos bancários, em vários estados, foi encerrada com golpes da CUT contra a vontade dos bancários. Ou seja, o PT coloca representantes dos bancos nos principais aparelhos estatais dirigentes da economia (Banco Central, Ministério da Fazenda e do Planejamento), realizar uma política de fortalecimento dos bancos e ainda enfraquece a resistência dos trabalhadores/as. 

O Partido e a CUT realizam tudo isso e depois falam de luta progressista contra os "conservadores", reacionários e coxinhas; diz que a classe média é o pior mal da humanidade, fala da "imprensa golpista", cita dados econômicos [economicistas] sobre os milhões que saíram da pobreza, número de universidades construídas, aumento do consumo, etc. Mostra os ataques promovidos pelo capital, com a indispensável ajuda do PT, como prova do "avanço conservador" e clama para que as "bases" defendam o projeto do PT porque se ele cair tudo será muito pior (quando quem cria as condições para a regressão atual é o próprio PT). É o golpe quase perfeito. Juntam-se toda mídia governistas, o aparato ideológico do Estado, o PT e suas várias entendidas de influência (CUT, ANPG, UNE, etc.) e criam uma ideologia onde somos atacados, não percebemos bem quem nos ataca e ainda defendemos quem é parte fundamental do ataque. Nada disso seria possível sem um grande rebaixamento teórico e de nível de consciência. 

Temos milhões de desafios nos próximos anos. A recuperação da crítica marxista é um deles. Temos que voltar a conseguir fazer a pergunta certa – qual a função e o papel desse projeto político na luta de classes?  - e conseguir fornecer a resposta adequada.
http://makaveliteorizando.blogspot.com.br/2015/10/a-greve-dos-bancarios-e-funcao-do-pt-na.html#more

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

10 coisas que você não sabia sobre a relação entre o PT e o PSDB




PT e PSDB são os irmãos Karamazov da política nacional. Nas últimas décadas, ambos os partidos travaram duelos apaixonados e transformaram o debate público brasileiro num imenso caldeirão, um Fla-Flu. De um lado os azuis, do outro os vermelhos. De um lado o tucano, do outro a estrela. De um lado o professor, do outro o operário.
O que poucas pessoas sabem é que há mais coisas em comum entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido da Social Democracia Brasileira do que julga nossa vã filosofia. PT e PSDB nasceram no mesmo lugar, no coração da esquerda paulistana, com concepções políticas e econômicas muito parecidas, e com duas figuras históricas – Lula e Fernando Henrique Cardoso – que não teriam ascendido sem o outro. E tudo isso nunca foi negado por seus criadores. Pelo contrário.
“Nós estamos que nem dois jogadores de futebol, somos amigos, somos até irmãos e estamos jogando em times diferentes”, jádisse Lula sobre a relação entre os partidos.
“Nossas diferenças com o PT são muito mais em relação à disputa de poder do que sobre ideologia”, jáassumiu Fernando Henrique Cardoso.
De fato, é muito difícil desassociar a história de ambos. O sociólogo francês Alain Touraine, de esquerda, ex-professor e amigo pessoal de Fernando Henrique, chegou a afirmar que o futuro do Brasil seria a união dos partidos. Em 2004, Tourainedisse que os governos de FHC e Lula faziam parte de um mesmo projeto. E tal cenário é assumido por seu pupilo. Para FHC, há uma massa política atrasada no país e a polarização entre PT e PSDB serve para tirá-lo desse atraso.
“Os dois partidos que têm capacidade de liderança para mudar isso são o PT e o PSDB. Em aliança com outros partidos. No fundo, nós disputamos quem é que comanda o atraso”,disse.
Aqui, 10 coisas que você não sabia sobre a relação entre os dois partidos que mais pediram o seu voto nos últimos tempos.

1) LULA JÁ GARANTIU ELEIÇÃO PARA FERNANDO HENRIQUE CARDOSO. E LOGO NA ESTREIA DOS DOIS NA POLÍTICA PARTIDÁRIA.

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Foi em 1978.
Fernando Henrique Cardoso era o príncipe dos sociólogos, um membro ativo da comunidade acadêmica paulistana que havia deixado a universidade para abraçar a vida pública. Era sua estreia de gala, o candidato de esquerda na corrida ao Senado pelo maior estado do país, a nova aposta do MDB.
Lula era o sapo dos operários, um líder do movimento sindical que tinha “ojeriza” à política partidária. Convencido por alguns amigos, abriu uma exceção para a candidatura do sociólogo do Morumbi. Pediu em troca sua adesão às bandeiras econômicas dos sindicatos, prontamente atendidas. Tal qual FH, era sua primeira vez nas corridas eleitorais. E a meta era clara: somar o máximo de votos possíveis para Fernando Henrique Cardoso.
Como conta o próprio Lula:
“Acontece que em 78, primeiro ano das greves do ABC, o MDB estava lançando sua chapa de senadores. Algumas pessoas, alguns jornalistas cujos nomes não vou dizer, queriam que a gente apoiasse Cláudio Lembo, da Arena. Fui apresentado a Fernando Henrique Cardoso. Aí fomos para a campanha. Fui representar Fernando Henrique Cardoso em vários comícios.”
Lula levou FHC às portas de fábrica e rodou com ele pelo interior do estado. Era o príncipe e o sapo unidos em torno da criação do mesmo reino – a maior figura daquilo que viria a ser o PSDB com a maior figura daquilo que viria a ser o PT. Num palanque do MDB, com artistas e figuras ilustres da esquerda paulistana, o líder operário irritou-se com a festividade. Virou-se para Ulysses Guimarães e esbravejou:
“O trato é que iria pedir votos só para o Fernando Henrique Cardoso. Todo mundo sabe que sou o principal cabo eleitoral do Fernando Henrique Cardoso. Agora querem que eu peça votos também pro Montoro. Eu não vou pedir. Se não me deixarem fazer o que eu quero, eu desço e levo o palanque todo comigo, e vamos fazer o comício em outro lugar.”
Era o início de tudo. Fernando Henrique acabaria eleito primeiro suplente do senador Franco Montoro e, quatro anos depois, quando Montoro virou governador, assumiu a vaga, dando princípio à carreira política que o levaria ao cume do poder nacional. Sem o apoio de Lula em seus primeiros passos, nada disso seria possível.

2) EDUARDO SUPLICY, LULA E FHC JÁ DIVIDIRAM UMA CASA DE PRAIA EM UBATUBA

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Na década de setenta, Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa de praia em Picinguaba, Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Em 1976, entre as indas e vindas de sua vida acadêmica dentro e fora do país, deixou o imóvel nas mãos de um amigo de longa data que conhecia desde os tempos de garoto – um sujeito chamado Eduardo Matarazzo Suplicy.
“Em 1976, aluguei uma casa em Paraty e fui conhecer Picinguaba. O Fernando Henrique Cardoso tinha uma casa lá, que acabou me emprestando por seis meses quando ele foi para a França. O filho da caseira me mostrou um terreno, onde acabei construindo minha casa, dois anos depois”, conta Suplicy. 
Um ano depois, o fundador do PSDB abriria as portas para o fundador do PT e sua esposa – Lula e Marisa – passarem um final de semana no imóvel. Lula ficou extasiado com a paisagem. Só reclamou dos mosquitos.

3) LULA E FERNANDO HENRIQUE CARDOSO QUASE CRIARAM UM PARTIDO POLÍTICO

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Fernando Henrique Cardoso no alto, à esquerda, Lula no centro da imagem.
No final da década de 1970, Fernando Henrique e Lula participaram de uma reunião no ABC paulista, com intelectuais e dirigentes sindicais, para discutir o que fazer diante da iminente redemocratização no país. Nesse espaço, discutiram a criação de um partido socialista. Mas a ideia não foi pra frente. Como conta o sociólogo Francisco Weffort, fundador do PT e posteriormente ministro do governo FHC:
“Apesar das muitas afinidades, prevaleceu a divergência. Daquele grupo, uns saíram para criar o PT e outros, anos depois, o PSDB.”
Segundo Eduardo Suplicy, que reuniu Lula e Fernando Henrique diversas vezes em sua casa para discutir o futuro do país e a possível criação de uma nova legenda, ela só não nasceu pelo conflito de liderança entre os dois:
“Cada um avaliava que seria o líder maior da organização que se formasse. Tinham dificuldade de aceitar a liderança um do outro, e ficava muito difícil para ambos ficar no mesmo partido”, conta.
Por muito pouco, PT e PSDB não se tornaram um único partido.

4) OS POLÍTICOS DE PT E PSDB SE CONFUNDEM COM A HISTÓRIA DA ESQUERDA BRASILEIRA

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A história dos principais caciques tucanos se confunde com a história dos principais caciques petistas. Juntos, ajudaram a construir a esquerda brasileira.
Fernando Henrique Cardoso sempre foi um estudioso do marxismo, por influência de Florestan Fernandes. Na década de 50, auxiliava a edição da revista “Fundamentos”, do Partido Comunista Brasileiro. Também integrava um grupo de estudos dedicado à leitura e discussão da obra O Capital, de Marx. Em 1981, ao lado de Eduardo Suplicy, ingressou numa lista da Polícia Federal. Era tratado como comunista pela ditadura.
O economista José Serra foi uma das principais lideranças estudantis de seu tempo, presidente da UNE e um dos fundadores da Ação Popular, grupo de esquerda que revelaria os petistas Plínio de Arruda Sampaio e Cristovam Buarque. Serra é amigo pessoal e conviveu por anos no exílio com a economista petista Maria da Conceição Tavares, uma das principais influências intelectuais do Partido dos Trabalhadores e referência particular de Dilma.
O tucano Aloysio Nunes, vice de Aécio Neves na última eleição, foi membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização guerrilheira liderada por Carlos Marighella – era seu motorista e guarda-costa. Aloysio realizou inúmeros assaltos à mão armada em nome da revolução socialista.
Alberto Goldman, ex-governador tucano de São Paulo, teve uma educação marxista. Foi membro do clandestino PCB durante a ditadura.
José Aníbal, uma das figuras mais proeminentes do PSDB paulista, foi amigo de adolescência de Dilma Rousseff, com quem estudava matemática depois das aulas, e seu parceiro na Organização Revolucionária Marxista Política Operária, também conhecida como POLOP. Aníbal foi um dos fundadores do PT, antes de ser presidente do PSDB.
Juntos, eles fundariam os dois partidos políticos mais relevantes do país.

5) NAS ELEIÇÕES DE 1989, O PSDB APOIOU LULA CONTRA COLLOR

Mario Covas, Lula e Brizola.
O recém formado PSDB, criado por dissidentes de esquerda do MDB, lançou o senador Mario Covas candidato à presidência em 1989. Covas alcançou pouco mais de 7 milhões de votos no primeiro turno e terminou a corrida na quarta colocação. O que pouca gente se lembra é que o PSDB apoiou Lula no segundo turno – o PMDB, de Ulysses Guimarães, tentou seguir o mesmo caminho, mas acabou rejeitado pelo Partido dos Trabalhadores. Os tucanos, por outro lado, foram acolhidos. Em almoço com o prefeito de Belo Horizonte eleito pelo PSDB, Pimenta da Veiga, Lula ouviu do tucano:
“Eu tenho também a alegria de saber que, pela primeira vez, aqui se reúnem representantes de todas as forças progressistas do país, nesta tarde, neste almoço. Eu estou certo que isso terá desdobramentos. E acho que deve ser assim, porque o Brasil deseja mudanças em profundidade. E só essas forças progressistas podem fazer essas mudanças.”
Lula perderia a eleição para Collor em poucas semanas.

6) “LULA, VENHA CONHECER A CASA ONDE VOCÊ UM DIA VAI MORAR”

Lula e FHC
Em 1993, o Brasil passou por um plebiscito sobre a forma e o sistema de governo do país. De um lado, o PT articulava a formação de uma Frente Presidencialista. De outro, o PSDB defendia a implementação do parlamentarismo. Numa conversa informal, Lula e FHC chegaram a conversar sobre um plano em que o operário se tornaria presidente e o sociólogo primeiro-ministro.
Em 1998, como revela numa conversa com o ex-senador petista Cristovam Buarque, FHC recebeu Lula no Palácio do Alvorada e arriscou uma nova previsão.
“Cristovam Buarque: Em novembro de 1998, acompanhei o Lula para visitá-lo. Quando o senhor abriu a porta do apartamento residencial no Alvorada, disse: “Lula, venha conhecer a casa onde você um dia vai morar”. Foi generosidade ou previsão?
Fernando Henrique Cardoso: Não creio que tenha sido uma previsão, mas sempre achei uma possibilidade. E também um gesto de simpatia. Eu disse ao Lula naquele dia: “Temos uma relação de amizade há tantos anos, não tem cabimento que o chefe do governo não possa falar com o chefe da oposição”. Era uma época muito difícil para o Brasil. Eu disse lá, não sei se você se lembra: “Algum dia nós podemos ter de estar juntos”. Eu pensava numa crise. E disse ao Lula: “Não quero nada de você. Só conversar. É para você ter realmente essa noção de que num país, você não pode alienar uma força”. Lula conversou comigo no dia da posse. E foi bonita aquela posse… Na hora de ir embora, o Lula levou a mim e a Ruth até o elevador. E aí ele grudou o rosto em mim, chorando. E disse: “Você deixa aqui um amigo”. Foi sincero, não é?”
Em 1999, Fernando Henrique relatou o quanto respeitava Lula.Numa conversa com Eduardo Suplicy, revelou que quando Lula aparecia na televisão falando mal dele, simplesmente desligava o aparelho.
“Fico triste, perco até o humor. Para vocês terem uma ideia do quanto eu gosto e admiro o Lula. Você sabe, Eduardo, o que eu fiz com Lula quando ele esteve comigo no Alvorada, mostrei a ele o meu quarto e disse: “Um dia isso aqui vai ser os seus aposentos”. A gente faz isso com adversário, nem com todos os amigos a gente faz isso. Pois eu mostrei a Lula as dependências da residência oficial em que moro. Mostrei o meu quarto.”
Em três anos, Lula viraria presidente. A profecia tucana se cumpriu.

7) FERNANDO HENRIQUE FEZ CAMPANHA SECRETA PARA LULA EM 2002

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Nas eleições de 2002, FHC retaliou José Serra, candidato pelo PSDB à sucessão presidencial, por ataques feitos a Lula durante a campanha. Fernando Henrique disse também, em conversas reservadas, que foi um erro o ataque direto ao presidente do PT, o então deputado federal José Dirceu. Dirceu era o petista mais próximo de seu governo e a ordem era que se suspendesse imediatamente as críticas a ele. Seu puxão de orelha foi transmitido ao comando do marketing da campanha de Serra.
Com Lula eleito, FHC iniciou uma campanha secreta em sua defesa. A história é narrada no livro ”18 Dias — Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio de Bush”, escrito por Matias Spektor, doutor em relações internacionais pela Universidade de Oxford e colunista da Folha de São Paulo. Como conta Spektor:
“Lula despachou José Dirceu [que viria a ser o chefe de sua Casa Civil] para os Estados Unidos e acionou grupos de mídia e banqueiros brasileiros que tinham negócios com a família Bush. Disciplinou as mensagens de sua tropa e abriu um canal reservado com a embaixada americana em Brasília. Lula não fez isso sozinho. Operando junto a ele estava o presidente brasileiro em função – Fernando Henrique Cardoso. FHC enviou seu ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, em missão à Casa Branca para avalizar o futuro governo petista. O presidente também instruiu seu ministro da Fazenda, Pedro Malan, a construir uma mensagem comum junto ao homem forte de Lula, Antonio Palocci.
Eles fizeram uma dobradinha para dialogar com o Tesouro dos Estados Unidos, o Fundo Monetário Internacional e Wall Street. Fernando Henrique ainda orientou Rubens Barbosa, seu embaixador nos Estados Unidos, a prestar todo o apoio a Lula.”
Sem esse apoio, Lula certamente não conseguira a estabilidade internacional que teve. Não fosse FHC, sua história teria tomado outros rumos. E a do Brasil também.

8) O HOMEM FORTE DA ECONOMIA DO GOVERNO LULA ERA… UM TUCANO!

No início dos anos 2000, Henrique Meirelles deixou de lado uma vida bem sucedida como executivo do setor financeiro para candidatar-se a deputado federal por Goiás. Recebeu 183 mil votos e se tornou o deputado mais votado do estado. Seu partido era o PSDB. Com o sucesso eleitoral e o respeito do mercado financeiro, foi convidado por Lula para ser o primeiro presidente do Banco Central de seu governo, cargo que ocuparia por longos 7 anos. Meirelles ainda receberia as bençãos de FHC, antes de se desfiliar do PSDB e deixar o cargo que havia sido eleito. Lula telefonou para Fernando Henrique para avisar a escolha.
Em 2003, Marcos Lisboa, outro homem forte da economia do primeiro governo Lula, declarou que a equipe econômica do governo Fernando Henrique Cardoso merecia uma “estátua em praça pública” por ter promovido os acordos com os governos estaduais e municipais na negociação da dívida e também por ter criado a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Anos mais tarde, Fernando Henrique revelou comemorar as conquistas do governo Lula.
“Eu também comemoro a melhoria na distribuição de renda. A política dele é a minha”, disse.

9) FERNANDO HENRIQUE CARDOSO EVITOU OIMPEACHMENT DE LULA EM 2005

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Durante todo governo Lula, duas figuras construíram uma ponte entre o presidente operário e o ex-presidente sociólogo: os então ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. Os encontros foram confirmados por ambos – Palocci confirmou que esteve pessoalmente com FHC “pelo menos cinco vezes”; Bastos disse ter conversado pessoalmente com o ex-presidente apenas uma vez, em junho de 2005, mas confirmou que os contatos por telefone eram muito frequentes. Lula sempre soube das conversas e, mais de uma vez, em momentos difíceis, sugeria a Palocci: “Vai conversar com Fernando Henrique”.
Em 2005, no auge do escândalo do Mensalão e com a pressão porimpeachment, Lula orientou seus dois homens fortes para pedirem a FHC que aplacasse os ânimos da oposição. O tucano aceitou de prontidão. Na conversa com Thomaz Bastos, FHC concordou que um impeachment de Lula, à época uma ameaça real, “tornaria o país ingovernável”. Fernando Henrique dizia que não queria criar “uma cisão no Brasil”. Os tucanos acataram a ordem e a história do impeachment perdeu força.

10) NAS ÚLTIMAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS, PT E PSDB ESTAVAM COLIGADOS EM 999 DISPUTAS DE PREFEITURAS

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PT e PSDB são tratados como antagonista no cenário político nacional, mas a verdade é que em pelo menos 999 cidades (o correspondente a 18% das 5.569 cidades brasileiras), os partidos fizeram parte da mesma coligação nas últimas eleições municipais. Só no estado de São Paulo, esse número foi de 54 municípios.
Em Schroeder, Santa Catarina, por exemplo, o prefeito eleito foi o tucano Osvaldo Jurck; seu vice foi o petista Moacir Zamboni. Em 149 casos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as chapas que contaram com o PT foram encabeçadas por candidatos a prefeito pelo PSDB.
Tudo como se fossem feitos um para o outro.