terça-feira, 30 de junho de 2015

A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL EM UM PAÍS DO AVESSO

Fernanda Melchionna*, especial para o Jornalismo B
Era uma vez um país chamado Lisarb. Lá, havia muitos parlamentares que teoricamente deviam ser representantes do povo, mas a maioria estava no Congresso financiado por grandes empreiteiros, banqueiros e ruralistas. Aliás, muitas das empreiteiras tinham seus dirigentes presos por estar envolvidos em escândalos de corrupção. Como atendiam aos interesses das elites, esses políticos não cumpriam o que haviam prometido para o povo na campanha eleitoral: saúde, educação e segurança. Ao contrário, votavam em projetos que atacavam direitos dos trabalhadores, como a restrição ao uso do seguro-desemprego e a ampliação das terceirizações. Apoiavam as medidas do governo de aumentar o preço da luz, da gasolina e a taxa de juros.
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Para se safar, o presidente da Câmara dos Deputados mentia ao povo dizendo que a culpa da violência social era dos jovens, não da concentração de riqueza, do pouco investimento em Educação, da impunidade dos ricos. Daí, botando spray na cara de jovens que lutavam contra o retrocesso, aprovaram a PEC 171 em comissão especial. A PEC 171 determinava a redução da maioridade penal para 16 anos, mas em Lisarb o número da PEC correspondia exatamente ao seu significado: estelionato.
Mentiam para o povo cansado de tanto assalto e tantas mortes, porque em Lisarb os índices de assassinatos eram maiores que em muitos países em guerra civil. Faziam a política do factóide. Diziam que os jovens saíam impunes de seus crimes, quando a lei determinava que desde os 12 anos os adolescentes deveriam responder por seus delitos, inclusive com medidas de privação da liberdade em lugares para ressocialização. Claro, em Lisarb esses lugares eram superlotados e com muitos problemas. Mas, mesmo assim, eram melhores do que os presídios. A diferença na taxa de reincidência era gritante: 70% dos que cumpriam pena nos presídios reincidiam, contra menos de 30% no sistema para adolescentes. Mas parece que os políticos dos factóides não queriam ver isso, ou pior, queriam colocar desde 16 anos os jovens em contato com o crime organizado, que era quem de fato mandava no sistema carcerário em Lisarb.
Mentiam também que a culpa da violência era dos jovens, quando pelas estatísticas estes não representavam nem 1% dos autores de crimes contra a vida, mas eram as maiores vítimas. Cerca de 53% dos assassinados em Lisarb eram jovens, a maioria (77%) negros e moradores da periferia.  E, pasmem, os mesmos políticos do factóide diziam que não havia racismo em Lisarb!
Mentiam que a lei era atrasada, quando 70% dos países tinha a idade penal de 18 anos. E alguns países que tinham mudado para 16 anos, voltaram atrás por que comprovaram que não diminuía a violência.
Em Lisarb parecia que a maioria dos parlamentares queriam construir mais presídios, não mais escolas. Talvez porque quisessem propor no futuro uma coisa chamada de Parceria Público Privada (PPP) para que seus amigos tivessem um novo negócio. Ou porque queriam aumentar o Estado Penal na mesma proporção em que os governos tiraram verbas do Estado Social.
Lamentavelmente, qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Aliás, é a dura realidade do Brasil. As discussões da política pública de Segurança estão ao contrário, como no conto de Lisarb. Se nos contos de fadas, príncipes e fadas aparecem no final da história para acabar com a vilania, no Brasil lutaremos para que os movimentos consigam desmascarar essa cantilena enfadonha e derrotar este retrocesso contra os direitos da criança e do adolescente.
Fernanda Melchionna*, especial para o Jornalismo B *Vereadora de Porto Alegre pelo PSOL.
vi no: http://jornalismob.com/2015/06/30/a-reducao-da-maioridade-penal-em-um-pais-do-avesso/

11 fotos históricas para entender a trajetória do Movimento Gay na luta por Direitos Civis


Não é qualquer novidade considerar a presença de homossexuais na história. Desde os tempos mais remotos há registros de homossexualidade em todas as partes do mundo. Em alguns lugares, sobretudo em sociedades clássicas da antiguidade, práticas homossexuais eram tidas como indiferentes ou até mesmo um elemento enobrecedor. Por outro lado, também é grande o número de exemplos históricos de povos que não toleravam isso que consideravam um "desvio de conduta". 

Compreender a maneira que cada cultura se relacionava com o homossexual passa pelo entendimento da forma em que a sexualidade era tratada. Boa parte do mundo atual, direta ou indiretamente, sofreu forte influência das bases éticas judaicas (que também originaram o cristianismo e islamismo). Assim, nos últimos séculos, com destaque para o período medieval, homossexuais estiveram sob forte perseguição e recriminação advinda de valores que tratam a sexualidade e o prazer como um tabu quase sempre ligado ao pecado e ao proibido. 

O século XX foi palco de consolidação inúmeros movimentos sociais por todo o mundo. Sobretudo após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando os direitos civis passaram a ser discutidos com mais intensidade, categorias e causas historicamente dispersas passaram a se reunir e conquistaram de fato avanços em suas reivindicações. Entre esses grupos também estavam os chamados LGBTs, que passaram a se manifestar e reivindicar direitos por todo o mundo. 

Em episódio histórico, o do mês de junho de 2015 acalorou o debate sobre a homossexualidade no Brasil e no mundo. Em terras tupiniquins, a marca de cosméticos "O Boticário" realizou uma campanha para o dia dos namorados considerando casais hétero e homossexuais, o que obteve retaliação de grupos evangélicos. Pouco tempo depois, durante a Parada Gay de São Paulo, referências ao cristianismo por parte de LGBTs (consideradas desrespeitosas por grupos religiosos) voltaram a intensificar a discussão a respeito. Nos Estados Unidos, após a decisão da Suprema Corte de aprovar o casamento gay no país, pessoas e empresas de todo o mundo comemoraram a decisão nas redes sociais, utilizando as cores do arco-íris (símbolo do movimento gay) em fotos e logomarcas.

Aproveitamos a ocasião para reunir algumas fotos históricas que podem ajudar a entender a cronologia e o contexto surgimento da luta pelos direitos homossexuais no mundo. Confira:
Prisioneiros homossexuais no Campo de Concentração nazista de Sachsenhausen durante a Segunda Guerra Mundial. Os homossexuais eram vistos pelos nazistas como indesejáveis para o seu projeto de sociedade, por conta disso, muitos foram perseguidos e, tal como os judeus e outros grupos, sofreram as duras consequências do Holocausto. Nos campos de concentração, os prisioneiros que estavam ali por conta da homossexualidade eram marcados com triângulos cor-de-rosa (bem como os judeus, que recebiam a Estrela de Davi em seus uniformes. Foto: Brandemburgo, Alemanha, 1938 (Hoffmann Colection / NARA).
Homossexuais entram em confronto com a polícia após um incidente dentro de um bar gay na cidade de Nova York. Policiais entraram no bar Stonewall Inn e obrigaram drag queens e travestis a tirar a roupa, e aqueles que tivessem o órgão sexual masculino seriam levados à delegacia. A ação policial gerou uma revolta conhecida como a Rebelião de Stonewall, que arrastou pelas imediações do bar durante a madrugada inteira. A Rebelião de Stonewall aconteceu em 28 de junho de 1969 e se tornou ícone do movimento gay  (Arquivo New York Daily News).
Um ano após o confronto em Stonewall, homossexuais saíram às ruas de Nova York e outras cidades dos Estados Unidos, para celebrar a união da categoria contra a repressão. 28 de Junho se tornava o Dia do Orgulho Gay. Foto: Nova York, 1970. (Arquivo New York Daily News).
Gays e simpatizantes da causa de todo o mundo também passaram a realizar, sempre no mês de junho, manifestações em defesa dos direitos civis. Foto: Londres, Inglaterra, 1972 (Arquives LSE UK).

O primeiro político abertamente gay eleito nos Estados Unidos foi o democrata Harvey Milk, em 1978 para a junta legislativa da cidade de São Francisco. junta legislativa local. Apenas dez meses depois ele foi assassinado por um político conservador da cidade. Apesar de sua curta passagem pela política, Milk se tornou ícone e inspiração para São Francisco. Sua morte causou comoção nacional e foi tema de diversas manifestações.
Ano após ano, as manifestações passaram a ganhar cada vez mais adeptos. Nos Estados Unidos eram sempre realizadas no último fim de semana de junho. Em 1981 a Parada Gay de Nova York já contabilizava cerca de 50 mil participantes. Foto: Nova York, Estados Unidos, 1981(G. Paul Burnett / AP).

(G. Paul Burnett / AP)
Manifestantes seguram cartaz que diz "AIDS: PRECISAMOS ESTUDÁ-LA, E NÃO ENTRAR EM HISTERIA". O surgimento da AIDS, no início dos anos 80, foi responsável pela morte de milhares de homossexuais. Grupos conservadores diziam que se tratava de um "peste gay", um castigo divino pela desobediência. Aparentemente o efeito sobre a comunidade LGBT foi justamente o contrário, o movimento continuou a se fortalecer. Foto: Nova York, Estados Unidos, 1983 (Mario Suriani/AP).
Centenas de manifestantes homossexuais reunidos em frente à Catedral de São Patrício, em Nova York no 15º aniversário da Rebelião de Stonewall. Um dos cartazes da foto pede o fim da intolerância. Foto: Nova York, Estados Unidos, 1984 (Robert Rosamilio/New York Daily News). 
Mães de homossexuais desfilam em parada gay em Chicago. A partir da década de 1980 as manifestações começam a se organizar e alinhar um discurso mais uniforme. Foto: Chicago, Estados Unidos, 1985 (Arquivo O Globo). 

Fontes:
http://www.britannica.com/topic/gay-rights-movement
http://www.civilrights.org/archives/2009/06/449-stonewall.html
http://oglobo.globo.com/mundo/o-movimento-gay-no-mundo-em-fotos-5329645
http://www.nydailynews.com/new-york/gay-pride-movement-new-york-city-gallery-1.1100781
http://interfaces.leaosampaio.edu.br/index.php/revista-interfaces/article/view/29/pdf
http://extra.globo.com/noticias/celular-e-tecnologia/redes-sociais-sites-empresas-comemoram-aprovacao-do-casamento-gay-nos-eua-16567435.html
http://igay.ig.com.br/2014-06-28/stonewall--o-bar-que-mudou-a-historia-do-movimento-lgbt.html
http://www.aids.gov.br/noticia/os-primeiros-casos-de-aids-no-brasil-surgiram-em-1980-ninguem-sabia-direito-que-doenca-era-a
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/historia/32627/hoje+na+historia+1978+-+ativista+pelos+direitos+lgbt+harvey+milk+e+assassinado+em+san+francisco.shtml

Bruno Henrique Brito Lopes 
Graduando em História pela Universidade Católica de Pernambuco. 
vi no: http://www.historiailustrada.com.br/2015/06/fotos-historicas-movimento-gay.html

A Grécia põe na mesa a carta da democracia


Manifestação na Grécia
Em frente ao parlamento grego, milhares de pessoas protestam nesta segunda-feira 29 pedindo um voto "não" para o pacote oferecido pelos credores


Chantageado pelos credores, governo convoca plebiscito sobre “ajuste” imposto ao país. Oligarquia financeira vacila. O que a atitude representa, em termos globais

“A revolução não será televisionada”, lembra um documentário de enorme repercussão na década passada. Em certas ocasiões, os grandes impasses históricos desenvolvem-se diante dos nossos olhos – e o velho jornalismo tornou-se incapaz de narrá-los.
Um deles começou a se desenrolar na manhã de sábado 27 e vai se estender até 5 de julho. Tem como protagonista o primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, eleito no início do ano por um partido-movimento organizado em rede e partidário de uma nova ordem internacional. Pressionado pelos credores do país, que querem impor redução de direitos sociais para rolar uma dívida financeira, Tsipras convocou, em pronunciamento pela tevê, um plebiscito sobre a proposta. Considerou que ela equivale a um “ultimato”, uma “tentativa de humilhar o povo grego”. Disse esperar dos eleitores “um grande não”. Lembrou que passava a palavra a eles por considerar a democracia “um valor supremo da sociedade grega”.
A consulta popular, um recurso essencial da política, foi considerada um tapa na cara pelos demais governantes dos países da Zona do Euro – todos implicados em políticas de “austeridade”. “Estou muito desapontado”, afirmou Jeroen Dijsselbloem, o membro do Partido Trabalhista Holandês (supostamente de centro-esquerda) que preside o chamado “Eurogrupo”. Ainda no sábado, reunido em Bruxelas, o órgão respondeu à convocação democrática com uma demonstração de força bruta. A proposta de Atenas, que pedia adiar a decisão sobre a rolagem da dívida por apenas sete dias – até que se conhecesse a opinião popular –, foi rechaçada.
O Banco Central Europeu (BCE) decidiu não manter as linhas de crédito automáticas que normalmente oferece aos bancos de todo o continente. A consequência imediata, todos sabiam, seria o início de uma crise bancária na Grécia – cidadãos correndo aos caixas para retirar seus depósitos, sem poder fazê-lo. Tsipras não se intimidou. Em novo pronunciamento aos gregos, anunciou um feriado bancário de sete dias (até a apuração dos votos do plebiscito). A medida tem conteúdo igualitário. No período, as retiradas de dinheiro ficarão limitadas a 60 euros por dia, seja qual for o volume depositado em cada conta bancária. Estão suspensas, além disso, as transferências de recursos ao exterior.
A ousadia de Tsipras provocou uma reviravolta. O poder econômico dos gregos é ínfimo, diante dos tecnocratas da União Europeia (UE), mas a convocação do plebiscito é um tapa democrático sobre um tabuleiro viciado. Nesta segunda-feira 29, os mercados financeiros europeus abriram em meio a uma incerteza próxima do pânico. As ações estão caindo fortemente, nas bolsas de valores de Londres, Frankfurt, Paris e Amsterdã, as mais importantes do continente. As ações mais desvalorizadas são as dos maiores bancos europeus.
O secretário de Finanças dos EUA, Jacob Lew, achou prudente intervir, e recomendar cautela aos governantes do “Velho Continente” empenhados em pressionar Atenas. Há semanas, ele havia advertido: ninguém sabe se o sistema financeiro internacional, ainda envolto em crise, suportará o impacto de um trauma como o de uma eventual expulsão da Grécia do euro.
Nos próximos sete dias, estará em jogo muito mais que uma disputa entre Atenas e Bruxelas. As sociedades têm o direito de construir coletivamente seu futuro? Ou devem curvar-se ao que Marx chamou, de modo sarcástico, de “as águas gélidas do cálculo econômico”? Num tempo em que a “aristocracia financeira” – nova classe global de super-ricos – parece cada vez mais forte e insensível aos velhos valores civilizatórios, será possível encontrar uma brecha em seu sistema de dominação?
* * *
Ao contrário do que tentam fazer crer as manchetes dos jornais de hoje, o que está em jogo na disputa entre a Grécia e seus credores é muito mais que uma querela econômica e técnica. Do ponto de vista financeiro, a crise grega poderia ser resolvida sem sobressalto algum. Desde 2010, a UE emprestou à Grécia algo como 316 bilhões de dólares. As duas linhas de crédito que precisam ser renovadas nas próximas semanas – 1,8 bilhão de dólares junto ao FMI, mais 7,5 bilhões de euros ao BCE – perfazem apenas 3% deste total. Se as negociações se arrastam há cinco meses é porque está em jogo muito mais que uma ninharia percentual.
Por trás dos números, cada parte tenta validar seus projetos de longo prazo para as sociedades e sua relação com as finanças. Quando evitaram que o Tesouro grego quebrasse, há cinco anos, seus credores, reunidos na chamada troika (BCE, FMI e Comissão Europeia), impuseram, como condição, um ataque rude aos direitos sociais dos gregos, aos serviços públicos e à soberania do país sobre si mesmo. Os acordos entre as duas partes foram estabelecidos em dois documentos, conhecidos como “Memorandos” (1 2). Produziram políticas que elevaram o desemprego a quase 30% (60% entre os jovens), privatizaram em massa – de portos a redes de infraestrutura a parques públicos e sítios arqueológicos –, ampliaram a carga de impostos (tornando-a, ao mesmo tempo, mais injusta) e reduziram, até mesmo em termos nominais, o salário mínimo e as aposentadorias.
O projeto de unidade europeia construído pacientemente a partir do Tratado de Roma (1957), nas décadas de capitalismo keynesiano, implicava difundir o modelo do Estado de Bem-estar Social.
Mas, após a crise de 2008, a Europa reduziu-se ao continente da regressão de direitos e aumento da desigualdade. O dinheiro destinado ao governo grego jamais produziu benefício coletivo algum: retornou integralmente aos bancos privados a quem o país devia. O movimento foi chamado de “austeridade” – um termo enganoso e interesseiro. Oculta o fato de que os lucros e salários dos banqueiros e demais membros da aristocracia financeira recuperaram-se e voltaram aos patamares nababescos de antes da crise – enquanto, nas ruas, multiplicam-se os sem-teto e os que se alimentam da sopa dos pobres.
A emergência do Syriza, o partido-movimento a que pertence Alexis Tsipras, desmontou a trama, ao jogar luz sobre ela. No país europeu mais atingido pelas “novas” políticas, o grupo chegou ao governo em janeiro. Embora ligados ao pensamento anti e pós-capitalista, seus membros apresentaram um programa moderado e realista, que se apoia em quatro pilares – todos de natureza social-democrata: a) enfrentar a crise humanitária; b) reativar a economia, com Justiça Fiscal; c) um Plano Nacional de Retomada do Emprego; d) Reforma Política para aprofundar a democracia.
Embora contido, o projeto é claro: os eleitores gregos votaram numa proposta que exige a revisão dos “Memorandos” firmados com a troika.
Para surpresa de muitos, a oligarquia financeira recusou-se ao diálogo efetivo, mesmo diante desta proposta conciliadora. Em fevereiro, poucas semanas depois de assumir o governo, o Syriza enfrentou a primeira bateria de negociações com a troika. O resultado foi uma espécie de empate. Para postergar, por quatro meses, o vencimento de dois empréstimos, os gregos recuaram de medidas como a reversão das privatizações. Pela primeira vez em cinco anos, no entanto, a resistência de Atenas impediu que o governo fosse obrigado a anunciar novos cortes de direitos. Este fato provocou um primeiro desconforto, num cenário político europeu marcado pelo conservadorismo. Governos como os da Espanha, Portugal e Irlanda constrangeram-se diante de um desfecho que mostrou, para seus próprios eleitores, que poderia valer a pena resistir.
Em junho, quando este acordo provisório expirou e as negociações foram retomadas, a troika voltou com sangue nos olhos. Inspirando-se em medida semelhante oferecida à Alemanha, em 1953, Atenas reivindica uma redução na dívida, para que seja possível melhoras as condições de vida da população e relançar a economia. Os credores não se limitam a repelir a proposta. Exigem que o Syriza traia seu programa e se desmoralize. Não abrem mão de duas medidas emblemáticas, pela enorme repercussão política que teriam junto aos gregos: nova redução no valor nominal das aposentadorias (a terceira, em cinco anos) e aumento dos impostos indiretos – os mais injustos e os que são sentidos mais imediatamente pela população.
Desde meados de junho, o Eurogrupo viu-se imerso numa bateria frenética de negociações. Além das reuniões entre chefes de Estado, os ministros de Finanças foram convocados a Bruxelas cinco vezes, nos últimos dez dias. Atenas chegou a lançar propostas aparentemente conciliadoras, para tensionar o discurso dos credores. Sugeriu, por exemplo, que o “ajuste fiscal” reivindicado pela troika poderia ser feito tributando os mais ricos. Não houve o menor sinal de recuo. No sábado, quando todas as possibilidades de negociação se esgotaram, Tsipras colocou na mesa a carta do plebiscito – aprovado pelo Parlamento em sessão de emergência, um dia depois. Agora, as propostas da troika terão de ser feitas a todo o povo grego, que se pronunciará no próximo domingo. Mas quais as condições concretas para continuar resistindo?
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Na era da ultra-mercantilização, nada mais eficaz, para submeter um Estado ou sociedade rebelada, que o fantasma de uma crise bancária. Em 11 de fevereiro, apenas quinze dias após a posse de Alexis Tsipras em Atenas, o Banco Central Europeu agiu conscientemente para evocar uma destas crises na Grécia. Numa decisão casuística, ele decidiu excluir o país do mecanismo de assistência automática que oferece aos bancos da Zona do Euro, quando enfrentam dificuldades momentâneas de liquidez. Desde então, o auxílio aos bancos gregos precisa ser autorizado, caso a caso, pelos dirigentes do próprio BCE. Quem reconheceu o viés político da decisão foi a revista Economist, insuspeita de qualquer simpatia pelo Syriza: “foi um tiro de advertência disparado contra o novo governo”, admitiu ela.
Inserida na Zona do Euro, a Grécia abriu mão do poder de emitir moeda. E, sociedade dividida em classes, passou a sofrer, também desde a chegada do Syriza ao poder, a pressão das elites, interessadas em fazer todo o possível a mudanças no status-quo. A partir de janeiro, os bancos vivem um processo de retiradas predatórias – e cada vez mais maciças – de dinheiro, feitas pelos mais ricos. Já em fevereiro, o montante total dos depósitos havia caído para 140,5 bilhões de euros, o mais baixo em dez anos, desde a criação da moeda única europeia.
O movimento intensificou-se desde então e se converteu em bola de neve à medida em que os credores endureceram as condições para um acordo. Os saques subiram a 300 milhões de euros diários na semana entre 13 e 20 de junho. No último fim de semana, antes de o governo estabelecer um limite diário equânime para as retiradas, havia longas filas diante dos caixas eletrônicos. Temeu-se pelo pior: além de não haver mais dinheiro nos bancos, surgiu o risco de faltarem recursos para pagar, na virada do mês, os aposentados e pensionistas…
O New York Times não deixou de captar as possíveis consequências políticas. Na Argentina, uma crise bancária que eclodiu em janeiro de 2001 derrubou três presidentes em cinco dias. Houve quem especulasse: a União Europeia estará tramando uma mudança de regime em Atenas?
É possível, porém, que estas especulações não levem em conta outro aspecto, de sentido contrário. Caso a ruptura se consume, e impeça Atenas de saldar também seus compromissos internacionais, qual será o impacto sobre os mercados financeiros internacionais? O pensamento convencional prevê repercussão limitada. O PIB anual da Grécia, de 242 bilhões de euros, equivale a apenas 1,34% do europeu. Os grandes bancos do Velho Continente já teriam “precificado” o risco de uma retirada grega da Zona do Euro (a “Greek Exit”, ou “Grexit”) – ou seja, teriam feito provisões para absorver os eventuais prejuízos.
Mas talvez valha a pena ouvir duas opiniões ilustres e divergentes. No final de maio, o secretário de Tesouro dos EUA, Jacob Lew, advertiu seus colegas do G7 sobre as consequências – a seu ver desconhecidas da possível “Grexit”. “Só sabemos ao certo que estamos aumentando os riscos de um acidente [financeiro] quando deixamos de agir até que chegue o próximo prazo fatal”, disse ele. Um dia depois, Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, foi além. “Mesmo no curto prazo, as salvaguardas financeiras de uma saída grega nunca foram testadas e poderiam perfeitamente falhar.
Além disso, a Grécia, goste-se ou não, é parte da União Europeia e seus problemas iriam se esparramar pelos demais países do grupo, mesmo se a barreira financeira aguentar”, escreveu ele – que enxerga nos governantes europeus atuais a mesma tendência à alienação e cegueira política que levou à I Guerra Mundial.
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Indiferentes até domingo à crise grega, os velhos jornais brasileiros abrem hoje suas manchetes para ela. A descoberta do assunto é bem-vinda, mas em todos os textos sobressai uma distorção. A crise é tratada apenas em seu lado dramático. Destacam-se os limites aos saques nos bancos, as filas quilométricas, os temores dos aposentados. É como se estivéssemos diante de uma fatalidade trágica: os gregos desobedeceram os deuses, os mercados – agora, assistiremos ao castigo.
Nesta cobertura invertida, o que não se menciona, ou se subestima, é precisamente o fato novo, a notícia. Tsipras e o Syriza convocaram um plebiscito. A sociedade será ouvida, em vez de convidada a submeter-se (como no Brasil do “ajuste fiscal”) a políticas apresentadas como tão inevitáveis como os terremotos ou as grandes secas ou os terremotos. Abriu-se, subitamente, uma brecha na ditadura financeira.
Saberemos aproveitá-la? Os próximos sete dias serão decisivos. O gesto de Tsipras agrega uma nova incógnita à equação, num mundo marcado por imensos riscos e oportunidades. E se as populações da Espanha, Portugal ou Irlanda – para não falar dos outros países europeus – exigirem também ser consultadas, sobre os programas impostos a seus países? E se o recém-fundado Banco dos BRICS oferecer a Atenas – amparando-se na imensa fartura das reservas monetárias chinesas – os recursos de que precisa para se livrar da crise? E se, no Brasil, alguém propuser um referendo sobre o “ajuste fiscal” também concebido para permitir elevação dos juros e enriquecimento ainda maior da aristocracia financeira?
Os dados estão lançados e o resultado final já não depende apenas do interesse dos mercados – mas das atitudes e posturas que tomaremos, coletiva e individualmente. Costumava-se dar a isso o nome de democracia.
no: http://edoubar.blogspot.com.br/2015/06/a-grecia-poe-na-mesa-carta-da.html