segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

2014, o ano que não vai terminar

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Faltando pouco mais de uma semana para encerrar o ano, tenho impressão que 2014 não vai embora tão cedo.
Os grandes acontecimentos de 2014 se estenderão pelos próximos meses, quiçá anos.
As eleições, por exemplo.
O novo governo ainda não tomou posse, em nenhum sentido.
É como se não tivesse havido eleição.
As pessoas votaram, mas não houve, de fato, uma eleição.
Quer dizer, houve uma eleição, mas é como se ela tivesse acontecido numa galáxia distante, e sua notícia, e seus efeitos, ainda não houvessem chegado aqui.
Ou como se o resultado da eleição, e a eleição em si, permanecessem em segredo.
A mídia não contou a nosso povo que houve uma eleição, nem revelou o seu resultado.
Ela apenas informou quem foi o vencedor, mas o fez como quem revela, maldosamente, a quem lê um romance de mistério, o nome do assassino.
A melhor parte, a história da luta popular contra a mídia, foi soterrada em meio a acusações vulgares contra a campanha da candidata vencedora.
O povo não teve o direito de ouvir os ecos de sua voz.
Os intérpretes contratados pela mídia, entre eles o ex-presidente FHC, menosprezaram o voto de milhões de brasileiros, dizendo que pertenciam a regiões menos “dinâmicas”, e que eram votos de pessoas “desinformadas”.
O preconceito de FHC, a sua tara antidemocrática, o seu cacoete ancien regime, cegou-lhe a tal ponto as faculdades mentais que ele viu trevas onde havia luz.
A principal beleza do sufrágio universal, a sua mais nobre virtude, não seria justamente esse milagre?
O milagre de ouvir o povo em sua plenitude, desde o mais simples morador de uma vila rural, até o mais cosmopolita de uma grande cidade?
Desde o cidadão da região mais rica e “dinâmica” ao brasileiro do rincão mais “desinformado”.
Quem poderá julgar qual é o melhor?
Quem poderá julgar quem é mais sensato, mais inteligente, mais ético, mais comprometido com o futuro do país?
Nenhuma pesquisa de intenção de voto jamais superará a qualidade do sufrágio universal, a única instância capaz de ouvir, individualmente, mais de cem milhões de eleitores!
O sufrágio universal é o único momento, numa nação democrática, em que a voz do povo é ouvida.
Essa é razão pela qual as asserções de FHC, diminuindo o valor do voto de setores sociais inteiros, de imensas regiões geográficas, constitui uma infâmia.
Essa é razão pela qual as marchas pró-impeachment, realizadas semanas após as eleições, representam uma violência política.
Essa é a razão pela qual a tentativa, insana, de Aécio Neves de violar o desejo do povo, o desejo de reconduzir Dilma a um novo mandato, corresponde a uma traição à democracia.
Um dos meus livros de cabeceira, que leio e releio infinitamente, a História da Revolução Francesa, de Jules Michelet, descreve, no primeiro capítulo, o primeiro grande passo das democracias modernas.
Ao final do século XVIII, os EUA ainda eram um país com pouco mais de cem mil habitantes.
A França tinha quase 30 milhões.
Qual foi este primeiro grande passo?
As eleições dos Estados Gerais, em 1789.
Para surpresa da corte, da igreja, do rei, e da própria alta burguesia, esta última no papel de vanguarda política, o povo atendeu em massa ao chamado pelo sufrágio.
Cinco milhões de pessoas acorreram aos locais de votação, para escolher os eleitores, que por sua vez elegeriam os representantes do Terceiro Estado na Assembleia Nacional.
A maneira magistral como Michelet descreve a cena fez de seu livro também um clássico de literatura.
“Grande cena, estranha, impressionante! de ver todo um povo que de uma só vez passava do nada ao ser, de um povo que, até ali silencioso, adquiria, de um só golpe, uma voz!”
No Brasil, os programas de TV nos fazem pensar, por vezes, que ouvimos cotidianamente a voz do povo.
No entanto, não ouvimos!
O único momento em que o povo efetivamente se faz ouvir é quando o Tribunal Superior Eleitoral divulga o resultado do sufrágio.
As eleições de outubro de 2014 foram as maiores que já experimentamos em nossa história.
112 milhões de eleitores!
E isso num processo eleitoral considerado por todas as instituições internacionais como um dos mais limpos, seguros e modernos do mundo!
Há poucos séculos, quem falava em sufrágio universal era considerado subversivo, radical, e agora aqui estamos.
Vejam como são as coisas.
O primeiro grande acontecimento da democracia moderna, tão festejado pelo gênio de Michelet, foi o fato de 4 a 5 milhões de franceses acorrerem às urnas, no início de 1789.
Era a alvorada de um novo tempo.
O início do fim de séculos e séculos de trevas, opressão, ignorância e truculência político.
Séculos não! Milênios. As democracias da antiguidade não duraram muito e se restringiam a um número reduzido de eleitores.
O que veríamos, a partir dali, seria verdadeiramente algo novo.
Alguns séculos depois, no Brasil de 2014, o candidato derrotado menospreza a vantagem de quase 4 milhões de votos, obtida pela presidenta Dilma.
Para ser exato, uma vantagem de 3,5 milhões de votos.
3,5 milhões de votos!
3,5 milhões de votos corresponde a 1,7% da população oficial do Brasil, estimada em 203 milhões pelo IBGE.
Em 2012, as últimas eleições presidenciais americanas, um país com uma população estimada oficialmente em 320 milhões, terminaram com uma diferença, para o vencedor (Obama), de 5 milhões de votos, ou 1,5% da população.
Em 2000, George Bush obteve 50,4 milhões de votos, contra 50,9 milhões de Al Gore. Ganhou por causa dos votos dos colégios eleitorais.
Para se ter uma ideia, a primeira eleição “moderna” realizada nos EUA, em 1824, quando se permitiu que o voto popular direto também decidisse a eleição presidencial, e não apenas os votos indiretos dos colégios eleitorais, o vencedor Andrew Jackson venceu seu adversário, John Quincy Adams, por pouco mais de 40 mil votos. E foi considerada uma grande vitória!
Dois séculos depois, Aécio Neves, derrotado nas eleições de 2014, diz que a vitória de Dilma, com vantagem de 3,5 milhões de votos, foi pífia!
Em 1994, quando o PSDB obteve a sua mais espetacular vitória numa eleição presidencial, FHC obteve 34,3 milhões de votos, o que correspondia a 23% da população brasileira, então estimada em 147 milhões de pessoas.
Vinte anos depois, em 2014, Dilma obteria 54,5 milhões de votos, representando 27% da população, estimada hoje em 203 milhões de brasileiros.
Os 65 milhões de votos em Obama de 2012 corresponderam a 20,4% da população dos EUA.
A vitória de Dilma, portanto, é democraticamente mais representativa do que a de FHC em 1994 e a de Obama em 2012.
Diante desses números, que espécie de imbecil chamaria a sua vitória de “pífia”?
Enquanto a vitória de Dilma não se consolidar profundamente na consciência de uma população de 203 milhões, o ano de 2014 não terá terminado.
A mesma coisa vale para o triste aniversário de 50 anos do golpe de 1964.
A data não foi, nem de longe, devidamente lembrada este ano.
Se tivesse sido, não o terminaríamos com marchas, atreladas ao candidato derrotado Aécio Neves, pedindo uma nova intervenção militar no país.
A nossa mídia, cúmplice do golpe, fez um teatrinho jornalístico durante a semana de aniversário da queda do regime democrático, mas não teve a competência, em seu conjunto, de produzir uma visão de conjuntura sobre o que aconteceu.
Não teve a competência e não teve vontade para descrever o golpe como uma trágica agressão ao povo brasileiro.
Muita ênfase foi dada a algumas centenas de torturados e assassinatos políticos.
Quase nada foi dito sobre os milhões de brasileiros que sofreram com um regime no qual os salários eram arrochados sem que o trabalhador tivesse direito de protestar.
Quem poderá calcular, objetivamente, quantos milhões de brasileiros morreram em função dos arbítrios políticos e econômicos da ditadura?
Muitos enchem a boca para falar dos milhões de mortos pelos regimes comunistas, sobretudo o chinês e o russo, países com população enorme. Não lhes tiro totalmente a razão. O comunismo cometeu erros trágicos, e pagará por eles durante muito tempo. Mas porque se isenta a ditadura do mesmo tipo de responsabilidade? Por que não é também culpada pela morte de milhões de brasileiros, por fome e doenças, ao longo de 21 anos, e que talvez não tivessem morrido se algumas reformas básicas houvessem sido implementadas no país?
A ausência deste debate, no aniversário de 50 anos de golpe, significa que o ano de 2014 só vai terminar quando ele for realizado em sua plenitude, diante das massas.
E ele jamais será realizado enquanto a nossa mídia for controlada pelas mesmas empresas que se beneficiaram da ditadura.
O terceiro e último evento do ano, que estenderá 2014 ao longo dos próximos meses, quiçá anos, é a Operação Lava Jato.
O que ela significa, realmente?
Quais serão suas consequências?
Estamos diante, novamente, de dois fatores de igual importância.
Em primeiro lugar, um escândalo real de corrupção, de grandes proporções.
Esse é o lado positivo, porque a corrupção só pode ser combatida quando é descoberta. E a corrupção, sobretudo quando envolve medalhões da política, só é descoberta quando há uma atmosfera de liberdade democrática e quando o governo confere autonomia aos órgãos que investigam.
Essa liberdade democrática, num país politicamente ainda atrasado, só existe quando há uma delicada conjuntura, a qual poderia ser quebrada se tivéssemos, por exemplo, uma mídia ocupando o Executivo, como seria, caso o PSDB tivesse vencido das eleições.
Em segundo lugar, temos mais um exemplo nefasto de manipulação da mídia, cujos tentáculos se estendem em todas as direções. Esse é o lado fortemente negativo, porque a mídia pega um escândalo real, que está sendo investigado, e o transforma numa arma política.
A politização da mídia, e o uso político de escândalos de corrupção, acontecem em toda democracia. É algo trivial, talvez necessário.
O problema, no Brasil, é a concentração da mídia, que sufoca o debate plural sobre os significados e consequências desses escândalos políticos.
O problema da mídia brasileira não é ser de oposição. Isso é até saudável.
O problema é a concentração, o que é uma realidade que agride gravemente o processo democrático.
Ainda assim, eu me agarro a uma visão hegeliana e procuro ver inclusive no aspecto negativo da Lava Jato, nesta descarada e golpista manipulação midiática, um efeito dialético positivo.
É uma forma de pensar algo desesperada, sem deixar de ser lúcida e objetiva.
A consciência do papel da comunicação na luta política atingiu um estágio que todo o golpismo da mídia serve para ampliar ainda mais essa consciência.
E quanto mais nervosa, autoritária e desesperada se torna a mídia, mais urgente, democrática e saudavelmente desesperada se torna a nossa consciência sobre o problema da comunicação política.
Ou seja, quanto mais a mídia bate no joão bobo, mais o joão bobo fica esperto.
É um processo irreversível.
Enquanto os zumbis da mídia mergulham numa espécie de loucura pró-golpista, fazendo marchas pró-intervenção militar e aderindo a um comportamento positivamente idiota e binário em relação à corrupção, os setores progressistas se tornam mais angustiadamente conscientes de que a corrupção só poderá ser combatida através de um processo de radicalização democrática.
Então, mesmo que a Lava Jato seja instrumentalizada para se tornar não uma operação que visa, honestamente, combater a corrupção na Petrobrás, mas sim um cavalo de tróia para reposicionar setores políticos derrotados nas urnas, mesmo que isso aconteça, também servirá para expandir a nossa consciência.
Este é o nosso grande trunfo: a nossa consciência.
Isso é que assusta os reacionários de todos os tempos, desde os esnobes aristocratas dos tempos da revolução francesa até os melancólicos pós-golpistas da atual mídia brasileira.
A gente sabe que há corrupção no governo, no congresso, nas estatais, que o PT é um partido cheio de problemas, que a Dilma tem inúmeros defeitos.
A gente sabe de tudo isso.
Mesmo assim, não votaremos jamais em quem não identificamos um compromisso profundo com a democracia e com o bem estar da maioria da população.
Eles não conseguem mais nos enganar.
A luta contra a corrupção é uma luta popular, não da mídia, porque a mídia sempre se beneficiou da corrupção.
A mídia brasileira foi construída com dinheiro público desviado, sonegação e ditadura.
Queremos combater a corrupção nos marcos do respeito à democracia, e sob a égide de um governo sensível às necessidades do povo, porque entendemos que somente um governo assim pode, efetivamente, fundar uma nova moral pública, baseada na honestidade.
Não adianta, senhores barões da mídia.
O ano de 2014 vai terminar um dia, e a derrota da mídia, a meu ver, é inevitável.
Perderá no voto, perderá na interpretação de seu papel em 64, e perderá, de uma forma ou de outra, a batalha pela narrativa da corrupção.
Como dizia Zé Keti, numa canção que acabou por se tornar uma belíssima metáfora da luta democrática contra a ditadura, e que agora novamente se torna uma triste ironia contra a truculência da mídia e da oposição conservadora:
“Podem me prender, podem me bater, que eu não mudo de opinião.”
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Globo quer transformar Lava Jato em golpe contra o PT



Agora não há margem de dúvida.

A Globo resolveu centrar todo o seu poder de fogo contra o PT.

As “delações premiadas” tem sido inteiramente manipuladas com este objetivo.

Observe o quadro acima.

A informação sobre os 3% do PT, informadas por Paulo Roberto Costa, é baseada em “rádio corredor”, segundo seu próprio depoimento. Acusação muito mais direta de Costa menciona senadores tucanos, como Sergio Guerra, de receber R$ 10 milhões, Aécio Neves, de receber para fazer circo na CPI da Petrobrás, e Eduardo Campos, de receber R$ 20 milhões. Os 3% para o PT, no depoimento de Costa, foram ditos na base do “ouvi falar”.

Não interessa, a Globo só fala em PT.

Alberto Youssef é defendido por um advogado que tinha sinecura de luxo no governo tucano do Paraná e tem feito dobradinha descarada com a Globo.

Um dos testas de ferro de Youssef, por exemplo, o senhor Leonardo Meirelles, declarou que o doleiro tinha negócios com o PSDB e que Youssef tinha, como padrinho, um senador do Paraná (praticamente nomeando Álvaro Dias). Há um vídeode seu depoimento. A mídia imediatamente tentou abafá-lo e neutralizá-lo.

As ligações de Youssef com o tucanato são antigas. Ele operou para quase todos os tucanos graúdos. Participou dos esquemas da privataria tucana e dos caixa 2 do partido em todas as suas eleições presidenciais. Há inúmeras matérias e documentos sobre isso. A mídia esconde tudo.

É um caso até parecido com o de Marcos Valério. Operam para tucanos durante anos, e são presos por operar para o PT. O PSDB usa e joga fora.

Os outros dois delatores “homologados” também têm longa relação com o tucanato. Augusto Mendonça é primo de Marcos Mendonça, tucano de alta plumagem, atual presidente da Fundação Anchieta, que controla a TV Cultura.  Augusto é envolvido até o pescoço no trensalão e tem interesse em detonar o PT.

É o mesmo caso do outro delator da Toyo Setal, porque o envolvimento com o trensalão é da empresa.

Abaixo, outros delatores, ainda não “homologados”:

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Pedro Barusco já confessou que participa de esquemas na Petrobrás há pelo menos 18 anos, ou seja, bem antes da chegada do PT ao poder.

Estão criando toda uma trama para envolver o PT, repetindo a estratégia bem sucedida da Ação Penal 470.

Não estou dizendo que o PT seja santo ou não tenha culpa no cartório. Estou dizendo que eles manipulam a informação, exageram os fatos, tiram outros partidos do foco, e, com isso, não fazem justiça, mas justiçamento partidário.

O procurador-geral começou a sofrer pressão da mídia e já piou. A sua declaração, agressiva, de que a diretoria da Petrobrás deveria ser substituída, equivaleu a um bater de continência para o quarto poder.

A mídia, que o vinha atacando, imediatamente passou a blindá-lo.

E agora ficamos sabendo que os julgamentos da Lava Jato serão feitos não pelo plenário do STF, mas pela Segunda Turma do tribunal. E quem terá cadeira cativa?

Ele mesmo, Gilmar Mendes.

A Segunda Turma será formada por Teori Zavaski, Carmen Lucia, Gilmar Mendes, Celso de Mello, mais o novato a ser nomeado por Dilma.

Cabe a Dilma agir rápido e nomear um ministro vacinado contra pressões, para que faça um julgamento limpo, imune às eternas tentativas de golpe branco patrocinadas por nossa direita midiática e golpista.

Cabe ao PT, sobretudo, fazer um enfrentamento político à altura, porque a mídia já deixou bem claro que partiu para a guerra total.

E a principal vítima nunca é o PT e sim a democracia e o interesse soberano do povo brasileiro.

Miguel do Rosário
No Tijolaço, viahttp://www.contextolivre.com.br/2014/12/globo-quer-transformar-lava-jato-em.html 

O interesse geopolítico contra Petrobras

Darío Pignotti, Carta Maior

“Há vários interesses geopolíticos interferindo na crise da Petrobras”, afirma Luiz Gonzaga Belluzzo, ao lembrar que as petroleiras norte-americanas ficaram de fora da exploração de uma enorme reserva da área do pré-sal onde estão presentes companhias chinesas, associadas à estatal brasileira.

O professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e eventual assessor da presidenta Dilma Rousseff analisa o escândalo em torno da operação Lava Jato a partir de um ângulo geopolítico e econômico, evitando o alarmismo da velha imprensa, que parece interessada em “modificar o regime da partilha e voltar ao de concessão”, segundo afirmou em entrevista à Carta Maior. 

Mar de fundo

“Claro que tudo isto que acontece na Petrobras tem importância geopolítica. Acredito que os Estados Unidos não se conformem em terem ficado de fora da exploração do campo de Libra, no leilão do ano passado, vencido por um consórcio de petroleiras chinesas, e todo o mundo sabe que a China quer disputar novos leilões na área do pré-sal, fortalecendo sua presença”.

“A crise da Petrobras tem que ser compreendida em meio a um quadro maior, que é o problema global do petróleo, envolvendo a Rússia e as pressões feitas recentemente contra a Rússia, tentando encurralar o governo de Putin. Me parece difícil que as potências ocidentais consigam fazer a alma russa ceder”.

Dilma

“É absurdo vincular de algum modo a presidenta Dilma com a corrupção. É inaceitável que setores da oposição, setores da sociedade brasileira digam essas coisas que na verdade são conseqüência de não aceitarem que foram derrotados nas eleições. Isso é desconhecer o voto popular, isso é golpismo”.

Petróleo, Rússia e Brics

“Eu não sei se este escândalo é em represália pela participação brasileira nos Brics, o que sei é que a posição do Brasil nos Brics é algo que os Estados Unidos e a Europa olham atentamente. Quando alguém fala com funcionários internacionais, contam as pressões que o Brasil sofreu relacionadas ao banco de fomento e ao acordo do fundo de contingências dos Brics, que é uma espécie de novo FMI (acordos assinados neste ano na cúpula dos Brics de Fortaleza).

Se este fundo já estivesse em funcionamento hoje, talvez pudessem mitigar as pressões cambiais que a Rússia sofre e que estão afetando o Brasil também. As pressões de certos grupos são fortíssimas para que o Brasil se separe dos Brics e também do Mercosul, que estará reunido nesses dias na Argentina. E querem empurrar o Brasil para fazer um acordo com a União Europeia, que eu chamo de ‘volume morto da economia mundial’. Eu não digo que é preciso se separar dos Estados Unidos e da União Europeia”.

Petrobras e empreiteiras

“O peso da Petrobras e das empreiteiras na formação de capital fixo é fundamental no Brasil, então o que eu tenho manifestado é o temor de uma paralisia maior na economia. Existe o risco de que seja introduzido um fator depressivo em uma economia que se está comprometendo o corte de gastos e a austeridade com o novo governo.

É preciso saber discernir entre os eventuais crimes que tenham ocorrido e permitir que as empresas empreiteiras continuem operando porque não é possível substituí-las. Elas têm uma memória técnica muito importante, participaram em todas as grandes obras de infraestrutura desde o regime militar”.

“É preciso evitar um problema sistêmico, se a Petrobras continuar neste impasse, isto vai prejudicar as empresas provedoras da Petrobras, que já estão estranguladas e não estão cobrando”.

Hipocrisia

“Há muita hipocrisia no modo como a mídia trata a crise no Brasil. Fala-se com muito alarmismo da Petrobras e não se diz como agiram os norte-americanos diante da crise do subprime, foi um problema muito maior que o da Petrobras. Alguns bancos receberam multas pesadas, alguns executivos foram sancionados penalmente, foram menos do que aqui, mas ao final, os americanos preservaram as estruturas.

O Congresso introduziu mudanças nas leis financeiras para proteger os bancos e os depósitos. Foi um projeto redigido pelo Citigroup. E, frente a tudo isto, ninguém se escandaliza e ninguém fala de corrupção”.

Abutres

“Quando a justiça dos Estados Unidos intervém na crise da Petrobras diante das demandas dos advogados que patrocinam os acionistas, estamos vendo um procedimento estranho, parecido com o que aconteceu com os fundos abutres e a Argentina.

Claro que há acionistas da Petrobras na Bolsa de Nova York, os ADR são emitidos em Nova York, mas acredito que tudo isto seja um pretexto para poder levar o caso à justiça norte-americana”.

Capitalização estatal

“O governo teria que capitalizar a empresa, que está muito desvalorizada, seu valor de mercado está muito longe de seu valor patrimonial. O preço das ações da Petrobras está diminuindo aceleradamente porque as bolsas se movem seguindo as expectativas de curto prazo, e eu acredito que se enxergassem em longo prazo, o prelo das ações não teria uma queda tão significativa”.

Polícia

“As estruturas encarregadas de “vigiar e punir”, como dizia Foucault, como é a polícia federal, agem sem cuidar das estruturas empresariais fundamentais.

Isso é inevitável no Brasil. Aqui, a Polícia Federal e as polícias estaduais estiveram sempre sintonizadas com certos grupos políticos, com a imprensa e com setores do Poder Judiciário. É assim que o sistema funciona, e os membros da polícia atuam individualmente seguindo esta lógica. Não é pela maldade ou pela vontade deste ou daquele delegado, é o mecanismo existente que faz com que a investigação seja feita sem que se leve em conta as consequências que isso terá para o conjunto da sociedade”.

Globo

“O que se lê na cobertura do Globo é que eles querem transformar o regime de partilha que está em vigor pelo de concessão que se aplicava antes. Mas não se justifica um regime de concessão porque agora não há riscos para os privados porque as reservas já estão descobertas, seus recursos já estão estimados. E tudo isto é para tirar o controle da exploração da Petrobras e passar para as empresas petroleiras estrangeiras. Acredito que também querem trazer as construtoras estrangeiras, em especial as construtoras norte-americanas.

Esses grupos de imprensa sempre atacaram a Petrobras, desde a sua criação (1953).

Toda a imprensa brasileira, salvo o jornal Última Hora, esteve visceralmente contra a Petrobras e atacou a campanha “O Petróleo é Nosso”.

(As palavras de Belluzzo sobre o lobby da Globo a favor das empreiteiras norte-americanas ficaram em evidência em uma coluna de Carlos Alberto Sardenberg, que propôs a formação de um programa similar ao PROER dos anos 90, para socorrer e depurar as empreiteiras e ao mesmo tempo permitir que estas se associem a empresas estrangeiras).

Maria das Graças Foster

“Acredito que não possamos subestimar o problema da corrupção na Petrobras, que mostra que houve falta de controle de suas autoridades. Essa corrupção enfraquece a empresa. Tenho a melhor impressão de Maria das Graças Foster, acredito que ela não esteja envolvida em nada, mas me parece que a direção da Petrobras deveria sair para conter a crise. Acredito que ela deveria ser substituída por um empresário ou por um militar.

Vou lembrar algo que parece meio desagradável, mas a verdade é que o Exército sempre teve um compromisso com o petróleo, por isso eu designaria uma militar democrata sério para administrar a Petrobras, isso daria credibilidade.

Há muitos militares democráticos?, perguntou Carta Maior.

“Sim, há. É preciso lembrar que o processo de criação da Petrobras contou com o apoio do exército. O golpe de 64 fez com que esses militares nacionalistas perdessem peso. Não se pode generalizar quando se fala dos militares. Depois do golpe, houve um grupo comprometido com a tortura, mas houve outro grupo que não estava. Por isso acredito que haja militares nacionalistas que agora podem dar uma contribuição com a Petrobras”.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Ricardo Semler: Nunca se roubou tão pouco!

Não sendo petista, e sim tucano, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país


Ricardo Semler
Empresário Grupo Semco
Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos “cochons des dix pour cent”, os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.

Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão –cem vezes mais do que o caso Petrobras– pelos empresários?

Virou moda fugir disso tudo para Miami, mas é justamente a turma de Miami que compra lá com dinheiro sonegado daqui. Que fingimento é esse?

Vejo as pessoas vociferarem contra os nordestinos que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff. Garantir renda para quem sempre foi preterido no desenvolvimento deveria ser motivo de princípio e de orgulho para um bom brasileiro.Tanto faz o partido.

Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.

É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.

Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.

Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.

A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas.

O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras.

É lógico que a defesa desses executivos presos vão entrar novamente com habeas corpus, vários deles serão soltos, mas o susto e o passo à frente está dado. Daqui nãose volta atrás como país.

A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas. O roubo está caindo, mas como a represa da Cantareira, em São Paulo, está a desnudar o volume barrento.

Boa parte sempre foi gasta com os partidos que se alugam por dinheiro vivo, e votos que são comprados no Congresso há décadas. E são os grandes partidos que os brasileiros reconduzem desde sempre.

Cada um de nós tem um dedão na lama. Afinal, quem de nós não aceitou um pagamento sem recibo para médico, deu uma cervejinha para um guarda ou passou escritura de casa por um valor menor?

Deixemos de cinismo. O antídoto contra esse veneno sistêmico é homeopático. Deixemos instalar o processo de cura, que é do país, e não de um partido.

O lodo desse veneno pode ser diluído, sim, com muita determinação e serenidade, e sem arroubos de vergonha ou repugnância cínicas. Não sejamos o volume morto, não permitamos que o barro triunfe novamente. Ninguém precisa ser alertado, cada de nós sabe o que precisa fazer em vez de resmungar.
via: http://www.ocachete.org/2014/12/ricardo-semler-nunca-se-roubou-tao-pouco.html

Dias melhores verão


Pode ser, e suspeito que seja, mero jogo de cena, para cedo cantarem vitória sobre os alegados indícios que, agora, levam a más expectativas para o próximo ano. Não fazem sentido as previsões negativas que repetem para jornalistas o presidente do Banco Central, os futuros ministros da Fazenda e do Planejamento, e seus companheiros nas teses de governo pró-"mercado".

"A inflação no que ano que vem vai ser maior", exemplifica uma frase de Alexandre Tombini. Ou, nas palavras de Joaquim Levy, o que precisa ser feito "será firme e rápido", o que, além de insinuar incomprovada urgência crítica, parece uma elegância ilusória para o mais conhecido "curto e grosso".

Certo é que a direção do governo importa mais, para a maneira como se pinta a situação do país, do que os números arbitrários usados na propaganda contra ou a favor de um ministro, do governo ou de quem preside.

Uma equipe econômica aliada e alinhada prioritariamente com os interesses do capital desfruta de habeas corpus. Mailson da Nóbrega levou a inflação a 84%. Ao mês. Sem ser criticado, só saiu porque o governo Sarney acabou.

Todos os números do governo Fernando Henrique são piores do que os atuais, mas Pedro Malan, como Mailson, como Marcílio Marques Moreira e tantos outros, saiu do governo para o abrigo gratificante de grandes empresários.

Guido Mantega não foi alvo solitário. O grosso da pancadaria dirigiu-se a Dilma Rousseff. E nisso se dá o primeiro efeito da troca de Mantega por Levy: a menos que queira palpitar, Dilma deixa de ser atacada em razão da política econômica, porque fazê-lo atingiria também Levy e seus parceiros.

Para Dilma, é um lucro muito grande. Ela não soube defender o seu governo, nem a si mesma e, muito menos, o atacado gasto governamental, decorrente — como disse no Congresso o secretário do Tesouro, Arno Augustin — "da estratégia de elevar os investimentos e gastos sociais, o que trará ganhos de longo prazo para o Brasil".

Por mim, quando leio um título negativo como "Sete milhões passam fome no país", prefiro saber que, por baixo dele, diz-se que em dez anos caiu de 6,9% para 3,2% o número de famílias com "insegurança alimentar grave".

Ou seja, as moradias onde possa haver fome são, hoje, menos da metade do que eram em 2003. Posta a redução em números humanos: de 15,5 milhões de pessoas para 7,2 milhões. Ou 8,3 milhões de crianças, adultos e velhos resgatados da fome ou do risco de sofrê-la.

O que sobrará para a fazer a continuidade desse avanço de vida? Por ora, as esperanças de mais vida só podem ser postas em generosidades do verão que chega hoje.

Rica promessa

Se respeitadas as proporções, "a maior corrupção da história" nem acabou de ser apurada na Lava Jato, mas seu título já passou da gigante Petrobras para o minúsculo município fluminense de Itaguaí.

Seu prefeito de apenas 32 anos, Luciano Mota, montou um bando que desviou POR MÊS, pelo apurado até agora, entre R$ 10 milhões e R$ 30 milhões da prefeitura, cuja arrecadação mensal média é de R$ 90 milhões. Os desvios incidiram sobretudo nos repasses do governo federal, por participação no pré-sal e para o SUS.

Vou falar baixinho, para o senador Aécio Neves não ouvir: Luciano Mota foi até agora um dos jovens políticos promissores, com outros integrantes da quadrilha, do PSDB.

Vale a pena

Duas convictas sugestões de leitura, que, hoje, também são de presente. "O Estado Empreendedor - desmascarando o mito do setor público versus setor privado" é uma demonstração muito interessante de que os grande avanços científicos e tecnológicos, "da internet à indústria farmacêutica" e ao iPhone de Steve Jobs, provêm de empenho do Estado.

Há casos surpreendentes na trama levantada por Mariana Mazzucato, professora na Universidade de Sussex, no Reino Unido. O livro foi sucesso na Europa e nos Estados Unidos.

"Cartas Extraordinárias" é uma seleção, por diferentes critérios, da "correspondência inesquecível de pessoas notáveis", mas, na verdade, da correspondência esquecida ou nem conhecida de pessoas, elas próprias, extraordinárias. Comecei-o sem sequer curiosidade. E não larguei mais. 

Janio de Freitas
No fAlha, via http://www.contextolivre.com.br/2014/12/dias-melhores-verao.html

CUBA, ADEUS?


Por Itárcio Ferreira, em seu blog

O reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, mediados, entre outros, pelo Papa Francisco, é uma grande vitória do povo cubano que a mais de 50 anos luta pelo fim do criminoso bloqueio econômico imposto à ilha pelo governo imperial dos EUA.

Ademais, o bloqueio não foi suspenso, apenas as relações diplomáticas foram refeitas, nestes primeiros momentos, só com o tempo, e lentamente, poderão vir a ser desmontadas todas as engrenagens jurídico-terroristas das sanções econômicas.

Nada que venha dos EUA, qualquer gesto, por mais simpático que possa parecer, pode ser encarado como um aceno ou movimento em busca da paz e conciliação, - que o digam os povos da Líbia e Síria, que sob o governo do Nobel da paz (sic) viram o seu povo e o seu país serem dizimados - pois, o histórico imperialista e agressivo do país impossibilita tal interpretação.

Uma dúvida que me assaltou, logo que li a notícia na internet, foi por que só agora os EUA buscaram uma aproximação com Cuba? Por que não há dez anos ou daqui a vinte anos?

Os bastidores destes acontecimentos, o jogo de xadrez, só virão a tona aos poucos. Quando sobre eles se debruçaram estudiosos e jogadores em busca de esclarecimentos históricos e interpretações das jogadas.

Com minha limitada visão geopolítica, e carente de maiores informações, vislumbro que o fortalecimento dos BRICS e a aproximação deste grupo com Cuba e com toda a América Central, fez soar o alerta vermelho nos ianques, e foi um, senão o maior, dos motivos que levaram o Tio Sam a rever seu posicionamento, ou seja, oportunismo.

Há algum tempo a Espanha e a Venezuela já haviam desrespeitado o bloqueio imposto pelos EUA. O Brasil e outros países da América Latina também. A China está construindo um canal na Nicarágua que irá aposentar o canal do Panamá. O Brasil o porto de Mariel.

Isolados na América do Sul - apesar do seu grande aliado, a Colômbia, que exerce o mesmo papel que Israel no Oriente Médio, isto é, desestabilizar o continente – que busca diversificar seus parceiros comerciais, bem como se unir em blocos regionais, MERCOSUL, UNASUL, etc., para uma maior independência do gigante faminto do Norte, os EUA, por receio da influência destes atores na América Central decidiram, numa grande jogada em nome da paz, mas da paz à moda estadunidense, buscar não perder mais espaços.

Uma Cuba livre do bloqueio econômico, que é o que se vislumbra futuramente, e socialista, é algo que os EUA de maneira nenhuma vão aceitar, pois é a vitrine de que uma sociedade diferente da sociedade consumista é viável; uma sociedade menos cruel do que a inserida no sistema capitalista é possível.

Os cubanos, influenciados pela publicidade e propaganda capitalista, trocarão as suas grandes conquistas nas áreas de saúde, educação, artes, esportes e internacionalismo pelas bugigangas eletrônicas dos néscios consumistas? A história nos responderá. Sou cético de que possa haver resistência aos ‘encantos’ do poderoso capitalismo e seus grandes rentistas, que tudo podem, a imagem do deus cristão. Espero estar totalmente enganado.

O aceno de Obama a conciliação é uma grande jogada de marketing e oportunismo no intricado jogo geopolítico. Cuba é um país internacionalista. Os EUA um país terrorista. Com certeza a maçã oferecida por Obama está envenenada.
via http://blogdoitarcio.blogspot.com.br/2014/12/cuba-adeus.html

O chorume golpista do Globo


Miguel do Rosário, Tijolaço  

Nas últimas semanas, para não dizer nos últimos anos, o Globo se tornou tão agressivo, tão histérico, que os leitores críticos às opiniões do jornal, e estes formam, para o bem do Brasil, uma legião crescente, mas que precisam acompanhar, por algum motivo, suas rabugices golpistas, tem de espiar seus editoriais de longe, bem de longe, como quem observa um vazamento radioativo.

Eu mesmo mudei meus hábitos. Parei de assinar o jornal impresso e deixo para ler seus textos online em último lugar. Não é saudável, definitivamente, encarar tal chorume pela manhã.

Ninguém se salva do veneno golpista, críticos e apoiadores do governo.

Os críticos do governo, ao lerem o Globo, se tornam neurastênicos e esquizoides. Afinal, como entender que Dilma e PT estejam no comando do país se são tão absolutamente incompetentes e corruptos?

Os apoiadores do governo, ao lerem o jornal pela manhã, tem seu humor imediatamente corrompido e passam o resto do dia em estado de irritação.

Em ambos, nos críticos e apoiadores, a leitura do Globo produz depressão e, em doses excessivas, anseios suicidas.

Neste sábado, mais uma vez, o Globo se supera.

Não vou dar link para não estragar o domingo dos leitores. Tentarei apenas sintetizá-los em algumas frases, poupando os internautas de uma proximidade que pode infectá-los de melancolia mórbida.
O título dos editoriais:


Resumo do primeiro: uma xaropada histérica, tão assumidamente partidária que comete um deslize caricatural. O jornal menciona os partidos cujos políticos foram citados por Paulo Roberto Costa e, como de praxe, julga e dá a sentença.

No entanto, quando menciona o PSDB e PSB, cujos ex-presidentes Sergio Guerra  e Eduardo Campos receberam, segundo a delação, as mais vultosas propinas dentre todas as mencionadas, o que faz o Globo?
Essa é para rir (ou para chorar?).

Trecho: “A lista reproduz a base partidária do governo: 10 do PP, 8 do PT, 8 do PMDB, 1 do PSB e 1 do PSDB. Este, um ponto fora da curva, o tucano Sérgio Guerra, já morto, para quem teriam sido destinados R$ 10 milhões em troca de um trabalho de sabotagem no Senado contra a CPI da Petrobras. Uma história a ser esclarecida. Assim como a de um outro morto, Eduardo Campos (PSB), da base do governo até abrir a dissidência que levaria Marina Silva a disputar as eleições presidenciais.”

Então é assim. Todo mundo é julgado de antemão pelo Globo. Menos Sergio Guerra, tucano, e Eduardo Campos, que se tornou quase tucano ao fazer oposição à Dilma.

O segundo editorial é uma babação de ovo da geopolítica do Tio Sam em relação à Rússia.

Muito bem vindo esse editorial, porque confirma todas as especulações da imprensa internacional (que se pretende imprensa e não lobista dos EUA) em torno das iniciativas americanas e árabes para derrubar Putin e debilitar a Rússia. A Globo continua, pelo jeito, uma serviçal obediente e disciplinada aos objetivos mais sujos do imperialismo.

E digo isso sem ressentimento contra os EUA. Os americanos cuidam de seus interesses, como fazem todos os países. O estranho é a maior empresa de mídia do Brasil se prestar a esse papel.

O terceiro texto é um chorume radioativo de Guilherme Fiúza, cujo título, com uma sutileza digna de um hipopótamo furioso numa loja de cristais, sugere a derrubada de uma presidenta diplomada há 24 horas."

A política e as bactérias


 

"Quando alguém se declara “apolítico”, ou diz que “odeia a política”, nos lembramos de que a palavra política deriva de Politeía, vocábulo relativo a tudo que acontecia nas antigas Polis, cidades-estado gregas, e da velha constatação aristotélica de que “o homem é um animal político”.

Querendo ou não, todo ser humano participa, no convívio, no aprendizado e no debate com outros seres humanos, da atividade política, mesmo quando não exerce nenhum cargo público, se assume “apolítico” e declara o seu “ódio” à política.

A política, como ocorre com Deus, para a maioria das religiões, está em todas as coisas, das maiores às que são aparentemente mais ínfimas.

Um estudo que acaba de ser divulgado pelo governo britânico, alerta que as superbactérias matarão, em poucos anos, mais que o câncer, e que o custo de seu tratamento chegará a 100 trilhões de dólares nas próximas décadas.

Foi a economia no combate à infecção hospitalar e a ausência de fiscalização rigorosa em hospitais públicos e privados, assim como o incentivo, durante anos, do uso indiscriminado e desnecessário de antibióticos em diversos países do mundo, incluído o Brasil, que deu origem à transformação destes organismos.

E é a mesma ausência de fiscalização e controle que está fazendo com que novas gerações de bactérias resistentes mesmo aos mais modernos medicamentos estejam ultrapassando os limites dos hospitais e postos de saúde, ameaçando transformar-se em uma pandemia, atingindo diretamente a população.

A Fiocruz, que já havia detectado, antes, por duas ocasiões, superbactérias no esgoto lançado clandestinamente, no rio Carioca, no Rio de Janeiro, acaba de anunciar que detectou sua presença também na água do mar, nas praias do Flamengo e de Botafogo, com possibilidade de que se multipliquem e acabem chegando ao Leblon, Copacabana e Ipanema.

Que turistas e banhistas deixem de frequentar o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, que as crianças não possam mais se sentar na areia, ali ou no vizinho bairro de Botafogo, que a Cidade Maravilhosa possa transformar-se, de chamariz, em ameaça para milhões de turistas que a visitam, é um absurdo.

A poluição de nossos rios e lagos, com a diminuição da oferta de água potável à população, e agora da orla marítima da segunda cidade do país, é uma questão ambiental, mas, como muitas outras mazelas de nosso país, também uma questão política, e tem que ser enfrentada com determinação e rapidez.

A população carioca deve mobilizar-se e exigir que os responsáveis sejam punidos e que o esgoto hospitalar seja tratado totalmente nos próprios locais em que é produzido.
Não se trata apenas de uma questão de saúde. Se houver uma epidemia, milhares de empregos e empresas estarão em risco, assim como as Olimpíadas de 2016."