terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Reportagem revela uma história escabrosa


A revista CartaCapital desta semana mata a charada do Pinheirinho e cria um desafio do qual os grandes diários de circulação nacional não podem escapar, sob pena de lançarem mais uma pá de terra sobre o jornalismo brasileiro.
CartaCapital fez apenas o óbvio: foi investigar a verdadeira história do terreno, na cidade de São José dos Campos, cuja desocupação, autorizada pela Justiça, produziu cenas de violência contra cerca de 1.500 famílias sem moradia legal.
A conclusão é simples: a omissão das autoridades, a decisão judicial e a operação policial compõem um conjunto no qual o Estado se coloca a serviço do notório especulador Naji Robert Nahas, contra os direitos mais fundamentais de milhares de brasileiros.
Tese da legalidade
Na madrugada de 22 de janeiro, um domingo, ou seja, há menos de um mês, a Polícia Militar irrompeu no terreno ocupado irregularmente e retirou os moradores de suas casas, tangendo-os para fora do perímetro da propriedade. Em seguida, máquinas contratadas pelos administradores da massa falida da indústria de café Selecta, suposta proprietária, arrasaram as casas, destruindo móveis, utensílios domésticos, documentos e recordações daquela gente.
Houve muita controvérsia, movida essencialmente por cidadãos indignados através das redes sociais. Na chamada grande imprensa, um silêncio apenas quebrado aqui e ali por manifestações esporádicas de articulistas. Num desses artigos, publicado numa quarta-feira, 1/2, na Folha de S.Paulo, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) procurou defender o governo paulista batucando na tese da legalidade da ação policial.
Em outra manifestação, publicada em 6/2, a secretária de Justiça Eloisa de Souza Arruda também defendeu a desocupação, em entrevista ao Estado de S.Paulo, dizendo, entre outras coisas, que as autoridades apenas cumpriram a lei e que os ocupantes do Pinheirinho “sabiam que estavam em propriedade alheia” e nunca pagaram os impostos. (No caso, o “alheio” se refere ao suposto proprietário, o especulador Naji Nahas e ou seus credores.) Declarou também que “por trás da massa falida (de Naji Nahas) tem funcionários de empresas que esperam há anos seus débitos trabalhistas”.
A imprensa tendeu a apoiar a tese da legalidade da ação policial, omitiu de seus leitores os abusos cometidos por PMs e seguranças particulares depois da desocupação e esqueceu o assunto.
A serviço de Nahas
Dizíamos, no Observatório da Imprensa, na terça-feira (7/2, ver “Os direitos de uns e de outros”), que “um jornalismo decente iria comparar o caso Pinheirinho com a presteza da Justiça e a sanha policial na reintegração de posse de terrenos públicos, por exemplo. Uma pauta minimamente honesta iria buscar as diferenças de tratamento que a Justiça e a polícia dão, por exemplo, a casos como o de Pinheirinho e os das ricas propriedades de veraneio que ocupam terrenos da Marinha ou invadem trechos da Mata Atlântica em todo o litoral do país”.
Pois bem: CartaCapital acaba de demonstrar que a pressa da Justiça em mandar devolver o terreno à massa falida da Selecta tem muitos aspectos suspeitos. Os repórteres da revista realizaram o trabalho que o resto da imprensa brasileira não soube ou não quis fazer: foram examinar a história do terreno que é reclamado por Nahas e descobriram fortes indícios de que a Justiça foi vítima ou cúmplice de um típico “cambalacho”.
Além das velhas suspeitas de grilagem, diz o texto, sobram provas de que o especulador tentou de muitas formas burlar o pagamento de impostos e nunca usou o terreno para outra coisa além de apresentá-lo como garantia para a obtenção de empréstimos bancários.
Nahas se celebrizou por montar uma pirâmide financeira que levou à bancarrota a extinta Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, em 1989, e voltou ao noticiário policial em 2008, ao ser preso na chamada Operação Satiagraha.
A reportagem faz o histórico do terreno de 1,3 milhão de metros quadrados, conhecido anteriormente como Campo dos Alemães, que abrigava a comunidade do Pinheirinho. Deveria ter se transformado em propriedade do Estado, mas foi parar nas mãos de Naji Nahas em 1981, ainda em contrato precário. CartaCapital demonstra claramente que todos os movimentos de Nahas na Justiça se deram no sentido de impedir a venda do terreno em leilão público.
A retirada dos moradores pobres deve valorizar ainda mais o imóvel, que, segundo demonstra a reportagem, não precisava entrar na conta dos débitos da Selecta para que fossem pagos os direitos trabalhistas apontados como justificativa para a reintegração de posse. De mesma forma, não havia outro motivo para tanta pressa na desocupação do imóvel – a não ser como forma de atender ao desejo de lucro do especulador.
Demonstrado pela revista que o único beneficiário da decisão judicial e da ação da Polícia Militar foi Naji Nahas, aguarda-se algum interesse dos jornais em terminar de contar essa história escabrosa.
Luciano Martins Costa
No Observatório da Imprensa

Bispo Macedo enfrenta 'demônio' da Igreja Mundial, que lhe toma fieis, bispos e grana


A guerra da Record contra a Globo está agora em um segundo plano para o bispo Edir Macedo, fundador e principal nome da Igreja Universal, dona da Rede Record.
Quem mobiliza todas as forças de Macedo no momento é seu principal antagonista, o bispo Valdemiro Santiago de Oliveira, que foi da cúpula da Universal e de lá saiu (ou foi saído) em 1997, depois de 18 anos na igreja.
Líder da Universal, Edir Macedo publicou em seu site um vídeo onde fica escancarada a guerra contra Valdemiro (que Macedo chama de Valdomiro no vídeo), fundador da Igreja Mundial, uma Universal B (como a Record é uma Globo B), mas que já conta com 1400 igrejas, e tem tomado fieis, pastores e bispos da Universal. E junto com esses, dinheiro que eles levam, conseguem, arrecadam.
A Igreja Mundial é aquela que conseguiu parar a Dutra recentemente, quando inaugurou sua sede em Guarulhos, mesmo contra ordem judicial.
A Universal está sentindo o baque nas finanças. A grana que corria solta para novos projetos na Record recebeu um freio de arrumação. O grupo anunciou que vai desativar a Line Records (a Som Livre da Record).
O desespero do bispo Macedo com o crescimento da rival é tanto, que ele não se faz de rogado e "expulsa o demônio" de uma fiel. Esse "demônio" (confira no vídeo) afirma que Valdemiro é seu servo e que só teme a Universal de Macedo, porque ali o demônio não tem vez.
Não tenho o conhecimento que Macedo tem de seu público, mas acho o vídeo primário e a encenação (desculpem-me os que acreditam, mas é o que me parece) primária.
Vamos ver se atinge o alvo.
Por sua vez, a Globo há pouco fez um festival evangélico, não apenas visando o imenso número de fieis, mas o fortalecimento dos adversários de Edir Macedo. (Parêntesis: em fevereiro de 2009 a Igreja Mundial arrendou a Rádio Mundial, das Organizações Globo).
Curioso é o título que Macedo colocou no vídeo: "Aviso aos incautos". Afinal, o aviso tanto pode significar que ele pretende fazer um alerta para defender os incautos como, lapsus linguae, um alerta que só os atingirá...
No Blog do Mello

Tucano escolhido por Alckmin é condenado a devolver 1,54 milhões aos cofres públicos


Amigo do governador Geraldo Alckmin (PSDB/SP), José Bernardo Ortiz (foto) foi nomeado pelo governador para ocupar a Presidente da FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação).
O motivo foi irregularidades na compra de tubos de aço para canalização de córregos, em 2002, sem licitação.
Em fevereiro de 2011, o mesmo Ortiz já havia sofrido outra condenação por improbidade administrativa em outra ação movida pelo Ministério Público (MP). Foi condenado a pagar multa equivalente a quatro vezes o salário que recebia como prefeito, por contratar servidores sem concurso.
Mesmo assim, Alckmin mantém o amigo na Presidência da FDE, um dos órgãos mais importantes da Secretaria da Educação, com orçamento de R$ 3 bilhões.
Entre as atribuições inventadas pela gestão tucana da FDE está assinaturas em massa de jornais e revistas demotucanos como Folha de São Paulo, Estadão, Veja, IstoÉ e Época. Tudo sem licitação. Só em 2011 foram gastos R$ 9.074.936,00.
No Amigos do Presidente Lula

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Nicolelis fala de religião e ciência



A Ascenção - Ilustração de Gustavo Doré

Do Paulolopes
Por Maria da Paz Trefaut 
Dica @Be_neviani

O mais renomado cientista brasileiro da atualidade, Miguel Nicolelis, vive entre Brasil, Estados Unidos e Suíça. Às vezes completa essa triangulação em uma semana e nem sabe em que fuso horário está. Mas isso não o incomoda. Com projetos nos três países, o neurocientista paulista, fanático pelo Palmeiras, tem a ambição de fazer um adolescente brasileiro tetraplégico dar o pontapé inicial na abertura da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Para isso, usará uma veste robótica controlada pela força do pensamento.

Desvendar a possível interação cérebro- máquina é um dos grandes desafios de Nicolelis, referência na pesquisa com próteses neurais, cujo trabalho integra a lista das "Dez Tecnologias que Vão Mudar o Mundo", do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Professor de neuroengenharia da Universidade Duke (EUA), tem projetos educacionais igualmente ambiciosos no Brasil. Um deles é em Macaíba, no Rio Grande do Norte. Ali deverá ser inaugurado, no início de 2012, o "Campus do Cérebro", uma escola em período integral que beneficiará 5 mil crianças, do berçário ao ensino médio. Já o "Educação para Toda a Vida", que começa na barriga da mãe, vai prestar assistência gratuita para 15 mil gestantes na periferia de Natal.

Ele concedeu à Planeta a entrevista que segue.

Se um tetraplégico der um pontapé na bola, na abertura da Copa de 2014, será uma revolução na ciência. O que ela tem de essencial?

É uma nova forma de abordar a questão da reabilitação e uma nova forma de entender o cérebro. Sem uma nova teoria do cérebro a gente não teria conseguido chegar a essa tentativa de fazer uma aplicação clínica. É também uma revolução tecnológica, porque essas aplicações não vão se restringir à medicina. As interfaces cérebro-máquina envolvem interações com nossos computadores e com as ferramentas que usamos diariamente.

Esses tratamentos devem ajudar a romper o estigma das doenças?

Essa é uma das razões pelas quais escrevi este último livro [Muito Além do Nosso Eu, recém-lançado pela Companhia das Letras,]. ara mostrar que o que a gente chama de normal e anormal é separado por uma fronteira muito tênue. É muito rápido um cérebro dito normal evoluir para um dito patológico. Para um de nós ficar esquizofrênico não é preciso muito.

É um processo químico?

Entre outras coisas. No frigir dos ovos, tudo se resume a uma mudança de balanço de neurotransmissor e de atividade elétrica do cérebro. A gente percebe que são pequenas variações que levam você a ouvir vozes, ter delírios. Nos dias de hoje, aliás, a humanidade curiosamente é dominada por três esquizofrênicos que ouviam vozes, olhavam para o céu e achavam que alguém estava falando com eles.

Quem são?

Jesus Cristo, Maomé e Abraão. Muito provavelmente os três precisavam de haldol (medicamento para esquizofrenia). É arbitrária qualquer classificação que defina as bordas da normalidade. Cada vez mais a intolerância e o preconceito esculpem essa borda com seus interesses próprios ideológicos e políticos. Quando você vê o cérebro por dentro e começa a entender o que acontece, percebe como é fácil ir de um lado para outro.

Você falou de três símbolos religiosos. Você é ateu?

Sim, mas acho que a religião faz parte do sistema nervoso. Como o cérebro é um simulador da realidade, ele cria um modelo e uma ilusão de realidade para cada um de nós. Ele precisa de uma história: de onde viemos? Como começou o universo?

Materialista ou religiosa?

Exatamente. Os pigmeus africanos acham que a gente saiu do céu, que havia uma corda e eles foram descendo. Toda cultura tem uma história. O problema é que algumas são excludentes e prejudiciais ao bom convívio da espécie, na medida em que elegem os eleitos e os não eleitos.

A questão dos comandos cerebrais envolve telepatia?

Não, porque a telepatia pressupõe que a energia espontânea do cérebro é capaz de transmitir pensamentos.

Há energia no cérebro?

Ele tem um campo elétrico e magnético, mas muito pequeno. Não tem como um sinal sair do cérebro, passar pelo crânio e ir da minha cabeça para a sua. É impossível! Mas você pode registrar esses sinais, transmiti-los artificialmente - como a gente já faz - e mandá-los para uma máquina ou, em teoria, para outro cérebro. É nisso que estamos trabalhando.

Esse é o objetivo da brainnet?

Estamos trabalhando na ideia original, brain to brain interface. Trata-se de pegar o sinal de um cérebro e mandar para outro e ver se ele entende. Se for possível com um par de cérebros, será possível em qualquer combinação. Claro que tecnologicamente isso tem dificuldades enormes: não basta registrar o sinal, mas entregá-lo para outro cérebro. Em teoria, a ideia é factível.

Como você vê o futuro...

Bem diferente do atual. A gente tem a tendência de ter medo, porque todos os sinais do futuro são dramáticos.

... ... da máquina humanizada...

Isso é uma barbaridade científica. Não há nenhum computador que tenha a chance de reproduzir atributos humanos. Isso é pura balela, propaganda ideológica. É uma visão capitalista, de que você não vale nada e pode ser substituído por um robô. A máquina consegue executar movimentos repetitivos. Não consegue escrever poesia, pintar como Picasso, tomar decisões baseadas na natureza humana. Todas as características que fazem a gente ser como é resultam de processos extremamente complexos no cérebro e são fenômenos não computáveis.

Isso define o limite da tecnologia?

Claro, ela é uma expressão da nossa capacidade criativa. Por isso são tão interessantes esses achados neurofisiológicos recentes, que mostram que todas as ferramentas que criamos são assimiladas pelo cérebro como uma extensão do nosso corpo: mouse, caneta, raquete de tênis, bola, carro, bicicleta. O cérebro cria a ilusão do que o nosso corpo é. E tudo o que a gente experimenta é uma ilusão; é um modelo do mundo.

Tudo é ilusão?

Sim. Se seu cérebro fosse diferente, você ia ver o mundo diferente. A sua história de vida foi diferente da minha; nós dois olhamos uma rosa vermelha e ela evoca memórias peculiares em cada um. Até recentemente a gente achava que a sua experiência e a minha, ao olhar uma coisa assim, era a mesma. Hoje a gente sabe que não é: o cérebro tem uma opinião. Esse ponto de vista foi construído ao longo da sua vida e da minha e ao longo da nossa espécie do ponto de vista evolutivo. Nosso cérebro vai ter um papel cada vez mais relevante na ampliação do nosso alcance como espécie. O nosso corpo vai perder relevância.

Mas vivemos o culto do corpo.


Pois é, até hoje o culto do corpo dominou nossa espécie. Então, quem aproveitou, aproveitou. A partir daqui, quem vai ganhar o embate é a mente. A seleção natural de quem vai sobreviver privilegiará aqueles capazes de usar a mente para agir com uma cornucópia de equipamentos, ferramentas e tecnologias que serão controláveis apenas por pensamentos. Antes, sobrevivia quem caçava bem. Amanhã será a vez de quem conseguir usar a mente para controlar 200 equipamentos ao mesmo tempo.

Diz-se que usamos uma porcentagem ínfima da nossa capacidade.

Mentira. Na verdade, a gente usa tudo o que tem. Se tivesse mais, usava também. A gente perde neurônios a partir dos 18 anos, mas é uma perda muito pequena. Num certo ponto da vida essa perda passa a ser relevante: você vai esquecendo coisas e não tem mais a mesma agilidade mental.

Como você cuida dos neurônios?

Pensando. Desafiando a mente a pensar em coisas a que não estou habituado. É como um exercício físico.

Não cansa?

Demais. Tem dias que o esforço é tanto que eu capoto e acordo no outro. Estou ligado o tempo inteiro. Para mim isso não é trabalho, é prazer.

Vinte anos fora do Brasil modificaram a sua visão?

Ah, o exílio é o maior elixir do patriotismo. Você vê as coisas que não são boas, mas isso não abate as maravilhas que existem aqui. Temos muito potencial, que agora começa a aflorar de forma caótica. Mas temos um grande desafio pela frente. Nossa classe polícortica é muito fraca, muito pobre, dissociada da realidade. É uma classe que só pensa no espólio, em como extrair para si o que for possível. A situação da população melhorou bastante nos últimos anos, mas ainda falta muito para se construir uma cidadania plena. A educação é o único caminho.

Você se considera ousado?

Sim, desde o futebol na rua. Sempre me meti onde não era chamado.

E só encontrou espaço para se desenvolver fora?

Não havia muito espaço para minhas ideias quando deixei o Brasil. Ao pensar em voltar, fui desencorajado.

Por quem?

Pelo chefe do departamento que, claramente, tinha seus protegidos e sabia que minha volta ia causar problemas. Era 1991 e a situação brasileira era muito complicada, com o confisco do governo Collor. Perdi toda a poupança que tinha e nunca mais recuperei. Mas minha grande crítica é que acho que grande parte da ciência brasileira é humilde. As pessoas têm medo de ousar, têm complexo de que não se pode fazer coisa grande, ambiciosa. Têm medo.

Isso prejudica o Brasil?

A ciência brasileira é muito provinciana. A academia de ciências também, e a maneira de financiar é cartorial. Nosso modelo é um dos mais perniciosos para um jovem cientista penetrar. Os sujeitos mais seniores dominam tudo e se você não tem um padrinho não consegue nada, porque é clube fechado. Nos Estados Unidos é o contrário: as possibilidades de financiamento para os jovens são garantidas de forma a assegurar uma renovação contínua de talentos. Aqui, o negócio é manter o status quo.


Este texto foi publicado originalmente na edição 467, agosto de 2011, da Planeta.

Leia também: 
Quebrando neuroparadigmasMonkey brains 'feel' virtual objectsMiguel Nicolelis : Muito além do nosso euThe Walk-Again Project


vi no, Tecedora

Municípios não informam corretamente como gastam dinheiro da educação



Suellen Smosinski
Do UOL, em São Paulo


Nas contas dos municípios – pelo menos no que se refere à educação – o detalhamento dos gastos é colocado de lado e as prestações de contas são mais relatórios que vão cumprir a burocracia que instrumento de gestão e planejamento. 


Essa é uma das conclusões que se pode tirar do estudo Perfil dos Gastos Educacionais nos Municípios Brasileiros, realizado pela Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação).


“Não dá para dizer que uma criança de educação infantil custa R$ 3,75 por ano, como fez uma prefeitura”, afirmou Cleuza Repulho, presidente da Undime. Numa prestação de contas no sistema federal de controle de gastos (o Siope - Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação), um secretário municipal informou esse valor.


Segundo o relatório da Undime, “não há controle prático sobre os gastos que efetivamente são registrados nos balanços contábeis como realizados para manutenção e desenvolvimento da educação”. 


Para se ter uma ideia, os municípios foram responsáveis por 39,1% das verbas investida no setor em 2009, contra 19,7% da União segundo um estudo publicado pelo Ipea no final do ano passado.


Por determinação constitucional, os municípios são obrigados a aplicar pelo menos 25% da arrecadação de impostos e transferências em educação.


Erro


A tentativa (frustrada) de levantar o perfil dos gastos educacionais dos municípios brasileiros fez a Undime perceber que muitas secretarias não informam corretamente os valores ao Siope e, portanto, ao MEC (Ministério da Educação). 


Os formulários deveriam ser preenchidos pelos secretários municipais de educação de cada cidade, mas o estudo concluiu que, muitas vezes, essa atividade é terceirizada para escritórios de contabilidade.


Não haveria problema se os gestores mantivessem controle sobre quanto e como é gasto o orçamento da educação. Com isso, os dados oficiais sobre os investimentos em educação acabam distorcidos. A situação fica mais delicada no contexto da tramitação do PNE (Plano Nacional de Educação) na Câmara dos Deputados, em que uma das principais disputas é justamente o percentual do PIB investido na área.


Diante das inconsistências observadas no sistema federal, a Undime entrou em contato com prefeituras de mil municípios para realizar um estudo próprio, porém, muitas delas não responderam ao questionário ou apresentaram dados imprecisos. A região Norte, por exemplo, ficou de fora da estimativa sobre gastos por aluno com creche e EJA (Educação de Jovens e Adultos) e o Estado do Amapá não teve nenhum questionário respondido. O estudo final contou com apenas 224 municípios, o que representa 22,4% da amostra inicial.


Para a presidente da Undime, “os prefeitos devem ter nos secretários de educação um parceiro que saiba gerir as verbas de acordo com a necessidade do município”.


 Ela também afirma que o problema principal não é gestão e sim a falta de recursos. “Quando a gente consegue concentrar dinheiro e esforços faz toda a diferença para a qualidade da educação”, disse.


Gastos por aluno


Com os dados disponíveis, a Undime concluiu que o Nordeste gasta 4,4 vezes menos que o Sudeste por aluno na creche. 


Já, no ensino fundamental, a primeira região gasta pelo menos duas vezes menos que a segunda. “Nenhuma criança pode ter a sorte ou o azar de nascer em um local onde o gestor seja mais ou menos comprometido com a educação”, afirmou Cleuza sobre as desigualdades apontadas no estudo.


ESTIMATIVA DE VALOR POR ALUNO DAS REDES MUNICIPAIS POR REGIÃO (ANO DE 2009)

Etapa/modalidadeBrasil (R$)Norte (R$)Nordeste (R$)Centro-Oeste (R$)Sudeste (R$)Sul (R$)
Creche5.144,09Não informado1.876,893.092,808.272,435.835,42
Pré-escola2.647,101.710,271.531,562.384,123.757,214.461,54
Educação infantil3.122,361.801,531.605,482.563,074.971,264.688,83
Fundamental - séries iniciais2.815,462.554,901.948,803.048,213.649,113.586,73
Fundamental - séries finais3.134,382.998,452.276,163.000,044.322,813.673,78
Ensino fundamental2.937,652.676,692.034,892.987,513.897,773.582,99
EJA1.881,95Não informado1.075,832.417,912.778,522.369,89
* Fonte: Banco de dados da pesquisa Perfil dos Gastos Educacionais nos Municípios Brasileiros – Ano base: 2009/Undime

Cutucando de leve

SÃO PAULO É O GRANDE FOCO DIREITISTA DO PAÍS

 Segundo o Instituto Verificador de Circulação, O Estado de S. Paulo é o jornal mais vendido na capital paulista, na Grande São Paulo e no conjunto do Estado, enquanto a Folha de S. Paulo só o supera no interior paulista, mas mantém a liderança nacional por circular muito mais nos outros estados.

Faz sentido. O Estadão é o veículo de uma direita ideológica que remonta à aristocracia cafeeira. Conservador por excelência, foi peça importante na conspiração para a derrubada do presidente constitucional João Goulart.

Isto conflitava um pouco com o papel que o jornal desempenhou na ditadura getulista, quando esteve até sob intervenção. Então, depois de, segundo alegou, ter ajudado a salvar o País do perigo comunista, passou a pregar insistentemente a devolução do poder aos civis, uma vez que a intervenção cirúrgica já teria saneado as instituições (ou seja, as cassações de mandatos, a extinção de partidos e entidades, os expurgos e mudanças impostas pela força, as prisões arbitrárias, tudo isso já teria sido suficiente para a burguesia poder voltar a exibir sua face civilizada...).

A resistência dos jornais do Grupo Estado à censura e ao terrorismo de estado merece respeito. Afora o trivial que todos destacam (as poesias de Camões que o Estadão colocava no espaço de trechos ou de notícias inteiras censuradas, bem como as receitas culinárias que tinham a mesma serventia no Jornal da Tarde), houve dois episódios em que seus diretores demonstraram inclusive coragem pessoal:
quando mandaram os seguranças impedirem o DOI-Codi de invadir a redação para prender um jornalista, tendo o Mesquita de plantão afirmado que "ele pode ser comunista lá fora, mas aqui dentro é meu funcionário" (depois, abrigou-o no seu próprio sítio);
quando, depois da morte de Vladimir Herzog, decidiram acompanhar os jornalistas da casa arrolados no mesmo inquérito, sempre que chamados a depor no DOI-Codi, a fim de garantirem pessoalmente sua integridade física.

Mas, embora repudiando os eventuais excessos no exercício do poder burguês, o Estadão é o jornal brasileiro mais afinado com a sua essência.

Sua supremacia em São Paulo é consistente com o fato de o estado estar sob governos tucanos desde 1995; e de a cidade de São Paulo, desde a redemocratização, haver tido duas gestões petistas e as restantes, direitistas.

Também faz sentido que São Paulo esteja sendo o laboratório de testes das novas fórmulas golpistas, com a adoção gritante de soluções autoritárias para os problemas sociais.

Ainda bem que operação desastrosa na cracolândia e a barbárie no Pinheirinho despertaram uma opinião pública que parecia anestesiada quando da invasão da USP pelos vândalos e da fixação de uma tropa de ocupação em pleno campus universitário (suprema heresia!).

Mas, a cena paulista deve continuar sendo observada com muita atenção pelos verdadeiros democratas. Pois, qualquer atentado às instituições, para quebrar a continuidade de administrações petistas (bem toleradas pelos EUA e pelo grande capital, já que mantêm seus privilégios, mas não pelas viúvas da ditadura e por alguns setores setores extremados da burguesia), começará, necessariamente, por São Paulo.

Vale lembrar: foi em São Paulo que o Cansei! tentou organizar uma nova (mas frustrada...) Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade.

E é em São Paulo que a truculência policial volta a ser exercida exatamente como nos tempos da ditadura militar, por efetivos que até hoje cultivam descaradamente a nostalgia do arbítrio.

No Náufrago da Utopia

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Michel Teló vira hit em greve portuguesa



Entenda o que vai mudar na sua vida com a nova política de privacidade do Google

O Google mudará sua política de privacidade no dia 1º de março. E o que isso muda na sua vida? O R7conversou com especialistas e com o próprio Google para poder explicar para você como sua internet será a partir de agora.

Antes, você tinha que concordar com as regras do Gmail ao se cadastrar, depois com um grupo diferente de regras para o YouTube, outro para Picasa, Google+... Agora, não mais: vai ser um mesmo acordo para quase todos os serviços. As informações que você dá sobre você e as páginas que você acessa em um dos sites do Google vão valer para montar um perfil mais "global" sobre você, que vai ser usado em todos os sites. Cerca de 60 sites vão ter suas regras diferentes de funcionamento unificadas em uma só.

Resumidamente, o Google vai aproveitar as informações e coisas que você procura ou se interessa para te oferecer algo semelhante - em todos os sites do grupo. Felix Ximenes, diretor de comunicação do Google no Brasil, deu um exemplo prático, explicando que ele poderia colocar uma foto do George Clooney, por exemplo, no Picasa. Só que, se colocasse essa mesma foto no YouTube, ela não seria permitida por violar direitos. Agora, a política é uma só para todos os sites e, por isso mesmo, vale ficar por dentro do que você pode ou não pode fazer.



Nova política não deve gerar "efeito Big Brother"
- Você coloca no seu Google+ que você gosta de filme independente europeu. Aí você vai procura conteúdo sobre cinema e aparece filme de Hollywood. Se você já falou para ele que gosta de filme europeu, por que é que ele vai te dar filme de Hollywood? Você fala se quer receber esse tipo de conteúdo, se não quer receber esse tipo de conteúdo. Um painel só é mais simples, mais direto, mais controlável.

Na prática, para o Google, essa mudança só traz benefícios.Com seus sites integrados, será possível usar informações de buscas que você fez no Google para te sugerir vídeos parecidos no YouTube, por exemplo. Eles vão interligar todas as suas navegações nos serviços do Google, para poder oferecer sugestões mais precisas - e anúncios publicitários mais precisos também, é claro.


E se eu não quiser?
Má notícia: a partir de 1º de março, o Google vai funcionar assim. E ponto final. Se você não quiser aderir a essa política, não vai mais ter conta nos sites deles - ou seja, vai ter que excluir seu perfil.
Mas, antes de tudo, é importante ressaltar um fator, que Ximenes comentou: as regras só valem se você estiver logado (ou seja, tiver feito o login, tiver se cadastrado e se registrado). Se você não quiser, não precisa se cadastrar. Pode usar os serviços de forma anônima. Ao menos alguns deles.

- Há uma opção de saída para a política: não usar o produto. Ou usar de forma anônima. Você não é obrigado a assinar o Google para fazer uma busca, para ver o YouTube. Para mandar um email, sim. É sua conta pessoal. Uma vez que está assinado, você começa a armazenar dados lá. Isso é normal, qualquer serviço é assim. Até porque precisamos ter garantia, em caso de um abuso ou uma violação de termos de serviço, ou mesmo cometer um crime usando nossos serviços, precisamos rastrear esse cara. E não é assim, que você topa nossa regra ou você está fora do jogo. Você pode usar a busca, pode usar YouTube. Só não pode usar as coisas que por natureza precisa estar logado. Existem serviços nossos que não precisam de login.

Mas e quem já tinha - como eu, você e a maioria das pessoas - um login do Google com as políticas antigas? E se essa pessoa, que já deu "OK" em outros termos, não está satisfeita com os novos? Ela não pode usar, judicialmente, o anterior? O professor Coriolano Almeida Camargo, especialista em crimes eletrônicos, explicou que, sim, talvez possa. Mas é um caso complicado:

- Na verdade não é um contrato. É uma política de privacidade. É um documento unilateral. O que se critica sob o ponto de vista contratual é que é um contrato de adesão, que as pessoas aderem ou simplesmente não aceitam. Em um tribunal, se alguém eventualmente for lesado, pode ter sua validade jurídica questionada, uma vez que uma pessoa comprove que ela efetivamente sofreu algum dano pela má gestão ou má utilização dessa política de privacidade por parte do Google. Ele pode ingressar com uma ação judicial para que o contrato anterior continue valendo. Que a política que na visão dele seja mais adequada na relação entre Google e usuário prevaleça. Se ele mostrar claramente que dentro do perfil dele como usuário que a nova política fere a sua privacidade, fere a qualidade do serviço que o Google tá se propondo a prestar, sem dúvida nenhuma os tribunais vão analisar com olhos atentos essa questão no sentido de que o Google continue usando uma política antiga - ou até mesmo o poder judiciário pode dar diretrizes para que o Google não venha a ferir a privacidade das pessoas. Mesmo esse contrato sendo unilateral.

Ximenes explicou ainda que o Google sempre adotou a postura de permitir que o usuário salve seus dados e leve para outro serviço, caso não goste dos oferecidos pela empresa. A novidade é que eles unificaram as mais de 60 políticas de privacidade. Não é que o Google vai adotar essa postura agora. Sempre foi assim. E o botão sempre vai estar lá para exportar seus dados e levar para outro serviço.
De qualquer forma, Victor Haikal, advogado especializado em direito digital, explicou que é importante ler o documento com a nova resolução do Google, para você saber se quer mesmo aceitar:
- Esse tipo de contrato é o que a gente chama de contrato de adesão. Como é feito por milhares de pessoas, é muito difícil ficar discutindo cláusulas customizadas, para cada pessoa. Então se cria um regime único. As pessoas que quiserem dizem sim e as que não quiserem não usam o serviço. Infelizmente, é muito mais fácil as pessoas saindo usando o serviço do que lerem esses textos, mas em relação ao anterior, o texto é menor.

Não gostou? Se você quiser ver o que o Google "sabe" sobre você, eles sugerem que você dê uma olhada no Google Dashboard (painel que reúne tudo o que você tem no Google). Se quiser fechar sua conta, vá a Google Contas (https://accounts.google.com/EditServices) e escolha a opção para apagar tudo o que você tem.

R7, via jornalisticamente falando