quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sobre o esquecimento da política, ou da política por outros meios

Maria Luiza Quaresma Tonelli, GGN

"Desde a década de 80 Adauto Novaes foi o organizador de um ciclo de debates que reunia, anualmente,  alguns dos mais brilhantes intelectuais do Brasil e do exterior para discutir temas que posteriormente eram publicados em livros.  Em 2007 foi publicado o livro O Esquecimento da Política, que reúne ensaios de vários autores que expõem, cada um ao seu modo, as diversas formas do esquecimento da política. São abordagens que tratam não do fim da política, como esclarece Adauto Novaes no início do livro. Trata-se da análise de várias formas daquilo que se coloca no lugar da política, ou seja, a política realizada por outros meios.

Para nos ajudar a pensar a respeito da nossa atualidade, passo à abordagem de partes do artigo “ O Esquecimento da Política ou Desejo de Outras Políticas?” do pensador Francis Wolff no livro acima citado.

Segundo Wolff, há duas causas que provocam o esquecimento da política: a face comunitária e a face do poder. Podemos esquecer que vivemos em e através de comunidades políticas e que a política é essencialmente uma questão de poder, de projetos e de decisões.

Apresenta então quatro formas de esquecimento da política, conforme citarei a seguir:

território de si é a primeira forma de esquecimento da política, ou seja, a coisa pública em proveito do particular.

A política, quando desacreditada no sentido de trazer a felicidade, é procurada na vida particular, no sucesso individual, no casal, na família, ou mesmo na nação. O território de si é uma espécie de retorno a um estado pré-político.

Constitui-se num refúgio. Trata-se de uma forma de realismo sem ideal, sem visão do futuro.

A imagem que temos da política na sociedade individualista, mais do que hostilidade, traduz-se numa indiferença misturada com a desconfiança. Nesse individualismo liberal, reina a ética do “cada um por si”; é o triunfo do indivíduo.
Porém, em oposição a esse individualismo dito liberal, há também o comunitarismo. Trata-se aqui de uma tendência à identificação do indivíduo com seu grupo, sua etnia, seu bairro, sua comunidade de nascença, dentre outros.

O comunitarismo não é o contrário do individualismo, mas uma variante ideologizada, uma maneira idêntica de esquecer a política em proveito do território de si. Em ambos os casos temos a afirmação do que sou pelos meus traços identitários e não políticos.

O reino de Deus” é a segunda forma de esquecimento da política apontada por Francis Wolff. Trata-se da substituição da polis dos homens pela polis de Deus, ou seja, a comunidade dos crentes.

A substituição da justiça e de uma felicidade imanentes pela justiça e de uma felicidade transcendentes a este mundo. Nas democracias tal fenômeno coloca em questão a laicidade do Estado, sem a qual não é possível garantir os fundamentos da democracia, a saber: a igualdade perante a lei e a liberdade individual.

O crescimento da influência do pensamento religioso na política das democracias através de representantes políticos religiosos fundamentalistas impondo seus dogmas no espaço que é público, significa um retrocesso e um risco para qualquer sistema democrático, principalmente em razão do crescimento da intolerância em todas as suas formas, como a discriminação, o racismo e o preconceito em suas mais variadas manifestações.

Sob o pretexto de que vivemos numa democracia de direitos, muitas vezes  a democracia pode servir de abrigo para a prática de atos de qualquer natureza. Religiosos fundamentalistas, por exemplo, argumentam que a liberdade de opinião é um direito constitucional e democrático que justifica muitos discursos carregados de preconceito e discriminação, promovendo a intolerância e até a violência contra minorias cujo modo de vida não está de acordo com os parâmetros morais e religiosos defendidos pela comunidade dos crentes. É o paradoxo da democracia: em nome de direitos fundamentais viola-se direitos individuais. Ao afirmar a liberdade individual sem limite, limita-se a liberdade do outro em nome da própria democracia.

O terceiro fator de esquecimento da política apontado por Francis Wolf refere-se aoeconômico e ao técnico. A ideia segundo a qual a economia seria uma ciência capaz de explicar o que acontece e prever o que necessariamente vai acontecer permite à economia fazer com que se esqueça da política.

A crença segundo a qual a economia só existe como ciência e que, portanto, não há uma economia política possível – quando sabemos que a economia deveria ser um instrumento nas mãos da política e não o contrário – se opõe justamente à ideia de que a política é a arte do possível. E a maior dificuldade consiste justamente em avaliar o que é possível e o que não é.

Claro que nem tudo é politicamente possível, tampouco nem tudo é economicamente possível. A questão é a maneira como a economia serve de argumento contra a política. Assim, quando a política está submetida à economia é ela que decide, já que a mesma realidade econômica se impõe a todos, não havendo para os políticos, de direita e de esquerda,  nenhuma margem de manobra.

O mesmo mecanismo, embora em sentido inverso, ocorre com relação à técnica, que decide no lugar da política. O técnico no sentido de progresso tecnológico e o técnico no sentido de adaptação dos meios para um fim determinado. No primeiro caso, a tecnologia resolve todos os problemas. Dado que o progresso técnico é inelutável, não há nada a fazer nem a favor, nem contra; ele traz consigo seu lote de benesses necessárias e seus malefícios inevitáveis, afirma Wolff.

Em outro sentido, o técnico pode ser entendido como adaptação racional dos meios para um fim determinado, na medida em que se fala de solução técnica para problemas humanos.

Deste modo, a técnica e a economia têm dois riscos: a tecnocracia, como o poder dos peritos, dos que detêm o saber em determinada área específica, e a crença naonipotência da economia: a ideia de que a política é inútil.

Como aponta Wolff, há o momento das escolhas racionais e o momento das decisões, que não dependem exclusivamente das realidades objetivas, mas de valores, comojustiça, equilíbrios sociais, regionais, etc. Aqui o perito nada tem a dizer, pois é papel dos políticos, sem necessidade de um saber específico e especializado, representar os interesses gerais da comunidade. O esquecimento da política em proveito da técnica e da economia, é o esquecimento dos valores propriamente políticos.

Além da tecnocracia, a ameaçar a democracia, vigora a ideia de que o saber pode tudo e as opiniões são vãs. Aqui o esquecimento da política se manifesta na convicção de que dialogar atrapalha a eficácia das decisões, de que é perda de tempo consultar as populações, uma vez que elas não conhecem nada, não sabem nada. Enfim, a democracia, ao deixar de ser o sistema político pelo qual a decisão nasce do debate, da confrontação entre opiniões contraditórias, “perde seu caráter propriamente político quando esquecemos a política, que diz respeito a todos nós, e a entregamos aos profissionais”, afirma Wolff. 
     
A quarta maneira de esquecimento da política apontado pelo pensador francês é o“tudo é moral”. Tal como a substituição da política pelo “território de si”, peloreino de Deus, pelo econômico e o técnico”, a moral substitui a comunidade dos cidadãos por uma comunidade mais vasta: a comunidade humana em geral.


Uma das formas de esquecimento da política em favor da moral é o apagamento de qualquer critério que não seja moral para avaliar a política, seja nacional ou internacional.
Obviamente que a política pode e deve ser avaliada pelo critério moral; a política não é independente da moral dos homens e da ética pública, mas há critérios que são puramente políticos para avaliar uma política com justeza.
Valores morais apagam valores políticos quando os primeiros se aplicam à ação coletiva.  Em que sentido isso acontece? “Valores políticos são positivos, eles mobilizam para um fim; os valores morais são negativos, eles impedem em nome de uma proibição, diz Wolff.
Em suma, “a política visa a um bem, a moral desvia do mal”. Sob tal perspectiva, portanto, o critério da moral não pode ser o único, uma vez que a moral nos diz o quenão fazer, jamais o que fazer.

Aqui reside o esquecimento da política em proveito da moral “porque não se espera da política que ela realize boas ações, politicamente falando. Espera-se que ela não cometa más ações, moralmente falando”.

Francis Wolff cita alguns exemplos de como se espera que a política faça o menos possível, sobretudo em política internacional, onde o humanitário se tornou prioridade absoluta. Como ninguém sabe mais o que é justo politicamente, passa-se a condenar o que é moralmente mau. Assim, o inimigo internacional não são mais as ditaduras intoleráveis,  as políticas imperialistas, a servidão de um povo. Hoje só há um inimigo: o terrorismo, um puro conceito moral, segundo Wolff.

A invasão do critério moral também é constatada na política nacional quando, por exemplo, a política de um Estado ou de um governo é julgada mais pela moral individualde seus dirigentes do que pelos sucessos ou fracassos políticos. Julga-se a honestidade dos políticos ao invés de julgar a justiça social de uma política.

Mobiliza-se mais contra a corrupção do que pela luta por causas políticas. Então, quando a palavra de ordem se reduz ao “abaixo a corrupção”, ou quando o grito de guerra é “todos os políticos são ladrões”, retira-se a possibilidade de uma resposta política adequada para o combate à corrupção.

Diríamos, então, que a condenação moral dos políticos  anda de mãos dadas com a criminalização da política. Nesse sentido, tudo se reduz à condenação moral dos homens, e não à corrupção da própria política. A condenação da corrupção com critérios exclusivamente morais exclui a possibilidade do debate político a respeito do que fazerpara combater e controlar a corrupção, bem como transforma as discussões sobre a corrupção numa tarefa infrutífera, onde de um lado estão os honestos, os bons, e do outro lado os desonestos, os maus;  enfim, os corruptos (e sabemos qual é o papel damídia nesse processo).

Debates sobre a corrupção pautados por critérios exclusivamente morais dão margem à demagogia e à hipocrisia, pois sabemos que muitas vezes o discurso moral pode estar bem distante da prática de alguns políticos. Além disso, segundo Wolff, a moral faz com que se esqueça a política quando o único critério para julgar é o mal, quando se julga a virtude dos homens e não o valor de um projeto ou a eficácia de uma ação.

No Brasil, há muito tempo que o discurso da moral domina o discurso político. Aliás, talvez esta seja uma das características da história da política brasileira, marcada pelo denuncismo. Afinal, é bom lembrar que Getúlio Vargas cometeu suicídio por causa de denúncias de corrupção em seu governo e a destituição de João Goulart, foi marcada pelo discurso moralista da imprensa no período que antecedeu o golpe militar em 1964.

É certo que a condenação moral é uma sanção social, porém não é possível combater a corrupção simplesmente com o discurso moral, mas através de mecanismos de controle eficientes, através de ações políticas que impeçam que interesses particulares e de grupos se sobreponham ao interesse público, da proibição de doações empresariais para campanhas políticas e, além disso, é preciso promover uma cultura política através da educação e de uma imprensa pluralista e democrática que não se preste a denunciar de forma seletiva os crimes de corrupção.

Francis Wolff, ao indicar o território do eu, a religião, a economia, a tecnologia e a moral como formas de esquecimento da política, diz que estas também se constituem em maneiras de pensar a política, uma vez que cada um desses modos de esquecimento pretende, a seu modo, substituir a política. Todas essas formas de esquecimento refletem o recolhimento fora da política, ou seja, se cada homem já é uma humanidade acabada, nada deve à sociedade. Todo o interesse é particular, nada é coletivo ou comum.

Ao apontar esses quatro modos de “esquecimento da política” Francis Wolff não quer dizer que se trate de uma negação da política, mas de formas de esquecimento que indicam a realização da política por outros meios.

Gostaria então de acrescentar uma quinta forma que, na minha opinião, também se constitui numa maneira de esquecimento da política: a judicialização da política e sua consequente criminalização.

A expressão “judicialização da política” é utilizada para caracterizar a crescente importância que as cortes de justiça adquiriram nas democracias contemporâneas.

O fenômeno da judicialização da política  refere-se à ocorrência de uma expansão global do poder judicial em andamento nos sistemas políticos do mundo globalizado. Conflitos que antes eram restritos `as esferas executiva e legislativa do Estado cada vez mais são resolvidos nos tribunais.

Vários estudiosos de tal fenômeno consideram a Operação Mãos Limpas, na Itália, no início dos anos 90,  a origem da judicialização da política”. Porém, esse  processo de judicialização inicia a partir do segundo pós-guerra, quando a democracia contemporânea passa a ser marcadamente constitucional.
Isso significa que a democracia, que é  “poder do povo”, e que tem como fundamento a soberania popular, passa a ser um regime que também se caracteriza pela salvaguarda dos direitos individuais e das minorias contra as maiorias ocasionais, nos tribunais.

A democracia é o regime dos direitos e da luta por direitos. A tomada de decisão na democracia baseia-se no princípio  da maioria, no debate aberto entre iguais nas assembleias eleitas pelo voto popular.  Na democracia quem decide é o povo, a fonte do poder político, através de representantes eleitos.

Ora, se a democracia é o regime dos direitos, não é justo que o poder da maioria se sobreponha aos direitos das minorias.  Por isso a luta das minorias por direitos nem sempre se dá pela via da política. Assim, as minorias recorrem legitimamente  aos tribunais a fim de conquistar direitos que lhes são negados.

Deste modo, a democracia constitucional apresenta uma grande vantagem: ela garante os direitos humanos e de minoria contra maiorias autoritárias ocasionais. Porém,  apresenta uma desvantagem: a limitação do poder político, o poder soberano,  que é o poder do povo.


A lógica desse modelo de democracia constitucional, em que as minorias têm seus direitos garantidos contra as maiorias autoritárias, portanto,  está no equilíbrio entre as esferas do direito como garantia dos direitos das minorias e a esfera da política como expressão da soberania popular.

Porém, o que estamos observando nos últimos tempos é uma ruptura desse equilíbrio, quando o direito muitas vezes se sobrepõe à política.  Neste caso, estamos diante dajudicialização da política. Tal fenômeno diz respeito à invasão da política pelo direito e em situações limite, o ativismo judicial que caracteriza o que alguns estudiosos denominam como o perigo do “governo dos juízes”, ou “juristocracia”.

Vale ressaltar, portanto,  que a judicialização da política não é um problema jurídico. É um problema político e é justamente sob esse prisma que deve ser estudado e amplamente debatido com a sociedade, tendo em vista que diz respeito à democracia e seu fundamento, que é a soberania popular.

Primeiro ponto a ser observado quando se trata do tema em questão: o problema da judicialização da política diz respeito à tensão entre democracia e estado de direito, que se traduz numa tensão entre o poder político e o direito, pois na eventualidade de um conflito entre a jurisdição e os poderes legislativo e executivo prevalece a jurisdição, uma vez que no Estado de Direito o poder judiciário tem a última palavra.

Segundo ponto:  nas democracias a tomada de decisão baseia-se no princípio da maioria, no debate aberto entre iguais, nas assembleias eleitas pelo voto popular. Portanto, decisões judiciais e decisões políticas são formas distintas de solução de conflitos.

Segundo o professor Luiz Moreira, um dos maiores estudiosos do tema,
“A Judicialização da Política alcançou patamares alarmantes no Brasil. Sob o argumento de que vivemos sob uma democracia de direitos, o sistema de justiça passou a tutelar todas as áreas, interferindo em políticas públicas, imiscuindo-se no mérito do ato administrativo, desbordando de suas competências para envolver-se em assuntos que foram tradicionalmente conjugados conforme uma organização horizontal do poder, violando assim a autonomia dos poderes políticos, tudo submetendo ao jurídico”.

Deste modo,  afirma Luiz Moreira, “No modelo que ora se apresenta, a legitimidade da democracia no Ocidente decorre dos tribunais constitucionais. Conforme esse modelo, não ocorre apenas a judicialização da política, mas sua consequente criminalização chegando-se à conclusão segundo a qual a democracia emana do direito”.

Nos últimos anos uma vasta literatura sobre o tema da judicialização da política vem sendo publicada em vários países, tendo em vista que a expansão do poder judicial é um fenômeno global. Porém, apesar do crescimento de tal fenômeno, o debate acadêmico que aborda a judicialização da política no mundo ainda é surpreendentemente superficial, com poucas exceções.

Ora, não há dúvida de que a ideia de consolidação das democracias seja acompanhada do aumento da presença do direito, que tem se manifestado muitas vezes na própria linguagem política.

Todavia, o fortalecimento do poder judiciário nas democracias ocidentais contradiz a ideia de Montesquieu sobre a “nulidade” de um poder que deveria ser politicamente neutro, “o mais fraco dos poderes”.

O protagonismo do poder judiciário em nossos dias é evidenciado pela mídia, que se beneficia com a judicialização das dimensões social, política e econômica, na medida em que certos temas são tratados de forma espetacularizada, propiciando um aumento considerável da audiência.

 As empresas de comunicação, que seguem a lógica do mercado, beneficiam-se com a tendência mundial do aumento desmesurado da demanda social pela tutela jurisdicional, contribuindo para a formação de uma opinião pública convicta de que a busca dos direitos nas instâncias judiciárias, sejam individuais, sejam coletivas, se traduza na realização plena da cidadania e de participação ativa na democracia, ou seja, a judicialização das dimensões social e política conduz à ideia de que tudo se resolve por meio da justiça, o que leva a uma desneutralização do judiciário pari passu com umaneutralização da política.

Afirmar a neutralidade do poder judiciário não significa que os juízes devam estar distanciados da realidade pelo fato de que sua função de fazer cumprir a lei exige que se atenham ao que está no mundo do processo.

A neutralidade política do judiciário, além da exigência de imparcialidade, decorre do princípio da separação de poderes, e isso não significa que o juiz, na democracia, deva estar imune à realidade, mas que esteja livre da pressão política e que em seus julgamentos estejam imunes ao clamor popular, fortemente influenciado pela mídia.

A politização do poder judiciário coloca em questão, em determinados momentos, a função do poder legislativo, cujos membros são eleitos pelo povo.
A judicialização da política significaria, nesse sentido,  que uma democracia concebida exclusivamente como forma de governo ou reduzida ao Estado de Direito  pode refletir de maneira significativa no imaginário democrático do cidadão, que pode perder de vista o fato de que o povo é a autoridade da instituição política através de seus representantes no parlamento.

Isso pode significar ainda que o fortalecimento da ideia de democracia como mera forma de Estado jurídico pode estar caminhando pari passu com o declínio da política, considerando que a defesa da lei, ou da legalidade nem sempre é a mesma coisa que a defesa da justiça.

Assim, resta saber se o protagonismo do jurídico em detrimento do político nas democracias contemporâneas é causa ou efeito do enfraquecimento da política, ou se a judicialização da política seria um fenômeno inerente à democracia liberal.

O ativismo jurídico, decorrente do protagonismo judicial, entra em conflito com o papel mediador dos representantes políticos entre o cidadão e o Estado e com isso o Judiciário passa a ocupar no imaginário da sociedade uma função redentora na democracia, principalmente se levarmos em conta que os juízes são cada vez mais solicitados quando a própria política é colocada muitas vezes no banco dos réus.

O controle da justiça, ou a invasão do direito, sob os parâmetros da lei e da ordem sobre a vida coletiva e da própria política nas últimas décadas contradiz a ideia de democracia como o regime dos direitos, da luta por direitos existentes e de novos direitos. Exatamente por isso o conflito faz parte dos regimes democráticos. Política democrática é dissenso. O consenso é resultado do diálogo e dos debates.

A judicialização da política na democracia moderna, ao  converter o Estado de Direito em  Estado “do” Direito, pode estar promovendo o surgimento de novos atores políticos, novas formas de garantias das liberdades, de igualdade, de novas formas de participação política mas também pode, ao contrário,   estar promovendo o surgimento de uma cidadania que se confunde com a mera busca da tutela jurisdicional do Estado,   desresponsabilizando o cidadãos de seu papel político.

Diante do que foi exposto, gostaria de concluir lembrando que a criminalização da política, tal como ela se apresenta em nossos dias, é consequência do fenômeno da judicialização da política,  o que representa uma real ameaça à democracia, que não pode ser entendida simplesmente como regime da lei e da ordem, como quer o pensamento conservador. A democracia é a única maneira pela qual uma sociedade é capaz de resolver seus conflitos. A política democrática, portanto,  jamais deve ter como ponto de partida o consenso. Pelo contrário, se a política é a arte da negociação então o dissenso é o ponto de partida para que se chegue a um acordo possível.

É o respeito `as regras do jogo democrático, pelo diálogo, que a política em seu sentido autêntico se realiza. 

 Como afirmei anteriormente, a judicialização também pode ser uma das formas de esquecimento da política. Se não for isso, podemos afirmar, sem dúvida, que pelo menos a hegemonia do jurídico nas democracias pode contribuir para o enfraquecimento da democracia, na media em que representa, em algumas situações,   uma mitigação da soberania popular, o fundamento da democracia que, afinal, significa o poder do povo, não o poder dos juízes.

O termo “povo” representa o sujeito das decisões em qualquer democracia na qual as decisões políticas são tomadas pelo poder majoritário. Decisões tomadas pelo poder judiciário, que é um poder não majoritário, são exceções para garantir o direito das minorias, mas não podem ser transformadas em regra.

 Quando cidadãos passam a  supervalorizar o jurídico em detrimento do poder político  e deixam de participar da política na luta por  direitos, tal supervalorização, sem dúvida, concorre  para a as mais variadas tentativas de deslegitimação o poder político.

A supervalorização do poder judicial em nossa sociedade não seria uma forma desvalorizar a política e de nos esquivarmos  do papel que nos cabe na democracia, na medida em que cada vez mais deixamos de pensar politicamente quando deixamos depensar o político da democracia?"

Maria Luiza Quaresma Tonelli

O brasileiro e a corrupção, um caso de amor

A corrupção está em moda.

Só se fala dela.

Todo mundo jura que a odeia, que a abomina.

E vaticina que, se ela não for exterminada, liquidada e esquartejada, o Brasil não sairá deste seu status miserável de paiseco de quinta categoria.

(Antigamente falavam isso da saúva - "ou acabamos com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil". A saúva continua aí, firme e forte...)

Quem, como eu, porém, já viveu mais de meio século, sabe, infelizmente, que o fim da corrupção é um objetivo tão distante quanto o homem, com a tecnologia de que dispõe, colonizar qualquer outro planeta do sistema solar, ou mesmo a pequenina Lua.


A corrupção é um câncer que se incrustou tão profundamente na sociedade brasileira que é impossível extirpá-lo.

Cá entre nós, não existe nação no mundo onde a corrupção não esteja presente no dia a dia dos negócios, dos afazeres dos cidadãos ou na administração pública. 

Onde houver dois homens haverá corrupção.


O governo brasileiro bem que tenta fazer a sua parte, criou há alguns anos a Controladoria-Geral da União, que pôs na rua milhares de servidores públicos corruptos, e tem aperfeiçoado sistemas, em vários escalões, para acabar com a prática.

Na verdade, nunca se combateu tanto a corrupção no país.

Nunca a Polícia Federal fez tantas ações anticorrupção.

Nunca tantas pessoas foram processadas.

Mas o que se vê hoje no Brasil, esse espetáculo midiático proporcionado pelo juiz curitibano e sua turma, não tem nada de combate à corrupção. 

Trata-se, tão somente, de mascarar uma tentativa desesperada de atingir o poder central, os trabalhistas que governam o Brasil desde 2003.

Os procedimentos adotados pelo Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal, ignoram os mais elementares preceitos da Justiça, que tem de ser mover pela apresentação de provas robustas, não simples indícios ou meras delações - que, sem serem comprovadas, são apenas fofocas ou boatos.

Combater dessa forma a corrupção é, simplesmente, outra forma de corrupção.

Parte da população tem aplaudido esse justiçamento ideológico, da mesma forma que se satisfaz com os programas policiais dos Datenas da vida, em frente aos aparelhos de televisão.

Trocam o "bandido bom é bandido morto" por "todo político é ladrão", ou "é preciso acabar com o PT" e coisas desse nível.

São essas mesmas pessoas, entretanto, que contribuem, com suas pequenas e constantes infrações à lei para perpetuar a corrupção no Brasil.

Comerciantes fraudam a Receita ao não darem notas fiscais.

Grandes empresários contratam escritórios de advocacia com a mesma finalidade de driblar o Fisco.

Policiais aceitam de bom grado um "cafezinho" para fazer de conta que o motorista não estava a 150 km/h.

Quem entre nós, pobres cidadãos esmagados por uma burocracia infernal, sujeitos a todo tipo de humilhação em nossa vidinha diária, nunca cedeu à tentação de praticar uma corrupçãozinha?

O fato, inegável, é que o brasileiro adora a corrupção, não sobrevive sem ela, da mesma forma que não consegue passar incólume a esse outro esporte das multidões que é a hipocrisia.  

http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/07/o-brasileiro-e-corrupcao-um-caso-de-amor.html

O Brasil no mês do 'cachorro louco'

 




Por Guilherme Santos Mello, no site Brasil Debate:

O mês de agosto é popularmente conhecido como o “mês do cachorro louco”. Apesar de a alcunha estar ligada ao fato de o mês de agosto registrar uma maior quantidade de cadelas no período fértil (o que deixaria os machos “loucos” atrás delas), é fato que diversos eventos políticos marcantes tiveram lugar neste fatídico mês: Desde o início da primeira grande guerra e a ascensão de Hitler ao cargo de Fuhrer, no âmbito internacional, até o suicídio de Getúlio Vargas, a morte de JK e a deposição de Collor, na política brasileira.

Efetivamente, para a política nacional, o mês de agosto de 2015 será um teste de fogo, com grandes obstáculos a serem superados pelos seus principais atores.

Em primeiro lugar, é o mês em que devem ocorrer as primeiras denúncias políticas da Operação Lava Jato, que devem abarcar políticos de vários partidos e cargos, atingindo particularmente o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha e o senador Fernando Collor de Mello, podendo também alcançar nomes como o do presidente do Senado Renan Calheiros.

A incerteza acerca dos denunciados tem criado um cenário de “salve-se quem puder”, onde figuras personalistas e raivosas como Cunha tendem a ganhar simpatia dos possíveis denunciados.

Em segundo lugar, porque é o mês para o qual está marcada uma manifestação contra o governo Dilma, defendendo o impedimento da presidenta. Esta manifestação, apesar de ser apenas mais uma dentre as variadas que já foram tentadas, deve receber atenção especial da imprensa por estar sendo protagonizada pelo principal partido oposicionista, o PSDB, que utilizará seu tempo de televisão para convocar a população às ruas em defesa do golpe.

Apesar de várias vozes dentro do partido criticarem tal iniciativa, o senador Aécio Neves, em sua saga de negação da derrota eleitoral, levará seu partido a abraçar as forças golpistas que se fazem presentes no atual cenário político nacional.

Por fim, o mês de agosto marcará o retorno do Congresso Nacional às atividades, com uma série de “pautas bomba” para o governo: desde a aprovação de CPIs que devem servir de palanque para adversários proselitistas (como é o caso da CPI do BNDES), até o possível encaminhamento de pedidos infundados de impeachment, insuflados pela baixa popularidade da presidenta e pelas eventuais manifestações de rua.

Além disso, o governo enfrentará duras batalhas legislativas, tanto para aprovação de medidas de seu “pacote fiscal”, quanto pela aprovação da redução da meta fiscal, que, caso não aprovada, poderá levar o governo a ter que recorrer a manobras fiscais condenadas nos últimos anos.

Finalmente, o TCU e o TSE devem julgar as contas do governo e da campanha da presidenta Dilma, respectivamente, possibilitando o surgimento de mais munição para os defensores do golpe.

Do ponto de vista da economia, o mês de agosto deve marcar o pior momento da recessão, com a divulgação de dados negativos de junho e julho, particularmente no que diz respeito ao emprego e a atividade.

A crise política provocada pela Lava Jato, em conjunto com os efeitos contracionistas da política econômica atual, criaram um cenário de “crise orgânica” no capitalismo brasileiro, uma combinação de crise política e econômica que provoca fraturas sociais e impede o avanço desassombrado do processo de acumulação.

Ao invés de reverter a tendência de deterioração da confiança dos empresários e consumidores, as medidas de superação da “crise fiscal” aprofundaram as problemas que originaram o discurso em defesa do “ajuste”, colocando o país numa espiral contracionista de difícil superação.

Apesar dos riscos que agosto trará e do cenário negativo aqui desenhado, é possível que a crise traga consigo oportunidades, para se valer de outra máxima da sabedoria popular. Caso o governo consiga sair razoavelmente ileso das denúncias da Lava Jato e dos julgamentos de suas contas, é possível que o clima político saia da total incerteza que existe hoje para um campo mais definido, no qual se saberá com maior clareza quem estará fortalecido e enfraquecido.

O eventual enfraquecimento e até afastamento do presidente da Câmara poderá destensionar as relações entre Executivo e Legislativo, facilitando a aprovação de projetos de interesse do Planalto e reduzindo o risco de avanço dos pedidos infundados de impeachment.

Por fim, a comprovação de que a estratégia de ajuste fiscal e monetário, da maneira que está sendo encaminhada, não traz consigo nenhum elemento capaz de dinamizar a economia brasileira e resolver os problemas que se propõem, pode se mostrar preponderante para o governo analisar estratégias alternativas que se colocam e colocarão à disposição da presidenta.

Devemos esperar algum alívio do setor externo (dada a desvalorização cambial) e uma gradual retomada da confiança dos consumidores, devido à desaceleração da inflação no segundo semestre. Estes elementos, somados a uma mudança na postura do governo na política econômica e ao arrefecimento da crise política, serão decisivos para garantir a retomada do crescimento econômico nacional em um futuro não muito distante.

Em um cenário tão conturbado quanto este que se aproxima, a reorganização da base política do governo passa necessariamente pela sinalização de mudanças nos rumos da estratégia de governo, que viabilizem a reconciliação do governo petista com suas bases de sustentação social.

Insistir na estratégia atual de promover concessões aos setores oposicionistas e com inclinações golpistas não será suficiente para criar o cenário de estabilidade política necessária para a retomada do crescimento econômico.

SOBRE A AMPLITUDE DA CORRUPÇÃO



Máquina da corrupção

Por Jânio de Freitas

Nem tanto pela prisão de alguém eminente como o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, posto sob suspeita de corrupção como presidente da Eletronuclear, mas pela abertura de nova frente de investigações, a Lava Jato dá um passo para a demonstração de que a máquina corruptora movida pelas empreiteiras não tem limites.
Hidrelétricas, estradas, pontes, infraestrutura de comunicações, metrôs, edificações –onde quer que as grandes empreiteiras estiveram ou estejam, é área minada por corrupção. Seja no nível federal, seja no estadual e no municipal. Licitações e contratos corretos por certo houve e há, mas como fatos fora do sistema. Assim é pelo menos desde a abertura da Transamazônica no período do general Médici –ocasião em que foram estabelecidas as fórmulas, hoje uma norma, de compartilhamento da obra e de entendimento entre as empreiteiras para divisão das oportunidades.
Faço eco do já escrito aqui muitas vezes: atacar a corrupção manobrada pelas grandes empreiteiras, para obras públicas e para seus negócios de concessões e privatizações, seria mudar toda a prática política no Brasil. A voracidade de parlamentares e partidos que oprime governos, para entrega de ministérios, secretarias e empresas a políticos e a indicados seus, origina-se nas grandes empreiteiras e seus interesses tentaculares, lançados sobre a administração pública.
Não há um só propósito legítimo para que partidos e seus políticos rebaixem-se até a condição de chantagistas para obter diretorias em estatais, autarquias e ministérios. Manietar as empreiteiras e, portanto, fechar aqueles guichês de corrupção seria, além do mais, dar a tais seções do serviço público a possibilidade de se tornarem mais eficientes. E a custos menores. Um Brasil que o Brasil não conhece.
Petrobras, Eletronuclear –vamos em frente?
ATÔMICA
A Folha não se lembrou, mas "O Globo", por intermédio de José Casado, não esqueceu: "A 'Delta IV' (...) foi revelada pela repórter Tânia Malheiros. Estava em nome do capitão-de-fragata Marcos Honaiser e do seu chefe, Othon. Funcionava como caixa para pagamentos das compras feitas no submundo do comércio de materiais nucleares".
A revelação de Tânia Malheiros foi feita na Folha. Espetacular. Acompanhei-a de perto: trabalho cercado de perigos, inclusive ou sobretudo de morte, mas feito com persistência e perfeição técnica de apuração, até revelar o sistema de "Contas Delta" e prová-las. Fortunas que escorriam em segredo, por contas bancárias mascaradas e manipuladas por militares e uns poucos civis, sem controle algum e sem registro de seus destinos. Era a ditadura em ação para desenvolver a propulsão e a bomba nucleares.
O Othon citado por Casado é o almirante preso agora pela Lava Jato, suspeito de corrupção como presidente na Eletronuclear. O livro que Tânia escreveu a partir de suas reportagens foi editado aqui e no exterior. Na Alemanha, tem várias edições.
A imprensa é um território de pequenas e grandes injustiças, não só para fora. Meses depois do seu trabalho, e não por causa dele, Tânia não pôde continuar no jornal. Decidiu abandonar o jornalismo. Hoje é cantora, e vai abrindo um caminho de reconhecimento, crescente.
NA MOITA
O sucinto noticiário da palestra de Eduardo Cunha para empresários paulistas, anteontem, inovou. Não fez a costumeira citação de notáveis presentes, não colheu as obviedades de praxe. Nem as imagens da plateia permitiam identificações.
Eduardo Cunha é atilado. Percebeu. Xiiiiii. (Fonte: aqui).

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Ontem mesmo discorri para um amigo acerca desse 'mal das empreiteiras'. São elas - além, claro, de quem com elas se locupleta - as principais atrizes no cenário da corrupção. Alguns denominam a situação como 'sistêmica', outros, como o ministro da Justiça, dedicam-lhe o adjetivo 'histórica'. E é mesmo. Como dizem elas próprias (as empreiteiras): 'Quem não entra no jogo, dança'. André Araújo, observador atento, tem sustentado em textos publicados no Jornal GGN a, digamos, inevitabilidade desse flagelo, presente em todos os países do mundo, com intensidade variada. Araújo ressalta inclusive que o favorecimento a empreiteiras mundo afora é encarado como uma das artimanhas para atender ao 'interesse nacional de certos países', os quais como que estariam a fazer coro com as empreiteiras: 'País que não adere, dança'. E agora? Combata-se, sem trégua, o flagelo, mas tenha-se presente a situação do país. Estou afirmando, assim, que julgo pertinentes eventuais acordos de leniência que venham a ser firmados.

A ironia básica reside no fato de certos segmentos estarem empenhados em envolver ao máximo determinados partidos políticos, escondendo deliberadamente o jogo jogado por outras agremiações, simpáticas, éticas, imaculadas e sobretudo virtuosas...
http://domacedo.blogspot.com.br/2015/07/sobre-amplitude-da-corrupcao.html

O leão Cecil e a insensatez humana

 
Por Paulo F.
 
Um caçador estadunidense matou Cecil. Para aqueles que não o conheciam Cecil era um leão. Mais, era um especíme de juba negra, objeto de estudo científico e animal símbolo do Zimbábue.
 
Nascemos todos caçadores e coletores. Era desta forma que nossos ancestrais  buscavam alimentação. Estudos científicos mostram que a evolução só foi possível com o aumento do consumo de proteína, muito dessa proteina encontrada no que chamamos tutano. Eramos chupadores de ossos...
 
A evolução deu-se e consolidamos o que pode-se chamar Humanidade. Porém, de forma imperfeita, pois em seu seio abriga elementos como James Palmer, 55 anos, dentista, reincidente.
 
Palmer já havia caçado outro grande mamífero , um urso pardo de forma ilegal. Não satisfeito e de forma a satisfazer seu ego, com um punhado de dólares, cinquenta e cinco mil  pára ser exato o Sr. Palmer auxiliado por dois locail, acertou Cecil com  um projetil disparado de seu arco.
O grande mamífero, que segundo relatos apreciava a atenção que os humanos dedicavam a ele, não caiu imediatamente.Agonizou por horas. Foi morto por disparo de arma de fogo.
 
Palmer necessitava mais para satisfazer sua vaidade. O troféu. A cabeça e a pele de Cecil. 
 
Espera-se ação imediata das autoridades estadunidenses (que volta e meia se arvoram em polícia do planeta), e o Sr. Palmer pague mais que uma multa e leve uma passada de mão na cabeça de um juiz de uma corte inferior  
 
Muito mais que Cecil,  o Sr. Palmer destruiu símbolos. Como o da nossa capacidade de compreender e apreciar a beleza, que o grande Cecil representava. Exterminou não só o animal, mas também um pouco  da Humanidade latente em todos nós.
 
Do Metro
 
 
Foi um americano o responsável pela morte de Cecil, 13 anos, o maior e mais importante leão do Zimbábue. Chama-se Walter Palmer e é um dentista que teria pagado US$ 55 mil para poder acertar o leão com arco e fecha no Parque Nacional de Hwange. A morte de Cecil chocou a comunidade, porque o animal parecia gostar do contato com humanos.
 
O leão teria sido atraído para fora do parque e só então atingido com a flecha. O ataque aconteceu de noite, já que apenas no dia seguinte Cecil foi encontrado decapitado e sem pele.
 
Já o caçador suspeito de ter feito o disparo com arma de fogo é Theo Bronkhorst, um profissional que trabalha para a Bushman Safaris e que está sendo processado pela “Gwayi Conservancy”, uma organização sem fins lucrativos que protege a vida animal em Hwange.
 
“Eu não tinha a menor ideia de que o leão que eu matei era conhecido, e que fazia parte de um estudo, até o momento final da caçada”, disse o dentista Palmer. “Me arrependo profundamente.”
http://jornalggn.com.br/noticia/o-leao-cecil-e-a-insensatez-humana

quarta-feira, 29 de julho de 2015

UPPs e as ilusões da criminalização

“Educai as crianças e não será preciso punir os homens” – a frase, atribuída ao filósofo e matemático grego Pitágoras, resume e antecipa em mais de vinte séculos pressupostos centrais à filosofia iluminista de Jean-Jacques Rousseau, que o grande sambista dos anos 40 Wilson Batista resumiria em versos: “Se o homem nasceu bom/ e bom não se conservou/ a culpa é da sociedade/ que o transformou”.

No Brasil, tais pressupostos encontram-se hoje em em baixa, devido tanto à ameaça real de diminuição da idade mínima de imputabilidade penal - ora em debate no Congresso - quanto à violência sistemática do Estado contra jovens nas periferias, a qual o trágico assassinato do garoto Eduardo pela PM, no Complexo do Alemão, exemplifica e atualiza.

A despeito de estarmos atravessando o mais longo período democrático de nossa história, tais pressupostos iluministas vêm sendo solapados pela ideologia punitiva que vicejou sob o neoliberalismo, açulada por sua vez pela explosão populacional, “no marco de sociedades fraturadas por linhas de pobreza e aturdidas pelo florescimento de ideologias individualistas e anti-solidárias”, como observa Beatriz Sarlo em seu belo livro Cenas da Vida Pós-Moderna.

Somam-se a esse contexto a perpetuação do militarismo através de forças policiais mal remuneradas, mal treinadas e desacostumadas a respeitar direitos; uma “Guerra ao terror” que se perpetuou e serve de desculpa para toda e qualquer violência do Estado, aí incluídas tortura e repressão periférica de cunhos racista e classista; e o fato de o incentivo à violência de Estado vir tanto do circo midiático, com os Datenas da vida, quanto do picadeiro político, prato cheio para demagogos travestidos de paladinos da panaceia contra o crime.



Importação acrítica
Mas não se limita a querelas brasileiras o recrudescimento dos modelos punitivos. O acirramento do debate sobre criminalização e direitos humanos está intrinsicamente ligado à emergência de um “Estado penal e policial” nos EUA, em substituição ao “Estado caritativo”, como observa o sociólogo.Loïc Wacquant. Seus estudos fornecem a radiografia de um processo que, sob patrocínio do ideário neoliberal, transformou as cadeias dos EUA em um proveitosos negócio, abarrotando-as de negros e pobres por cujo encarceramento o Estado limita-se a pagar, desinteressado de direitos e obrigações.

E é assim, no bojo da assimilação acrítica de um modelo punitivo peculiar aos EUA, que ganha cada vez mais força no Brasil a pregação de políticas tais como a privatização dos presídios (em andamento) e a redução da idade de maioridade penal. Esta, uma medida francamente contrária ao espírito do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – um avançado arcabouço legal de proteção à infância, como tal internacionalmente saudado quando de sua promulgação em 1990, mas que ora é cada vez mais discutido e atacado, ainda que a maioria de seus artigos jamais tenha sido de fato incorporada à prática social (em mais um exemplo desse fenômeno tão brasileiro que é o das leis que não “pegam”).

Se esse cenário de crescente repressão é nacional, ele se mostra mais evidente no Rio de Janeiro de Wilson Batista, em parte porque sua topologia e suas pronunciadas assimetrias sócioeconômicas põem a nu – como talvez em nenhum outro centro urbano do país – as profundas desigualdades de classe que o poder quer ocultar, em parte porque, com o auxilio de de um grande grupo de mídia, promove-se uma deliberada criminalização da pobreza por meio da qual os cidadãos e cidadãs que habitam os morros e áreas periféricas têm seus direitos constitucionais sistematicamente negados.

Nesse quadro - marcado pelo maniqueísmo e por preconceitos de classe - o debate público em torno de cidadania tende a se restringir à ótica da criminalização. Como aponta a pesquisadora Helena Singer, “os discursos e as práticas sobre os direitos humanos não chegam à população sob a forma de igualdade, felicidade e liberdade, mas sim de culpabilização, penalização e punição, integrando um movimento mundial de obsessão punitiva crescente”.




As UPPs em xeque
Assim, ainda que a sensação geral seja a de se estar enxugando gelo, a um custo material e humano altítssimo, o investimento em alternativas e em políticas de médio e longo prazo é mínimo e quase sempre fugaz: como o caso das UPPs no Rio de Janeiro ilustra de forma didática, o conluio entre interesses eleitorais, interesses empresariais e interesses particulares das próprias forças responsáveis pelo monopóio da violência dos morros se sobrepõem, na prática, ao bem comum que a dita “pacificação” sugeria. Seja com traficantes, com milicianos ou com policiais, o fato é que os moradores cntinuam não-cidadãos, sujeitos a uma rotina de exploração, humilhação e violência.

Com o caso Amarildo, o modelo UPP já dera mostras contundentes de que estava longe de ser a panaceia redentora que Lula, Cabral e Paes anunciaram. Mas nem os políticos locais, nem o governo federal, nem as corporações midiáticas sediadas no Rio estão interessadas em interromper o fluxo de ganhos variados – nem todos confessáveis - que tal modelo proporciona. Que além das benesses assumam também o ônus de sua miopia: o assassino do garotoEduardo pode ter sido um PM, que deve ser investigado e, se confirmada sua culpa, punido, mas a responsabilidade política pelo sangue derramado é dos governantes que financiam e/ou administram o modelo UPP - nominalmente Dilma Rousseff, Pezão e Paes – e dos meios midiáticos que entusiasticamente o promovem.

E manifestar solidariedade e cobrar punição do assassino não passam de obrigação. Não bastam: deixar o tempo passar, não intervir e insistir na continuidade do modelo das Upps tal como hoje em execução equivale a ser conivente com futuros assassiantos e violações sistemáticas dos direitos dos habitantes das áreas em questão.

Há uma simbologia evidente, epifânica, entre uma pátria que se diz educadora, as possibilidades efetivas de aprovação da diminuição da imputabilidade penal e o assassinato a sangue frio de um menino de 10 anos pela PM. Não vê quem não quer.
http://cinemaeoutrasartes.blogspot.com.br/2015/04/upps-e-as-ilusoes-da-criminalizacao.html

Para onde vai a política brasileira?


Qual o futuro da política no Brasil? A resposta para esta questão, seja ela qual for, aponta para o esgotamento e a necessidade de superação do modus operandi político vigente no país ao menos desde o advento da “Nova República” (1984).

Seu traço distintivo é um tráfico de cargos e bens públicos, alegadamente em troca de apoio político, mas que na prática significa a perpetuação, nos níveis federal, estadual e municipal, da cultura estamentária de que nos fala Raymundo Faoro, protagonizada por politicos parasitários que sugam e tiram proveito privado do Estado.


Mercado de pulgas

Tal escambo do bem público tem sido a prática politica padrão de todos os partidos que se revezaram no poder desde a redemocratização. Só muda o rótulo: “balcão de negócios” na época do PMDB de Sarney, “toma-lá-dá-cá” com FHC e os tucanos, “realpolitik” na era petista de Lula e Dilma.


A recente fala pública de Aloizio Mercadante anunciando, sem o mínimo pudor, que o segundo escalão será preenchido por quem votar com o governo é a coroação dessa baixa politica, em que cargos técnicos e de comando – que deveriam ser ocupados pelos especialistas mais dotados e capazes – viram mera moeda de troca por um voto no Parlamento. E tal voto - que, por sua vez, deveria se dar em consonância com a consciência, a convicção e o alinhamento ideológico, político e partidário do parlamentar - é trocado por um cargo bem remunerado e de algum prestígio. Como se de uma mera relação comercial se tratasse.


Danos de monta

É imenso, incomensurável o atraso que tal prática politica acarreta ao país, cuja condução fica a cargo de pessoas não apenas despreparadas, mas ávidas por ganhos pessoais advindos de sua posição privilegiada; à democracia, que já carece de partidos programáticos e ideologicamente coesos; e à deteriorização da visão pública que se tem da política, como antro de sujeira e de corrupção.


Essas mais de três décadas de polticas de gabinete, entre a chantagem parlamentar e o suborno do Estado, tornaram a própria política brasileira anacrônica. E esse atraso não diz respeito apenas a instituições, e sim às relações entre arena pública, democracia e ação politica, em todas suas potencialidades. No bojo de tal processo – que o poder quer imutável – são mínimas e negligenciadas as formas efetivas de participação política e de democracia direta; a incorporação efetiva de uma pauta biopolítica que supere o meramente econômico e abarque, como prioritárias, as demandas comportamentais, corpóreas, sanitárias, educacionais, ambientais, recreativas – bem como a promoção efetiva dos direitos humanos de quarta geração.


Esgotamento

Mas, por outro lado, há um claro esgotamento público para com a corrupção, açulado por grandes processos em que Justiça e mídia desempenham um papel central, como o Mensalão e a Operação Lava-Jato. Para além das questões de justeza, de tratamento desigual entre escândalos tucanos e escândalos petistas, de teorias conspiratórias variadas sobre golpes e contragolpes, o fato é que a tolerância para com a corrupção acabou e que esta, neste momento, mostra-se profundamente associada, no imaginário político brasileiro, ao PT.

PT cuja guinada violenta à direita, hoje simbolizada pelo estelionato eleitoral em curso, não é fato recente, decretado pelas consequências da traição eleitoral de Dilma. Trata-se de um processo, que começou efetivamente lá atrás, na primeira eleição de Lula, com concessões sucessivas ditadas por uma realpolitik cada vez mais elástica e amoral - que seria temerariamente esticada, ao longo dos anos, por alianças do PT com personagens como Jader Barbalho, Collor e Maluf.



Corrupção moral

Tal processo agravou-se com o primeiro mandato de Dilma, que - como este blog documentou desde o início – teve na ampliação da hegemonia política via concessões ao conservadorismo o seu principal norte político. Uma dinâmica cujo fim seria – como alertamos diversas vezes entre 2011 e 2014 – o desequilíbrio do pêndulo da política brasileira para o espectro centro-direita, com o esvaziamento político, eleitoral e programático da esquerda.

O que se vê hoje em dia é apenas o bagaço dessa laranja: o petismo tanto cedeu à direita que terminou sua presa, praticando, neste momento, a mesma velha política neoliberal da era FHC, cortando na carne de trabalhadores e desempregados para fazer altos superávits primários e agradar ao mercado financeiro. Se a corrupção financeira é ainda por alguns ingênuos ou fanáticos questionada, a corrupção moral torna-se evidente.



Covardia e conformismo

E setores que poderiam se contrapor, à esquerda, a esse quadro, preferiram, nas últimas eleições, apostar no medo - já covarde e artificialmente inflado pelo marqueteiro oficial -, confortavelmente insistindo na leniência para com o retrocesso petista, que já era mais do que evidente.

Pois que Dilma tenha se reeleito graças ao decisivo “voto crítico” de psolistas e demais setores que se dizem de esquerda é uma prova precoce – mas contundente – não só da miopia e má formação política dessa pretensa vanguarda, mas que ela não é coerente com as demandas de renovação das práticas politicas no país. Continua presa aos padrões convencionais e mercantilistas da política. Um museu de grandes novidades, como disse o poeta.


Horizontes

Portanto, a resposta à pergunta que abriu este texto – qual o futuro da política no Brasil? - não virá desse campo minado, desses políticos de discurso ora nuançado, ora agressivo de esquerda mas de postura invariavelmente retrógrada quando o tema é segurança pública, drogas ou sexualidade.


Os termos de tal resposta nos é permitido apenas intuir; só o futuro dirá se a atual crise do país acabará por impor mudanças de monta ou a agravar ainda mais o retrocesso. Por ora podemos apenas afirmar que a renovação da política no Brasil passa, necessariamente, por um lado, pela horizontalização do debate popular e pelo salto qualitativo no exercício da cidadania; e, por outro, pela reformulação dos partidos e pelo fim do aparelhamento e loteamento do Estado a cada troca de siglas no poder. Que forças serão capazes de se incumbirem de tamanha tarefa só a própria população brasileira poderá determinar.

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