sexta-feira, 8 de maio de 2015

O que mudou para o patrão e para as domésticas?


Senado aprova projeto que regulamenta o trabalho doméstico
"Projeto que regulamenta os direitos dos trabalhadores domésticos é finalmente aprovado. Se você é empregador(a) ou empregado(a) precisa conhecer as novas regras


A Proposta de Emenda à Constituição que ficou conhecida como PEC do Empregado Doméstico (ou PEC das Domésticas) foi aprovada na noite desta quarta-feira no Senado e alterou direitos trabalhistas e benefícios para a categoria. Entre as principais mudanças estão a indenização em demissões sem justa causa e conta no FGTS.

O texto aprovado pelos senadores retoma o que havia sido aprovado no Senado há cerca de dois anos, com apenas alguns pontos mudados pela Câmara, como a possibilidade de dedução de despesas com empregados domésticos no Imposto de Renda. O projeto segue para sanção da presidente da República. As regras passam a valer 120 dias após a sanção presidencial.

Veja, a seguir, os destaques do que ficou estabelecido pela PEC do empregado doméstico:

1) Quem é considerado trabalhador doméstico?
Aquele que presta serviço de forma contínua a pessoa ou família por mais de dois dias na semana. O local de trabalho é casa da família e a atividade do trabalhador não pode gerar lucro ao empregador.

*JORNADA DE TRABALHO*

2) Qual é a jornada de trabalho fixada em lei?

Oito horas diárias ou 44 horas semanais

3) É possível contratar trabalhador doméstico por período menor?

Sim, mas segundo a lei, o regime de tempo parcial não pode exceder 25 horas semanais de trabalho, com limite de uma hora extra diária.

4) É possível negociar a duração diária da jornada de trabalho?

A lei prevê que trabalhador e patrão possam negociar jornadas de 12 seguidas por 36 horas de descanso

5) O empregado é obrigado a registrar a duração da jornada de trabalho?

Sim, a lei prevê a anotação em meio manual, mecânico ou eletrônico.

*HORAS EXTRAS*

6) A lei fixa limite de número de horas extras?

Não, mas prevê que a hora extra trabalhada deverá ser acrescida de no mínimo 50% do salário

7) O trabalhador doméstico terá direito a banco de horas?

Sim, mas as primeiras 40 horas extras precisam ser pagas em dinheiro. A exceção prevista pela lei a compensação da hora extra trabalhada durante o mês.

8) E se o trabalhador sair do emprego antes de compensar as horas extras?

O empregador precisará pagar as horas extras ao empregado. O valor será calculado com base na remuneração atual do trabalhador.

9) Como é o trabalho em domingos e feriados?

A lei prevê que as jornadas em domingos e feriados sejam pagas em dobro, a não ser que o empregado ganhe uma folga para compensar o dia trabalhado.

*FÉRIAS*

10) O trabalhador doméstico tem direito a férias?

Após um ano de trabalho, com acréscimo de um terço a mais que o salário.

11) O empregado pode dividir as férias do trabalhador?

O limite é de dois períodos de férias por ano, sendo que um deles precisa ser de no mínimo 14 dias.

12) Trabalhador com jornada reduzida também tem direito a férias?

Também após um ano de trabalho, m mas o período de descanso é menor. Varia de oito a 18 dias conforme a duração da jornada semanal.

13) O trabalhador pode vender parte das férias?

Até um terço das férias, com direito ao recebimento do abono pecuniário.

14) O empregado que mora no emprego precisa sair da casa durante as férias?

Não. A lei prevê que o trabalhador pode permanecer durante as férias.

*TRABALHO NOTURNO*

15) O que a lei dos domésticos prevê como trabalho noturno?

Trabalho noturno é aquele realizado entre as 22h e as 5h.

16) O trabalhador receberá adicional noturno?

O acréscimo é de, no mínimo, 20% sobre o valor da hora diurna

17) Há alguma diferença na duração do trabalho noturno?

A hora trabalhada é menor, de 52 minutos e 30 segundos. Significa que, além do adicional noturno, o trabalhador recebe mais pelo trabalho na madrugada.

*DESCANSO*

18) Qual é o período de descanso do trabalhador?

Ele tem direito a parada de 1h durante a jornada de 8h para descanso e alimentação. Se houver acordo entre trabalhador e empregado, o descanso pode ser reduzido para meia hora.

19) Qual é o período de descanso do trabalhador que mora no emprego?

O intervalo pode ser desmembrado em dois períodos. Cada um deles precisa ter pelo menos uma hora até o limite de quatro horas.

20) Qual é o período de descanso entre jornadas?

Entre dois dias de trabalho, o descanso mínimo é de 11 horas consecutivas.

*DESCONTO DE SALÁRIO*

21) O empregador pode efetuar descontos no salário do trabalhador de gastos com moradia e alimentação?

Não. A lei proíbe descontos para fornecimento de alimentação, vestuário, moradia e higiene. Gastos com transporte e hospedagem para empregados em viagem também não podem ser descontados.

22) Empregador pode descontar valores de plano de saúde?

Sim, até o limite de 25% do salário. Os descontos autorizados são de adiantamento de salário, planos de saúde e odontológicos, seguro e previdência privada.

*FIM DO CONTRATO*

23) Se o empregador quiser demitir o trabalhador doméstico?

Será preciso dar o aviso prévio de 30 dias, com acréscimo de 3 dias a cada ano trabalhado. O limite total de aviso prévio é de 90 dias.

24) E se o empregador não der o aviso prévio?

Precisará pagar o salário equivalente ao período.

25) O trabalhador também precisa dar aviso prévio?

Sim. Se não cumprir aviso prévio, o empregador pode descontar do salário o período equivalente ao aviso prévio não trabalhado.

26) O doméstico precisa cumprir aviso prévio mesmo que esteja mudando de emprego?

Não. Essa é a única exceção para dispensa de aviso prévio na lei.

27) Quando o empregador pode demitir o trabalhador por justa causa?

A lei lista os motivos 
> Maus tratos a idosos, enfermos, pessoas com deficiência e crianças sob
cuidado direto ou indireto
> praticar mau procedimento
> condenação criminal do empregado, após conclusão de todo o processo
> preguiça no desempenho das funções
> embriaguez habitual ou em serviço
> violação da intimidade do empregador e de sua família
> indisciplina ou insubordinação
> abandono de emprego (quando o trabalhador se ausenta do trabalho sem justificativa por mais de 30 dias)
> praticar ato lesivo à honra ou à boa fama de qualquer pessoa,
inclusive empregador ou família, durante o serviço
> praticar jogos de azar

28) Quando o trabalhador pode pedir a rescisão do contrato por culpa do patrão?

> Quando forem exigidos serviços superiores à força do empregado doméstico, proibidos por lei, contrários aos bons costumes ou alheios ao contrato
> Quando o empregado doméstico for tratado pelo empregador ou sua família com rigor excessivo ou de forma degradante
> Quando o trabalhador estiver em risco
> Quando o empregador não cumprir obrigações do contrato
> Quando o pregador ou família praticarem ato lesivo à hora ou boa fama ou agredirem o trabalhador e família

29) O trabalhador doméstico terá direito ao seguro-desemprego?

Sim, se não for demitido por justa causa. Mas o acesso ao benefício só será permitido se o trabalhador comprovar vínculo empregatício de pelo menos 15 meses nos últimos dois anos. A exigência é maior do que para os demais trabalhadores com carteira assinada.

30) Qual será o valor do seguro-desemprego e por quanto tempo o trabalhador terá direito?

A lei prevê que o doméstico terá direito a um salário mínimo por três meses

31) O trabalhador doméstico pode perder o seguro-desemprego?

Sim. A lei prevê o cancelamento do benefício em caso de recusa de nova
proposta de trabalho com qualificação condizente com a do empregado e
salário equivalente. Se houver indício de fraude, o benefício também é
suspenso

32) O doméstico terá FGTS?

Sim. O trabalhador recolherá 8% do salário para o fundo de garantia.

33) Se o trabalhador for demitido sem justa causa, terá direito à multa de 40% sobre o valor do fundo, como os demais empregados?

Não. A lei cria um instrumento alternativo. Patrões vão recolher 3,2% do salário pago para compensação do trabalhador caso percam o emprego.

34) Em caso de demissão por justa causa, para onde vai esse dinheiro?

Neste caso, o trabalhador não terá direito ao valor, que voltará para o empregador

35) Onde o dinheiro ficará depositado?

Em uma conta vinculada ao contratado de trabalho do empregado, mas distinta da conta do FGTS. O valor só poderá ser movimentado após a rescisão do contrato.

*PAGAMENTO DE TRIBUTOS*

36) Quem deve pagar os tributos do trabalhador?

O empregador. A lei cria o Simples Doméstico, que unifica a cobrança de impostos, e prevê que o sistema esteja regulamentado em 120 após a entrada em vigor da lei. Por meio do Simples serão recolhidos a Contribuição Previdenciária do trabalhador e a patronal, o pagamento da contribuição para acidentes de trabalho, o FGTS, o equivalente à indenização por fim do contrato de trabalho e também o Imposto de Renda (quando for necessário recolher)

37) Quais os valores serão recolhidos?

> de 8% a 11% de INSS descontados do salário do trabalhador
> 8% de contribuição patronal para o INSS
> 8% para o FGTS
> 3,2% para indenização por perda do trabalho
> 0,8% para acidentes de trabalho
> Imposto de Renda (quando houver)"

informações de Agência Câmara e Folha de S.Paulo

terça-feira, 5 de maio de 2015

O professor, esse sobrevivente


Professor é uma das profissões com menos prestígio no Brasil.

Dê aulas onde for, a maioria ganha mal e tem péssimas condições de trabalho.

Quem trabalha em escola pública, então, nem se fala.

É um sobrevivente.

O massacre promovido pela PM paranaense contra os professores mostra bem o que a nossa sociedade pensa deles - policiais, como todo mundo, têm filhos nas escolas e, pelo que se viu, acham que os professores não passam de bandidos que merecem ser espancados.


O professor, porém, pela sua importância social, deveria ser tratado, como se dizia antigamente, a pão de ló.

Principalmente nos dias de hoje, quando muitos país praticamente abandonam a educação de seus filhos, preocupados que estão em trabalhar, ganhar dinheiro, consumir, fazer parte do paraíso capitalista.

Dessa forma, o professor passa a ser se não a única, pelo menos uma das âncoras mais fortes para o desenvolvimento do jovem.

O problema é que os alunos têm diante de si, pelo menos aos seus olhos, uma pessoa derrotada pelo sistema, pois recebe uma mixaria de salário, mal e mal se sustenta como classe média - é um perdedor, na lógica de nossa sociedade de consumo.

A presidenta Dilma proclamou que este seu segundo mandato teria como marca a educação, graças aos recursos que espera conseguir da exploração da camada de pré-sal do petróleo.

Vamos torcer para que isso ocorra.

Mas vamos torcer também para que, ao lado de mais verbas para a educação, junto com a construção de mais escolas e universidades, o professor seja devidamente valorizado, ganhe um salário decente, dê aulas satisfeito e possa exercer o seu trabalho de maneira digna.

Porque para o Brasil realmente superar as suas imensas mazelas só tendo um povo educado - em todos os sentidos.

Estamos a milhares de anos-luz disso, a julgar pelas manifestações de ódio e preconceito que brotam a todo minuto nas redes sociais e pelas notícias do completo descaso com que grande parte dos governantes contempla a área.

Infelizmente para todos, os Betos Richas, os Geraldos Alckmins, que tratam os professores a pontapés, ainda são muito poderosos e não dão nenhum sinal de que mudarão seu modo de governar.
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/05/o-professor-esse-sobrevivente.html

Dez evidências de que o politicamente incorreto dos anos 80 e 90 moldou o século XXI

Via GGN
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Nos anos 80 e 90 parecia que tudo era permitido: de apresentadoras de programas infantis da TV em trajes sumários a matinês com centenas de meninas rebolando tentando imitar os passos da banda “É o Tchan”. Tudo isso interrompido por intervalos publicitários onde marcas de chocolate eram associadas a meninos vencedores que conquistavam muitas namoradas. Essas décadas “politicamente incorretas” marcaram a infância e adolescência da chamada Geração Y, cujos membros são os líderes de opinião na atualidade. Qual a parcela de contribuição dada por essa cultura supostamente permissiva para a atual visão de mundo dessa geração? Foram décadas que, vistas pelo olhar politicamente correto atual, brindaram-nos com produtos culturais que sugeriam erotização precoce, pedofilia e exploração sexual em plena mídia de massas. A partir de uma lista de dez evidências de uma época onde “tudo era permitido”, vamos tentar encontrar influências da infância politicamente incorreta na mentalidade atual da Geração Y.

Apresentadoras de programas infantis em trajes sumários apresentando bandas de hits com refrões de gosto duvidoso; nos intervalos publicitários, comerciais mostrando crianças ostentando orgulhosamente produtos e ridicularizando o telespectador-mirim que ainda não os compraram; anúncios publicitários que comparavam uma boa apólice de seguro com um uísque de qualidade que lhe dá um ótimo dia seguinte; matinês em casas de shows onde meninas levadas pelos pais rebolavam sensualmente ao som da banda É o Tchan; comerciais infantis associando um chocolate com as conquistas amorosas em série em um acampamento cheio de meninas, etc.
Estamos falando das décadas de 80 e 90 que, para o nosso olhar atual globalizado e sensível a questões éticas e morais, foram épocas decididamente politicamente incorretas. São décadas que marcaram a infância e adolescência da chamada Geração Y – conhecida também como “geração do milênio” ou “geração da Internet”, nascidos após 1980 e, segundo outros, em meados dos anos 1970.
Uma geração que se desenvolveu no Brasil numa época de grandes avanços tecnológicos em ambientes altamente urbanizados. Mas também cresceu assistindo a uma indústria de entretenimento que irradiou uma cultura que hoje é celebrada em festas retro temáticas com os “trashs dos anos 80 e 90” – um mix de criações publicitárias politicamente incorretas com programas infantis de TV precocemente erotizados.
Geração Y: uma geração tecnológica moldada  pelo politicamente incorreto?
               E também uma geração que chegou à idade adulta e se tornou líder de opinião através de redes sociais, blogs, sites da Internet, assim como editores, artistas e apresentadores de TV.
Em que medida essa cultura politicamente incorreta dos anos 80 e 90 participou da formação da visão de mundo da Geração Y?
Flávio Lico, educador e fundador da Avenca Consultoria Educacional, levantou uma instigante questionamento através de uma postagem em sua página no Facebook: “Será que o estágio bizarro de civilidade e desrespeito mútuo que vivemos hoje no Brasil não tem a ver com o ambiente doente em que crescemos?”. E finaliza perguntando “até que ponto os anos 80 e 90 contribuíram para os anos 2000 e 2010?”.
Dez evidências
O questionamento de Flávio Lico baseou-se em uma lista do site Catraca Livre intitulada “7 provas de que o Brasil aceitava tudo nos anos 80 e 90” – uma relação baseada numa lista elaborada pelo Buzzfeed de onde o Catraca Livre selecionou as “7 mais bizarras” evidências - clique aqui e veja a lista do Buzzfeed.
Um desfile de peças publicitárias como o do menino com cigarrinhos de chocolate da Pan, Xuxa com figurino sumário no Clube da Criança da Rede Manchete e inacreditáveis capas de disco – uma do "Carnaval dos Baixinhos" da Xuxa com um bebê de fio dental e outra do Gilberto Barros com uma criança enfiando a mão por dentro da sua camisa numa incômoda sugestão de pedofilia sob o título “Me faz um carinho!”. 
Antes de aprofundamos no tema, vamos ver a lista abaixo com algumas contribuições das pesquisas do “Cinegnose”:
1. Xuxa no Clube das Crianças da Rede Manchete (1983-86)
2. Cigarrinhos de Chocolate da Pan
3. Capa do disco "Carnaval dos Baixinhos"
4. Gilberto Barros: "Me faz um carinho!"
5. Comercial da tesoura do Mickey (1992)


6. Comercial do "Baton" da Garoto (2005)

Comercial de 2005 com conceito de criação iniciado nos anos 1990 com o "Compre Baton" onde um menino repetia o slogan como se tentasse hipnotizar o telespectador
7. "É o Tchan" para crianças em matinês infantis em casas de shows nos anos 1990
8. Grupo "Molekada": um dos resultados das matinês do "É o Tchan"
9. Seguradora Indiana é como uísque... a criação publicitária politicamente incorreta dos anos 80
10. Crianças seminuas montadas numa moto para vender jeans - saiu num gibi do Pato Donald em 1980
Já no final do século XX (e, portanto, nos estertores dessa era de “permissividade”), o escritor Marcelo Rubens Paiva demonstrava sua perplexidade em 1999 em um artigo no jornal Folha de São Paulo sobre as matinês do grupo É o Tchan no Via Funchal em São Paulo: “Criança sabe muito bem onde é o bumbum, popô, pipi etc. E “É o Tchan” aponta para uma direção: que arrebitar, rebolar, subir e descer é bonito e dá dinheiro. Os defensores do estilo Tchan dizem que é malicia dos adultos. Mas que é estranho ver tanta menininha rebolando, é.” – PAIVA, Marcelo Rubens. “É o Tchan faz matinê para crianças assanhadas”, Folha, 14/09/1999.
Para ele, a grande “lição” que o “É o Tchan” deu para as crianças da Geração Y é que rebolar e empinar o bumbum é bonito e dá dinheiro.
Talvez, nessa opinião de Rubens Paiva esteja o início da discussão desse tema – a erotização precoce de uma geração como o aspecto simbólico de uma educação fálica para o consumo. Em outras palavras, por trás da erotização precoce se escondia uma preparação também precoce de uma geração para o consumismo.
Décadas permissivas: a educação para o consumismo
Como demonstra a literatura crítica e acadêmica sobre a sociedade de consumo, toda publicidade é fálica: a transformação de todo e qualquer produto em símbolo seja de status, distinção, poder ou prestígio social. E essa, por assim dizer, sintaxe publicitária deve ser ensinada cada vez mais cedo para preparar sempre novos consumidores para o mercado.
Dos assistentes de palcos e apresentadoras infantis semi nuas, passando pelas meninas do Via Funchal arrebitando o bumbum e chegando à campanha do “compre Baton” onde um menino enche sua barraca de meninas, o significado é sempre o mesmo: começar o aprendizado do consumo a partir do próprio corpo da criança – seu primeiro simbolismo fálico: o mais bonito, o mais enfeitado, o mais sedutor etc.
Geração Y e a ausência dos pais

Ausência dos pais: uma geração marcada pelo excesso de tolerância e consumismo
compensatórios
                 O traço marcante da Geração Y foi a ausência paterna, seja de forma física (pais fora de casa preocupados demais com a carreira e o trabalho) ou simbólica (eles nada tinham a dizer, a não ser tentar cada vez mais ficarem parecidos com seus próprios filhos como fossem eternos jovens adultos).
Seus pais foram egressos da chamada Geração X - geração que cresceu após a Segunda Guerra Mundial nas décadas de 1950 e 1960. Uma geração marcada pela permissividade do “tudo é possível” após a explosão da cultura jovem e pop da década de 1960 combinado com a pílula anticoncepcional e a chamada “Revolução Sexual”.
Ao mesmo tempo, essa geração também foi marcada pela incerteza, ausência de identidade, um mal estar mal definido pela insegurança em relação ao futuro – um mal estar seja causado pela ameaça de uma hecatombe nuclear como provável final da Guerra Fria ou, no caso do Brasil, pela crise econômica crônica e a hiperinflação que estimulavam as pessoas a pensarem apenas no presente – uma sensação de contínua liquidação: aproveite antes que tudo se acabe!
Incerteza e hedonismo criaram as bases culturais de um individualismo sobrevivencialista que caracterizou a Geração X. E também criou pais culpados por não terem dado a atenção devida aos seus filhos – cercaram seus filhos de excessos de indulgência e tolerância como formas compensatórias para, através do consumo, reparar uma suposta culpa: dar aos filhos tudo aquilo que a TV anunciava para que seus filhos aparentassem serem vitoriosos e felizes, assim como os modelos televisivos.
Agências de publicidade e de pesquisas logo descobriram esse traço indelével dessa geração nos anos 80 e 90 e carregaram as tintas numa linguagem publicitária erótica e fálica para as crianças, sabendo que seus pais tentariam de alguma forma compensar seu profundo sentimento de culpa.
Meninas se espelhando nos trajes sumários da apresentadora Xuxa e suas paquitas ou bandas que simulavam serem minis “É o Tchan” como o grupo infantil “Molekada” foram a face mais visível e trash desse período.
O nascimento do politicamente correto

Enquanto crescia, a Geração Y viu crescer a onda do politicamente correto que passou a execrar tudo aquilo que marcou a sua infância. Bem menos do que uma conspiração censora das esquerdas como muitos intelectuais conservadores acusam, o politicamente correto cresceu paralelo à expansão globalizante dos mercados de consumo. O multiculturalismo e o marketing globalizado trouxeram a necessidade de uma espécie de ressemantização das criações publicitárias e conteúdos audiovisuais. Dessa maneira, evitam-se choques culturais ou conflitos com grupos étnicos, sexuais ou ideológicos.
O clássico exemplo foi a versão politicamente correta do cowboy da Marlboro: de laçador de cavalos selvagens das campanhas de décadas passadas passou a observá-los correndo livres ao por do Sol, numa versão ecologicamente correta.
             Ecologistas, feministas, ativistas LGBT, cicloativistas, defensores dos animais, vegans, etc., em sua maioria líderes de opinião da Geração Y, renegaram suas infâncias incorretas para criar um novo código ético e moral revisionista que começa a não poupar nem a própria História – caçam-se escritores e obras como, por exemplo, o Sitio do Pica-Pau Amarelo de Monteiro Lobato redescoberto como uma narrativa suspeita de conter personagens e situações racistas.
Sítio do Pica-Pau Amarelo: racista?
Repentinamente, Monteiro Lobato passou a ser suspeito de ser uma influência perniciosa para crianças em idade escolar. Algo tão ameaçador quanto o fantasma da erotização infantil representados por Xuxa e “É o Tchan”.
Dessa maneira, a Geração Y começa a flertar com o neoconservadorismo. Poderíamos especular que essa postura revisionista e radical seria uma reação à atmosfera do “pode tudo” dos anos 80 e 90 alimentado por uma indústria publicitária cujos profissionais eram de uma Geração X muito mais permissiva.
Geração Y neoconservadora

Em 2009 a empresa Bridge Research realizou um extenso estudo sobre o perfil da Geração Y brasileira. A pesquisa mostrou um forte traço individualista: a Política, Drogas ou Pena de Morte são defendidas ou atacadas muito mais por uma postura individualista do que em relação a uma questão pública ou social – sobre a pesquisa clique aqui.
Danilo Gentili: o politicamente incorreto revivido como farsa
             Na questão da Pena de Morte, por exemplo, demonstra como uma geração fruto das maiores liberdades e do maior fluxo de consumo da História se tornou radicalmente contra qualquer coisa que atrapalhe esses valores; sobretudo se for violência ou segurança pública.
Os entrevistados acreditam que a Pena de Morte poderia ser eficaz na solução para os altos índices de criminalidade nas capitais brasileiras. Isso demonstra estarem muito menos preocupados com as origens sociais do problema do que com uma suposta solução de um ponto de vista do pragmatismo individual.
                Mas a Geração Y parece sentir o mal estar de todo esse revisionismo e ressemantização cultural: afinal, tanto nos anos 80 e 90 quanto no século XXI as tendência corretas ou incorretas da cultura continuam sendo ditadas pela indústria publicitária e do entretenimento, como vimos acima.
De volta ao politicamente incorreto?

Paradoxalmente, na tentativa de fugir dessa atmosfera moralizante parte da Geração Y se apega ao politicamente incorreto, mas não mais vivido como farsa como no passado, mas agora de forma trágica.
É o caso de humoristas stand up como Danilo Gentili ou Rafinha Bastos – através de poses de rebeldes que se insurgem contra uma suposta onda de censura de Esquerda, cometem piadas grosseiras que se transformam embullying contra minorias, etnias, grupos socialmente inferiores e ridicularização de indivíduos fragilizados.
                Esses típicos líderes de opinião da Geração Y acabam se tornando presas fáceis do moinho da política atual pelo seu individualismo e analfabetismo político: serão moídos pela pedra do moinho até serem reduzidos ao bagaço e descartados... ou reciclados, como reza a cartilha do politicamente correto.
http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2015/05/dez-evidencias-de-que-o-politicamente.html

sábado, 2 de maio de 2015

Quanto vale um deputado?


Observe o quadro.

Em letras pequenas está estampado que o salário de um deputado equivale ao de 144 professores.

É claro que deve envolver aí a verba total que um parlamentar recebe.

Mas nem por isso deixa de ser obsceno.

Que tal se fosse o contrario?

E que fique claro.

Ninguém é contra os deputados.

O que se questiona aqui é o abismo salarial.

Vi no: http://blogdobourdoukan.blogspot.com.br/2015/05/quanto-vale-um-deputado.html

Quando a religião atrapalha a política


ilustração-política
Existe uma artimanha um tanto complexa, mas muito difundida entre os que ocupam ou desejam obter os cargos a chefe do poder executivo ou representativo no Congresso Nacional, que é utilizar discursos religiosos como trampolim para fins políticos particulares. Assim, se algum candidato for um empresário capitalista, ele não se apresentará como tal, isto é, defendendo seu lobby econômico, mas sim como um cristão fervoroso, decidido a transformar o seu país numa fantástica teocracia por meio de propostas de leis biblicamente justificáveis. Paradoxalmente, terá melhores condições de conquistar o apoio alucinado das camadas mais oprimidas pelo poder financeiro.
Se esse mesmo indivíduo expusesse os verdadeiros motivos de sua causa política, confessando previamente os interesses que engrandecem os lucros das instituições privadas, quase não encontraríamos tantos pobres “de direita” confiando votos a ele. Portanto, a estratégia mais eficaz é entusiasmar o povo conforme suas tendências mais simplórias e incoerentes, fazendo-o crer cegamente em tudo o que for dito. As consequências que decorrem disso são perniciosas: qualquer expectativa de uma participação política racional é quase inteiramente destruída, pois a influência religiosa impede a maioria das pessoas de reconhecer sua verdadeira identidade de classe socioeconômica.
Na Câmara dos Deputados, a bancada fundamentalista BBB (Bíblia, Boi e Bala) é a pioneira em pautar discussões em preceitos bíblicos torpes, sem enfatizar nenhuma das especificidades de classe social, como a desigualdade de renda, desemprego, acesso aos serviços básicos e o domínio do poder privado nos deveres públicos. Ou seja, as propostas que de fato deveriam tramitar acabam sendo demonizadas. O povo precisa, além de depositar sua fé na compatibilidade religiosa de seu representante, aceitar, como mero telespectador, todas as intenções “não-religiosas” que ele lhe impuser. Logo, as reformas das quais o Brasil mais precisa serão conduzidas por uma confluência de fé contrária a qualquer debate imparcial baseado em estudos e fatos.
É este o caso da PEC 171/1993, que pretende reduzir a maioridade penal para 16 anos. O Velho Testamento das Sagradas Escrituras é citado para reforçar essa medida: “A alma que pecar, essa morrerá”. Frases descabidas como essa estimulam as tendências mais simplórias e incoerentes do povo; é uma aliança direta com a fragilidade e ignorância popular. Ninguém poderia ser mais responsável por isso do que o atual presidente da casa, o peçonhento Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que vem ameaçando abertamente seus opositores com autoritarismo, chantagem e tirania.
Beto Richa (PSDB), reeleito governador do Paraná nas eleições de 2014, não apresentou uma conduta tão diferente do observado entre os integrantes do Congresso Nacional. Em muitas de suas campanhas, Richa se empenhou em angariar o apoio massivo de entidades religiosas: “Farei um governo respeitando os valores cristãos, a ética e as pessoas. As igrejas terão um papel importante no resgate dos valores da família”, disse ele. Após alguns meses de camuflagem, muitos se deram conta de que a causa da greve dos professores, ocorrida Em Curitiba-PR no dia 29 de abril deste ano, nada tem a ver com “valores cristãos”, mas sim com interesses antiquados contidos na PL estadual 252/2015, que alterou o sistema previdenciário dos servidores públicos.
Questiono quantos professores religiosos que o elegeram foram às ruas de Curitiba, decepcionados com a perigosa fusão de fé e política que fizeram. Em troca, acabaram duplamente desmantelados pela repressão militar somada à indesejável aprovação da PL 252/2015, em um dos episódios mais humilhantes que o Brasil já teve. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, também aqueceu o esqueleto de sua campanha com o apoio de milhares de religiosos e, inclusive, se coligando ao pouco alfabetizado Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial do Poder de Deus.
A religião, mais do que uma arma destrutiva para políticas teocráticas, serve também como um permanente disfarce que encobre o lobo em pele de cordeiro. Como quase sempre aconteceu ao longo da história, se as mentes esclarecidas se encolherem, cada vez mais os discursos públicos incentivarão os crentes a decidirem o destino da sociedade inteira.
Vi no: http://www.bulevoador.com.br/2015/05/quando-a-religiao-atrapalha-a-politica/

Ah! Se as direitas se educassem…


Ah! Se as direitas se educassem, seriam as esquerdas que sairiam às ruas reivindicando contra posturas do governo federal. Quiçá bateriam panelas depois de ouvirem discursos da presidenta - e não durante - que tentam explicar o inexplicável.

Ah! Se as direitas se educassem, não mais seriam analfabetos políticos. Deixaríamos de ouvir tolices sobre comunismo, socialismo e anarquismo. Se as direitas se educassem, atualizariam seus conceitos e conteúdos. Não reproduziriam falácias forjadas pelas elites industriais, há quase 100 anos, para desqualificar e desconstruir as primeiras organizações trabalhistas que surgiam no país.

Ah! Se as direitas se educassem, jamais ouviríamos o termo bolivarianismo para qualificar qualquer ideologia ou política aplicadas no Brasil. Não mais sentiríamos a dor aguda nos ouvidos - que reflete em uma aguilhoada no cérebro - cada vez que se referem a um governo, que não passa de um arremedo do modelo keynesiano, como comunista bolivariano. Confesso, isso dói demais.

Ah! Se as direitas se educassem, elogiariam o muito que há para se criticar no atual governo, como o ministério neoliberal - que seria surreal para um governo "comunista “bolivariano”- bem como o conservadorismo adotado em suas políticas econômicas, mas não criticariam programas que requerem parcos investimentos e trazem resultados extremamente relevantes como o Bolsa Família, ou as políticas afirmativas como as de cotas raciais, sociais e de gênero.

Ah! Se as direitas se educassem, aprovariam políticas recentes, adotadas pela presidenta, que trouxeram perdas aos trabalhadores, como a ampliação do prazo para seguro desemprego e o direito a pensões de viúvas jovens, e não reprovariam o vestido que ela usa ou o fato de não ser boa oradora. Se as direitas se educassem, não chamariam qualquer mulher de vaca, vadia ou vagabunda, por não simpatizarem ou concordarem com suas posturas políticas.

Ah! Se as direitas se educassem, passariam a construir seus próprios argumentos por intermédio de análise e reflexão e não mais reproduziriam ideias preconcebidas que lhes são introjetadas por mídias manipuladoras e desonestas. A propósito, teriam vergonha de reiterar ideias da Veja, Globo, Bandeirantes e páginas como Revoltados Online, OCC e muitas outras. Se as direitas se educassem passariam a pensar por si só.

Ah! Se as direitas se educassem… 

Bem, se as direitas se educassem, ao mesmo tempo se reduziriam, pois classes médias e pobres deixariam de ser direita. Sobrariam alguns poucos, representantes das elites como Delfim Neto, Semler, e outros que já são educados. São dos poucos que conhecem sobre o que falam e, surpreendentemente (?), pouco criticam o governo. Pois sabem que nada tem de esquerda.

Ah! Se as direitas se educassem, saberiam que todos - exceto eles próprios - deveriam sair juntos às ruas reivindicando uma reforma política ampla e profunda e que permitisse a transição para um modelo mais próximo da democracia participativa.

Quem sabe assim, parte das esquerdas despertassem de seus devaneios de construírem heróis míticos. Desta maneira, aceitariam que alguns de seus ídolos os decepcionaram e se envolveram em atos de corrupção que antes criticavam. Reconheceriam que na política não há inocentes.

Ah! Se as direitas se educassem…

Ciranda partidária em curso


"Outras fusões ocorrerão, além da do PSB com o PPS

Tereza Cruvinel, Blog: Tereza Cruvinel 

Com os 513 deputados distribuídos em 28 partidos, o funcionamento da Câmara tornou-se mais complicado do que nunca. Em busca de hegemonia e preparando-se para as mudanças que podem vir com a reforma política, o movimento de fusões está em curso. Ele pode ser benéfico, reduzindo o número de siglas com representação, mas pode também representar para o governo a necessidade de negociar com siglas mais fortes e mais exigentes.

A fusão PPS-PSB já foi aprovada e dará mais musculatura a uma sigla de oposição alternativa ao PSDB. O novo partido vai se chamar PSB e manterá o número 40. Na prática, uma incorporação da sigla de Roberto Freire pelo partido órfão de Eduardo Campos, que vem tendo dificuldades para se encontrar sem seu líder maior.

O movimento mais ousado, porém, ainda não começou. O DEM vai se fundir com o PTB. A nova sigla se chamará PTB e será presidida pela filha de Roberto Jefferson, deputada Cristiane Brasil, que preside os petebistas. O número será o 25, do atual DEM. Isso fortalecerá a sigla de oposição derivada do antigo PDS.

Mas, num segundo momento, haveria a fusão deste novo PTB com o PMDB, resultando num partido que teria 150 deputados. Esta sim seria a maior força partidária na Câmara desde a Constituinte, quando o PMDB, sozinho, elegeu 201 deputados. E se Dilma já enfrenta dificuldades com a sigla de Renan e Eduardo Cunha, mais trabalho teria para negociar com este “partidão”.

Em outra frente, prospera a fusão do PSD com o recriado PL, que pode fortalecer a sigla do ministro Gilberto Kassab. E o PROS também busca um casamento, agora que os irmãos Gomes estão praticamente excluídos do comando da sigla. E, por fim, Marina Silva segue batalhando pela Rede, que agregará deputados hoje no PV e no PSB. Miro Teixeira, do PROS, por exemplo, já trabalha para viabilizar a Rede e a ela se filiará.

Para que tudo isso aconteça, o Congresso terá que derrubar um veto parcial da presidente Dilma a um dispositivo legal que impede a filiação de deputados sem incorrer em punição por infidelidade a siglas decorrentes de fusões partidárias. Mas mesmo sem a derrubada do veto, os “criadores” de siglas acreditam que podem se basear em regulamentação do próprio TSE para prosseguir com a ciranda partidária."

Uma radiografia da manipulação

Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa

"Educadores que participaram, na terça-feira (29/4), do debate na sede da Ação Educativa, em São Paulo, questionam por que este observador considera que a mídia tradicional do Brasil apoia e potencializa a agenda conservadora que segue tramitando em velocidade anormal na Câmara dos Deputados (ver aqui).

De fato, não basta registrar que os parlamentares afinados com o ideário mais retrógrado na diversidade do Congresso aproveitam a crise política insuflada e sustentada pela imprensa para fazer o Brasil avançar rumo ao passado. É preciso mostrar como, na prática, a mídia faz esse trabalho sujo.

Nas edições de sexta-feira (1/5), os jornais destacam o fato de a presidente da República, que foi sitiada em Brasília desde sua eleição, em dezembro, ter optado por não se pronunciar na televisão por ocasião do Dia do Trabalho. A presidente se omite para evitar se expor a essa situação estimulada pela imprensa diariamente. No limite da governabilidade, a jovem democracia brasileira enfrenta seu maior desafio desde o fim da ditadura militar, e corre o risco de ver crescer uma onda de retrocesso institucional, à sombra desse protagonismo da mídia.

Há muitos aspectos a serem considerados nesta encruzilhada da vida nacional. Por exemplo, o fato de a aliança que governa o país contar entre seus aliados com a bancada do Partido Progressista, cujo nome é um acinte ao sentido real da sua representação política. No programa gratuito da sigla, quinta-feira (30/5) à noite, o que se ouviu sobre a proposta de redução da maioridade penal foi um despautério de bobagens, no estilo típico dos programas policialescos da televisão. O credo reacionário desses aliados do governo petista pode ser resumido na seguinte frase, dita em tal programa: “As leis garantem direitos demais”.

Com tais amigos, o governo federal realmente não precisa de oposição. Mas a situação é ainda pior na porção maior da base controlada pelo PMDB, que se dividiu em três facções, duas das quais, sob o comando do presidente do Senado, Renan Calheiros, e do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, desdenham da liderança do articulador político do governo, o vice-presidente Michel Temer.

Dano colateral

A imprensa explora esses desentendimentos, dando amplo destaque a qualquer coisa que digam Calheiros e Cunha, desde que represente algum desgaste do Executivo. O jornalismo declaratório é colocado a serviço desse processo que desgasta não apenas a imagem do Executivo, mas principalmente desacredita o Parlamento e a própria política. Esse cenário estimula as vozes do obscurantismo, que ainda pedem a volta da ditadura militar.

O eixo das manipulações vai de alto a baixo, em todas as instâncias onde esteja no poder o partido que lidera a aliança governamental em Brasília: na sexta-feira, por exemplo, a Folha de S. Paulo oferece como manchete uma bobagem retirada do noticiário sobre um dos corriqueiros conflitos na região da capital paulista conhecida como Cracolândia. O ataque da polícia do Paraná contra servidores públicos, que deixou mais de 200 feridos, sumiu da primeira página, substituído pelo seguinte título: “Gestão Haddad falou com tráfico antes de agir na cracolândia”.

Embora um editorial da Folha, com o título “Os excessos de Richa”, critique a violência policial no Paraná, o jornal paulista cria um factoide em cima da prática rotineira de funcionários da prefeitura de São Paulo ao negociar o ingresso em um ambiente de alto risco como é a Cracolândia.

Ora, este observador já havia publicado, em pelo menos duas ocasiões, que reina naquela região um pacto silencioso entre agentes públicos, voluntários e representantes do crime organizado para manter sob controle a venda de crack aos dependentes (veraqui e aqui).

Observa-se que, toda vez que, em algum lugar do Brasil, um político da oposição apoiada pela imprensa se coloca em situação constrangedora, os jornais tratam de contrapor o fato a algum evento envolvendo políticos do Partido dos Trabalhadores ou seus aliados. Assim, o contexto negativo que envolve o governador tucano do Paraná é coberto por um factoide criado pela Folha para atingir o prefeito petista de São Paulo.

O que há por trás da manchete da Folha é o mesmo jogo pelo qual a mídia tradicional trata de demonizar um lado do espectro político, enquanto protege ou enaltece o outro lado. O fato de que essa manipulação estimula o avanço de projetos que podem jogaro Brasil de volta ao século 19 é considerado apenas um dano colateral nessa luta pelo poder."

quinta-feira, 30 de abril de 2015

E eles? Caso MC Melody ofusca 'erotização de meninos' no funk


Além de MC Melody, MC Pikachu (foto) junto a outros "meninos do funk" são alvo de inquérito do MP
"MC Melody, a funkeira de 8 anos que aparece em vídeos com roupas justas, cantando sobre "recalque" e dançando no chão de uma casa noturna paulista, alcançou o topo entre os assuntos mais buscados no Google na última quinta-feira.

 

Mas o mesmo não ocorreu com MC Brinquedo, MC Pedrinho e MC Pikachu - funkeiros-mirins com milhões de seguidores nas redes sociais, famosos pelas letras pornográficas que cantam por aí.

Como a BBC Brasil revelou nesta sexta-feira, a "erotização" destes cantores por familiares e produtores está sendo investigada pelo Ministério Público de São Paulo. Entretanto, mesmo com letras mais pesadas que as de Melody (que não usa palavrões, referências a drogas ou sexo explícito), os meninos do funk vêm sendo poupados de críticas.

Enquanto o verso mais polêmico de Melody diz "para todas as recalcadas, aí vai minharesposta, se é bonito ou se é feio, mas é foda ser gostosa”, o refrão mais conhecido de MC Brinquedo (13 anos) afirma: "Tu vai lamber, tu vai dar beijo, tu vai mamar com essa boquinha de aparelho".

MC Pedrinho, 12, é conhecido como desbocado: "Como é bom transar com a p*** profissional. Vem f**** no clima quente, no calor de 30 graus".
MC Pikachu, de 15 anos, vai além: "Estava na rua, fumando um baseado, chegou a novinha e pediu para dar um trago (...) Dá a b***** para mim, (dá) o c* e fuma".

Além da erotização infantil, a diferença no tratamento entre funkeiros e funkeiras mirins leva a uma discussão sobre gênero: a sexualização dos meninos é permitida e a das meninas não?

Machismo

Procurado, o pai de MC Pedrinho disse que não fala com a imprensa. A BBC Brasil também tentou contato por telefone com a KL Produtora, responsável pelas carreiras de MC Brinquedo e MC Pikachu, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

Para Claudia Bonfim, pesquisadora da Unicamp, especialista em educação sexual, a discussão reflete a "desigualdade de gênero histórica" e a "educação machista" presentes da sociedade brasileira.

"O padrão moral para meninos e meninas é diferente aqui no Brasil. Menininhos de 2 ou 3 anos de idade são estimulados a mostrar o pipi para familiares em sinal de masculinidade", diz. "Já às meninas pede-se discrição, sobriedade - elas têm que se sentar de pernas fechadas, por exemplo."

A questão também foi levantada por leitores nas redes sociais. Pelo perfil da BBC Brasil no Facebook, o comentário da leitora Zulmira Bracco alcançou 2.170 likes:

"Aproveitando o embalo vejam também o MC Pedrinho - Dom Dom Dom - 12 anos, mas por ser do sexo masculino a sexualização precoce dele passa despercebida, na lei do 'meu filho pode tudo, minha filha não pode nada'. Vamos entender que não podem e não devem porque são crianças e não pelo gênero sexual com o qual nasceram", escreveu.

Para a especialista da Unicamp, autora dos livros Educação Sexual e Formação de Professores: da educação sexual que temos à educação que queremos e Desnudando a Educação Sexual, "o tratamento desigual sobre a sexualização de meninos e meninas tem que ser superado".

"A cada cinco minutos uma mulher sofre violência no Brasil e isso é fruto da desigualdade de gêneros", ressalta Claudia Bonfim, que afirma que esta exposição pode render prejuízos e traumas como "vida sexual reprimida ou o contrário, quantitativa, muito genitalizada, em uma busca desesperada por prazer."

O comentário não indica, entretanto, que sexo deva ser um tabu entre as crianças.

"A sexualidade está presente desde sempre e não só pode como deve ser discutida junto aos pais de maneira delicada, não necessariamente só pela palavra, mas por gestos, toques, com cuidado", diz Bonfim.

Estigmatização

A popularidade dos funkeiros-mirins é atestada por sua audiência nas redes sociais: "Roça Roça", de MC Brinquedo, alcançou mais de 10,5 milhões de visualizações em menos de dois meses no YouTube.

Nas mesmas redes, após o caso MC Melody, o genero musical funk vem sendo alvo de ataques frequentes.

"Tem que acabar com o funk", disse um internauta, pelo Twitter. "O funk é um câncer que precisa ser estirpado do Brasil", afirmou outro, via Facebook.
A professora da Unicamp contemporiza. "A música sertaneja no Brasil tem letras e coreografias que também induzem à sexualização e as crianças estão reproduzindo sem críticas", afirma.

"No axé, idem. Às vezes não é a letra que está carregada de sexualidade, mas a coreografia sim", diz Bonfim. "Infelizmente sabemos que o funk sofre muito preconceito no Brasil, mas é importante lembrar que o problema não está só nele."

A perseguição ao funk é o argumento de MC Belinho, pai de MC Melody, que em vídeo publicado recentemente no Facebook disse ser alvo de ameaças de morte por conta da exposição da filha.

"Só estão criticando porque ela canta funk", disse."