segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Brasil de cara contra o muro



Christian Dunker aponta a reversão de perspectiva de futuro como um dos principais problemas que trouxe o Brasil para o labirinto em que se encontra. 

Por Davi Carvalho - Plataforma Política Social - 

Em um dos momentos de crise mais complexos da sua história, o Brasil sofre com problemas que alimentam ainda mais o difícil cenário já instalado. A falta de disposição ao diálogo, a busca por culpados e a transformação da política em algo menor, supostamente sem importância para a vida coletiva e individual, torna nebuloso ou inviável a possibilidade de um futuro esperançoso para o país. Soluções simplistas e superficiais ganham notoriedade no debate nacional sobre a sociedade, a política e a economia. Para entender como todos esses aspectos podem impactar e interferir na vida e na saúde das pessoas conversamos com Christian Ingo Lenz Dunker, professor titular de psicanálise e psicopatologia do departamento de Psicologia Clínica da USP. Com tese sobre as patologias de linguagem ele aponta a reversão de perspectiva de futuro como um dos principais problemas que trouxe o Brasil para o labirinto em que se encontra. “Enquanto se tem um ideal, sabe-se para onde vai e como se enfrenta uma situação. Mas quando se para de sonhar, em vez de o conflito nos orientar para a ação ele se manifesta em patologias sociais, intolerância, desrespeito, crise da relação entre poder e autoridade ou desestabilização de  referências simbólicas. Enfim, uma série de coisas que temos visto acontecer de forma mais visível”. Abaixo, confira a entrevista completa e ao final uma palestra de Dunker sobre o Brasil, no Café Filosófico.  

Davi Carvalho: Existe uma definição padrão para o que se entende por saúde mental?

Christian Dunker: Não trabalhamos com uma espécie de “padrão ouro” do que seria o perfil de normalidade. Ao contrário do que podemos pensar em relação ao corpo humano, ao organismo, que tem uma relação funcional entre os sistemas. A saúde mental se define muito mais pela capacidade de colocar-se em conflito, suportar seus próprios desvios, criar anomalias e conviver com o fato de que normalidade é uma invenção de nossos desejo de adequação e conformidade.

Talvez, essa pergunta poderia ser substituída por: o que é uma vida bem vivida? Uma vida realizada em seus próprios termos? Para isso temos alguns critérios. Por exemplo, reconhecer e fazer reconhecer  seus desejos, a capacidade de criar  ideais e suportar suas desilusões, a consequência delirante por trás de aspirações de independência e autonomia. Tudo isso forma os litorais da condição trágica da experiência humana. Reconhecer as condições que permitem eleger fins que se deseja, tanto do ponto de vista da vida que foi individualizada quanto da história que tornou possível essa vida. 

O cenário que o Brasil vive, de crises que se retroalimentam, que parece não apontar para um fim, torna as pessoas mais vulneráveis?

CD: Sim! No fundo a vulnerabilidade é uma palavra que modaliza uma atitude importante, que é a capacidade de se deixar afetar e ser afetado. Nos últimos anos temos vivido um aumento de conflitos  social, mas de certa forma ele ocorre pela maior visibilidade de contradições antes silenciadas ou suprimidas.

Mas não é porque temos conflitos que sofremos.  Há conflitos que têm uma dinâmica produtiva, por exemplo, os que envolvem mudança de posição de classe, seja pela ascensão, seja pelo medo de queda, a possibilidade de que as relações se alterem é extremamente produtiva, mesmo que dolorosa. Conflitos que atravessam a criação de filhos são outro exemplo de como a arte política nos é exigida no cotidiano: uma educação monotemática, unidimensional e baseada em valores certos e indiscutidos, ou seja, sem conflito, é uma educação em geral ruim ou muito empobrecedora.  A conquista cognitiva é outro exemplo, o desafio do conhecimento envolve a construção de conflitos produtivos, ela não acontece em meio ao conforto e a segurança.  Nem por isso somos dominados pelo sofrimento que eles impõem. Qual a diferença então?  Temos uma espécie de arco de destino que sanciona ou rejeita certas gramáticas de conflito, que valoriza ou desacredita outras gramáticas. Ou seja, o que determina a valência política do sofrimento é o saber sobre o conflito, é a nossa teoria da transformação que, por exemplo, lê o sofrimento como sacrifício justo, como caminho para a redenção ou como iniquidade intolerável. A partir desta gramática de reconhecimento podemos acreditar ou nos demitir dos meios para enfrentá-los. Quando a maioria dos eleitores vota nulo, branco ou se abstém, isso significa que nossa teoria da transformação não reconhece mais o sistema partidário, representativo tal qual ele se apresenta, como meio legítimo para lidar com sofrimento que nos toma e  com os conflitos que o subjazem.  

O que seria essa teoria?

Tivemos uma mudança social significativa, de pessoas que saíram da condição de miserabilidade e formaram uma nova classe trabalhadora ou nova classe média. Junto com isso aumentou brutalmente o acesso à vida digital e suas redes sociais, com seus blogs e com seus youtubers, com seu jornalismo alternativo. Relações históricas de ambiguação e exercício de poder, como a que se via com os empregados domésticos, com os gêneros e com a monocultura discursiva, se desequilibraram. A vida em forma de condomínio havia organizado nossos ideais, mas ela não servia mais como uma boa teoria da transformação, baseada no medo e na inveja como afetos políticos dominantes. O Brasil viu florescer um novo tipo de religiosidade, neopentecostal, com uma crença prática no sucesso e um saber bem definido sobre as modalidades de ascensão social, prosperidade e prestígio. A judicialização da Saúde, da Educação e da política abriram espaço para um novo tipo de apropriação simbólica da justiça.  Tudo isso acontecendo levanta o espírito nacional das promessas e esperanças. Em parte elas nos decepcionaram porque se cumpriram, mas em vez do paraíso elas só nos levaram  a descoberta de um universo completamente novo de problemas.  

O tamanho do mundo se expandiu. Ideal mais simples tornam-se insuficientes para lidar com este tipo de abertura, nossas teorias sobre a transformação entraram em colapso. Quando isso acontece saímos da lógica na qual luto para fazer-me reconhecer pelo meu desejo, cuja lei se concentra neste saber sobre a transformação e regredimos para a contagem dos amigos e inimigos, para a detecção de quem somos nós” e quem são “eles”.  Quando nossos sonhos se esgotam, em vez de o conflito nos orientar para a ação, seja ação de transformar o mundo seja o esforço de transformar a nós mesmos, isso se manifesta em patologias sociais, intolerância, desrespeito, crise ou desestabilização das referências simbólica de autoridade.

Quando a relação entre nosso sofrimento e nosso saber sobre ele se desfaz isso começa a produzir sintomas, efeitos massivos, generalizados, capilarizados que têm toda chance de afetar sistemicamente nossas formas de vida, definidas por uma certa relação entre desejo, linguagem e trabalho. Se o conflito não evolui produtivamente, começa a gerar confrontações com o seu vizinho, com a sua sombra, com seus inimigos imaginários.A tensão social que não gera transformação, mas uma espécie de impasse, porque a minha teoria da transformação implica que a do outro tem que ser eliminada. O problema passa a ter um diagnóstico simples demais, simples e malthusiano: tem gente demais no mundo. Tem alguém que está gozando um pouco mais que eu. A felicidade que me falta pode ser corrigida distribuindo infelicidade para os outros, negando-lhes reconhecimento, cidadania ou pertinência simbólica. São respostas muito simples, respostas que polarizam.

Especificamente sobre o Brasil, paramos de sonhar  com o futuro que queríamos para nossos filhos, especificamente com os massivo investimentos em Educação que seriam necessários para isso. Paramos de nos preocupar com o desenvolvimento da empresa e começamos a pensar apenas no próximo quarter, em produzir um bonito balanço para os acionistas. Paramos de nos preocupar com a ciência e nos dedicamos a produzir papers que ninguém lê para fazer pontos no currículo Lattes. Paramos de nos preocupar com o sistema político e nos importamos apenas com quem vai ganhar as próximas eleições. Tudo isso é simplesmente corrupção, corrupção branca de nosso compromisso com o desejo. Paramos realmente de nos engajar no futuro com o qual queremos nos fidelizar e a discussão passou a ser quem é quem. Ricos e pobres, negros e brancos, mulheres e homens, Direita e Esquerda. Primeiro vamos saber quem você é, depois pensamos se dá para fazer algo juntos, finalmente depois disso podemos pensar em escutar o que você diz. Aqui a palavra é decisiva para inverter esta crise identitarista que tomou conta do país. Primeiro vem a palavra, depois veremos quem você é. O sofrimento identitário é uma armadilha, pois se há identidades que são sistematicamente silenciadas, tornadas invisíveis e tratadas como zumbis, também é preciso lembrar que quando deposito a causa do meu sofrimento em quem eu sou e não consigo transformar quem eu sou, a transformação possível vai ser no choque com o outro, pelo ódio ao outro, pela identidade do outro. É sempre muito mais fácil suturar sua crise de identidade reforçando a identidade maléfica do outro.

 Aí se cruzam política, economia, sociedade, indivíduos …

CD: Há poucos anos tinha-se um arco de futuro, uma expectativa ou esperança.  Uma hora você bate a cara contra o muro. Conforme você se aproxima desse muro ele se projeta para um novo horizonte, se isso não acontece ocorre essa mutação do saber que organiza nossa relação com o sofrimento. Ora, se não tem futuro, não é só que o passado não importa, mas você destrói o verdadeiro presente. De certa maneira, isso também é um processo global, é um processo neoliberal.Viver sem pensar no próximo capítulo. Reduzir o horizonte, aumentar o tamanho do eu e diminuir o tamanho do mundo. Isso está presente em processos como políticas públicas, que são projetos para se pensar 20, 30 anos. 

Em vez disso inventamos esta imbecilidade da PEC 241 e o congelamento preventivo do pior. A aceitação de que não conseguimos conter nossa voracidade para devorar o futuro, nos faz assassiná-lo já.  Ao fazer isso cria-se uma cadeia de consequências que gera pessoas com atitudes mais predatórias, imediatistas, mais egoístas. Não é o triunfo do individualismo, como uma certa tradição liberal quer nos fazer crer, mas o triunfo dos grupos organizados, com maior poder de pressão dentro do governo que poderão “amassar” os desperdiçadores de dinheiro público: Educação, Cultura, Saúde, Direitos Humanos.  Tudo isso vai ser sentido como uma patologia do individualismo, a patologia pela qual eu só posso sofrer como um indivíduo, só posso sofrer na “forma indivíduo”. Se formos fazer valer Thomas Hobbes, e sua guerra de todos contra todos, eu vou me dar mal, se eu não for capaz de instrumentalizar a lei e o recurso que ela legitima, que não é só de coibir a violência de quem transgride a lei, mas de praticar a violência em nome da lei. O que os estudantes das escolas ocupadas estão enfrentando, e isso é só o começo da conversa, ou melhor da falta de conversa. 

Mas para uma certa visão de mundo essa atitude é funcional…

CD: Essa atitude que era a forma clássica do liberalismo lidar com o sofrimento, ou seja proteger as relações, as pessoas, os trabalhadores porque isso prejudica a produção. E quando prejudica demais o Estado precisa intervir. Há um certo limite político de quanto sofrimento podemos aguentar. Esta política vai sendo substituída, como aconteceu no Brasil, de 2014 para cá, por uma concepção neoliberal que se especializa em instrumentalizar o sofrimento. Explorar pessoas com jornadas de trabalho além do exaustivo, medicalizar a infância, induzir sofrimento entre equipes para aumentar a competição, instalar gestores interessados em extrair mais valor de mais sofrimento. E aquele sofrimento que não pode ser convertido em aumento de produtividade deve ser ignorado como desvio individual, como o “lobo solitário” que se revolta contra o sistema e sai atirando em todo mundo como um terrorista, como o zumbi da cracolândia que será legado á sua própria errância. Ou seja, a gestão do sofrimento passa a ser um capítulo fundamental da maneira de entender e lidar com o novo mundo em forma de condomínio. 

Isso tem a ver com o que chamamos popularmente de autoestima?

CD: Eu diria que o conceito de autoestima é muito ruim. Ele parece dizer alguma coisa imediata, descritiva e intuitiva, mas é uma noção problemática. Por exemplo, um indivíduo arrogante e que superestima, pode se sentir cronicamente com “baixa autoestima”, porque não atinge seus ideais superinflacionados e na verdade sofre com um complexo de superioridade e não inferioridade. O Freud chamava de autoestima (Selbstgefüllt) seria melhor traduzido por sentimento de si, o que envolve nosso senso de familiaridade, temporalidade, nossa apropriação das posições de classe, raça, gênero. Autoestima sugere uma dimensão de amor por si mesmo que não confere nem com o amor próprio (amour prope), nem com o amor de si (amour sui). A sede por “likes”, a obsessão com a fama e o efeito celebridade decorre de uma ascenção do amor próprio com um rebaixamento do sentimento de si. Descobrimos assim que temos uma propriedade fundamental: nós mesmos, nossa marca, nossa imagem, nosso personagem social. Como toda propriedade em um mercado de imagens seu valor depende da comparação com outras imagens do mesmo “segmento”.

Mais uma vez é preciso entender que o neoliberalismo não é só um sistema econômico, mas uma forma de moralidade que tem como uma de suas principais características a aceleração do tempo e da vida. O que você provoca em uma pessoa quando você diz que ela tem que viver, necessariamente, 10 anos em 2? Quando ela deve esperar ganhar seu primeiro milhão aos 25 anos? Insatisfação permanente. Isso é que gera a sensação de que seu sentimento de si é baixo, ou seja, a suposição que o amor próprio dos outros é muito mais elevado.
 

Esse processo todo faz as pessoas perderem a capacidade de reconhecer seus sentimentos, emoções?

CD: Para entender isso é preciso distinguir, no interior da dialética do reconhecimento, o que se reconhece (o si e o próprio), por quem se é reconhecido (o outro e o Outro) e o ato real de reconhecimento. Nesta equação a forma, o outro e o ato pelo qual somos reconhecido determina diretamente o potencial patógeno em termos de sofrimento. Exemplo: caiu uma bomba. Estamos todos na miséria. Sofrimento real, sim, mas eventualmente não patológico, porque estamos todos juntos. Temos que aceitar a tragédia que se abateu sobre nós. Estamos diante de uma situação que interpretamos como universalizável.

Então ficamos sabendo que a bomba só afetou a zona leste da cidade, onde por acaso moramos. É um problema. Alguns são reconhecidos de uma forma, outros se sentirão neuroticamente culpados por sobreviver. Vamos dizer agora que a ONU designe equipes de resgate, mas que elas escolham salvar apenas os motoristas de taxi e os donos de supermercado. A miséria se transforma em revolta. Neste ponto surgem motivos teológicos que justificam que eles e não outros sejam salvos. Nosso próprio sofrimento é transformado em redenção.  Veja como o teor de minha experiência de sofrimento se altera em função da minha interpretação da felicidade ou da infelicidade do outro, da justiça ou da injustiça, da autoridade que a nomeia, em função da narrativa que a explica.

 E esse reconhecimento se dá através do trabalho, do consumo, tudo que pode ser afetado em períodos de crise…

CD: Um erro teórico é imaginar que se é a favor ou contra o consumo. Se você pensar, o consumo é uma instância extremamente democrática. É uma condição de inclusão. A possibilidade de você entrar em um loja e poder comprar algum produto e ser aceito naquele lugar, em termos de reconhecimento, é um avanço brutal. Ou seja, o consumo não é só uma instância de exclusão, que produz sonhos irrealizáveis e insatisfação infinita, mas de inclusão também. O verdadeiro problema é saber que tipo de gramática de reconhecimento vai aparelhar as relações de consumo. Por exemplo, o Brasil da minha geração, era conhecido como um lugar de consumo conspícuo onde o valor gozoso de um objeto está no fato de que eu posso humilhar o outro causando-lhe inveja. Ele é propositalmente exagerado para que eu possa me exibir e gozar de que o outro não tem o carro, a escola, a roupa que eu tenho, e você não. Se você começa estimular uma gramática de reconhecimento nesses termos, atravessando o consumo, isso vai terminar em violência. Óbvio, o problema ocorre porque está se fazendo algo para ele acontecer. Você destila inveja, junta com ódio e termina em violência. A Esquerda não conseguiu se conciliar com o tema do consumo. Sua versão de interesse público associou-se demasiadamente com o interesse Estatal. Isso bloqueou seu diálogo com as teologias da prosperidade, com a colaboração da sociedade civil, com os movimentos sociais, com os coletivos de cultura, com as universidades. Cultivou-se uma espécie de horror ao dinheiro privado, como se todo ele fosse obviamente demoníaco. Por outro lado, incentivou-se o consumo das famílias, o que teve, sim, efeitos amplamente inclusivos. Ora, se todo dinheiro que toque a coisa e o interesse público só pode passar por dentro do Estado, isso constitui um foco e uma tentação permanente para obter os meios de controle, por onde a corrupção e a instrumentalização do Estado, com o pior dinheiro privado, pode se realizar bem debaixo de nossos olhos.

Ódio e ressentimento …

CD: Existe no Brasil uma ascensão do ressentimento de classe, de gênero. Ele junta todas as problemáticas. No fundo, o ressentimento é uma crença demasiada na onipotência do Outro, que é quem me fez mal. A ideia de que a minha vida não está “funcionando” direito porque o outro fez alguma coisa e me impediu é duplamente problemática. Primeiro porque ela desconhece a noção de pacto social, ou seja, de que alianças e oposições se dão entre sistemas de interesse que não desconhecem o todo. É o que se percebe bem no golpe que assistimos hoje, de um lado a Esquerda sente que foi despojada do poder por meios semi-lícitos, por outro a Direita ficou envergonhada e temos reformas brutais em andamento, segundo o espírito mágico das mãos limpas, ou seja, sem que ninguém pague realmente a conta. Aqueles que eram contra Dilma, de repente se saem com essa de que não eram a favor de Temer, eles só queriam a saída de uma, não a entrada de outro. Logo, quem realmente está vendendo nossos 20 próximos anos para pagar as contas? Quem está pulverizando a aposentadoria e os direitos sociais? Quem vai pagar a conta pelo sucateamento do SUS e das universidades? O senhor Ulisses Ninguém, o Vampiro de Düsseldorf? O golpe não é o impeachment, mas o truque de que ninguém realmente quer isso que está acontecendo diante de nossos olhos. Isso é típico da cultura do ressentimento. Como ela trabalha em um sistema de covardia e desimplicação subjetiva, quando o ódio extermina seus inimigos, depois do duelo e do linchamento vão todos para a casa e voltam a ficar em cima do muro. E na solidão de suas colunas de jornal pensam: “foi ele que me fez fazer isso”. Saímos da cultura do ressentimento para a cultura da indiferença.

É possível tratar isso?

CD: É possível tratar o ressentimento e temos dois recursos para fazê-lo, mas estão sendo completamente ignorados: primeiro a cultura e depois a política. A experiência cultural não é orientada para um fim nem para um gozo imediato. Estamos falando de uma verdadeira experiência cultural, que é a experiência de linguagem, de simbolização, de coletivização e que envolve muitas outras coisas. É muito estranho que em meio a tantos candidatos para a vilania, os grupos escolhidos como grandes “atrapalhadores do progresso nacional” sejam gente como artistas e intelectuais, professores e alunos de escolas públicas. Em meio a tantos cortes, seja o Ministério da Cultura o escolhido. Em meio a tantos problemas a questão para a Educação tornou-se a Escola sem Partido. Obviamente não é pelo poder, nem pela representatividade, nem pelo barulho que tais grupos podem fazer, ainda que tentem, mas porque eles representam este grão de mal-estar que é preciso erradicar. Eles representam a possibilidade que tem que ser negada, ou seja, de que existe vida fora da produção e do consumo, existe vida fora do agora. É por isso que eles são representados como indolentes, aproveitadores e favorecidos. Eles não estão sofrendo como o resto. E em parte isso é verdade, eles sofrem de outra maneira.

A segunda forma de tratamento é a política, mas não gostaria de reduzir esse termo à política representativa, institucional, partidária, que se transformou em um negócio. Isso não é política, é o negócio da política. É a produção e o consumo do empreendedorismo das leis e do uso da violência. Precisamos falar de outro entendimento de política que é uma forma de entendermos que o futuro tem que ver com aquilo que queremos. E o que a gente quer tem a ver com diferenças. E diferenças se resolve pela palavra. Então, é fundamental reinstituuir a política propriamente dita, porque nós paramos de fazê-la, porque nos convenceram de que tudo que ela pode nos dar é este espetáculo farsesco de deputados e senadores.  Estamos fazendo outra coisa: gestão de sofrimento, família no poder, moral segregativa, religião de resultados. Tais coisas são a anti-política.

Política é o campo produtivo das diferenças: palavra indeterminada sob condição de conflito, como na psicanálise. 

No seu livro “Mal estar, sofrimento e sintoma” você fala da “lógica do condomínio”. Essa lógica baseada na exclusão é próprio de sociedades como a nossa, com grande nível de desigualdade? O que essa lógica explica sobre o Brasil que vivemos hoje?

CD: Essa lógica é coisa brasileira. O condomínio como tipo de habitação e moradia é uma invenção que se disseminou pelo mundo, e nós não fomos pioneiros nisso. Há condomínios por toda parte, mas por aqui eles assumiram uma função social que nos é própria. O condomínio como ideia social de vida, com o muro em estrutura de defesa contra supostos inimigos violentos que ficaram de fora, com o síndico que é o arremedo de político, agenciador das leis, o espaço público mimetizado e reconstruído como uma simulacro em forma privada, uma estética kitsch baseada no corte de renda e no padrão de diferenciação por exagero e dissonância de gosto. Até os nomes das coisas são uma paródia involuntária, “Alphaville” a cidade dos “alfas”, de Godard inspirada pelo Admirável Mundo Novo e sua sociedade castas.

Nos EUA, quando surgiu a ideia de se morar em condomínios, nos subúrbios, isso tinha o apelo do “venha para cá e resgate o multiculturalismo. Restitua o sentido de comunidade que está na origem do nosso país. Um lugar de diferenças reconciliadas”.

No condomínio brasileiro a ideia é: “vamos nos defender juntos, porque o mundo é perigoso”. É outra coisa. Há uma espécie de demissão do Estado. Você empreita as responsabilidades. Mantém alguma responsabilidade com o síndico. E só.

Dentro dessa lógica o muro é um símbolo que impede de ver o outro. Se não vejo, não existe. Se não existe, não me afeta. Se não me afeta, estou dormindo tranquilo.

Mas, quando eu não vejo o outro que me constitui, começam a aparecer nos meus sonhos questões como: “o que tem do outro lado do muro?”. O sonho vira pesadelo. A vida perfeita vem com vizinhos barulhentos, adolescentes agressivos, madames fúteis, com a experiência vazia da felicidade entre iguais. Tudo fica pior que na realidade. É bicho que não tem na realidade, mas o sonho de minha razão e o embrutecimento de minha gramática de reconhecimento cria monstros. Na hora, uma parcela significativa de gente decide sair do “condomínio”, o mundo revelou-se bem outro, e batemos de cara contra o muro que nós mesmos criamos. Sua fantasia do outro como alguém com quem não é possível sentar e conversar tornou você sozinho e pobre. A rua passa a ser vista como uma floresta, cheia de seres perigosos, porque eles podem ser apenas iguais a você mesmo, só que de outro modo, de um modo que anos de condomínio te impedem de perceber.

Portanto, além da novidade política da internet devemos acrescentar a completa inexperiência política daqueles que ficaram aprisionados durante anos em “condomínios”. Quando falo de condomínio não são só os residenciais. A lógica do condomínio é também a que vigora nas prisões e seus PCCs, nas favelas e comunidades,  nos shopping centers e seus diferentes muros simbólicos.

Muito do que falamos tem assustado porque ganhou forma e cara nas redes sociais e foi para as ruas… 

CD: Nas redes é possível fazer muita coisa boa, mas ruim também. É a primeira geração que tem esse instrumento. Não dá para julgá-la esquecendo disso. Quando se descobriu a radiação todo mundo achava bonitinho. A cocaína era usada como medicamento e fazia parte da fórmula de refrigerantes. Diante das grandes invenções seus efeitos deletérios são descobertos muito depois. É um espaço semipúblico, estamos aprendendo, mas não sabemos usá-lo. Nossa fronteira clara e distinta entre o que é público, o que é espaço público e o que é interesse público está sendo redefinida. Também o que chamávamos de espaço privado, de intimidade, de pessoalidade passa por uma reforma.

Como você tira o pior de alguém? Para além de suas contenções de culpa, inveja, de educação? A sabedoria popular já nos diz que basta dar poder e saberemos quem é aquela pessoa.  E o palco da internet é uma estrutura de poder. A mídia social te diz que agora você tem um palco, só seu. Junto com isso vem a ilusão de que finalmente você será ouvido, e o que os milhões que te faziam sentir irrelevante vão se dobrar diante de suas palavras e de suas imagens. Pior que a infelicidade banal é a promessa de que ela é passageira e será superada.  Aí as pessoas se desvestem e começam a falar, tem uma reverberação, duas curtidas e você começa a achar que você é o Donald Trump. Obviamente não estamos falando de poder real, se bem que ele exista também nesta situação, mas principalmente do poder imaginário, aquele que concorre para tornar a depressão uma epidemia mundial.

Na mídia tradicional não tem isso. Você só ouve. É a voz do dono da empresa (jornal, televisão, revistas). Antigamente havia uma expressão bem velha chamada “choque de gerações”, para designar a tensão social que faziam dos jovens uma turma de contestadores e revolucionários. Agora que todos são jovens, adultescentes e adoledultos, esquecemos que há uma geração no poder que foi nascida e criada pré-internet, e outra geração que não consegue entender porque certos problemas não são tratados de forma mais transparente, democrática e com participação direta dos interessados, inclusive por meio da democracia digital.  Fomos criados com a ideia de que quem fala é que tem poder. Interessante perceber que o ódio, o ressentimento foram feitos em torno de discursos, não das pessoas se encontrando uma a uma.

Christian Dunker: O Brasil no Divã | Café Filosfófico

 
do:http://www.alanterna.com/2016/11/o-brasil-de-cara-contra-o-muro.html

FHC VAI PARA O TRONO OU NÃO VAI?


Graziano costuma atrair holofotes
Xico Graziano, que assessorava Fernando Henrique Cardoso quando este era presidente da República, praticamente lançou a campanha para o 3º mandato, em artigo que escreveu para a Folha de S. Paulo, cujo título já diz tudo: Volta, FHC.

Eis o trecho culminante:
"Qual liderança poderá recolocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento? Como fazer a reforma política tão desejada? Quem conseguirá estabelecer conexão com a sociedade organizada nas redes? É o que todos querem saber.
Creio que somente o ex-presidente FHC se legitima, pela vasta experiência, sensatez e sabedoria, para nos conduzir nessa difícil travessia",
Graziano fez o serviço completo: apontou o idoso sociólogo como o melhor nome tanto na eleição indireta de um presidente-tampão até 2018 (caso o Tribunal Superior Eleitoral condene os dois integrantes da chapa vencedora em 2014), quanto na disputa nas urnas que haverá se Temer cumprir o mandato até o fim. Com os pés ou com as mãos, o Corinthians é campeão...

Numa resposta enviada do exterior por escrito, FHC desconversou: "Jamais cogitei dessa hipótese nem ninguém me consultou sobre o tema".

Já por telefone, foi curto e grosso:  "Não. A Presidência abrevia a morte".

Brigou com as palavras, como notou o jornalista Jânio de Freitas: "O que a Presidência pode abreviar não é a morte, é a vida. À morte, poderia antecipá-la". 
Teremos um recordista do Guinness Book?

E ficou parecendo um homem público um tanto poltrão. Afinal, aos 85 anos, a vida que lhe resta é tão importante a ponto de, por receio de perdê-la, recusar-se a prestar um último serviço ao País? 

Enfim, pode ser apenas uma manobra de quem não quer ver Geraldo Alckmin bombando no noticiário como está desde que elegeu o poste João Doria. Colocar outro nome na parada serviria para baixar um pouco a bola do Sr. Pinheirinho, pouco importando se os planos de FHC forem outros.

Já no caso de ser mesmo um balão de ensaio, valeria a pena FHC ponderar sobre esta avaliação da jornalista Eliana Cantanhêde:
"Quem alardeia essas ideias pirotécnicas, ou piromaníacas, de derrubar Michel Temer para pôr Fernando Henrique no lugar já pensou em quem, como, onde e por quê? 
O colégio eleitoral seria o Congresso, onde, logo, logo, mais de uma centena de camaradas estarão na fila da Lava Jato. A reação automática seria que o PSDB tirou Dilma e pôs Temer para, aí, sim, dar um golpe. E a economia, a política, a imagem do País e a paciência da sociedade explodiriam de vez". 
do:  https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/fhc-vai-para-o-trono-ou-nao-vai.html

A esquerda e a incompreensão acerca da corrupção

Diversos setores de esquerda vêm manifestando uma recorrente incompreensão acerca do tema da corrupção. Essa incompreensão tem dois eixos: um é de natureza história e empírica; o outro, de natureza conceitual. O eixo histórico-empírico se relaciona ao fato de que a esquerda não aprende com os acontecimentos: os grandes reveses que a esquerda sofreu no Brasil e na América Latina, de modo geral, envolviam denúncias de corrupção, embora não só. Já o eixo conceitual se deve à identificação que a esquerda faz entre combate à corrupção e moralismo de direita, descartando qualquer abordagem moral e ética do tema.
As circunstâncias que levaram ao suicídio de Getulio Vargas, ao golpe militar de 1964, à maior crise do governo Lula (mensalão) é à crise do governo Dilma (Petrobrás) apresentam uma clara e constante imbricação com denúncias de corrupção. Na Argentina, no Chile e agora na Venezuela, as dificuldades de governo de esquerda também estiveram ou estão relacionadas com denúncias de corrupção. Não resta a menor dúvida de que os militares e a direita política potencializaram e potencializam as denúncias e as transformaram em combustível para intervenções armadas contra governos eleitos. Se nada justifica as intervenções militares, também não restam dúvidas de que, de uma forma ou outra, os governos de esquerda foram lenientes e se deixaram envolver por práticas corruptas.
O trágico é que as esquerdas não aprenderam nada com os duros reveses da história. Continuam caminhando para derrotas pelos mesmos caminhos equívocos que derrotaram seus companheiros de ideias no passado recente. Certamente, a corrupção não foi a única causa da derrocada de governos de esquerda. Uma série de incompreensões sobre economia também foram razões centrais dos fracassos. A corrupção das esquerdas em nada alivia a direita: os regimes militares, além das torturas, assassinatos e perseguições, invariavelmente acabaram sob a acusação de corrupção. Igualmente, os partidos liberais ou de centro que estiveram ou estão no poder também não escapam de graves acusações de corrupção.
O Conceito de Corrupção
O conceito de corrupção não é unívoco. Nem mesmo em Maquiavel, que a identificou como o principal mal das repúblicas, o termo aparece com um sentido único. Ela não se restringe a um regime político ou a um tipo de governo: pode ocorrer nas monarquias, nas aristocracias e nas repúblicas e pode afetar os governos dos príncipes, dos aristocratas e do povo. Ela pode ser entendida como a corrupção das leis, dos princípios, dos costumes, da eficácia governamental, das instituições etc. O seu sentido político mais geral se refere à preeminência do bem privado em detrimento do bem público comum. Todo ato de desvio de recursos públicos se enquadra nesta última acepção. A corrupção privada ou social incide em várias dessas acepções.
Uma república corrompida – povo corrompido – segundo Maquiavel é de difícil reordenamento. Como regra, a corrupção do povo (da sociedade) é conseqüência da corrupção dos governantes. A forma de sanear a república corrompida consiste na reintrodução das boas leis e da boa ordem – tarefa que cabe a um líder de extraordinária virtù. A coisa se complica porque quando a sociedade está corrompida, dificulta também o surgimento de um líder de tal envergadura. Enfim, a restauração das boas leis, a promoção da justiça, a religiosidade e os bons costumes são mecanismos imprescindíveis para a restauração da virtù do povo. Para Maquiavel, o combate à corrupção envolve questões técnicas (boas leis e boas instituições), questões políticas (controles e participação ativa dos cidadãos) e questões morais (qualidades e virtudes dos líderes e do povo).
Já a república bem ordenada, para evitar a corrupção, precisa ativar a participação do povo, promover o expurgo dos maus de forma recorrente, renovar os princípios e fundamentos e punir impiedosamente os culpados. O Estado não deve mostrar nenhuma misericórdia para fazer valer a lei. Os mais altos magistrados que se corrompem devem ser rigorosamente punidos para que isto sirva de exemplo e infunda, de forma generalizada, o temor do castigo. Sem a inclemência das leis e a certeza da punição toda república será carcomida em suas próprias entranhas. O exemplo dos líderes é fundamental para que o povo não se corrompa. Os líderes devem comportar-se como verdadeiros heróis. Eles devem ser de “tal reputação e de tal exemplo, que os homens bons desejam imitar e os maus se envergonham de levar uma vida contrária a eles”, diz Maquiavel.
A Corrupção e a Moralidade
  Existem muitos equívocos interpretativos acerca de como Maquiavel estabelece a relação entre a ação política e a moralidade. O primeiro a ser desfeito consiste na tese de que a política, para o escritor florentino, não seria “nem moral e nem imoral, mas amoral”. Na verdade, um dos grandes feitos teóricos de Maquiavel consiste em ter descoberto que a política tem uma moral própria, diferente da moral do senso comum ou da moral cristã. A moral própria da política é a virtù (as qualidades específicas do príncipe no caso da monarquia e, do povo, no caso da república). A existência da moral própria da política implica que, muitas vezes, para promover o bem público, é preciso levar a efeito uma ação que, julgada pela moral comum ou cristã, seria condenável. A moral política é plena de paradoxos e ambigüidades.
Mas Maquiavel é muito mal compreendido, pois o seu metro, tanto no principado quanto na monarquia, sempre é a promoção do bem público, o exercício do bom governo. Assim, nunca se deve contrariar a moral do senso comum e a moral cristã sem uma clara justificativa que seja capaz de resultar em bem público. O fato de dizer que muitas vezes se deve praticar o “mal” para produzir o bem nunca significa que se deve praticar o mal para alcançar um objetivo qualquer e nem mesmo significa dizer que os fins justificam os meios. É por isso que Maquiavel afirma que o governante deve aparecer e ser tido “aos olhos e aos ouvidos dos outros, todo piedade, todo fé, todo integridade, todo humanidade, todo religião, com muito cuidado para que nunca escape de sua boca expressões que não traduzam essas cinco qualidades”.
Aqui está o ponto. Embora sejam diferentes, a moral da política e a moral do senso comum não são opostas. Relacionam-se em suas ambigüidades e paradoxos. Somente nos casos extremos elas se opõem nos meios, mas nos fins também quer o bem público – fim específico da moralidade política. A corrupção contraria as duas morais. Na normalidade da política elas devem andar lado a lado. É precisamente isto o que a esquerda não entende. Não entende porque não pode entender. Não pode entender, pois capitulou, na prática, à tese de que os fins justificam os meios.
Para Maquiavel, a relação entre meios e fins deve ser medida pelos resultados, pelas conseqüências. O homem comum julga o político pela moralidade comum. Por isso, o político jamais deve desprezá-la. E quando as ações dos políticos contrariam os fins relativos à moral política, que consistem na produção do bem comum, e também os fins da moral comum, que são a honestidade, a integridade etc., tem-se o colapso e o apodrecimento do sistema político da república. É esta situação que o PT ajudou construir e que não consegue compreender e explicar para a sociedade, circunstância que o deixa encurralado e na defensiva ante os ataques da direita.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política.
http://jornalggn.com.br/noticia/a-esquerda-e-a-incompreensao-acerca-da-corrupcao-por-aldo-fornazieri

domingo, 6 de novembro de 2016

Para enfrentar a política de terra arrasada da direita, é preciso já uma Frente Ampla das esquerdas


Frente ato
Roberto Amaral: As frentes Brasil Popular e a Povo sem Medo promoveram a resistência mais consequente ao golpe
O avanço do atraso e o desafio das esquerdas
Para enfrentar a direita, é preciso lucidez doutrinária, coragem política e eficiência organizativa. O ponto de partida é a Frente Ampla
As esquerdas e o pensamento progressista não podem ficar atônitos, fitando os céus à espera de sinais de alento no momento em que sofre aquela que pode ter sido sua mais profunda derrota em nossa curta e acidentada história republicana. Impõe-se, isto sim, aprender com os revezes, se formos capazes de interpretá-los.
Trata-se, o processo em curso, de verdadeira debacle não apenas do ponto de vista eleitoral-aritmético (por certo aquele que mais dói, embora não encerre toda a questão), tão festejado pela grande mídia, mas principalmente pelos indicadores ideológicos, bactérias não isoladas e que permanecerão desgastando o desgastado tecido político.
Com poucas e não significativas exceções, o eleitorado brasileiro votou, nestas eleições, preponderantemente pela direita ou pela alienação reacionária do antipoliticismo, que vai dar no mesmo. As esquerdas perderam substância eleitoral graças a erros crassos e reiterados, cuja responsabilidade a ninguém pode transferir.
Perdeu o apoio do centro político-eleitoral, que migrou para o conservadorismo e para a direita, como gritam para ouvidos assustados os números das eleições do dia 30 de outubro. Eles revelam uma derrota ao mesmo tempo previsível e surpreendente em sua contundência.
Do esvaziamento eleitoral do PT nenhum outro grupamento do mesmo campo logrou beneficiar-se. A maior decepção deve ter ficado com o PSOL, anunciado em prosa e verso como seu beneficiário ao lado de outros candidatos de menor torque. Espera-se que o partido compreenda o papel histórico que as circunstâncias lhe ofereceram nessas eleições, aderindo à política de Frente.
O eleitorado independente e grande parte daquele que sempre optou pela esquerda ou pelo pensamento progressista migraram para constituir o maior ‘partido’ dessas eleições, a dramática e preocupante, embora claramente compreensível, emergência do desânimo (abstenção), do desencanto (voto em branco) e do protesto (voto nulo).
Perfazem quase a metade do eleitorado, e em grande número de casos alcançam votação superior àquela dos prefeitos eleitos. Esse discurso precisa ser ouvido e entendido: a derrota do PT foi acachapante, mas nenhum outro partido, exceto o ‘não-partido’, credenciou-se para sucedê-lo.
Como toda e qualquer derrota eleitoral, essa não é definitiva, como as vitórias tampouco o são (terá finalmente o lulismo descoberto essa verdade acaciana?).
Pode, contudo, perdurar se as esquerdas, a começar pelo PT, que perde a hegemonia sem ter a quem passar o bastão.
Os petistas não tiverem a coragem e a humildade de proceder uma profunda e transparente autocrítica, que deve ao País e ao nosso povo há muito tempo.
Uma autocrítica que se espera de igual forma e com igual desprendimento do governo da presidente Dilma e do presidente Lula.
Não se trata de auto-flagelamento. A autocrítica é devida aos trabalhadores, aos setores populares e, mais do que que nunca, à juventude. É preciso passar a limpo o feito e o recusado, como as transformações estruturais na sociedade, como a reforma politica, a reforma do Judiciário, a reforma tributária, a reforma agrária e a democratização dos meios de comunicação de massas.
É preciso passar a limpo os últimos 13 anos de política de centro-esquerda e o papel nela desempenhado pelos partidos e instituições sindicais e populares.
As esquerdas têm muito a cobrar do Partido dos Trabalhadores, mas nada ganham com a sua imolação. O PT precisa entender que está diante de algo mais importante do que seu umbigo, de suas avenças e desavenças internas, das tricas entre facções e tendências, da redução do mundo real a uma disputa interna de um poder fátuo, que, se não foram a causa (e não foram), foram porém um agente desestabilizador no governo e na vida partidária, na vida política e institucional do País.
Por tudo isso, o pensamento progressista aguarda e cobra a reorganização do PT. Espera que seu fundador e principal líder assuma o papel que lhe cabe nessa contingência. O desafio que aguarda o partido, hoje, é maior do que o de sua criação em 1980.
Entre as muitas causas explicadoras da tragédia de hoje, para ser revisitada, destrinchada, entendida, há a crise de governança representada principalmente pelo segundo governo Dilma – é preciso assumi-la com coragem.
Existe uma crise política de governo, uma enciclopédia de erros cometidos em face das relações entre governo e sindicatos e movimentos sociais.
Há erros clamorosos na construção das alianças partidárias e eleição de aliados. E o erro central da ilusão da conciliação de classe na qual o lulismo ingressou, sem a companhia da classe dominante.
Conhecer e identificar esses erros é a conditio sine qua non para nossa recuperação, pois ignorá-los é a certeza de sua repetição, aí então fatal.
A esquerda precisa revisitar o significado e as consequências da opção eleitoral e do pragmatismo que não poderiam ser confundidos nem com eleição a qualquer preço nem com governo de qualquer jeito.
O movimento social, quando não compreendido, gera surpresas, quase sempre desagradáveis para os condutores políticos. Os que não tiveram olhos para ver e instrumental teórico para compreender as jornadas de 2013 também não entenderam o claro discurso político representado pelas dificuldades das eleições de 2014.
Adicione-se o fato de, eleitos contra a promessa do neoliberalismo conservador, havermos, no governo, tentado implantar a política econômica do adversário – e que tomou livre curso com a consumação golpe. O que se segue é história lamentável, conhecida e recente, que não carece de relembrança.
Diante dos fatos objetivos, porém, as forças populares, com os partidos e para além dos partidos, souberam reagir e em seu melhor momento compreenderam que os desafios impunham, acima de nossos desencontros menores e quase sempre irrelevantes, a política de Frente.
Foram as frentes, como a Brasil Popular e a Povo sem Medo, agrupando movimentos como o MST e o MTST, sindicatos como a CUT a CTB, e partidos do campo das esquerdas que promoveram a resistência mais consequente ao impeachment.
Havia clareza de que estávamos diante de desafio maior: um golpe de Estado que caminhava para além da deposição de Dilma Rousseff (meta ostensiva e imediata), porque, mais profundo que o golpe de 1964, o golpe parlamentar-mediático-judicial de 2016 prescindiu da violência militar e se julga, hoje, em condições de colher nas urnas o respaldo para a consolidação de seu projeto: um governo neoliberal-conservador, anti-nacional, anti-popular, anti-trabalhista, antidesenvolvimentista e profundamente anti-democrático.
As lições deixadas pela política de Frente não podem ser relegadas a plano secundário. A ameaça do golpe em curso é maior que a de 1964 e tem raízes protofascistas: não podemos dar as costas ao pronunciamento eleitoral de 2016 e deixar de perscrutar o que pode ser, nesse sentido, 2018.
São exemplares as votações de São Paulo e do Rio de Janeiro. Na capital fluminense, de tradição rebelde, o voto popular migrou para o pentecostalismo de direita, levando a esquerda para um gueto de classe-média e alta nos bairros da Zona Sul.
Para a integralização do golpe, sem atos institucionais, sem tanques, tornou-se fundamental destruir as organizações políticas de esquerda, a começar pelo PT (processo em curso). Além disso, sem mandá-las para o exílio, é preciso destruir nossas lideranças, e a bola da vez é, consabidamente, o ex-presidente Lula, vítima de processo mediático-judicial-policial de desconstrução jamais visto entre nós.
O golpe, repitamos mais uma vez e não pela última vez, não se esgota no impeachment. É pura e simplesmente uma etapa necessária para a repressão e a desconstrução de um projeto de desenvolvimento nacional autônomo, fundado no aprofundamento das franquias democráticas, no avanço das conquistas sociais, na emergência das massas, na produção da riqueza nacional e na distribuição de renda.
O projeto do golpe, com Temer ou sem ele, mas impossível com Dilma ou Lula, é essa política de terra arrasada contra a democracia, a independência e a emergência das massas.
Para enfrentar o programa da direita, de exacerbação da dominação de classe, precisamos de lucidez doutrinária, coragem política e eficiência organizativa, o que passa pela unidade das forças de esquerda, ponto de partida de uma política de Frente a mais ampla possível.
Já.
por Roberto Amaral, em CartaCapital, publicado 04/11/2016 http://www.viomundo.com.br/politica/roberto-amaral-para-enfrentar-a-politica-de-terra-arrasada-da-direita-e-preciso-ja-uma-frente-ampla-das-esquerdas.html

Temer e a realpolitik petista


O impeachmeant, não obstante execrado pela militância pró-governo, foi o ato final da realpolitik petista, este eufemismo "elegante" que o marketing político adotou para tentar legitimar uma política de alianças que está - mesmo no âmbito latino-americano - entre as mais imorais e antirrepublicanas já praticadas por um partido nascido e ainda tido (por alguns desavisados) como de esquerda.

O surto de ulrapragmatismo acometeu o PT após as três derrotas presidenciais de Lula e inclui, por um lado, a transformação do outrora ameaçador e desgrenhado líder petista no "Lulinha paz e amor" de Duda Mendonça, com fala mansa e conciliadora, ternos bem-cortados e barba aparada. De outro, o expurgo das mais combativas correntes internas do partido, em um processo cujo maior símbolo foi a expulsão de Heloísa Helena, em 2003, em decorrência de sua posição ante a reforma da Previdência (a primeira de uma série de tungas contra os aposentados promovidas pelos governos petistas).


Sem limites

Daí em diante, foi um verdadeiro vale-tudo: em um elasticismo desprovido de afinidades programáticas ou limites éticos, a tal da realpolitik - saudada e defendida com unhas, dentes e sarcasmo pela mesma militância, que não fez auto-crítica e  que hoje urra contra o PMDB - aliou o petismo a Sarney, Collor, Maluf, Kassab, Delcídio, Kátia Abreu, "bispos" diversos, além de uma miríade de figuras do baixo clero. 

Dentre elas, um tal de Eduardo Cunha, desde sempre um escroque de baixo escalão, cuja ascensão no Rio foi patrocinada pelo mesmo consórcio PT/PMDB que elegeu Paes e Cabral e bancou - com aplausos entusiasmados mesmo em setores que se diziam de esquerda - o Estado policial simbolizado pelas UPPs, responsável, em 2013 e durante a Copa do Mundo, pela maior repressão a manifestações públicas das três décadas de democracia pós-ditadura.
Em tal cenário, só a ignorância plena, a má-fé ou o fanatismo induzem à conclusão de que, nos governos Lula e Dilma, o "Mensalão", "o Petrolão" e a corrupção disseminada são exceções, esquemas pontuais e secretos sobre os quais os governantes possam alegar desconhecimento - e não a consequência óbvia e direta de tal política de alianças.


Choque de realidade

Ainda assim, açulada por um governismo cego e fanático que durante anos foi predominante na blogosfera e nas redes sociais, uma "guinada à esquerda" foi desde o início anunciada em relação aos governos petistas, tendo cumprido um papel relevante (ou mesmo decisivo) nas últimas eleições - como parte fundamental do estelionato eleitoral no qual incorreu a candidata vencedora. 
Enquanto isso, no mundo real, o governo que findou "exibiu os piores índices de reforma agrária e de demarcação de terras indígenas da história, cortou verbas da Educação, extingue direitos trabalhistas e sucateia o SUS", como aponta a psicóloga e psicanalista Vera Rodrigues, em sua corajosa carta-resposta a um desses manifestos ditos pró-democracia que proliferaram nos últimos tempos, recheados de signatários que se omitiram covardemente nas diversas vezes em que o massacre aos índios, aos jovens (e não tão jovens) manifestantes e à população não branca ou periférica manchou e relativizou a democracia brasileira em anos recentes, sob chancela governamental.

Cortina de fumaça

Claro está que, com o arco de alianças forjado pela realpolitik petista, qualquer "guinada à esquerda" jamais passou de miragem. Ele serviu, no entanto - e muito bem - ao modelo predatório e arcaico de desenvolvimento instalado no país, o qual, por sua vez, foi decisivo na instrumentalização das grandes negociatas que, mesclando dinheiro público a interesses privados, serviram ao enriquecimento de uns e à(s) eleição(ões) de outros, como as evidências judiciais colhidas no bojo da Lava-Jato - mesmo com os recentes desvios de conduta que macularam pontualmente a operação - atestam (a tal respeito, defende Vera Rodrigues: "Os excessos da Operação Lava Jato, ou do juiz de primeira instância que a conduz, devem ser combatidos nas esferas jurídicas e políticas que dizem respeito ao Judiciário como um todo, e ao Estado Policial, fomentado por esse governo sempre que lhe interessou").

Liquidação geral

Mesmo antes do recrudescimento do impeachment, a pauta priorizada por Dilma II, após ter atacado direitos trabalhistas - ao alterar regras do seguro-desemprego, de pensões por invalidez e do seguro-defenso - era aumento de impostos via volta da CPMF e (mais uma) "reforma" da Previdência (leia-se tunga em aposentados, com violação de direitos adquiridos). Calcula agora, com o Planalto transformado em balcão público de negócios e alguns dos partidos mais retrógrados do país com amplo poder de chantagem sobre a presidente!

Estado de farsa

Em tal cenário e após tantos anos, continuar a propagar (e a acreditar em) qualquer laivo de esquerdismo ou progressismo ou o nome que se queira dar a políticas que priorizem o social, o desenvolvimento sustentado e os Direitos Humanos por parte desse governo é não apenas irreal - é deliberada e escandalosamente mentiroso.

Para onde vai a política brasileira?

Qual o futuro da política no Brasil? A resposta para esta questão, seja ela qual for, aponta para o esgotamento e a necessidade de superação do modus operandi político vigente no país ao menos desde o advento da “Nova República” (1984).

Seu traço distintivo é um tráfico de cargos e bens públicos, alegadamente em troca de apoio político, mas que na prática significa a perpetuação, nos níveis federal, estadual e municipal, da cultura estamentária de que nos fala Raymundo Faoro, protagonizada por politicos parasitários que sugam e tiram proveito privado do Estado.


Mercado de pulgas
Tal escambo do bem público tem sido a prática politica padrão de todos os partidos que se revezaram no poder desde a redemocratização. Só muda o rótulo: “balcão de negócios” na época do PMDB de Sarney, “toma-lá-dá-cá” com FHC e os tucanos, “realpolitik” na era petista de Lula e Dilma.

A recente fala pública de Aloizio Mercadante anunciando, sem o mínimo pudor, que o segundo escalão será preenchido por quem votar com o governo é a coroação dessa baixa politica, em que cargos técnicos e de comando – que deveriam ser ocupados pelos especialistas mais dotados e capazes – viram mera moeda de troca por um voto no Parlamento. E tal voto - que, por sua vez, deveria se dar em consonância com a consciência, a convicção e o alinhamento ideológico, político e partidário do parlamentar - é trocado por um cargo bem remunerado e de algum prestígio. Como se de uma mera relação comercial se tratasse.




Danos de monta
É imenso, incomensurável o atraso que tal prática politica acarreta ao país, cuja condução fica a cargo de pessoas não apenas despreparadas, mas ávidas por ganhos pessoais advindos de sua posição privilegiada; à democracia, que já carece de partidos programáticos e ideologicamente coesos; e à deteriorização da visão pública que se tem da política, como antro de sujeira e de corrupção.

Essas mais de três décadas de polticas de gabinete, entre a chantagem parlamentar e o suborno do Estado, tornaram a própria política brasileira anacrônica. E esse atraso não diz respeito apenas a instituições, e sim às relações entre arena pública, democracia e ação politica, em todas suas potencialidades. No bojo de tal processo – que o poder quer imutável – são mínimas e negligenciadas as formas efetivas de participação política e de democracia direta; a incorporação efetiva de uma pauta biopolítica que supere o meramente econômico e abarque, como prioritárias, as demandas comportamentais, corpóreas, sanitárias, educacionais, ambientais, recreativas – bem como a promoção efetiva dos direitos humanos de quarta geração.


Esgotamento
Mas, por outro lado, há um claro esgotamento público para com a corrupção, açulado por grandes processos em que Justiça e mídia desempenham um papel central, como o Mensalão e a Operação Lava-Jato. Para além das questões de justeza, de tratamento desigual entre escândalos tucanos e escândalos petistas, de teorias conspiratórias variadas sobre golpes e contragolpes, o fato é que a tolerância para com a corrupção acabou e que esta, neste momento, mostra-se profundamente associada, no imaginário político brasileiro, ao PT.

PT cuja guinada violenta à direita, hoje simbolizada pelo estelionato eleitoral em curso, não é fato recente, decretado pelas consequências da traição eleitoral de Dilma. Trata-se de um processo, que começou efetivamente lá atrás, na primeira eleição de Lula, com concessões sucessivas ditadas por umarealpolitik cada vez mais elástica e amoral - que seria temerariamente esticada, ao longo dos anos, por alianças do PT com personagens como Jader Barbalho, Collor e Maluf.


Corrupção moral
Tal processo agravou-se com o primeiro mandato de Dilma, que - como este blog documentou desde o início – teve na ampliação da hegemonia política via concessões ao conservadorismo o seu principal norte político. Uma dinâmica cujo fim seria – como alertamos diversas vezes entre 2011 e 2014 – o desequilíbrio do pêndulo da política brasileira para o espectro centro-direita, com o esvaziamento político, eleitoral e programático da esquerda.

O que se vê hoje em dia é apenas o bagaço dessa laranja: o petismo tanto cedeu à direita que terminou sua presa, praticando, neste momento, a mesma velha política neoliberal da era FHC, cortando na carne de trabalhadores e desempregados para fazer altos superávits primários e agradar ao mercado financeiro. Se a corrupção financeira é ainda por alguns ingênuos ou fanáticos questionada, a corrupção moral torna-se evidente.



Covardia e conformismo
E setores que poderiam se contrapor, à esquerda, a esse quadro, preferiram, nas últimas eleições, apostar no medo - já covarde e  artificialmente inflado pelo marqueteiro oficial -, confortavelmente insistindo na leniência para com o retrocesso petista, que já era mais do que evidente.

 Pois que Dilma tenha se reeleito graças ao decisivo “voto crítico” de psolistas e demais setores que se dizem de esquerda é uma prova precoce – mas contundente – não só da miopia e má formação política dessa pretensa vanguarda, mas que ela não é coerente com as demandas de renovação das práticas politicas no país. Continua presa aos padrões convencionais e mercantilistas da política. Um museu de grandes novidades, como disse o poeta.


Horizontes
Portanto, a resposta à pergunta que abriu este texto – qual o futuro da política no Brasil? - não virá desse campo minado, desses políticos de discurso ora nuançado, ora agressivo de esquerda mas de postura invariavelmente  retrógrada quando o tema é segurança pública, drogas ou sexualidade.

Os termos de tal resposta nos é permitido apenas intuir; só o futuro dirá se a atual crise do país acabará por impor mudanças de monta ou a agravar ainda mais o retrocesso. Por ora podemos apenas afirmar que a renovação da política no Brasil passa, necessariamente, por um lado, pela horizontalização do debate popular e pelo salto qualitativo no exercício da cidadania; e, por outro, pela reformulação dos partidos e pelo fim do aparelhamento e loteamento do Estado a cada troca de siglas no poder. Que forças serão capazes de se incumbirem de tamanha tarefa só a própria população brasileira poderá determinar.



(Imagem retirada daqui)

http://cinemaeoutrasartes.blogspot.com.br/2015/05/para-onde-vai-politica-brasileira.html