quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Você sabe quem decidirá o que é 'terrorismo' no Brasil? Pelo projeto aprovado, quem decidirá será a mesma PM que bate em professor e o promotor que classifica Simone de Beauvoir como uma 'baranga francesa'.

Mídia Ninja

A Lei Antiterrorismo aprovada pelo Senado foi o tema da terceira rodada de debates dos “Seminários para o Avanço Social”, promovido pelo Fórum 21, na Assembleia Legislativa de São Paulo, nesta quarta (11/11). Polêmico por permitir a criminalização dos movimentos sociais e suprimir direitos individuais, o projeto de lei foi aprovado por conta de uma aliança inusitada, firmada entre o governo federal, proponente da matéria, e às forças conservadoras, representada pelo senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), relator da matéria.

Professor de Política Internacional da PUC-SP, Reginaldo Nasser ressaltou que tão inusitada quanto a aliança, foi o fato do projeto ter sido gestado não pelo Ministério da Justiça, mas sim pelo da Fazenda, o órgão que controla a política econômica do país. Segundo ele, isso se deve ao fato de que as leis antiterroristas se tornaram uma exigência do GAFI, um órgão criado pelo G-7 em 1990 para combater a lavagem de dinheiro internacional. 

O professor relatou que, na época, a preocupação principal do GAFI era combater a lavagem de dinheiro do tráfico internacional, mas, depois do 11 de Setembro, o órgão passou a exercer pressão para que os países aprovassem as ditas leis antiterroristas nos moldes da norte-americana para que este suposto terrorismo fosse combatido em conjunto por todas as nações. A partir de 2006, prescreveu recomendações específicas para que as nações se adequassem ao modelo, sob pena até mesmo de serem expulsas do grupo. Entretanto, até hoje, apenas 36 países aderiram.

Nassar enfrenta a principal justificativa do órgão para a implementação dessa política: a de que “as democracias ocidentais estejam sob forte ataque de forças terroristas”. De acordo com ele, dados oficiais dos Estados Unidos e da Europa mostram 85% das 18,5 mil vítimas de atos terroristas ocorridos em 2014 estão concentradas em apenas cinco países, nenhum dele ocidental: Síria, Iraque, Paquistão, Nigéria e Afeganistão. Do total de mortos no ano passado, apenas 50 foram em solo norte-americano e oito na Europa.

Ele demonstra também que o número de países que classificaram crimes cometidos em seus territórios como atos terroristas aumentou exponencialmente. “No inicio da década passada, eram dez, doze, treze países por ano. Hoje, são mais de 60”, explica ele, para demonstrar como o enquadramento da prática pela ótica norte-americana se alastrou pelo mundo e, agora, chega ao Brasil, até então celebrado pela sociedade civil internacional como uma das potências a resistir ao modelo.

Conceito inviabilizado

Apesar do aumento na classificação de crimes de terrorismo pelos países, o professor alerta que não há consenso nem mesmo sobre a definição do que é a prática, problema jamais solucionado sequer pela ONU. Segundo Nasser, os conceitos mais usuais hoje colocam os estados como vítimas, o que impede que eles também possam ser criminalizados por cometê-la. “Se a gente olhar pra o nazismo e, depois, para o período da guerra fria, a palavra ‘terror’ não era alocada apenas na ação de grupos não estatais. Hoje, é o contrário”, esclarece.

Para ele, a dificuldade de conceituação do termo fica explicita no projeto aprovado pelo Senado brasileiro que, se passar a vigorar, delegará às autoridades policiais e judiciais o poder de definir, caso a caso, o que é e o que não é terrorismo. E, o que é ainda mais grave: ele acusa o projeto de extrapolar o intento de tipificar o terrorismo, interferindo em questões soberanas do Brasil. 

“Se a gente olhar este projeto antiterrorismo, ele adquiriu uma autonomia tal que pouco se importa em responder ao terrorismo”, acusa ele, lembrando que o projeto transita da tipificação às finanças, passando pela política propriamente dita, porque regula até mesmo como deve ser a atuação da sociedade civil, além de restringir direitos individuais. “Mais do que um projeto de reação ao terrorismo, faz parte da grande estratégia norte-americana”, alertou.

Lei Antiterrorismo X Lei da Anistia

Ex-procurador-geral de São Paulo, Marcio Sotelo Felippe ironizou a preocupação do governo brasileiro em aprovar a lei antiterrorismo, com a desculpa de fazê-lo para atender a compromissos internacionais. Ele lembrou que, em 2010, o Brasil foi condenado a rever sua Lei da Anistia que permite que torturadores e assassinos da ditadura permaneçam impunes, e jamais tomou qualquer medida para solucionar o problema. “O Brasil não cumpre compromissos internacionais pelo dever moral de respeitar o que acordou, mas sim quando outros interesses falam mais alto”, criticou.

Para o ex-procurador, o inusitado interesse do governo e da direita brasileiros de aprovar o projeto se justifica não apenas pelas imposições dos organismos internacionais, mas se situa no quadro da ofensiva conservadora que se espalha no mundo. “A causa disso tem a ver com esses fatores que o Nasser colocou, da luta contra o terrorismo internacional, o 11 de setembro, etc. Mas há também um outro aspecto que é, no plano internacional, um movimento de direita antipopular e de repressão à movimentos políticos de reivindicações populares e democráticas”, sustenta. 

Fellipe lembra que uma conduta, para ser tipificada como crime, tem que estar rigorosamente descrita na lei penal. E quando isso não ocorre, depara-se com os chamados ‘tipos penais abertos’, muito utilizados pelos estados autoritários, porque permitem interpretações diversas. Como exemplo, ele extraiu do texto aprovado pelo Senado brasileiro expressões de difícil conceituação prática, como “terror generalizado”, “extremismo político” e “perturbação da ordem pública”. 

“Digamos que alguém jogue um rojão na porta do metrô e 40 pessoas saiam correndo de medo. Isso é terror generalizado? É possível sustentar isso? É. E quando alguém joga a bomba atômica em Hiroshima, é terror generalizado? Também é. São coisas completamente diferentes, mas que no quadro lógico da linguagem que se usa na redação das leis, permite que se trate como terrorismo a bomba atômica de Hiroshima e um rojão na porta do metrô”, exemplifica.

Para o procurador, a insegurança que este tipo de lei gera para a sociedade, em especial para os movimentos sociais, é que quem vai decidir o que é e o que não é terrorismo é a autoridade policial, o delegado, o promotor. “Quem vai decidir o que são essas coisas? Agentes policiais. A PM, o delegado, o promotor, Quem vai decidir isso é o promotor que acha que a Simone de Beauvoir é uma ‘baranga francesa’, porque ela não raspa as axilas”, ironiza ele, lembrando que, neste quadro de  crescimento de posturas direitistas de viés autoritário, que muitas vezes ultrapassam o limite dos fascismo, é cada vez mais comum se encontrar autoridades policiais e judiciais com visão social míope.

Estado democrático X estado de exceção?

Professor de Direito Constitucional da PUC-SP, Pedro Serrano, sustenta que, em todo o século XX, os governos autoritários ocorreram fora do marco da democracia, caso do nazismo e das ditaduras latino-americanas. Entretanto, ele alega que hoje isso mudou e os estados autoritários coexistem dentro dos próprios estados democráticos, sendo que as leis antiterrorismos são a ferramenta mais utilizadas para implementá-los. 

“A forma como as ditaduras do mundo ocidental se realizaram no século 20 foi sempre a partir dessa narrativa de se combater o inimigo, sempre por períodos provisórios. A ditadura brasileira foi instaurada para durar 4, 5 anos. Ou seja, era sempre a narrativa da exceção, o tempo da emergência, para se estabelecer a segurança como valor social essencial para a sobrevivência das pessoas. No século 21, isso transmuta. O estado soberano absolutista passa a existir dentro da democracia. E não mais fora dela, como foi até o século 20. Os exemplos são as leis antiterroristas, a lei da mordaça espanhola”, explicou.

O professor alerta que, se as leis antiterrorismo já são uma ameaça à democracia nos países centrais, na América Latina elas adquirem um componente ainda mais violento, de forte caráter classista. Isso porque, no primeiro mundo, o inimigo apontado como terrorista é o estrangeiro, o muçulmano, o islâmico. Já na América Latina, esse inimigo é o “bandido”, entendido não como o cidadão que cometeu um erro, mas como uma categoria em si. E como o bandido é normalmente o pobre, aceita-se a coexistência de dois estados diferentes para que toda a pobreza possa ser domada pelo Estado. 

“Na América Latina, temos efetivamente uma duplicidade. Temos dois estados. Um estado democrático que gere os territórios ocupados pelos seguimentos incluídos da população, marcadamente de euro-descendência, e um estado de exceção permanente, de natureza militar, que gere os territórios ocupados pela pobreza”, denuncia. 

O professor lembra que nestes territórios ocupados pela pobreza os direitos individuais já estão permanentemente suspensos, a despeito da aprovação ou não de leis antiterroristas. De acordo com ele, isso ocorre porque, ao contrário do que ocorre nos países centrais, onde o agente de exceção é o ato legislativo, na América Latina o principal agente de exceção é o próprio judiciário. “Aqui foi criada uma cultura jurídica com forte influência do positivismo analítico, que outorga ao juiz quase um poder absoluto, que o permite até mesmo contrariar a lei. E é esse judiciário que vai aplicar essa lei que o Senado aprovou”, alerta.
http://blogdoitarcio.blogspot.com.br/2015/11/voce-sabe-quem-decidira-o-que-e.html

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O ensino superior no Brasil como mero mecanismo de distinção social

Publicado na revista Carta Capital, em fevereiro de 2014, esta crônica de Matheus Pichonelli propõe uma reflexão sobre o valor do ensino superior no Brasil que, há tempos se discute, mas pouco se vê refletir nas atitudes cotidianas da maior parte da população. Baseado em uma experiência pessoal e prosaica – uma assembleia de condomínio – Pichonelli destaca como o diploma universitário ainda serve, na maior parte das vezes, como mero mecanismo de distinção social em uma sociedade marcada pelo privilégio e pela exclusão.

O Hum Historiador repercute a crônica de Pichonelli no intuito de levar adiante esta reflexão a fim de que ela seja debatida e motive algumas pessoas a pensar em suas atitudes ao se ver em um desses momentos prosaicos no qual nos deparamos com pessoas que ascenderam socialmente e passaram a frequentar locais que, tradicionalmente, não deveriam frequentar.

O EMPREGADO TEM CARRO E ANDA DE AVIÃO. E EU ESTUDEI PARA QUÊ?
por Matheus Pichonelli para a Carta Capital | publicado originalmente em 07.fev.2014
Se você, a exemplo dos professores que debocharam de passageiro “mal-vestido” no aeroporto, já se fez esta pergunta, parabéns: você não aprendeu nada!
Professora universitária faz galhofa diante do rapaz que foi ao aeroporto sem roupa de gala. É o símbolo do país que vê a educação como fator de distinção, e não de transformação.
O condômino é, antes de tudo, um especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não ter fim. À primeira vista, é um sujeito civilizado e cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira. Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de que a humanidade não deu certo.
Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembleia de condomínio, tinha gente ‘revoltada’ porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.
A cena parecia saída do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, no qual a demissão de um veterano porteiro é discutida em uma espécie de “paredão” organizado pelos condôminos. No caso do prédio do meu amigo, a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.
Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.
Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.
Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.
O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.
Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.
Por isso comemora-se também ao sair da faculdade. Já vi, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura era de um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente era (e é), por si, um privilégio.
Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gosto de dizer “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi batata-fria e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve, me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço: é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na maioria dos casos, para corroborar estas posições.
Por isso o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a praga da ignorância instruída. Por isso as pessoas se incomodam quando a lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos.
Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que o ato de se deslocar ao ar de um local a outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar para andar de avião).
Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação, pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.
https://umhistoriador.wordpress.com/2015/11/11/o-ensino-superior-como-mero-mecanismo-de-distincao-social/

Gigante (por conta da ditadura) da mídia cativa os telespectadores com novelas vazias e comentários ineptos no noticiário.

New York Times diz que a Globo é a TV que ilude o Brasil

Da Redação conexaojornalismo















Um artigo publicado no jornal New York Times, e reproduzido por aqui no site UOL, é de causar constrangimento a todo brasileiro mais crítico. Nele, Vanessa Bárbara revela com contundente precisão o quanto a TV Globo historicamente interfere no cotidiano de um país que figura entre os de mais baixa qualificação de ensino do planeta. Lembrar que William Bonner comparou o telespectador médio de TV do país com Homer Simpson chega a ser obrigatório.

Gigante da mídia cativa os telespectadores com novelas vazias e comentários ineptos no noticiário.

Vanessa Barbara, no International New York Times, via UOL
Em São Paulo

No ano passado, a revista "The Economist" publicou um artigo sobre a Rede Globo, a maior emissora do Brasil. Ela relatou que "91 milhões de pessoas, pouco menos da metade da população, a assistem todo dia: o tipo de audiência que, nos Estados Unidos, só se tem uma vez por ano, e apenas para a emissora detentora dos direitos naquele ano de transmitir a partida do Super Bowl, a final do futebol americano".

Esse número pode parecer exagerado, mas basta andar por uma quadra para que pareça conservador. Em todo lugar aonde vou há um televisor ligado, geralmente na Globo, e todo mundo a está assistindo hipnoticamente.

Sem causar surpresa, um estudo de 2011 apoiado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontou que o percentual de lares com um aparelho de televisão em 2011 (96,9) era maior do que o percentual de lares com um refrigerador (95,8) e que 64% tinham mais de um televisor. Outros pesquisadores relataram que os brasileiros assistem em média quatro horas e 31 minutos de TV por dia útil, e quatro horas e 14 minutos nos fins de semana; 73% assistem TV todo dia e apenas 4% nunca assistem televisão regularmente (eu sou uma destes últimos).

Entre eles, a Globo é ubíqua. Apesar de sua audiência estar em declínio há décadas, sua fatia ainda é de cerca de 34%. Sua concorrente mais próxima, a Record, tem 15%.

Assim, o que essa presença onipenetrante significa? Em um país onde a educação deixa a desejar (a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico classificou o Brasil recentemente em 60º lugar entre 76 países em desempenho médio nos testes internacionais de avaliação de estudantes), implica que um conjunto de valores e pontos de vista sociais é amplamente compartilhado. Além disso, por ser a maior empresa de mídia da América Latina, a Globo pode exercer influência considerável sobre nossa política.

Um exemplo: há dois anos, em um leve pedido de desculpas, o grupo Globo confessou ter apoiado a ditadura militar do Brasil entre 1964 e 1985. "À luz da História, contudo", o grupo disse, "não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original".

Com esses riscos em mente, e em nome do bom jornalismo, eu assisti a um dia inteiro de programação da Globo em uma terça-feira recente, para ver o que podia aprender sobre os valores e ideias que ela promove.

A primeira coisa que a maioria das pessoas assiste toda manhã é o noticiário local, depois o noticiário nacional. A partir desses, é possível inferir que não há nada mais importante na vida do que o clima e o trânsito. O fato de nossa presidente, Dilma Rousseff, enfrentar um sério risco de impeachment e que seu principal oponente político, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, está sendo investigado por receber propina, recebe menos tempo no ar do que os detalhes dos congestionamentos. Esses boletins são atualizados pelo menos seis vezes por dia, com os âncoras conversando amigavelmente, como tias velhas na hora do chá, sobre o calor ou a chuva.

A partir dos talk shows matinais e outros programas, eu aprendi que o segredo da vida é ser famoso, rico, vagamente religioso e "do bem". Todo mundo no ar ama todo mundo e sorri o tempo todo. Histórias maravilhosas foram contadas de pessoas com deficiência que tiveram a força de vontade para serem bem-sucedidas em seus empregos. Especialistas e celebridades discutiam isso e outros assuntos com notável superficialidade.

Eu decidi pular os programas da tarde -a maioria reprises de novelas e filmes de Hollywood- e ir direto ao noticiário do horário nobre.

Há dez anos, um âncora da Globo, William Bonner, comparou o telespectador médio do noticiário "Jornal Nacional" a Homer Simpson -incapaz de entender notícias complexas. Pelo que vi, esse padrão ainda se aplica. Um segmento sobre a escassez de água em São Paulo, por exemplo, foi destacado por um repórter, presente no jardim zoológico local, que disse ironicamente "É possível ver a expressão preocupada do leão com a crise da água".

Leia também: JN omite notícias importantes enquanto audiência despenca

Assistir à Globo significa se acostumar a chavões e fórmulas cansadas: muitos textos de notícias incluem pequenos trocadilhos no final ou uma futilidade dita por um transeunte. "Dunga disse que gosta de sorrir", disse um repórter sobre o técnico da seleção brasileira. Com frequência, alguns poucos segundos são dedicados a notícias perturbadoras, como a revelação de que São Paulo manteria dados operacionais sobre a gestão de águas do Estado em segredo por 25 anos, enquanto minutos inteiros são gastos em assuntos como "o resgate de um homem que se afogava causa espanto e surpresa em uma pequena cidade".

O restante da noite foi preenchido com novelas, a partir das quais se pode aprender que as mulheres sempre usam maquiagem pesada, brincos enormes, unhas esmaltadas, saias justas, salto alto e cabelo liso. (Com base nisso, acho que não sou uma mulher.) As personagens femininas são boas ou ruins, mas unanimemente magras. Elas lutam umas com as outras pelos homens. Seu propósito supremo na vida é vestir um vestido de noiva, dar à luz a um bebê loiro ou aparecer na televisão, ou todas as opções anteriores. Pessoas normais têm mordomos em suas casas, que são visitadas por encanadores atraentes que seduzem donas de casa entediadas.

Duas das três atuais novelas falam sobre favelas, mas há pouca semelhança com a realidade. Politicamente, elas têm uma inclinação conservadora. "A Regra do Jogo", por exemplo, tem um personagem que, em um episódio, alega ser um advogado de direitos humanos que trabalha para a Anistia Internacional visando contrabandear para dentro dos presídios materiais para fabricação de bombas para os presos. A organização de defesa se queixou publicamente disso, acusando a Globo de tentar difamar os trabalhadores de direitos humanos por todo o Brasil.

Apesar do nível técnico elevado da produção, as novelas foram dolorosas de assistir, com suas altas doses de preconceito, melodrama, diálogo ruim e clichês.

Mas elas tiveram seu efeito. Ao final do dia, eu me senti menos preocupada com a crise da água ou com a possibilidade de outro golpe militar -assim como o leão apático e as mulheres vazias das novelas.

* Vanessa Barbara é uma colunista do jornal "O Estado de São Paulo" e editora do site literário "A Hortaliça".

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Quem semeia terrorismo colhe atentados

Osvaldo Bertolino: Quem semeia terrorismo colhe atentados

Por Osvaldo Bertolino, em seu blog

A violência que choca o mundo tem duas vias: a que leva injustiças, ameaças e carnificinas e a que traz retaliações com o mesmo teor. Fazem parte do caminho por onde circulam a estupidez, a ganância e a tentativa de manter uma ordem mundial obsoleta e geradora de crises cada vez mais profundas e desumanas.

Por qualquer ângulo que se olhe para os atentados em Paris, França, que deixaram quase cento e trinta mortos e três centenas de feridos, oitenta em estado grave, é impossível não ver um crime repugnante. Mas é preciso olhar também para o passado recente da política norte-americana para o Oriente Médio, quando o governo do presidente George W. Bush atuou como um “serial killer”, atacando e ameaçando todos os países que não se alinhavam com o seu regime. Bush, certamente, não era um mero sujeito que bebia sim e ia… hic… vivendo, enquanto muita gente estava morrendo.

Ele era isso tudo e agia como um típico líder do Partido Republicano, que não dava a menor importância às pessoas individualmente. Essa facção dominante do Estado norte-americano inclui entre seus líderes os altos chefes militares e deixou como legado a política externa agressiva que o governo do democrata Barak Obama tem mantido. Os senhores da guerra hoje são, pela natureza daquele regime, uma importante fonte de poder.

A ordem militar, até a década de 1950 uma instituição débil, transformou-se no escalão mais importante e mais caro dos Estados Unidos. No governo Bush, os sorridentes homens de relações públicas praticamente saíram de cena e apareceu a face da sinistra burocracia instalada na máquina de guerra. Todos os fenômenos políticos e econômicos passaram a ser julgados à luz das interpretações militares da realidade. O “realismo militar” dos chefes militares instalados no poderoso Estado-Maior Conjunto transformou-se no guia mais inspirado do grupo dirigente do país.

Capital em grande escala

Desde os anos da Segunda Guerra Mundial, essa força ampliou seu campo de ação em assuntos relativos à política exterior e doméstica do país e atualmente pode-se dizer que a ordem militar do Estado-Maior Conjunto está solidamente instalada no Estado. Existem dois governos nos Estados Unidos: o que informa o mundo pelos jornais e as televisões, e as crianças nos livros escolares, e o que conduz a espionagem e a rede de informações, um aparato maciço que emprega centenas de milhares de pessoas secretamente e conduz a política externa do país.

Esse governo invisível emergiu das imposições dos Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial. Os demais países centrais, exaustos pela guerra, foram obrigados a aceitar essa ordem em troca de ajuda para a sua reconstrução. Assim, os Estados Unidos deixaram de ser apenas mais um agregado no conjunto de países que lutavam por pedaços do mundo e passaram a ocupar o pico de uma pirâmide solidamente dirigida por eles. As regras desse jogo foram definidas num momento privilegiado para o grande país americano.

Nenhum representante do chamado Terceiro Mundo participou desses tratados. A Europa, destruída por duas grandes guerras num curto espaço de tempo, não estava em condições de se opor à grande capacidade de produção norte-americana proporcionada pela Segunda Revolução Industrial – que dotou o país de uma poderosa e inovadora indústria. Na Ásia, o Japão, destroçado pela guerra, foi ocupado pelos Estados Unidos, que ditaram o rumo da sua reconstrução.

Esse processo do pós-Segunda Guerra Mundial que desencadeou a dominação norte-americana no chamado mundo ocidental, portanto, levou o capitalismo a uma transformação profunda. No final dos anos 1940, somente os Estados Unidos estavam em condições de exportar capital em grande escala. E o país usou essa condição privilegiada para manter sob o seu controle as rédeas num mundo que buscava alternativas ao seu modelo político e econômico.

Pratos da balança da Guerra Fria

Na Europa, o projeto social-democrata procurou adaptar a economia planejada à tradição comercial liberal do velho continente. No Japão, o Estado se reforçava para desempenhar um papel de destaque no planejamento econômico. E cerca de um terço da população mundial rompeu com esses paradigmas e se juntou à União Soviéticapara reforçar o sistema de economia totalmente planificada.

Desde então, os Estados Unidos intervieram em vários países e promoveram uma feroz cruzada anticomunista. A derrota da experiência socialista, depois de ela surgir triunfante e ter parecido realmente capaz de superar o capitalismo — especialmente nos dois pós-guerras —, fez com que o domínio norte-americano da pirâmide mundial passasse a ser ainda mais ditatorial.

Com a derrocada de um dos pratos da balança da Guerra Fria, a oposição aos ditames de Washington praticamente desapareceu. Hoje, os países que se contrapõem a essa ofensiva ainda são frágeis internacionalmente. E a consciência anti-imperialista das massas é algo que, embora veloz e ampla, ainda está se formando. Ela parece mais viçosa nos países do Oriente Médio. Uma das explicações para esse fenômeno talvez seja o histórico de lutas dos povos árabes contra as invasões ocidentais do século XX.

Prioridade da política exterior de Washington

O Oriente Médio sempre despertou o interesse dos impérios por ser uma rica fonte de matéria-prima e estar no entroncamento de três continentes. Já no pós-Primeira Guerra Mundial, os trustes norte-americanos se empenharam em conseguir ali concessões petroleiras, apesar da resoluta oposição da Inglaterra e da França – países que controlavam a região.

Em 1940, as petroleiras inglesas controlavam 72% de todas as reservas de petróleo exploradas, enquanto as empresas norte-americanas controlavam 9,8%. No pós-Segunda Guerra Mundial, a região passou a ser um dos principais pontos de prioridade da política exterior de Washington. Por estar nas proximidades da Rússia e da China, o Oriente Médio também sempre mereceu atenção dos Estados Unidos quanto à influência de ideias que poderiam se traduzir em ações concretas de anti-imperialismo.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos iniciaram uma série de “tratados” e “pactos” envolvendo Inglaterra, França e alguns países da região – com o intuito de jogá-los uns contra os outros. No centro da estratégia imperialista estava oEstado de Israel, que desde a sua criação agiu como força de choque da política imperialista no Oriente Médio.

Reserva de ódio, medo e desesperança

Segundo dados do Instituto Internacional de Estocolmo de Estudos para a Paz, nos cinco anos transcorridos depois da guerra de outubro de 1973 entre Israel e seus vizinhos árabes os países pró-Estados Unidos do Oriente Médio receberam 70% de todas as armas norte-americanas exportadas para os países do chamado Terceiro Mundo. Em 1979, o Irã fez a revolução que derrocou o regime dos Estados Unidos no país e desencadeou mais uma onda de ações anti-imperialistas na região.

No mesmo ano, o conflito no Afeganistão, ocupado por forças militares soviéticas, marcou mais uma etapa da presença dos Estados Unidos no Oriente Médio – que armaram grupos fundamentalistas para combater os invasores. Mais tarde, esses grupos angariaram para si o resultado de toda uma reserva de ódio, medo e desesperança e levaram a efeito o ataque terrorista do dia 11 de setembro de 2001.

E rezaram por uma reação violenta por parte dos Estados Unidos, que terminará mobilizando outros em torno de sua causa. E assim o mundo entrou num círculo vicioso — um efeito gerando outro e mergulhando os povos na hedionda “guerra infinita” de Bush. Os terroristas fundamentalistas compartilham de um ódio que é sentido em todo o Oriente Médio pela presença norte-americana em países da região, pelo apoio dos Estados Unidos às atrocidades cometidas por Israel contra o povo palestino e pela devastação da sociedade civil no Iraque e no Afeganistão.

Encrenqueiro vizinho do norte

A carnificina de Bush e seus aliados no Iraque, portanto, chocou porque, primeiro, ela foi cruenta e, depois, porque criou assustadoras perspectivas. Foi, a rigor, uma guerra contra os povos — uma vez que não há, no curto prazo, nenhum outro motivo para tamanha insanidade. As velhas senhoras do continente europeu — em particular aInglaterra — parecem não estar dispostas a perder o sono em decorrência desse conflito.

A oposição à guerra por parte da França, Alemanha e Rússia foi importante, mas não há indícios de que esses países estão a fim de usar seu poderio — inclusive bélico, uma das garantias de suas posições no cenário global —, em favor de uma ordem mundial mais equilibrada e de paz, apesar da salutar presença russa na Síria. Outra coisa não faz a política de grupos como a Otan e a OMC. A pirâmide de poder dessas potências funciona pela regra da força bruta, pela qual chora menos quem pode mais.

Nosso incômodo e encrenqueiro vizinho do norte também sempre ameaçou a América latina. A própria constituição dos Estados Unidos como nação encerra uma contradição entre o que foi proclamado dia 4 de julho de 1776, quando o povo norte-americano aprovou a Declaração de Independência, e a política exterior da jovem pátria. As premissas do expansionismo continental norte-americano foram criadas com as guerras contra a população indígena e as reivindicações dos latifundiários do sul do país de ampliar o território avançando pelas fronteiras de seus vizinhos.

Doutrina do direito natural

William Foster, estudioso da história política do continente americano, diz que o próprio nome do país — Estados Unidos da América — expressa suas pretensões panamericanas. Já no começo do século XIX, a contradição entre os princípios humanitários e democráticos proclamados pela Declaração de Independência e a política exterior do jovem Estado levou à renúncia das suas tradições libertárias. A doutrina do direito natural de todos os povos decidirem seu próprio destino — um dos fundamentos da Declaração de Independência — passou a ser interpretada de modo a justificar como “natural” o expansionismo norte-americano. Para os dirigentes dos Estados Unidos, essa doutrina dava ao país o direito de encarar o continente como sua área de influência direta.

Com esse argumento, a princípio os presidentes Thomas Jefferson e John Adams“compraram” a Luisiana — que pertencia à França — e ocuparam a Flórida — que pertencia à Espanha. Depois, no dia 2 de dezembro de 1823, com a mensagem do presidente James Monroe ao Congresso foi proclamada a famosa “Doutrina Monroe” — que expressa sem ambiguidades as pretensões norte-americanas à hegemonia em todo o hemisfério ocidental.

Em Deus nós confiamos

Desde então, a propaganda imperialista invocou esses princípios para justificar as ações políticas e militares extraterritoriais dos Estados Unidos. Para os meios de comunicação fortemente vinculados ao poder econômico, os norte-americanos têm o dever natural e sagrado de levar as suas tradições liberais e “democráticas” aos povos “incultos” do resto do mundo.

Por mais simplista e racista que esse pensamento possa parecer, ele é abertamente proclamado no país desde a instauração do chamado “Destino Manifesto” — uma “teoria” que surgiu e se difundiu nos Estados Unidos na metade do século XIX, segundo a qual os norte-americanos nasceram para ser o melhor povo do mundo. É muito forte a influência da religião nessa “teoria”, um destino que teria sido profetizado pela“providência divina”.

O Estado norte-americano leva ao pé da letra a frase “In God we trust (Em Deus nós confiamos)” impressa em cada nota do dólar. Na Casa Branca de Bush, por exemplo, as reuniões ministeriais começavam com uma oração e frases bíblicas sempre apareciam em seus discursos. Em sua gestão, Bush propôs a canalização de recursos sociais para entidades religiosas, a autorização de preces e sermões em escolas públicas, o subsídio a faculdades geridas por grupos religiosos e o financiamento do trabalho de entidades religiosas em presídios.

Aparato de propaganda norte-americano

Essa grande ofensiva jamais feita, apesar da tradição religiosa do país, contraria a separação entre igreja e Estado, um dos princípios basilares consagrado na Primeira Emenda à Constituição. Mas os presidentes norte-americanos certamente não são reféns da fé e pode-se dizer que a rigor eles tomam o nome de Deus em vão. Por trás de sua política estão os interesses de uma parcela significativa da economia que lidera o mundo. Essa simbiose é histórica.

A ideologia do “Destino Manifesto” age como um poderoso elemento mobilizador da energia do país para a conquista de novos territórios. Ao longo da história, ela foi um verdadeiro elixir do expansionismo e do intervencionismo norte-americano. No século XX — particularmente na sua segunda metade — essa ideia, traduzida emanticomunismo sem escrúpulo, permeou a propaganda norte-americana. E isso explica a visão dominante no país de que o restante do planeta — sobretudo o chamado Terceiro Mundo — é cultura e economicamente subdesenvolvido.

Essa propaganda ganhou, evidentemente, novos contornos desde a queda do muro de Berlim. Mas sua essência permanece a mesma e se constitui, basicamente, em levar a “democracia” aos países que recusam a cartilha de Washington e em “ensinar” os “segredos” da boa gestão econômica. O aparato de propaganda norte-americano, por exemplo, contra todas as evidências diz que sua força militar e diplomática atua no mundo em missão modernizadora e libertária. Mesmo quando os fatos insistem em desmenti-lo, nas entrelinhas essa ideia é largamente difundida.

Propaganda sub-reptícia

As duas principais revistas brasileiras — a “Veja” e a “Época” —, por exemplo, publicaram, simultaneamente, uma entrevista e um artigo com “especialistas” norte-americanos proclamando as “boas intenções” dos Estados Unidos em sua cruzada imperialista. Na primeira, o “guru” do ex-vice-presidente norte-americano Dick Cheney, o professor emérito da Universidade Princeton Bernard Lewis, chegou a dizer que as chances de a “democracia” criar raízes no Oriente Médio “são boas”.

No segundo, o diretor de “Estudos Latino-Americano do Conselho de Relações Exteriores de Nova York”, Kenneth Maxwell, diz que o principal perigo da guerra é colocar em risco “a vida de jovens corajosos nas estradas poeirentas do Iraque e nas ruas de Bagdá”. Essa propaganda sub-reptícia permeia todo o noticiário da mídia. Os Estados Unidos aprimoraram o sentido de propaganda política nos últimos anos. Desde que as trevas sobre a terra dos computadores começaram a encontrar seu fim, o aparato de mídia do país ganhou um poderio jamais visto.

Mas por trás dessa tecnologia poderosa e inovadora se encontram imensas contradições. As facilidades que uma tela com ícones autoexplicativos plugados com o mundo oferece para um lado, também existem — evidentemente guardadas as continentais diferenças conferidas pelo poder econômico — para o outro. Cabe, a bem da luta progressista e democrática, uma grande campanha para difundir o poderio que esse admirável mundo novo das comunicações oferece.

Os Estados Unidos, o capitalismo, as mentiras e as verdades

Difícil tarefa de ver o que se esconde

Por Elaine Tavares, em seu blog

Na contemporaneidade vários são os exemplos de mentiras deslavadas produzidas pelo governo dos Estados Unidos para respaldar ataques contra outros países. A mais conhecida diz respeito as falsas denúncias de armas químicas de destruição em massa do Iraque. Esse foi o motivo - inventado - que levou à invasão do território iraquiano em 2003. Outro engodo foi o 11 de setembro, quando derrubaram as duas torres do World Trade Center, o qual várias fontes alegam que foi uma grande armação dos serviços secretos estadunidenses para legitimar a invasão do Afeganistão. Sempre bom lembrar que tanto Sadam quanto Bin Laden eram amigos dos EUA, cria deles, inclusive, tendo sido treinados para defender os interesses dos Estados Unidos no lado oriental. 

Mentiras também foram usadas durante a guerra do Vietnã, com informações falsas sobre os "inimigos" bem como sobre o papel que os EUA desempenhava no conflito. Na verdade, os EUA atacaram o país apenas para barrar o que chamavam de "ameaça vermelha", o comunismo, o que seria ruim para seus negócios. Mentiras sobre Cuba, sobre a Venezuela, sobre o Chile.

Em 1898, quando reivindicava o que acreditava serem os seus direitos sobre Cuba à Espanha, os Estados Unidos chegaram a explodir seu próprio navio, o USS Maine, que estava ancorado em Havana, matando um terço da tripulação. E foi justamente a comoção pelas vítimas que fez com que a população aprovasse a guerra contra a Espanha. Tal como aconteceu no 11 de setembro que resultou em ataque imediato ao Afeganistão, como "resposta" ou vingança. 

Na atualidade, com a desestabilização criada no Oriente Médio, os Estados Unidos criaram - via mídia  - a figura do terrorista árabe, a qual tem servido de desculpas críveis para novas invasões e ataques. 

Ninguém é bobo de achar que os árabes são bonzinhos, coisa que nem asiáticos, nem americanos, nem qualquer outro representante do gênero humano é, por excelência. Existem os que são bons e os que se prestam às maldades mais atrozes, em qualquer etnia. Se temos o ISIS, temos também Guantánamo.  Mas, a ideologia produzida sistematicamente pelos meios de comunicação a serviço do governo imperial têm transformado qualquer árabe em inimigo. Exemplo mais recente foi o incêndio de um centro de refugiados na França, logo após o ataque terrorista em Paris, no qual, de maneira surpreendente, foi encontrado um passaporte sírio. Isso mostra o quanto as técnicas de mentira e de ideologização da realidade vão sendo copiadas pelos países que conformam o bloco do G-8, que são os que mandam no mundo. Imaginem que cabeça essa do terrorista que vai explodir uma multidão, passando primeiro em casa para pegar o passaporte, que servirá de prova sobre quem ele é. Ah, tá! 

O fato é que quase nada do que acontece no mundo é verdadeiro. No geral, o que aparece não é o que é de verdade. Mentiras, artimanhas, enganos, trapaças. Isso cabe a nós aqui no Brasil também, com coisas como a acusação de que os indígenas são o atraso do país, ou o crime da Samarco ou o incêndio na Chapada Diamantina. Sempre há que procurar o que está por trás das palavras, o que está por trás dos fatos. E se a pessoa apurar melhor as coisas vai logo perceber que tudo tem a ver com interesses financeiros de alguns poucos grupos, os quais tomaram de assalto os governos dos países, passando a agir com desenvoltura, destruindo vidas e mundos, sem qualquer compaixão.

Não é sem razão que os garotos e garotas que são recrutados pelo grupo extremista que se autodenomina Estado Islâmico, abandonam tudo para vivenciar a violência mais voraz. Eles geralmente são vítimas dessa violência, ou seus pais e avós. E, ao final, são encantados pela ideia da beleza da barbárie, cometendo atrocidades múltiplas e divulgando-as mundialmente como grandes feitos. E por que não seriam, se a barbárie é a que parece sempre vencer?

Hoje, dias depois dos atentados na França, ainda reverberam as discussões nas redes sociais sobre a colonialidade da dor. Afinal, a apresentadora da Globo chora pelo franceses (europeus, brancos), mas não chora pelos palestinos (semitas, morenos) que são bombardeados todos os dias desde 1947 ou pelos mortos de Bento Rodrigues. E ainda há os que dizem que não há hierarquização na tragédia. 

Mas, isso também é uma maneira de tentar tapar a realidade. Há hierarquização sim. Noam Chomsky, que é um teórico estadunidense, já mostrou como isso é real no seu lindo livro "Os guardiões da liberdade". Quando a vítima é aliada dos donos do mundo, a sua dor é viralizada, divulgada à exaustão. Mas, se a vítima é inimiga do donos do mundo ou se lhes é indiferente, então a sua dor cabe numa nota de rodapé, ou é simplesmente ignorada como acontece com os horrores perpetrados pelos capitalistas na África, ou na Ásia, ou na América Central ou mesmo no centro dos seus mundos.

O fato é que quando cai uma vítima do sistema, ela precisa mesmo ter sua tragédia escondida, para que não se gere a consciência de classe. Já quando quem tomba é do alto da pirâmide a coisa muda de figura, cria-se a ideia de que somos todos iguais na dor. Não somos. Nem na alegria, nem na dor, nem na vida mesma.

Então, não é de estranhar para nada que o facebook, esse projeto de emburrecimento e alienação, coloque a bandeira da França para customizar as fotos, e não coloque a da Palestina. Porque esse sistema de comunicação massiva é de propriedade do sistema. Seria mesmo um absurdo que ele se preocupasse com a dor dos pobres. Por isso parecem-me incognoscíveis as reclamações que se fazem na rede. Será possível que as pessoas não percebam isso?

E desse modo vamos caminhando com as caras enterradas nos celulares "espertos" conectados a uma realidade falseada.

Enquanto isso na realidade das gentes empobrecidas, bem aqui no nosso quintal, crianças e adolescentes ocupam escolas para que elas não fechem. Levam porrada, veem seus professores sendo brutalmente agredidos pela polícia que deveria protegê-los, mas não arredam pé. E de maneira subversiva vão usando o grande irmão, o facebook, para difundir sua luta. Só que, como não poderia deixar de ser, obscurecidos pelos mais variados espetáculos cotidianos que ganham todo o foco do sistema. 

Essa é a vida, nossa ordinária vida. A luta de classes que não cessa.