quinta-feira, 26 de março de 2015

Porque a vida sem sonho é o pior pesadelo


André J. Gomes, Revista Bula

"Prepara-te. A qualquer instante, quando menos esperares, alguém fará pouco de teus sonhos. Virá de um canto insuspeitado, do seio de tua família, do campo de teus amigos, da multidão de teus estranhos e fará coro com um bando descrente, rasteiro, numeroso e empenhado em manter a rasa normalidade das coisas.

Juntos, rirão de tuas ambições e teus desejos e intenções essenciais. Tentarão diligentes, aplicarão forças com empenho em seu intento brutal. Como quem laça nas ruas o pescoço de cachorros sem dono e os lança em jaulas frias de ferro e sangue, caçarão teus sonhos mais fundos até arrancá-los de tua alma.

Revela querer o mundo, vai, e dirão que a ti mal cabe o teu quintal. Confessa a tua busca por enxergar além e apontarão a tua cegueira. Defende a luz que te orienta e voltarão a ti um olhar de sombras. Experimenta celebrar a fantasia e julgarão tua loucura como a peste.

Sob tuas narinas ardendo com a fuligem de tanto sentimento baixo, arrastarão casa afora teus velhos propósitos de leveza que o tempo e os deveres de cada dia tornarão pesados como antigas cômodas e penteadeiras e aparadores. Olha ao redor. Tem gente levando teus sonhos embora.

Assim, escarnecendo do que tu queres, tentarão fazer-te desistir, fraquejar, esquecer que tens o tamanho de tua coragem, a gravidade de teus valores e a riqueza de teus sonhos roubados aqui e ali. Aos poucos, sorrateiros como os ratos e as cobras, levam-te o que tens de mais sublime. E tu nem percebes.

Quando te deres conta, serás só uma criatura miserável extorquida de tuas possibilidades, largada à rua da amargura, envolta nos trapos da rotina, racionando tua comida e teus anseios, mendigando atenção falsa.

Antes, defende teus sonhos. Os fáceis e os impossíveis. São eles que nos salvam das vidas cretinas e certezas burras, dos gênios arrogantes, da perfeição idiota, da paralisia barulhenta. É o sonho que nos mantém em movimento. Sonhando, cumprimos nossa vocação essencial de pessoas simples, seres perplexos, criaturas operosas olhando a vida com espanto e humildade."

PARA ENTENDER COMO É FEITO O JORNALISMO




"'Os cidadãos não dormiriam tranquilos se soubessem como são feitas as leis e as salsichas.'

A frase, atribuída ao chanceler do império germânico Otto von Bismarck (1815-1898), poderia receber uma paródia muito a propósito: “Os cidadãos dormiriam mais tranquilos se soubessem como é feito o jornalismo”. Seria uma maneira de dizer que o noticiário pessimista induzido pela imprensa diariamente teria menos efeito no ânimo dos cidadãos se eles soubessem como é produzido.

Eventualmente, um vacilo da redação torna pública a manipulação de reportagens e entrevistas, como aconteceu no dia 8 de fevereiro deste ano, quando circulou nas redes sociais cópia de mensagem enviada pela diretora da Central Globo de Jornalismo, Silvia Faria, recomendando aos chefes de núcleo da emissora que retirassem qualquer referência ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso do noticiário sobre o escândalo da Petrobras.

Segundo o jornalista Luís Nassif, que divulgou o fato em seu site noticioso (ver aqui), o texto trazia como assunto: “Tirar trecho que menciona FHC nos VTs sobre Lava a Jato” (sic) e alertava: “Revisem os vts com atenção! Não vamos deixar ir ao ar nenhum com citação ao Fernando Henrique”.

A confissão explícita de que o mais influente telejornal da emissora que domina as audiências é condicionado de cima para baixo não surpreende quem sabe como a salsicha é feita: o Grupo Globo deve ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso o saneamento de suas dívidas, obtido com um empréstimo do BNDES, no valor de R$ 600 milhões, concedido em 2002, no fim do seu segundo mandato. Além disso, a parceria tem outras raízes: a jornalista que constrangeu o ex-presidente com um filho que não era dele – e que FHC, inadvertidamente, reconheceu num cartório da Espanha (ver aqui) – era funcionária da TV Globo e foi premiada com um exílio na Europa há vinte anos.

A vida privada de políticos não deveria interessar ao jornalista, desde que os eventos particulares não interfiram nos fatos públicos. Não é o caso: a cumplicidade entre a principal emissora do país e um ex-presidente que segue influenciando a política e a economia nasce de ato indecoroso do então ministro do governo Itamar Franco, acobertado pela empresa de comunicação e que, possivelmente, criou as condições para uma decisão de Estado – o favorecimento num empréstimo do banco estatal de desenvolvimento.

Autobiografia terceirizada

Nesta semana, as entranhas da salsicha midiática voltam a ser expostas à visitação pública por um ato falho do correspondente-chefe da agência de notícias Reuters, Brian Winter, que em sua edição brasileira publicou entrevista com o ex-presidente, na qual Fernando Henrique Cardoso afirma que seu sucessor, Lula da Silva, tem mais responsabilidade no escândalo da Petrobras do que a atual presidente, Dilma Rousseff.

Às 9h08 de segunda-feira (23/3), a entrevista assinada por Brian Winter trazia uma afirmação de Fernando Henrique segundo a qual a corrupção se tornou mais intensa durante o governo Lula. Mas logo adiante, no sexto parágrafo, podia ser lido o seguinte: “Entretanto, um dos delatores do esquema, o ex-gerente de serviços da Petrobras Pedro Barusco, disse que o esquema de pagamento de propinas começou em 1997, durante o governo tucano”.

A pérola é o que se segue – entre parênteses, o autor faz uma ressalva ao editor: “(Podemos tirar, se achar melhor)”. Ou seja, o jornalista inseriu informação que relativizava a declaração do entrevistado e, em seguida, recomendou que a referência à origem da corrupção na Petrobras, durante o governo FHC, fosse cortada do texto final.

Após alguma repercussão nas redes sociais, o site da Reuters republicou a entrevista, sem a recomendação de Winter, mas deixava uma pista também entre parênteses: “(Reenvia texto publicado originalmente na segunda-feira para excluir nota do editor no fim do 6º parágrafo)”.

Este observador pediu explicação à agência de notícias e até a manhã de quarta-feira (25/3) não obteve resposta.

O correspondente Brian Winter, no Brasil desde 2010, publicou quatro livros, três dos quais são biografias: uma de Pelé, outra do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, e a terceira de Fernando Henrique Cardoso. O livro intitulado O improvável presidente do Brasil, publicado em 2007, originalmente em inglês, foi ditado pelo ex-presidente ao jornalista Brian Winter, que aparece como coautor, o que permite ao modesto sociólogo falar de si mesmo na terceira pessoa.

Deu para entender como é feita a salsicha?"


(De Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa, artigo intitulado "A receita da salsicha" - aqui).
via http://domacedo.blogspot.com.br/2015/03/para-entender-como-e-feito-o-jornalismo.html

quarta-feira, 25 de março de 2015

Desde a aurora da História tem sido assim

 E há aqueles  que ficam  felizes com uma imagem dessas
             
Vamos esclarecer uma coisa e colocar um ponto final nessa história de que há governos bons e governos maus.

O que há são corporações  com interesses distintos.

Elas decidem quem serão os governantes.

E todos esses governantes, sejam de “esquerda” ou de “direita” são escolhidos apenas para dar sobrevida ao sistema.

Essa é a única razão de sua existência.

É verdade que alguns são brutais, outros nem tanto, mas visam a mesma coisa.

A frase mais ridícula repetida ad nauseam foi a tal de “primavera árabe”.

Uma frase lamentável, que não significa absolutamente nada, mas serve para amainar os espíritos.

Desgraçadamente, países árabes não existem.

Existem países de língua árabe.

Assim como existem países de língua espanhola, inglesa ou francesa.

Seus governantes nada mais são do que servos das corporações.

Elas é quem decidem quem será o governante de plantão.

Seja qual for a sua “ideologia” ou “religião”.

Ideologia e religião tornaram-se duas abstrações altamente manipuláveis.

Os países de língua árabe são  países como os demais, com governantes como os demais e com ditaduras que em nada diferem das demais.

Ou alguém acha que há alguma diferença, de fato, entre o capitão-do-mato que governa os Estados Unidos e os governantes da Arábia Saudita?

Ou dos governantes do Golfo?

Ou dos governantes europeus?

A única diferença é que Estados Unidos e Europa sabem manipular muito bem a mídia e a indústria de entretenimento.

Tirem isso deles e vejam o que sobra.

Uma repressão brutal da qual ninguém escapa.

 Desde a aurora da História tem sido assim.

E se antes utilizavam a religião para domesticar, hoje eles usam a mídia e a indústria de entretenimento.

Pense nisso.

no: http://blogdobourdoukan.blogspot.com.br/2015/03/desde-aurora-da-historia-tem-sido-assim.html

De volta à ribalta


É um chavão, eu sei, mas política não se faz com o fígado, e sim com o cérebro.

A senadora Marta Suplicy, porém, ou não conhece esse velho clichê ou faz questão de contraditá-lo.

A guinada que deu em sua vida política mostra que, ou ela realmente pensa que passar para o outro lado pode lhe render votos, ou então que agindo assim se vinga de algo ou alguém do partido no qual construiu sua carreira.

Seja como for, a sua decisão acentua, pelo menos para boa parte das pessoas, uma faceta de sua personalidade - seu egocentrismo.

Vi a senadora três vezes em minha vida. 

Em duas, tive uma péssima impressão.


Ela me pareceu ser uma pessoa extremamente arrogante, o que não é nada bom para quem quer ser político.

A primeira foi em 1982, quando ela e seu então marido Eduardo Suplicy foram a Jundiaí para dar palestras no Gabinete de Leitura Ruy Barbosa. Eduardo era candidato a deputado federal, apoiado pelo pessoal do PT de Jundiaí, do qual eu fazia parte. Marta ainda não era política, mas sim a sexóloga que apresentava um quadro no programa TV Mulher, da Rede Globo. 

Lembro que depois, lá pelas 10 horas da noite, fomos com os dois para um bar da vizinhança. O casal até que foi um papo interessante.

A segunda vez que mantive contato com a senadora foi, muitos anos depois, numa sabatina com candidatos a governador do Estado, no Estadão.

Ela surgiu na sala reservada para a conversa com sua assessora de imprensa, mal e mal cumprimentou os jornalistas, manteve em toda a entrevista uma expressão de enfado, como se estivesse fazendo um favor de estar ali. 

Como todos sabem, perdeu a eleição.

A última vez que a vi foi num restaurante em Embu das Artes, há uns dez anos. 

O local estava praticamente vazio. Havia a mesa que ela ocupava, com seu marido de então, Luis Favre, e um assessor, e a minha, na qual estava com minha esposa.

Em dado momento, a senadora se levantou para ir ao banheiro e passou bem em frente a nós, sem sequer nos olhar.

Detalhe: ela estava em pré-campanha eleitoral.

Dizem que a senadora é muito querida em alguns bairros da periferia paulistana. 

Acredito que isso seja verdade. 

Afinal, como prefeita fez obras importantes para os pobres, como os CEUs e os corredores de ônibus. 

Mas a sua popularidade talvez não advenha só desse fato.

Num país onde há toda espécie de reis, príncipes, rainhas e princesas, uma Smith de Vasconcellos, bisneta e trineta dos barões de Vasconcellos, deve ser uma atração e tanto para o povo miserável dos rincões da capital.

Para essa população, acredito que não era só a prefeita que a visitava, mas, antes de mais nada, a celebridade que se dignava a se aproximar de seus fãs.

Agora, aos 70 anos, talvez ela tenha se cansado de ser apenas uma senadora da República de um partido que perdeu seu charme nas rodas sociais por ela frequentada, e sinta saudade do tempo em que deslumbrava o populacho com sua presença fidalga.

A vaidade conduz muitos destinos. 
http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/03/de-volta-ribalta.html

Maior área de impacto de asteroide já encontrada é descoberta na Austrália


Imagens das rochas na Bacia de Warburton revelaram deformações que podem ter sido causadas por um grande impacto
"Cientistas australianos descobriram o que dizem ser a maior área de impacto de asteroide já encontrada.
Da BBC Brasil 

A área tem 400 quilômetros de largura, está enterrada na crosta terrestre e deixou duas marcas distintas.

A equipe responsável pela descoberta, da Universidade Nacional Australiana (ANU, na sigla em inglês), diz que o asteroide se partiu em dois pedaços pouco antes de acertar a Terra, com cada fragmento medindo mais de dez quilômetros.

Os cientistas acreditam que o impacto ocorreu há pelo menos 300 milhões de anos na região central da Austrália.

A cratera já desapareceu há muito tempo da superfície, mas os cientistas conseguiram encontrar, embaixo dela, vestígios de dois grandes impactos.

Segundo o líder da pesquisa, Andrew Glikson, da Escola de Arqueologia e Antropologia da ANU, a cratera ocupa partes dos Estados Austrália do Sul, Queensland e Território do Norte.

"Os dois asteroides devem ter tido mais de dez quilômetros na transversal", afirmou.

"Grandes impactos como estes podem ter tido um papel muito mais importante na evolução da Terra do que pensávamos antes", acrescentou.

A equipe publicou os resultados da pesquisa na revista especializada em geologia Tectonophysics.
Acidente e datas

Foto: Universidade Nacional Australiana/ANU/D Seymour
Andrew Glikson examina uma amostra de rocha que material parcialmente derretido formado durante um impacto (Foto: Universidade Nacional Australiana/ANU/D Seymour)

Um projeto de pesquisa geotérmica encontrou por acidente as pistas dos impactos enquanto perfurava mais de dois quilômetros dentro da crosta terrestre.

Durante a perfuração foram encontrados vestígios de rochas que se transformaram em vidro devido a temperaturas extremas e pressão, causadas por um grande impacto.

Mas, a data exata do impacto ainda não foi determinada. E a equipe de cientistas ainda não conseguiu ligar o evento a alguma das várias extinções em massa na Terra das quais se tem conhecimento - como a Extinção do Cretáceo-Paleogeno, que, há 66 milhões de anos, levou ao desaparecimento dos dinossauros. 

"É um mistério, não conseguimos encontrar um evento de extinção que combine com estas colisões. Suspeito que o impacto pode ser mais antigo do que 300 milhões de anos", disse Glikson.

As rochas em volta têm entre 300 e 600 milhões de anos, mas a camada de cinzas que foi jogada pelo impacto não foi detectada como um sedimento em camadas de rochas do mesmo período.

O grande meteorito que cientistas acreditam ter sido responsável pela extinção dos dinossauros é ligado a uma camada de sedimento em rochas do mundo todo, por exemplo."

Quando o governo faz a diferença

"Ele sabia que nenhum país sai de uma crise sem um protagonista social que o conduza. Há muito o que aprender com Franklin Roosevelt.

Saul Leblon, Carta Maior


A expressão ‘vontade política’ ficou conhecida no passado como um cacoete petista. Uma espécie de ‘melhoral de voluntarismo’ para todos os males do país.

Há limites, claro.

Os homens constroem a sua história, mas se negligenciarem as circunstâncias serão atropelados por elas.

Diante de uma transição de ciclo econômico da gravidade da atual não basta vontade.

Se não houver força organizada e propostas críveis à equação das forças e interesses em litígio, o risco de morrer na pista é grande.
Exageros à parte, a verdade porém é que sem iniciativa política tampouco se sobrevive.

A própria organização que ela catalisaria é abortada na forma de prostração e perda de autoconfiança.

Pode ser fatal.

Um governo, uma nação inteira, torna-se assim refém das mandíbulas dos mercados, cuja supremacia e capacidade de coerção só podem ser afrontadas pela ação da cidadania armada de discernimento crítico e liderança desassombrada.

Não é uma tertúlia acadêmica.

A ausência dessa determinação configura-se hoje como um problema tão ou mais grave do que todos os desafios econômicos enfrentados pelo Brasil.

Cada crise tem a sua especificidade, mas há um exemplo clássico de desassombro político, armado de forte ativismo estatal – a contrapelo de todas as advertências do bom senso dominante -- que contribuiu decisivamente para evitar a caminhada de uma nação rumo ao abismo.

Ao emitir um sinal firme de rumo e autoridade devolveu a autoconfiança à sociedade, organizou seus trabalhadores e trouxe de volta o impulso ao investimento.

Tudo isso no bojo de uma crise global de gravidade idêntica à atual, ou pior

Foi num mês de março como agora, nos EUA, há oitenta e dois anos.

Franklin Roosevelt, o presidente americano frequentemente evocado quando se trata de buscar um paradigma à altura dos desafios históricos de uma nação, tomara posse no dia 3 de março de 1933.

Era uma sexta-feira .

No domingo, dia 5, emitiria uma nota convocando o Congresso dos EUA para sessão extraordinária que deveria ocorrer na quinta-feira, dia 9.

Trabalharia exaustivamente no fim de semana.

A uma da madrugada, já na segunda-feira, dia 6, o presidente democrata socorreu-se de uma lei da Primeira Guerra Mundial que confere poderes adicionais ao chefe de Estado norte-americano tanto na esfera monetária quanto cambial.

Decretou um feriado bancário de quatro dias, assegurando-se de que não haveria corrida às agências até a sessão legislativa.

As precauções eram justificáveis.

A insegurança, a especulação e o desemprego faiscavam por todo o país. O medo do futuro sentava-se à mesa de milhões de lares mesmo sem ter sido convidado.

O emprego, a casa, a comida e o dinheiro estavam na linha de tiro do dinheiro ensandecido.

Independente de quantas voltas a chave pudesse girar na fechadura, nada, nem ninguém, podia sentir-se em posição confortável naquele momento.

Não havia um centímetro de chão sólido no imaginário da sociedade.

Bolsas, bancos, fundos, grande conglomerados, políticos e justiça compunham diante da sociedade a caricatura de um enorme ladravaz.

Uma bocarra disposta a devorar até a última lasca da economia em benefício próprio. A ameaça do futuro resmungava sua língua pestilenta em cada esquina.

A estrutura bancária dos EUA era uma montanha desordenada de reputações em ruína.

Notícias de demissões faziam fila de espera nas manchetes de jornais.

Havia a percepção crescente de que as autoridades estavam à reboque dos acontecimentos, engasgavam com as notícias no café da manhã; rezavam à noite em silêncio pelo dia seguinte.

Números azedos rugiam para a economia diuturnamente sem que se erguesse uma voz capaz de comandá-los.

O monólogo dos tempos difíceis ia impondo sua ordem unida na frente da produção, do emprego e da política.

A percepção de que as rédeas escapavam às mãos que deveriam controlá-las fornecia a ração diária de ceticismo e pânico que engrossava a cintura do colapso econômico.

O relógio da crise adiantava seu despertar a cada dia.

O salve-se quem puder amplificado pela mídia  fornecia combustível à imolação coletiva.

Na semana em que Roosevelt assumiu a presidência dos EUA, o país tinha proporcionalmente o maior contingente de desempregados do mundo.

Mais de 14 milhões, número que somado às respectivas famílias equivalia a uma população maior que a da Inglaterra então.

A perda de confiança no futuro funcionava como uma empresa demolidora; milhões de marretas anônimas trabalhavam dia e noite para desmontar o que restava do alicerce social e econômico.

É nesse ponto que o timming das ações do governo – de qualquer governo – e, sobretudo, a natureza de sua comunicação à sociedade, faz enorme diferença.

Cada gesto, cada decisão, cada anúncio adquire uma dimensão estratégica; a forma como as providências são comunicadas, ademais de sua contundência, sobre a qual não pode pairar dúvida ou se revelam inócuas, ganha importância de variável histórica.

Uma crise tem um tempo certo para ser derrotada, ou derrotará o governo -- a produção e o emprego - que vacilar diante dela.

Nisso, sobretudo nisso, Roosevelt revelou-se o estadista cuja habilidade ainda tem lições a oferecer a seus pares nos dias que correm.

A primeira lição: a rapidez em ocupar a frente do processo; contemporizar é capitular.

E explicar, explicar, explicar. Explicar cada passo dado e sinalizar o seguinte.

Construir o caminho com a sociedade, em vez de comunicar metas etéreas e avulsas.

Em apenas uma semana de mandato ele tomou algumas decisões que não exorcizaram todos os demônios, mas foram afrontá-los em seu próprio campo.

Olhando esse momento histórico a partir de um mirante crítico, não se pode dizer que foram medidas acanhadas.

Hoje ainda elas sugerem tudo menos tibieza e hesitação diante do grande vendaval que se forma quando o pânico e o dinheiro se encontram numa mesma esquina.

Quantos dos atuais chefes de Estado teriam a coragem de anunciar hoje o que Roosevelt proclamou naqueles idos de março de 1933?

Os tempos são outros, é verdade.

A globalização tornou tudo mais difícil, justificam aqueles que ocultam sua hesitação nas dificuldades do presente para ofuscar o componente de coragem dos personagens do passado.

Mas o fato é que ao fazer seu segundo discurso à Nação, em 12 de março --note-se, o segundo grande discurso referencial em nove dias de mandato--  Roosevelt  trazia alguns troféus do primeiro round de uma luta que se estenderia até 1944, quando os EUA declararam guerra ao Eixo.

Só então, de fato, seu potencial produtivo pode, finalmente, ser acionado a plena carga para desvencilhar-se da recessão, graças às encomendas bélicas.

Muitos relativizam o alcance das medidas tomadas nos anos que antecederam esse momento.

Mas poucos lembram de se perguntar o que teria acontecido com o presidente democrata, reeleito quatro vezes (de 1933 a 1945), se a sua autoridade tivesse fraquejada nas primeiras horas, da primeira semana, nos primeiros cem dias do seu primeiro mandato?

É sobre isso que o governo brasileiro deveria refletir hoje em vez de se render a um dominó protelatório em que os desafios são terceirizados a um Bonaparte na expectativa de que ele dome o cavalo xucro da crise e depois o devolva encilhado e manso ao controle da sociedade.

Ontem, como hoje, o capital quer se livrar das amarras da história, livrar-se dos encargos trabalhistas, das greves, dos Morales, Lulas, Dilmas, Cristinas e de suas concessões sociais.

Se a globalização ampliou as condições para a utopia capitalista, o dragão afrontado por Roosevelt em 1933 exalava as mesmas obsessões. E, como hoje, talvez pior, o democrata também não dispunha de nenhuma ancora internacional na qual se amparar para enfrentar os mercados, seus exércitos e bombas de extermínio.

Seu valioso contrapeso era intuição política para atuar no vácuo da crise sem se deixar engolir por ela, mesmo quando hesitava.

Foi assim que fez um Congresso hostil discutir e aprovar, em um único dia, uma Lei de Emergência Bancária em rito fulminante, na quinta-feira, dia 9, seis dias depois da posse.

Estamos falando de Roosevelt, não de Lênin.

A Emergência Bancária facultava a ingerência estatal sobre todo o sistema financeiro público e privado dos EUA.

Repita-se, Roosevelt não pretendia liderar uma revolução bolchevique. Queria reformar a economia para que pudesse outra vez fazer prosperar o emprego e a produção, eliminar a fome e a miséria no seio das famílias.

Em 1933, Roosevelt sabia intuitivamente o que hoje é um consenso teórico, mas não político.

Para salvar o capitalismo de si mesmo, é preciso subordinar o crédito aos desígnios da produção, do emprego e do consumo.

Só a indução firme do Estado é capaz de fazê-lo em tempo hábil, antes que a epidemia recessiva se alastre e derreta o metabolismo econômico.

A Lei de Emergência dava ao Estado norte-americano essa faculdade e Roosevelt a exerceria com rapidez e apetite de um estadista.

Enquanto seus potenciais seguidores patinam na hesitação, há 82 anos, no longínquo março de 1933, Franklin Roosevelt pode apresentar-se à Nação, apenas dez dias depois da posse, como um Presidente vencedor.

Ele havia enfrentado o foco da doença in loco, submetera o sistema bancário e vencera o primeiro round.

A incerteza fora duramente atingida.

No domingo, dia 12 de março –insista-se, apenas nove dias depois da posse--  estreou seu programa “Conversa junto à Lareira”.

Passaria a usar o alcance avassalador da radiofonia então para conversar diretamente com a sociedade.

Um bolivariano après la lettre.

O Presidente tinha o que dizer e milhões queriam ouvi-lo.

Sua palavra estava sintonizada com o espírito das ruas e viria reforçar a espiral da auto-confiança em diferentes setores e segmentos.

As filas no guichê dos bancos já não eram mais para sacar depósitos. Agora elas reuniam cidadãos trazendo de volta suas economias. O Estado devolvera a garantia aos pequenos e a segurança aos investidores.

Roosevelt foi além, na tarefa de devolver otimismo a uma sociedade acuada e sem futuro.

Não se limitou a medidas rotineiras, nem confiou o imaginário da sociedade aos “canais convencionais’ da mídia aterrorizante.

Cada vez que falava à Nação, a voz do democrata dizia coisas inteligíveis à angústia do pai de família que acordara empregado e fora dormir com medo da demissão.

Suas mensagens e políticas pavimentavam o longo prazo sem negligenciar a emergência.

Traziam respostas para o presente e assim injetavam solidez à marcha do futuro.

Multiplicar providências imediatas para sacudir a sociedade entorpecida pela incerteza e a descrença, esse foi o seu objetivo ao criar a Administração para o Progresso do Trabalho.

Com ela encarou o desafio de enxugar a inundação de desemprego que afogava as famílias, as cidades e o interior do país.

A mensagem era simples e convincente: os EUA foram divididos em zonas salariais; para cada uma delas fixou-se um seguro-desemprego; o governo passou a contratar até três milhões de trabalhadores por ano, em troca desse pagamento.

A nova força-tarefa semearia canteiros de obra pelo país; estradas, ruas, escolas, canalizações, hospitais, parques infantis, pontes, caminhos vicinais foram recuperados, expandidos e construídos.

A Administração para o Progresso do Trabalho ganhou um braço cultural.

Em um mês –sim, 30 dias-- inauguraria 100 mil salas de alfabetização com um milhão de adultos inscritos na luta contra o analfabetismo.

Artistas e escritores desempregados foram contratados.

Sua mobilização desencadearia uma revolução cultural ampliando as franjas de apoio progressista ao governo, taxado de comunista pela direita raivosa e a mídia cínica.

O Presidente também convocou a juventude. Milhares de jovens foram incorporados a serviços florestais dando vida a planos de replantio de matas, preservação e proteção de bosques.

O democrata austero continuou falando ao futuro e à angústia do presente.

Na Conversa ao Pé da Lareira de outubro de 1933, Roosevelt deu um aviso ensurdecedor aos ouvidos da crise.

Um aviso do Estado aos mercados selvagens.

Qualquer família norte-americana, disse, ameaçada de perder a casa em que mora, a terra, ou seus pertences por conta da crise, deve telegrafar imediatamente para a Administração de Crédito Rural ou à Companhia de Empréstimo aos Proprietários de Residência.

‘Ela receberá o auxílio de que necessita’.

Para além das discussões técnicas sobre a viabilidade ou não de um novo New Deal, sobretudo na periferia do capitalismo, há uma lição de extrema atualidade a extrair dessa prontidão exibida pelo governo democrata de Franklin Roosevelt.

Ele tinha a exata noção de que, diante da lógica de uma crise, o Estado não pode se entregar à  busca de indulgência. Antes de sensatez, a rendição nessas circunstancias agrava a  escala dos problemas e contrata mais incerteza.

Fiel ao paradigma do desassombro, associado ao realismo, em vez incorporar o turbilhão da desintegração social, Roosevelt foi além.

Convocou os trabalhadores a se organizarem em sindicatos, concedendo incentivos e promulgando decretos que legalizariam a maciça sindicalização dos assalariados norte-americanos.

Ademais de afrontar a lógica dos mercados ensandecidos, portanto, o legendário presidente norte-americano fomentou uma organização correspondente da sociedade.

Intuitivamente, apesar de domar os mercados com a rédea curta da ação estatal, ele sabia que nenhum país sai de fato de uma crise histórica sem um protagonista social que o conduza.

Foi excomungado pela direita, acusado de comunista pela mídia conservadora.

Seria reeleito mais três vezes pelos norte-americanos.

Há o que aprender ainda com Franklin Roosevelt."

segunda-feira, 23 de março de 2015

FURNALÃO: LISTA COMPLETA NOME SOBRENOME, GRÁFICO. DOCUMENTADÃO E PERICIADO!




Lista completa aqui:

Relação completa de todos os políticos que fizeram campanha usando caixa dois de FURNAS.

*Quem é quem e quem recebeu quanto na lista do caixa dois de Furnas *

A "Lista de Furnas"

Documento sobre um suposto esquema de caixa dois nas eleições de 2002, cuja autenticidade está sob investigação da Polícia Federal - é essencialmente uma lista tucana.

Confira nos gráficos abaixo.

Os candidatos do PSDB teriam ficado com mais de dois terços (68,3%) dos R$39,9 milhões que teriam sido distribuídos a 156 políticos por empresas fornecedoras da última grande estatal do ramo elétrico. O PFL fica com um segundo lugar bem distante, 9,3%.

Mas, segundo a “Lista”, o dinheiro do PSDB não teria sido distribuído por igual. O grosso foi para três candidatos, que disputavam os três cargos mais importantes do esquema eleitoral tucano em 2002: José Serra, que pleiteava a Presidência, Geraldo Alckmin, candidato a governador de São Paulo, e Aécio Neves, que concorreu ao governo de Minas. Os três, conforme a “Lista”, teriam ficado com mais da metade do dinheiro do esquema de Furnas. Os demais 153 políticos que constam na “Lista” teriam dividido os 45,4% que restaram.

*A filiação partidária dos 156*

O PSDB também é o primeiro colocado em número de políticos entre os 156 citados no esquema que seria operado pelo então presidente de Furnas, Dimas Toledo, levado ao cargo pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. São 47 tucanos na lista, cinco deles candidatos a cargos majoritários. O PFL comparece com 33 candidatos, apenas um a cargo majoritário (senador).

Veja a distribuição:

Outro modo interessante de ler o documento em exame na PF é comparar os nomes que constam ali com a relação dos membros da CPI dos Correios, que desde junho do ano passado investiga as denúncias de corrupção no Parlamento.


O primeiro destaque é para o deputado ACM Neto (PFL-BA), que tem se salientado pela estridência de seu desempenho na comissão. Ele teria recebido R$ 75 mil do esquema de Furnas. Quanto ao PSDB, constam da “Lista” três dos seus quatro deputados que são titulares ou suplentes da CPI. Figuram também entre os 156 um membro da CPI dos Correios pertencente ao PL e dois dos quadros do PTB.







sugado do: http://blogdoitarcio.blogspot.com.br/2015/03/furnalao-lista-completa-nome-sobrenome.html

Como multinacionais lucram bilhões com ÁGUA (e estão de olho na Sabesp)


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Na década de 1990, a era de ouro da privataria em nosso continente, o Banco Mundial expediu a “orientação” de que a distribuição de água nos países fosse privatizada para se tornasse “mais eficiente”. O que as empresas de fato fizeram foi: encarecer a água em até dez vezes e reduzir a distribuição nos bairros mais pobres.
Alguns dos países que seguiram o “conselho” o fizeram sob violentos protestos, como a Bolívia, que enfrentou uma Guerra da Água em 2000, sob a presidência do ex-ditador Hugo Banzer: as multinacionais que passaram a controlar a água em Cochabamba queriam proibir as pessoas de furar poços ou mesmo recolher água de chuva, desatando a ira da população. A prefeitura teve de voltar atrás.

Na última década, quando passaram a ser governados pela esquerda, vários países que haviam privatizado resolveram reestatizar a água. Em 2007, o governo Evo Morales nacionalizou a água na Bolívia e defendeu que os países do Mercosul passassem a considerar os recursos naturais como direito humano fundamental.

Três anos antes, no governo do antecessor e de novo sucessor de Pepe Mujica, Tabaré Vázquez, havia sido aprovado, por plebiscito, uma emenda constitucional que define a água como bem público no Uruguai e que prevê a participação da sociedade civil na gestão dos recursos hídricos. Os serviços públicos de abastecimento de água para consumo humano, diz o texto, devem ser prestados “exclusiva e diretamente por pessoas jurídicas estatais”.
No Brasil, onde inexiste legislação neste sentido, já houve várias tentativas de privatizar a distribuição de água. Há, aliás, uma coincidência estranha em curso neste momento. Enquanto São Paulo vive uma crise hídrica, foi nomeado como secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, o engenheiro civil Benedito Braga, que irá acumular o cargo com a presidência do Conselho Mundial da Água, órgão ligado ao Banco Mundial e que inclui as maiores corporações da água no mundo entre seus membros, como as francesas Suez e Vivendi (leia mais na reportagem da Rede Brasil Atual, aqui).

Parte do esgoto em São Paulo já foi privatizado pelos tucanos a partir de 1995, quando a Suez (olha ela aí), em consórcio com a brasileira CBPO, obteve a concessão para operar os serviços de saneamento em Limeira. A maior concorrente dessas empresas privadas é a própria Sabesp, que é de capital misto, mas controlada pelo Estado (parte de suas ações são vendidas na Bovespa e na Bolsa de Nova York). O saneamento foi privatizado em outras cidades do Brasil, como Niterói e Manaus. Várias tentativas foram barradas na Justiça, acionada pelos sindicatos da categoria.

Agora, com a seca na Cantareira, as ações da Sabesp sofreram queda. Não parece o momento ideal para aplicar o surrado discurso de que apenas a privatização traria “eficiência” à empresa? O que seria, antes de tudo, uma injustiça, porque todo mundo reconhece a Sabesp como uma empresa eficiente e que os erros técnicos foram motivados por decisões político-eleitoreiras tomadas pelo governo Geraldo Alckmin. Sob a ótica privatista, no entanto, seria perfeito. A combalida Sabesp poderia –maravilha!– ser vendida por menos do que vale.
O documentário Flow (Fluxo) – Por Amor à Água, de 2008, mostra como as grandes corporações tomaram conta da água no mundo e transformaram riqueza natural em commodity. Trata-se de uma indústria de 400 bilhões de dólares atualmente, a terceira maior após o petróleo e a eletricidade. Especialistas dizem que em 20 anos o negócio da água vai crescer duas ou três vezes mais que a economia global. Imaginem o interesse dessas multinacionais sobre as empresas públicas brasileiras, o país com a maior reserva de água doce do mundo.

Na contramão da eficiência, o filme mostra moradores de bairros pobres de países africanos tendo que usar um cartão magnético para poder ter água na torneira. Água pré-paga, já imaginaram? A diretora francesa Irena Salina revela ainda uma coisa bizarra: como a presença de disruptores endócrinos na água, principalmente o pesticida Atrazina, está causando feminização dos peixes. Já foram encontrados rios inteiros apenas com peixes fêmeas ou intersex nos EUA, no País Basco e na França. A Atrazina é proibida em diversos países da Europa, inclusive na Suíça, de onde a multinacional Syngenta exporta para os países que a aceitam.

Muita gente se pergunta: se faz isso com os peixes, que efeito poderia ter nos seres humanos? A atrazina é amplamente usada na agricultura brasileira e de lá vai para os nossos rios, que correm para a água que sai da torneira de nossas casas. Além das mudanças hormonais, a substância tem sido conectada a tumores de mama, retardamento da puberdade, inflamação da próstata em animais e a câncer de próstata em humanos.
“Milhares de pessoas vivem sem amor. Mas não sem água”, diz a frase do poeta W.H. Auden na abertura de Flow. No Dia Mundial da Água, convido vocês para um mergulho nessa questão da qual depende nosso futuro como humanidade. Bom filme.

LINK: https://www.youtube.com/watch?v=7qpzeoIp_2E

no : http://socialistamorena.com.br/como-multinacionais-lucram-bilhoes-com-agua/

Os golpes de Estado do Século XXI


Houve um tempo em que se defendia no Brasil a ideia de que já não havia espaço para golpes de Estado na América Latina. Supostamente, as ditaduras nos haviam ensinado o que não queríamos, e nos Anos 90, alguns comentaristas políticos diziam isso, com uma segurança contagiante, tanto que me contagiaram na época.

Lembrei desses comentaristas — mas não vou citar nomes, até porque acho que realmente acreditavam nisso — quando, já trabalhando como jornalista, vivi na Argentina e no Chile, e pude constatar que a punição aos crimes dessas ditaduras deixou marcas na sociedade e nas instituições. Porém, no Brasil, onde pouquíssimo criminosos da ditadura foram julgados, e nenhum deles condenado, eu só me lembro deles quando vejo essa nova tendência brasileira de ir às ruas pedir intervenção militar.

Decidi então conferir se de fato ela tem fundamento. E não tem! Resumi a pesquisa somente ao jovem Século XXI que vivemos, e me deparei com os seis mais recentes golpes de Estado latinoamericanos — um a cada dois anos e meio. Antes de analisar algumas características deles, recordemos, por ordem cronológica, quais foram e como ocorreram:

Venezuela, 2002

Carmona Estanga, em uma de suas poucas horas de governo,
após o golpe de Estado de 2002, na Venezuela
O interessante do cenário que se viveu na Venezuela há treze anos atrás é que talvez ele não seja muito diferente do Brasil atual. A começar pelo fato da disputa política envolver a PDVSA (estatal petroleira venezuelana, a Petrobrás deles).

Durante os primeiros três meses daquele ano, a oposição, junto com os meios de comunicação hegemônicos, começaram uma campanha de desprestígio contra a empresa, questionando seus resultados e sua gestão. Alguns dos principais gerentes da PDVSA apoiavam as críticas e convocaram uma greve geral a partir do dia 9 de abril. A resposta do presidente Hugo Chávez foi a demissão dos gerentes que convocaram a greve, a nomeação de um novo diretor para a empresa e o anúncio de manifestações em defesa da soberania venezuelana sobre o petróleo, em locais diferentes dos protestos pela greve.

No terceiro dia da greve, os manifestantes opositores mudaram o trajeto da marcha, o que causou temor por um possível confronto. Antes que isso pudesse acontecer, foram percebidos disparos contra as duas manifestações, que produziram 19 mortes, a maioria com tiros na cabeça. A oposição acusou o presidente Chávez pelas mortes e o exército invadiu o Palácio Miraflores na noite de 11 de abril, saindo de lá com o presidente preso. Horas depois, Pedro Carmona Estanga, líder dos empresários, jurava como presidente imposto pelos grupos que apoiaram o golpe, e dissolvia o Parlamento, a Corte Suprema, o Ministério Público e o Conselho Nacional Eleitoral.

Porém, seu mandato durou algumas horas. Uma multidão de centenas de milhares de chavistas se reuniu nos bairros carentes de Caracas e foi até o palácio presidencial, exigir a restituição do presidente. O clamor popular levou alguns grupos militares a desobedecerem o alto mando, o que permitiu o regresso de Chávez ao poder.

Análises de criminalística e dos vídeos relacionados ao dia do confronto das marchas provaram que os disparos haviam partido de franco-atiradores da polícia localizados estrategicamente nos edifícios contíguos, e que faziam parte do golpe. Alguns chefes policiais foram condenados, mas anistiados, em 2007, por decreto do próprio Hugo Chávez.

O documentário Chávez; Inside the Coup (Chávez: Bastidores do Golpe), das cineastas irlandesas Kim Bartley e Donnacha O´Brian, que na América Latina foi chamado La Revolución no Será Transmitida (A Revolução Não Será Televisionada), é o melhor trabalho jornalístico, contendo riqueza de detalhes sobre o contexto do golpe de Estado na Venezuela, em 2002.

Haiti, 2004

Aristide escoltado entre a multidão, enquanto ainda era o presidente do Haiti
Após a morte de um de seus líderes, em setembro de 2003, a guerrilha Frente para a Liberação e Reconstrução Nacional inicia uma série de ataques em regiões do interior do país.

No dia 5 de fevereiro de 2004, conseguiram tomar a cidade de Gonaïves, terceira cidade mais populosa do Haiti, no litoral norte do país, e duas semanas depois dominaram Cap-Haïtien, segunda cidade mais importante. No dia 29 de fevereiro, os rebeldes invadiram a capital Port-Au-Prince. Horas depois, o então presidente Jean-Bertrand Aristide era derrubado, mas não necessariamente pelas milícias. Uma vez no exílio, na África do Sul, Aristide assegurou que nunca havia renunciado, acusando os Estados Unidos de terem-no sequestrado e levado à força para fora do país. Os opositores ao presidente deposto contestaram a versão, e responsabilizaram Aristide pela crise econômica e a miséria que assolava o país, e o acusaram de não conter a corrupção nas instituições públicas.

Logo, o país sofreu intervenção de forças da ONU. cujo objetivo declarado era o restabelecimento da ordem democrática, em missão que contou com o apoio de diversos países latinoamericanos, incluindo o Brasil. Após a queda de Aristide, o presidente Boniface Alexandre governou o país interinamente, até 2006, quando foi eleito René Preval.

Bolívia, 2008

Indígenas sepultam as vítimas do massacre de Pando, em 2008
No segundo semestre daquele ano, uma série de confrontos entre grupos apoiadores e opositores ao presidente Evo Morales começam a acontecer em departamentos no leste do país, os que compõem a chamada Meia Lua, principalmente nos quatro (Pando, Beni, Santa Cruz e Tarija), onde a população indígena não é maioria — o que revelou o preconceito étnico como uma das origens do enfrentamento.

Durante cerca de vinte dias, os grupos opositores, liderados por prefeitos da região da Meia Lua, organizaram bloqueios de estradas, greves, ocupação de prédios estatais e até mesmo a sabotagem de um dos principais gasodutos do país. Alguns dirigentes opositores pediam a derrubada de Morales. Outros, principalmente os de Santa Cruz, tentaram organizar um referendo para independência do departamento ou de toda a região da Meia Lua.

No dia 11 de setembro, um grupo de dezesseis camponeses indígenas que apoiavam o presidente foram assassinados, no departamento de Pando, o que foi seguido por outros ataques racistas contra populações indígenas nas regiões insurgentes. A oposição afirmou que presidente perdia o controle do país, e tentou derrubá-lo.

Michelle Bachelet, então presidenta do Chile e presidenta pró-tempore da Unasul, convocou um encontro extraordinário dos presidentes. A entidade classificou os ataques como uma tentativa de desestabilização da democracia boliviana, e anunciou uma série de medidas em conjunto para apoiar o governo boliviano. Diante da total falta de apoio dos demais países do continente, a oposição boliviana decidiu baixar a guarda, desarmar os bloqueios, e até mesmo a ideia de referendo separatista foi abandonada.

Honduras, 2009

Protesto contra deposição de Zelaya, que foi sequestrado em pijamas  pelo exército hondurenho, que o abandonou num aeroporto da Costa Rica
No dia 28 de junho, estava programado um referendo para decidir sobre a viabilidade ou não de uma assembleia legislativa para a reforma política do país. Durante a madrugada, um grupo de militares, comandado pelo general Ramón Vásquez Velásquez, invadiu a tiros a casa presidencial e sequestrou o presidente Manuel Zelaya, levando-o de pijamas a um aeroporto, onde foi despachado de avião até a Costa Rica.

Através de uma manobra legislativa, o presidente do Congresso, Roberto Micheletti, conseguiu colocar a si mesmo na presidência, e governou durante seis meses, até a realização de eleições, em novembro, onde foi eleito o opositor Porfirio Lobo.

Manuel Zelaya tentou regressar a Honduras em ao menos três ocasiões, e obteve sucesso na terceira vez, onde conseguiu asilo na Embaixada do Brasil durante cinco meses, até ser definitivamente condenado ao exílio.

Após o golpe, diferentes organizações denunciaram aos organismos internacionais uma escalada de atentados contra comunidades de bairros pobres, cidades da zona rura, movimentos sociais e pequenos meios de comunicação alternativos. Atualmente, o país é apontado pela ONU como o de maior índice de homicídios no mundo.

Equador, 2010

Rafael Correa enfrentando gases lacrimogêneos atirados pela polícia equatoriana. Logo viriam tiros, mas o presidente conseguiu sobreviver
Setembro é mesmo um mês preferido para golpes de Estado, principalmente na América do Sul. Neste caso, o confronto aconteceu no dia 30, durante uma greve de policiais. O próprio presidente Rafael Correa foi até um quartel principal da polícia negociar com os grevistas, mas não obteve resultados.

Os líderes do movimento, insatisfeitos com a negativa presidencial, realizaram rapidamente um ataque a comitiva presidencial, com granadas de gás lacrimogênio. Membros da guarda presidencial conseguiram salvar Correa, resguardando-o no Hospital Militar, que ficava próximo ao quartel. O edifício foi cercado pelos policiais grevistas, que chegaram a abrir fogo.

Manifestantes em favor de Correa foram ao local do conflito, protestar contra os ataques, e também receberam disparos. Após a intervenção do Exército, a situação foi controlada, embora tenha terminado com as mortes de dois membros da Guarda Presidencial, dois policiais grevistas e um estudante que estava entre os manifestantes em favor do governo, além de 274 feridos.

Paraguai, 2012


Em maio, a desocupação de uma chácara, na localidade de Curuguaty, no sudeste do país, levou a um confronto entre policiais e camponeses sem-terra, que terminou com um saldo de dezessete mortes (onze camponeses e seis policiais). As críticas ao manejo da situação por parte do governo levou a um pedido de julgamento político do presidente Fernando Lugo, que finalmente aconteceu no dia 22 de junho, e terminou com 39 votos a favor (apenas 4 contra) de declará-lo culpado por uma suposta crise institucional, cuja pena era a sua destituição do cargo.

Lugo tentou se defender com o argumento de que não havia nenhum tipo de manifestação popular contra o governo pelas mortes em Curuguaty e que toda a pressão emanava dos partidos opositores e da imprensa paraguaia, que defendia os interesses dos latifundiários e do agronegócio, mas não conseguiu comover os legisladores. Foi substituído no poder pelo seu vice, Federico Franco, cujo partido PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico) já sinalizava uma ruptura com o governo, desde a criação da esquerdista Frente Guasú, em 2010.

No ano seguinte, novas eleições presidenciais levariam ao poder o empresário Horacio Cartes, um dos articuladores da derrubada de Lugo — que foi eleito senador, no mesmo pleito.

Daqui por diante

Fazendo um balanço dos seis golpes que descrevemos acima, pode-se observar que quatro deles conseguiram a destituição do presidente, embora um deles tenha sido revertido no dia seguinte. Os outros obtiveram resultados políticos permanentes.

Outra característica importante dos quatro golpes concluídos, sobretudo em comparação com os do século anterior, é que geraram substitutos civis, ainda havendo evidente participação militar em pelo menos dois deles.

Cinco desses golpes ocorreram contra países da chamada Alba (Aliança Bolivariana Para os Povos da América), embora a Venezuela tenha sofrido seu golpe antes da entidade existir — o Haiti, que é somente membro observador, também sofreu seu golpe antes, e Honduras deixou de ser membro depois da queda do seu presidente.

Durante os 13 anos de governos do PT, Lula e Dilma venceram o câncer e defenderam um projeto baseado na distribuição de renda. Agora, enfrentam uma oposição que já não titubeia ao falar em impeachment.

Além dos golpes de Estado, os presidentes latinoamericanos também estão tendo que enfrentar neste século uma macabra coincidência (ou talvez não seja mera coincidência, segundo algumas teorias) com respeito a sua saúde — e, outra coincidência, todos os casos envolvendo governantes de com alianças de esquerda ou centro-esquerda. Hugo Chávez terminou falecendo em 2013, vítima de um câncer, o mesmo mal que afetou Lula da Silva (2011), Dilma Rousseff (2009), Cristina Kirchner (2011) e Fernando Lugo (2010). A exceção dos brasileiros, os outros três enfrentaram a doença em pleno exercício de seus mandatos. Também houve a morte de Néstor Kirchner, em 2010, após um inesperado ataque cardiorrespiratório, quando o ex-presidente argentino exercia o cargo de secretário-geral da Unasul. Em 2013, Cristina Kirchner passaria por um novo susto, sendo levada a uma cirurgia de emergência, para retirada de um coágulo no cérebro.

Atualmente, três países vivem situações simultâneas de instabilidade institucional. Na Argentina, a oposição e o grupo de mídia Clarín tentam levar adiante a tese de que a presidenta Cristina Kirchner está envolvida no suposto assassinato do promotor Alberto Nisman, enquanto o país vive um ano eleitoral em que a mandatária não poderá concorrer à reeleição, e com um governismo que ainda não decidiu o candidato à sucessão. O venezuelano Nicolás Maduro, herdeiro político de Chávez, enfrenta uma forte crise, com intensa confrontação política nas ruas, desde janeiro de 2014, e no ano que vem poderia ter que enfrentar um referendo sobre a continuidade de seu mandato. Enquanto isso, Dilma Rousseff inicia o seu mandato com forte pressão da oposição nas ruas, e a oposição declarada até de líderes de partidos da base aliada, num cenário onde já não há cautela para o uso da palavra impeachment.

Mas reitero, este tópico foi para contestar a lembrança que tenho da ideia de que não há mais espaço para golpes de Estado na América Latina, que deve ter nascido e morrido naqueles Anos 90, em que se acreditava que a História havia acabado com a queda do Muro de Berlim. Contudo, não estou apostando em que pode acontecer um sétimo golpe, ou em quão breve isso poderia ocorrer, ainda que haja os que não acreditam em bruxas mas sabem que elas existem — e alguns ainda arriscam dizer de que país elas vêm.

Victor Farinelli
No Blog do Miro

Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe

 Karen Curi, Revista Bula

"Como é possível viver sem estar vivo? Manter-se de rancor sem um pingo de ternura e alegria? Tem pessoas que sobrevivem em um mar de lamúria, que transformam a vida em uma perda de tempo e faz de cada segundo uma obrigação de existir. Gente que parece ter ingerido um veneno em dose insuficiente para matar de uma só vez, então se arrasta, se contorce. E não adianta lhes falar de amor ou do dia lindo que está lá fora… Nada, absolutamente nada é capaz de arrancar a nuvem de tempestade sobre as suas cabeças.

Às vezes eles até espiam o colorido através das suas frestas, mas o cansaço de respirar e o desânimo por existir são maiores do que qualquer sopro de vida que alguém possa lhes oferecer gratuitamente.

Parece que estão à espera de um milagre, de um navio de resgate que irá lhes salvar da própria presença, que serão pescados para uma ilha dos milagres e, assim, poderão voltar a ser como foram um dia ou, quem sabe, se transformarão no que gostariam de ser. O curioso é que essas pessoas não fazem nada para sair do naufrágio no qual se encontram. O que eles não percebem é que a inércia não traz mudança.

Ora, infelizes somos todos nós, eu aqui e você aí. Sentimos raiva, nos indignamos com as reviravoltas da vida, por tantas vezes somos injustiçados, usados, descartados, inutilizados. Acreditamos em quem não deveríamos, desconfiamos de quem não merece a nossa cisma. Fomos traídos, nos decepcionamos, aproveitaram da nossa boa fé, nos acusaram impropriamente. Ok. A vida não é um mar de rosas. E não é mesmo. Mas que as infelicidades e infortúnios não se sobreponham às alegrias e conquistas.

Viver é uma sucessão de erros e acertos, por vezes um tanto sem sentido, embora sempre oportunos para o nosso próprio conhecimento. Não precisamos entender o porquê da vida, nos basta viver inteiramente, querer plenamente, ser completamente. É inadmissível deixar que o espinho de uma flor destrua a beleza de todas as outras. Tristezas existem, sim, para serem curadas e adormecidas com doses de amor, abraço apertado de amigo e uma porção de sorrisos. Outros verões surgirão para aquecer a casa e o coração da gente.

Como pode estar vivo sem querer viver? Tantas pessoas lutando, se agarrando a um fio de esperança, um raio de luz que lhes dê a possibilidade de ver o sol nascer mais um dia, enquanto outros se fazem sobreviver numa existência miserável de pesares, mazelas e revoltas. Estão de mal com o mundo, de costas para qualquer possibilidades de receber amor, afastados de toda oportunidade de ser um bocado feliz, nem que seja por um momento. Se atam à cama como se ela fosse lhes trazer o tempo perdido, ou por obra de uma graça, transportar-lhes ao futuro dos sonhos. Enquanto isso a vida está sendo desperdiçada a cada minuto de prostração.

Não existe mudança sem movimento. Portanto, se algo incomodar o melhor é tomar uma atitude, virar a mesa, quebrar a banca. Problemas existem para serem resolvidos e superados, não para que se tornem companheiros inseparáveis, atrelados numa dependência existencial.

Sejamos firmes para aguentar as pancadas que nos derrubam ao chão e confiantes de que sairemos mais fortalecidos depois de cada batalha.

Mostremos a nossa cara e nossas cicatrizes sem medo ou vergonha do que já fomos, mas com muito orgulho do que nos tornamos. Sejamos inteiros de amor, completos e repletos de fé e esperança, acreditados no bem, na verdade, na igualdade e na gentileza. Não percamos a nossa coragem de seguir adiante nem a determinação de ser feliz, sempre, apesar de tudo e acima de qualquer razão."