terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A Campanha do Petróleo e a Mobilização Popular em favor da Petrobrás


"Conheça a história da Petrobrás, que desde a sua criação, foi mais que uma empresa pública. Surgiu como emblema da nacionalidade e da soberania brasileira. 

Gilberto Bercovici, Carta Maior

No Brasil da década de 1930, sob a Presidência de Getúlio Vargas, embora não houvesse propriamente um plano de desenvolvimento, a instituição de uma série de novos órgãos realça a mudança nas relações entre o Estado e o sistema econômico, buscando o aprofundamento da industrialização de base, o redirecionamento do centro dinâmico da economia para o mercado interno e a redução da dependência do país em relação aos mercados internacionais de produtos primários.

O peso do petróleo e derivados sobre a pauta de importações brasileira, em tempos tumultuados que antecediam a eclosão de mais uma guerra mundial, adquire grande importância. Tratar de petróleo não dizia respeito apenas ao equilíbrio da balança comercial, mas também à dependência nacional em relação ao suprimento de produtos básicos para o processo de industrialização, para o sistema de transportes e comunicações e para a própria defesa do país. É neste contexto que os militares passam, também, a se preocupar com a questão petrolífera. No campo militar, o nome que se destacaria na proposição e implementação de uma política petrolífera foi o do General Júlio Caetano Horta Barbosa, primeiro presidente do Conselho Nacional do Petróleo, órgão criado por meio do Decreto-Lei nº 395, de 29 de abril de 1938. Foi sob a direção do General Horta Barbosa que o Conselho Nacional do Petróleo descobriu as primeiras jazidas de petróleo do Brasil, na região do Município de Lobato, na Bahia, em 1939.

No entanto, a partir de 1943, com a saída do General Horta Barbosa do Conselho Nacional do Petróleo, há uma mudança significativa na linha de atuação da política nacional do petróleo. As iniciativas nacionalistas são cada vez de menor intensidade, ampliando-se as tentativas de alteração da legislação no sentido de permitir a participação do capital estrangeiro e diminuir a atuação direta do Estado na indústria petrolífera.

A equipe do Presidente Dutra, em 1947, elaborou um anteprojeto de lei sobre o petróleo em que buscava revogar a orientação nacionalista seguida desde 1938. A proposta do Governo Dutra, denominada de "Estatuto do Petróleo", tinha como ideia-chave a abertura do setor para o capital privado, nacional ou estrangeiro. Para os autores do projeto, a participação do capital estrangeiro era a única forma de assegurar a exploração de petróleo no país, pois o Estado não teria recursos para investir no setor, o que poderia comprometer as futuras gerações.

O debate sobre o controle do Estado sobre os recursos estratégicos, especialmente o petróleo, começou a ganhar espaço em alguns órgãos de imprensa e vários setores da sociedade, como o próprio Clube Militar. O Clube Militar convidou o General Juarez Távora, ex-Ministro da Agricultura do Governo Provisório e um dos responsáveis pela elaboração do Código de Minas de 1934, que consagrou a nacionalização dos recursos minerais do subsolo, a pronunciar uma série de conferências sobre o tema do petróleo em 1947. Revendo suas ideias, o General Juarez Távora, embora ainda se afirmasse defensor da soberania nacional sobre os recursos minerais, advogava a colaboração do capital estrangeiro para a exploração das reservas petrolíferas brasileiras. Como o Brasil dispunha de reservas, mas não de recursos técnicos, humanos e econômicos suficientes para explorá-las, o capital estrangeiro seria necessário para este empreendimento. Não bastasse isto, a condição brasileira de aliado dos Estados Unidos também favoreceria a permissão de colaboração do capital estrangeiro, especialmente norte-americano, ainda mais levando-se em conta a necessidade de exploração de um recurso tão estratégico como o petróleo. O monopólio do Estado, para Juarez Távora, seria a solução ideal, mas as condições objetivas brasileiras impediriam sua adoção naquele momento.

Além do General Juarez Távora, o Clube Militar convidou o ex-Presidente do Conselho Nacional do Petróleo, General Horta Barbosa, para se manifestar sobre o assunto, em duas conferências, também em 1947. A posição de Horta Barbosa foi contraposta à de Juarez Távora. Para ele, seria impossível conciliar os interesses nacionais da política do petróleo com os interesses privados das grandes empresas internacionais. A única alternativa viável para a preservação da soberania nacional sobre os recursos minerais seria a exploração do petróleo em regime de monopólio estatal. Para Horta Barbosa, se o petróleo não fosse monopólio estatal, se tornaria um monopólio internacional.

A tramitação do "Estatuto do Petróleo" não foi tranquila. A falta de convicção da própria maioria parlamentar que sustentava o Governo Dutra contribuiu para a abertura às contestações. O crescimento da oposição à aprovação do "Estatuto do Petróleo", apesar do boicote da grande imprensa, vai ser perceptível nos meios políticos e empresariais. A organização de vários setores da sociedade em defesa da nacionalização dos recursos minerais, particularmente do petróleo, vai conseguir pressionar o Executivo e o Legislativo a não aprovarem o "Estatuto do Petróleo", cuja discussão foi sendo abandonada até a aprovação da legislação que instituiria o monopólio estatal do petróleo em 1953.

Estudantes, sindicalistas, intelectuais, militares, técnicos e integrantes de praticamente todas as camadas sociais vão conseguir, em um momento raro da história política brasileira, mobilizar a opinião pública a favor da tese do monopólio estatal do petróleo. A "Campanha do Petróleo", cujo lema, "O Petróleo é Nosso", ganhou as ruas de todo o país, foi articulada, a partir de abril de 1948, em torno do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN), que tinha entre seus presidentes de honra o General Horta Barbosa e o ex-Presidente Arthur Bernardes. A "Campanha do Petróleo" enfrentou uma série de obstáculos, como o boicote da grande imprensa, a repressão policial (justificada pela sua suposta vinculação ao Partido Comunista, na ilegalidade desde 1947), a hostilidade do empresariado, entre outros. Apesar das dificuldades, serão realizadas palestras e conferências sobre o tema do petróleo por todo o país, com a publicação de inúmeros textos e panfletos, visando esclarecer a população. Ao conseguir mobilizar a opinião pública nacional, a "Campanha do Petróleo" tornou o tema uma questão obrigatória nos debates das eleições gerais de 1950, ampliando ainda mais o seu impacto.

A eleição de Getúlio Vargas à Presidência da República, em 3 de outubro de 1950, fortaleceu a alternativa nacionalista para a questão do petróleo. A Assessoria Econômica da Presidência da República, chefiada por Rômulo de Almeida e Jesus Soares Pereira, iniciou, em julho de 1951, a elaboração da proposta que Getúlio Vargas apresentaria como política nacional do petróleo. O ponto de partida seria a criação de uma sociedade de economia mista, a Petróleo Brasileiro S.A., com participação acionária da União, Estados e Municípios, para executar essa política (Projeto de Lei nº 1.516, de 1951). A proposta já anunciava que a União deteria, no mínimo, 51% das ações com direito a voto na sociedade a ser constituída e de suas subsidiárias, enfatizando a imprescindibilidade do controle nacional do setor de petróleo.

O projeto de criação da Petrobrás buscava se contrapor ao "Estatuto do Petróleo", tentando incorporar as críticas nacionalistas e antecipando-se a eventuais contestações mais nacionalistas. No entanto, a solução proposta de criação de uma sociedade de economia mista, em que há participação do capital privado, será criticada por permitir que o capital estrangeiro pudesse ser incorporado no setor de petróleo, por meio de empresas vinculadas a seus interesses organizadas no país. Outra crítica nacionalista feita ao projeto foi a ausência de qualquer menção ao monopólio estatal.

Defendendo a proposta de criação da Petrobrás, a Assessoria Econômica da Presidência da República afirmava que a União já exerceria um monopólio de fato sobre a exploração do petróleo brasileiro. Como as jazidas de petróleo e gás natural já eram integrantes do patrimônio da União, a proposta de legislação sobre o petróleo apenas estaria buscando regular a utilização de bens da União por ela mesma, portanto, não seria preciso justificar a sua exclusividade.

Com o conhecimento e o apoio do Presidente Vargas, o deputado Euzébio Rocha (PTB-SP) apresentou um substitutivo, o Projeto de Lei nº 1.595, em 28 de janeiro de 1952, no qual reforçava o controle estatal sobre a empresa a ser criada. A inovação mais importante do substitutivo de Euzébio Rocha foi a previsão de um dispositivo que proibia a instituição de novas organizações e de novas autorizações e concessões com objetivos idênticos, correlatos ou afins aos da Petrobrás e suas subsidiárias. O monopólio estatal estava previsto, assim, de forma implícita.

A oposição ao Governo Vargas, encabeçada pela União Democrática Nacional, até então favorável ao capital estrangeiro na exploração do petróleo e demais recursos minerais, apresentou, em 6 de junho de 1952, uma proposta mais nacionalista do que a que estava em discussão. A proposta da UDN, assinada pelo deputado Bilac Pinto (UDN-MG), defendia a instituição do monopólio estatal para a pesquisa, lavra, refinação e o transporte de petróleo e, ao invés de uma sociedade de economia mista, a constituição de uma empresa pública, denominada Empresa Nacional de Petróleo (ENAPE), com capital integralmente público. A ENAPE, ainda, atuaria em todos os setores diretamente, sem constituir subsidiárias. O substitutivo recebeu o apoio de vários parlamentares integrantes da base de sustentação parlamentar do governo, que, durante a tramitação do Projeto nº 1.516/1951, tentaram deixar explícito aquilo que entendiam que estaria apenas implícito no projeto.

A "Campanha do Petróleo" continuou ativa durante todo o período de tramitação do Projeto nº 1.516/1951, defendendo a tese do monopólio estatal do petróleo e combatendo os pontos que julgava contrários ao interesse nacional no projeto do governo. Os obstáculos enfrentados para a mobilização continuavam gigantescos, como a repressão policial, a perseguição de alguns governadores, o boicote da mídia, etc. No entanto, a pressão a favor do monopólio estatal foi constante. Apesar das críticas nacionalistas, a mudança no rumo da política nacional do petróleo se tornou evidente, apesar das falhas e omissões, propositais ou não, do projeto de lei. A mudança de política era tão clara, além da pressão da opinião pública, ainda mobilizada pela "Campanha do Petróleo", que não surgiu nenhuma proposta na Câmara dos Deputados com uma posição politica e ideológica contrária à do Governo Vargas.

O debate público e parlamentar irá transcorrer a partir do pressuposto do controle nacional sobre os recursos petrolíferos e das alternativas mais adequadas para assegurar este controle. Após um acordo com as principais lideranças partidárias, em que o Governo aceitava expressamente a inclusão do monopólio estatal na pesquisa, lavra, transporte e refinação do petróleo, mas exigia a manutenção da estrutura jurídica de sociedade de economia mista, o Projeto nº 1.516/1951 conseguiu ter sua votação acelerada na Câmara dos Deputados.

O debate no Senado Federal em torno da criação da Petrobrás foi muito mais difícil. A pressão dos setores econômicos contrários ao monopólio estatal, inclusive a grande imprensa, foi mais intensa, e parte dos senadores, liderados por Othon Mäder (UDN-PR), Plínio Pompeu de Sabóia Magalhães (UDN-CE) e Assis Chateaubriand (PSD-PB), se declaravam expressamente contrários ao projeto aprovado na Câmara. A defesa do monopólio estatal do petróleo foi feita por Landulfo Alves (PTB-BA), Alberto Pasqualini (PTB-RS), Domingos Velasco (PSB-GO) e Kerginaldo Cavalcanti (PSP-RN). Ao final do processo de votação, o Senado aprovou trinta e duas emendas ao projeto da Câmara, muitas delas alterando radicalmente o sentido da proposta, ao permitir, inclusive, meios para a participação e o controle do capital estrangeiro sobre o setor de petróleo.

Em 15 de julho de 1953, a Câmara dos Deputados buscou restaurar a estrutura e intenção originais do projeto de lei, com a rejeição de onze das emendas aprovadas pelo Senado que desfiguravam o projeto, mantendo-se as demais. A votação do Projeto nº 1.516/1951 foi encerrada em 15 de setembro de 1953, e a redação final foi aprovada pelo plenário da Câmara dos Deputados em 21 de setembro de 1953, sendo remetido o texto aprovado para a sanção presidencial. Finalmente, em 3 de outubro de 1953, Getúlio Vargas sancionou, sem nenhum veto, a Lei nº 2.004, que instituiu a política nacional do petróleo, explicitou o monopólio estatal do petróleo no Brasil e autorizou a criação da Petrobrás.

Nas principais regiões produtoras de petróleo, a indústria petrolífera é estatal ou foi nacionalizada. Cerca de 90% das reservas petrolíferas do mundo pertencem ao Estado, sendo exploradas por empresas estatais, que controlam aproximadamente 73% da produção, atuando em regime de monopólio ou quase-monopólio sobre os recursos de seus países. O papel do Estado é central para a política energética em geral e, em particular, no setor de petróleo, servindo para coibir o poder econômico dos grandes oligopólios, garantir a exploração não-predatória das jazidas e defender o interesse da coletividade, além de atuar de forma estratégica, militar e economicamente, controlando o suprimento de petróleo e derivados.

O contexto histórico da luta dos países em desenvolvimento por independência política e emancipação econômica tornou as empresas petrolíferas estatais entidades que personificam o controle soberano sobre os recursos naturais. As empresas estatais são instrumentos da política econômica nacional dos seus Estados, atuando de acordo com os objetivos estratégicos e de bem-estar social do Estado, indo muito além da mera busca de rentabilidade.

A "Campanha do Petróleo" foi, nas palavras de Carlos Lessa, a "maior mobilização popular e social da história do Brasil em defesa de algum projeto de desenvolvimento". Não haveria nada similar antes, nem depois. A campanha abriu espaço para a manifestação política popular, cuja mobilização era uma novidade na história do país. Um projeto nacional de desenvolvimento precisa estar presente no imaginário coletivo da sociedade, sob pena de não sair do papel. Afinal, não é um simples plano de governo, mas uma construção coletiva que busca essencialmente os objetivos de uma sociedade melhor, mais igualitária e mais democrática no futuro. A "Campanha do Petróleo" conseguiu realizar isto, ao defender a soberania nacional. A aprovação do monopólio estatal do petróleo não teve como causa única a "Campanha do Petróleo", mas, certamente, a campanha contribuiu de modo decisivo para influenciar as lideranças políticas e foi crucial para o Presidente Getúlio Vargas se posicionar diante das pressões provenientes do governo norte-americano.

A Petrobrás, como bem afirmou Barbosa Lima Sobrinho, é uma conquista do povo brasileiro, cujo irresistível movimento de opinião superou todos os obstáculos para fazer prevalecer a vontade nacional. O que a "Campanha do Petróleo" revelou foi uma dimensão política não esperada para um projeto nacional de desenvolvimento. Afinal, o que se estava decidindo não era apenas a forma de exploração de um recurso mineral estratégico, mas a própria soberania econômica nacional. A causa do petróleo foi identificada à afirmação da soberania nacional. Há a tentativa deliberada de criar em torno do tema do petróleo a identidade com a soberania nacional e a perspectiva de fundação de um novo país, um país soberano e industrializado. A "Campanha do Petróleo", ao defender a soberania econômica do Brasil, propunha que se completasse a superação da economia colonial e se fizesse efetiva a Nação. Neste sentido, da Petrobrás como símbolo de afirmação nacional, são significativas as palavras de Barbosa Lima Sobrinho: "A Petrobrás, desde a sua criação, foi mais que uma empresa pública. Surgiu como emblema da nacionalidade, a sigla mística que podia abranger e reunir o maior número possível de brasileiros fiéis à sua pátria. Petrobrás era um símbolo que, por si só, despertava emoções, como se a sua missão fosse a de acender estrelas, para iluminar o céu do futuro do Brasil".

(*)Professor Titular de Direito Econômico e Economia Política da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

Tecnologia faz pessoas se tocarem menos, diz Will Self


Thinkstock
Tecnologia estaria limitando nossos toques interpessoais?
"Em seu romance de ficção científica Os Robôs, de 1957, Isaac Asimov inventou um mundo, Solaria, no qual uma população de humanos vive em enormes propriedades, atendida por dezenas de robôs. O ambiente social de Solaria é algo parecido com o de um romance russo do século 19.

 

Solarianos desenvolveram um grande tabu contra qualquer tipo de aproximação física. Assim, nunca chegaram a ocupar o mesmo quarto ou mesmo se tocaram. Qualquer relação sexual entre eles assumia a forma de "telepresença holográfica", uma espécie de conferência 3D. Então, ao invés de se visitarem, os solarianos participavam do que chamam de "visualização".

Como todas boas obras de ficção científica, a de Asimov refletia tanto a era dele quanto a de qualquer futuro remoto. Escrevendo no final dos anos 1950, ele assistiu às consequências da produção e distribuição automatizadas aliada às telecomunicações ─ em outras palavras, uma diminuição constante no número e duração dos contatos pessoais que uma pessoa teria que fazer durante qualquer dia.

Mas quanto o nosso próprio mundo se tornou como Solaria na segunda metade do século?

É verdade que dificilmente conseguimos nos livrar da necessidade de trabalhar de forma automática ─ embora muitos de nós suspeitem que o nosso trabalho, tal como é, esteja fundamentalmente separado da base real do nosso sustento.

Podemos não ter servos robóticos, mas dependemos de linhas de montagem de robôs e sistemas de controle de tráfego cibernéticos, por exemplo. E, no lugar da telepresença holográfica, gastamos grande parte do nosso tempo nos comunicando pela internet.

A tela sensível ao toque, a porta automática ou as compras online nos privam do exercício do nosso próprio sentido de toque, e, em particular, nos privam da necessidade de tocar outras pessoas ─ podemos não ser solarianos ainda, mas estamos chegando lá.

De maneira alguma desejo voltar ao tipo de sociedade hierárquica em que um senhor ou senhora começam o dia sendo vestidos por algum criado ou empregada. No entanto, com certeza não estou sozinho em sentir nostalgia de um mundo mais meloso.

Passamos nossos dias cercados por dedos que digitam freneticamente e por corações que batem acaloradamente ─ mas que, apesar disso, permanecem friamente inviolados.

Em parte, a rejeição da nossa cultura de toque pode ser vista como um legado do dualismo mente/corpo implícita na tradição judaico-cristã. Afinal, a nossa posse da consciência ─ esta "matéria mental" imaterial ─ nos eleva acima da mera criação bruta, e nos coloca aempé de igualdade com os anjos e o próprio Deus.

É claro que há uma forma de contato que nós privilegiamos acima de todas as outras. Desenvolvemos algo que é, por um lado, a concepção mais exaltada da forma de contato humano e, por outro, uma das mais degradadas.
Mas se nos afastarmos do que pensamos sobre a nossa sexualidade ─ sendo pela janela rosada do romantismo ou pela tela manchada da pornografia ─, o que descobrimos é que o sexo é apenas a forma mais abrangente que temos de perceber como alguém experimenta o seu próprio ser.
Passamos nossos dias cercados por dedos que digitam freneticamente e por corações que batem acaloradamente ─ mas que, apesar disso, permanecem friamente inviolados, escreve Will Self

A visão clichê da plenitude sexual é que ela nos faz "sentirmos vivos". Mas, na verdade, ela nos faz sentir a vivacidade de outra pessoa ─ o sexo nos diz, de forma definitiva e incontestável, que não estamos sozinhos.

Não que o sexo seja a única forma de toque socialmente sancionada. Há outros, mas eles, em comum com o sexo, são feitos com todo tipo de regras e proibições.

Quando praticamos esportes de contato, estamos autorizados a tocar outras pessoas, mas apenas em determinadas maneiras. Apesar disso, o esporte de contato é extremamente importante para nós e, em particular, para o macho da espécie. Às vezes me pergunto se o que um atacante de rúgbi realmente busca ao empurrar sua cabeça contra seus companheiros de equipe não é uma noção abstrata de excelência ou realização, mas a experiência muito concreta do ser de outro homem.

Mulheres que dão à luz, com certeza, independente das outras crenças que têm sobre o mundo, se agarram em algum nível à ideia que a sua própria existência ─ e a de seu filho ─ é fundamentalmente corporal, e o modelo psicológico conhecido como teoria do apego valida isso pela afirmação de que todas as crianças precisam do toque de seu cuidador.

É na nossa relação tátil com os nossos próprios filhos ─ e outros que estamos autorizados a termos intimidade ─ que experimentamos este sentido primordial de apego.

Durante o furor perene sobre amamentar em público, o que sempre me chamou atenção é que o que perturba aqueles que se opõem a esta prática é que ela afronta a ideia que eles têm deles mesmos de serem fundamentalmente desencarnados e distintos do resto da criação bruta.

Na ficção de Asimov, o estilo de vida intocado dos solarianos é interrompido por uma forma de contato que a maioria (embora não todas) as sociedades professam abominar ─ o assassinato violento. Enviado da Terra para investigar o crime, o detetive de homicídios Elijah Baley descobre que, na verdade, não houve um toque humano.

Em vez disso, um dos ajudantes robô solarianos foi usado num trote, e seus circuitos de moralidade foram manipulados de maneira que ele fosse capaz de levar uma vida humana.

O conto de Asimov pode ser entendido como uma fábula frankensteiniana ─ cuidado com equipamentos que lhe prestam serviços, pois eles podem se tornar contra nós, seus criadores.

Mas, enquanto Asimov nunca pode ser acusado de grande sutileza em sua escrita, há uma história de fundo relevante, uma que revela outro nível de preocupação.

Elijah Baley chegou a Solaria de uma Terra cujos habitantes, três mil anos no futuro, recuaram e passaram a morar em enormes cavernas de ferro. O resultado é que o detetive é cronicamente "agorafóbico".

domingo, 8 de fevereiro de 2015

As seis Grandes Ilusões que nos mantêm Escravizados/Subjugados à Matrix


"Na prisão, as ilusões podem oferecer conforto." - Nelson Mandela

Para que um mágico possa enganar o seu público, os seus truques devem passar despercebidos, e, para isso ele cria uma ilusão para impedir a atenção na realidade. Enquanto o público está em transe, o acto enganoso é cometido, e para os tolos, a realidade torna-se então, inexplicavelmente, construída em cima de uma mentira. Isto é, até que o os tolos acordem e reconheçam a verdade no facto que foram enganados.
Manter a suspensão de incredulidade na ilusão é no entanto muitas vezes mais reconfortante do que reconhecer os segredos do mágico.
Vivemos num mundo de ilusão. Assim, muitas das preocupações que ocupam a mente e as tarefas que preenchem o calendário surgem de impulsos plantados para nos tornarmos alguém ou algo que não somos. Isto não é acidente ou por acaso.
À medida que somos doutrinados para esta cultura autoritária-corporativa-consumista que hoje domina a raça humana, somos treinados que certos aspectos da nossa sociedade são verdades intocáveis, e que formas particulares de ser e de agir são as preferidas.
Psicopatas enfraquecem e desautorizam as pessoas desta forma. Eles nos cegam com incessantes barragens de sugestões e absolutismos que visam abalar a nossa auto-confiança e a confiança no futuro.
Bansky, o revolucionário reverenciado e evasivo artista de rua uma vez comentou assim:
"Pessoas estão gozando de nos todos os dias. Intrometem-se na nossa vida, nos denigrem e em seguida, desaparecem. Nos olham lascivamente de altos edifícios e nos fazem sentir diminuídos. Fazem comentários irreverentes até em autocarros, insinuando que não somos suficientemente atractivos e que toda a diversão está acontecendo noutro lugar. Também estão presentes na TV fazendo a namorada  ou familiares se sentirem inadequados. Têm acesso a mais sofisticada tecnologia que o mundo já viu e nos intimidam com isso. Eles estão no controle, são os locutores e estão rindo de nos. "- Banksy
A publicidade é apenas a ponta do iceberg. Quando olhamos mais longe vemos que a organização geral da vida é centrada em torno da busca de ilusões e obediência automática às instituições e ideias que não são de todo o que parecem. Estamos, a bem da verdade e num sentido muito realista, escravizados.
Muitos chamam esse sentimento um tanto intangível de opressão 'Matrix', um sistema de controlo total que invade a mente, a programação de indivíduos moldando-se eles mesmos de acordo com uma versão conformista da realidade, não importa quão perversa possa ela ser.
As mais grandiosas ilusões que nos mantêm escravizados à Matrix, as que têm muitos de nós ainda em transe, estão sumariamente descritas abaixo para consideração do leitor.
1. A Ilusão da Lei, Ordem e Autoridade
Para muitos de nós, cumprir a lei é considerado uma obrigação moral, e muitos de nós fazemos isso com prazer, embora a corrupção, escândalo, e maldade mostrem repetidamente que a lei é bastante flexível para aqueles que têm músculo para dobrá-la. A brutalidade policial e crimes cometidos pela polícia é galopante nos EUA, assim como noutros países e os tribunais favorecem os ricos; não podemos até levar mais a nossa vida privada graças à intrusão de vigilância do Estado. E ao mesmo tempo a guerra Orwelliana permanente, ilegal e imoral grassa nos bastidores da vida, assassinando e destruindo nações inteiras e culturas.
A ordem social não é o que parece, pois é inteiramente baseada em conformidade, obediência e aquiescência que são impostas pelo medo da violência. A história nos ensina que a lei é igualmente e muitas vezes usada como um instrumento de opressão, controle social e pilhagem, e qualquer proclamado vestigio de autoridade a este respeito é uma autoridade falsa, hipócrita e injusta.
Quando a própria lei não segue a lei, não há lei, não há ordem, e não há justiça. A pompa e aparato de autoridade são meramente uma ocultação da verdade de que a actual ordem mundial é baseada no controlo, e não no consentimento.
2. A ilusão de Prosperidade e Felicidade
Adornando-nos com roupas e bugigangas caras e acúmulo de bens materiais que seriam a inveja de qualquer monarca do século 19 tornou-se um substituto para a prosperidade genuína. Manter a ilusão de prosperidade, porém, é fundamental para a nossa economia como um todo, porque a sua fundação é construída sobre o consumo, a fraude, crédito e débito. O próprio sistema bancário foi projetado de cima para baixo para criar riqueza ilimitada para alguns enquanto tributam até a eternidade o resto de nós.
A verdadeira prosperidade é um ambiente vibrante e uma abundância de saúde, felicidade, amor e relacionamentos. Cada vez mais as pessoas tem a percepção dos bens materiais como forma de auto identificação nesta cultura, causando um deslizamento cada vez mais longe da experiência da verdadeira prosperidade.
3. A ilusão da Escolha e da Liberdade
Leia nas entrelinhas e olhe para as letras miúdas, não somos livres, de nenhum jeito nem por nenhum padrão inteligente. A liberdade é sobre ter escolha, mas no mundo de hoje, a escolha passou a significar uma seleção entre as opções disponíveis, sempre de dentro dos confins de um sistema jurídico e fiscal corrupto, e dentro dos limites das normas culturalmente aceites e aplicadas.
Não olhemos mais longe do que a falsa instituição da Democracia moderna para encontrar um exemplo brilhante de falsas opções que aparentam ser reais. Em muitos países incluindo os EUA, dois enraizados, corruptos e arcaicos partidos políticos se exibem como sendo o orgulho e esperança da nação, no entanto vozes de terceiros e de independentes são intencionalmente bloqueadas, ridicularizadas e apagadas.
A ilusão de Escolha e Liberdade é um poderoso opressor pois nos engana e faz aceitar correntes e trelas curtas, como se fossem essas as características de Liberdade.
Múltipla escolha é diferente do que Liberdade, é servidão fácil.
4. A Ilusão da Verdade
A Verdade tornou-se um assunto delicado na nossa cultura, e nós temos sido programados para acreditar que 'a' verdade vem dos Semi-Deuses da “mídia”, Celebridades e do Governo. Se a TV declara algo como verdade, então nós somos considerados hereges se acreditarmos no contrário. Mente inquisitiva, uso da duvida metódica ou pensamento crítico não podem ser exercidos, fazendo aqueles poucos que questionam o sistema caírem no ostracismo e serem alvos de escarnio da sociedade.
A fim de manter a ordem, os poderes vigentes dependem da nossa aquiescência à sua versão da verdade. Enquanto um punhado de pensadores e jornalistas independentes abrem continuamente buracos nas versões oficiais da realidade, a ilusão da verdade é tão poderosa que é preciso uma revolta pessoal séria para evitar a dissonância cognitiva necessária para funcionar numa sociedade que persegue abertamente falsas realidades.
5. A Ilusão do Tempo
Diz-se que tempo é dinheiro, mas isso é uma inverdade. O tempo é a nossa vida. A nossa vida é uma constante evolução da manifestação do presente. Olhando para além do mundo dos cinco sentidos onde fomos treinados para nos movermos de acordo com o relógio e calendário, descobrimos que o espírito é eterno, e que cada alma individual é parte desta eternidade.
A grande enganação aqui, é o reforço da ideia de que o momento actual é de pouco ou nenhum valor, que o passado é algo que não podemos desfazer ou esquecer, e que o futuro é intrinsecamente mais importante do que o passado e o presente. Isto leva a nossa atenção para longe do que na verdade está acontecendo no presente e direciona-a para o futuro. Uma vez completamente focados no que está por vir e não o que é, somos presa fácil para os anunciantes e arautos do medo, que turvam nossa visão do futuro com todas as preocupações possíveis e imagináveis. Assim nos condicionam por exemplo a amar ou odiar colectivamente certos grupos de pessoas, raças, religiões e muito mais.
Somos mais felizes quando a vida não nos empacota ou aprisiona e quando a espontaneidade e aleatoriedade nos dá a chance de descobrir mais sobre nós mesmos. Desistindo do momento presente, a fim de fantasiar sobre o futuro é uma armadilha. Os imensos e intemporais momentos de alegria espiritual encontrados na meditação silenciosa são a prova de que o tempo é uma construção da mente do homem, e não necessariamente obrigatória para a experiência humana.
Se tempo é dinheiro, então a vida poderia ser medida em dólares ou euros. Quando esse dinheiro baixa de valor, assim também seria a vida. Este é o engano total, porque a vida é, na verdade, absolutamente valiosa e sem preço.
6. A ilusão de Singularidade
A nível estratégico, a tática de dividir para conquistar ou reinar é um procedimento operacional padrão para os autoritários e exércitos invasores, mas a ilusão de singularidade é ainda mais profunda do que isso.
Estamos programados para acreditar que, como indivíduos estamos sempre em concorrência ou competindo com tudo e todos ao nosso redor, incluindo os nossos vizinhos e até mesmo a natureza. Nós contra eles até ao extremo, até o fim. Isso claramente nega a verdade de que a vida neste planeta é infinitamente inter-ligada. Sem ar limpo, água limpa, solo saudável, e um sentido global vibrante de comunidade não podemos sobreviver aqui.
Enquanto a ilusão de singularidade nos conforta satisfazendo-nos o ego e oferecendo uma sensação de controle, na realidade, só serve para nos escravizar e nos isolar.
Conclusão
Estas ilusões aqui mencionadas foram encenadas a nossa frente como campanha para incentivar a aquiescência cega às maquinações dos senhores da Matrix. Na tentativa de nos desautorizar, eles exigem a nossa conformidade e obediência, mas não podemos esquecer que tudo isso é apenas uma elaborada proposta de vendedor. Eles não podem vender aquilo que não estivermos interessados em comprar.
Texto enviado pelo anónimo JDL
Bônus deste bloguezinho mequetrefe. Bom domingo.
Sanguessugado do Octopus, via http://gilsonsampaio.blogspot.com.br/2015/02/as-seis-grandes-ilusoes-que-nos-mantem.html

Urgente, falta uma ponte entre o apelo e a rua

Se o PT, a esquerda em geral, os movimentos sociais e o campo progressista não se entenderem a tempo de definir uma agenda comum o juiz Moro o fará por eles.

Por Saul Leblon

Soa angustiante a dissociação entre o gesto  e o seu efeito.

Entre o apelo e o desdobramento.

Entre o alerta  do abismo e a impotência para deter o comboio.

De novo, no evento dos 35 anos do PT,   lideranças do partido, entre elas a do ex-presidente Lula, expuseram  diagnósticos corretos sobre a ofensiva conservadora no país, denunciaram o golpe dissimulado, como de hábito, faxina moralizante; conclamaram o partido a sacudir a letargia, ir às ruas,  lutar, resistir.

Porém... nada se move.

De novo Lula, Rui Falcão, Tarso Genro e outros falarão em novas oportunidades; com já fizeram em ocasiões anteriores repetirão os mesmos diagnósticos corretos de um golpe dissimulado em marcha, evocarão as ruas..

Porém... nada se move.

 Assim sucessivamente.

O anticlímax, para estreitar bastante a abrangência do retrospecto, teve um ponto de coagulação explícito na campanha de 2014.

Em diferentes momentos, então, mas sobretudo após a morte traumática do candidato do PSB,  Eduardo Campos, em 13 de agosto, a candidatura progressista  esteve  emparedada pela bateria conservadora, a ponto de muitos darem o jogo como perdido.

No final de agosto esse conjunto formava um aluvião anti-Dilma.

Porém, nada se movia.

Nenhuma reação.

Era tão denso o horizonte da derrota que expoentes do colunismo conservador ejaculavam precocemente divagações acerca do ‘pós-lulopetismo’.

A candidata Marina Silva chegou a abrir 10 pontos de vantagem nas enquetes  sobre um hipotético 2º turno, no qual o Datafolha dava como certa a sua presença.

Era uma dessas ladeiras de um sonho turbulento em que nada parece deter a aceleração em plano inclinado rumo ao muro de pedra.

Em cinco de setembro, em meio ao clima de colisão com o fim, uma reunião de avaliação da campanha  assistiu  à intervenção de um Lula  endiabrado.

As reservas instintivas do retirante nordestino que saiu da seca para ocupar a presidência do país por duas vezes  mobilizaram-se em seu organismo, à falta de outras formas de mobilização.

Desse arcabouço histórico/metabólico brotou um diagnóstico que sacudiu os brios de um comitê de campanha do PT e da  militância até então  atônitos com a aproximação veloz  do desastre.

Em duas frases, Lula esquadrejou a areia movediça ao redor e identificou um pedaço de chão firme e instalou uma alavanca para a reação bem sucedida: ‘Nós ficamos economicistas; não nos faltam obras, mas política’, disparou para prescrever o antídoto: ‘Temos que demarcar o campo de classe dessa disputa: é preciso levar a política à propaganda’.

A partir de então a essência radicalmente neoliberal embutida nas candidaturas de Marina Silva e Aécio passou a ser floculada do espumoso caudal dissimulado em ‘renovação’, ‘ética’ e ‘mudança’ .

O extrato obtido foi exposto à luz do sol. A sonolenta  publicidade de sabonete do horário eleitoral ganhou uma narrativa pedagógica, determinada a tipificar um a um os riscos e alvos da agenda conseradora.

Na mesma chave narrativa, a Presidenta Dilma passou a dar nomes aos bois em debates, no rádio e na presença  diária na TV.

Ponto número 1: Dilma falava diariamente com o país.

Ponto número 2: confrontava  projetos.

Ponto número 3: discutia flancos ainda por enfrentar.

Ponto número 4: zelava pelo passado sem abstrair as lacunas enormes do muito que o Brasil ainda deve ao povo brasileiro.

Ponto número 5: não o fez, mas se tivesse incorporado à discussão os  ajustes necessários à reordenação de um novo ciclo baseado no investimento e no controle da inflação, o eleitor provavelmente entenderia –desde que ...

Ponto número 6: desde que  isso se fizesse acompanhar de salvaguardas, prazos e contrapartidas, ademais da determinação de dar à sociedade meios e estruturas para vigiar e assegurar a travessia segura rumo a um novo estirão de crescimento cm justiça social.

O fato é que no breve interregno entre cinco de setembro quando Lula explodiu sua indignação e a vitória final em 26 de outubro, o PT e o governo fizeram o que nunca haviam feito e, incompreensivelmente, não voltaram a fazer ainda.

O quê?

Estabeleceram um canal de conversa indispensável  com a população sobre um tema de interesse geral: o Brasil,  a vida de sua gente, seus trunfos e desafios –hoje, ontem e amanhã.

Fez-se ali um ensaio de repactuação da confiança mútua, sintonizada no compartilhamento de rumos e de desafios, que Lula agora sugere  que o PT faça (leia o seu  discurso no evento dos 35 anos do partido; nesta pág.) , na forma de um Manifesto-compromisso e de uma repactuação política do partido com a nação.
Carta Maior viu no jorro de  desassombro daquela inflexão na campanha de 2014 um ponto de ruptura com o abismo há muito aguardado.

‘A ficha caiu’, saudou-se.

No final de setembro, seria a vez da própria candidata Dilma reforçar essa impressão.

Em entrevista  a um grupo de blogueiros, ‘sujos, ideológicos, governistas’, como a eles se refere o colunismo isento, a candidata explicitou o divisor que marcaria o seu segundo mandato.

A vitória então já não era mais um sonho de vento a escapar pelos dedos.

‘Terei um embate (político) mais sistemático; não serei mais tão bem comportada; me levaram para um outro caminho, que não era o que eu queria’.

Menos de cinco meses depois, onde foi que tudo se perdeu?

Perdeu-se  a ponto de retroagir à pasmaceira anterior a cinco de setembro de Lula, com o radical agravante de que Dilma agora ocupa a presidência da nação, de onde o conservadorismo fala abertamente em retirá-la.

E toma providências explícitas para isso.

Uma parte da recaída se deve à inércia traiçoeira  de uma fórmula de governo que se esgotou.

Em três mandatos presidenciais sucessivos predominou a determinação petista de restringir o confronto direto com os interesses conservadores na faixa de segurança permitida por uma correlação de forças adversa.

Mas a margem de manobra se esgotou proporcionalmente à contração do PIB e à pressão da crise mundial, agora  definitivamente  algemada ao Brasil.

O que antes parecia uma contingência administrável,   ainda que a um custo político cada vez mais desgastante, acentua os contornos de um esgotamento de ciclo.

O conjunto aguça o desgaste intrínseco à tarefa de administrar o capitalismo ainda sem poder transformá-lo efetivamente.

 O conjunto não pode ser descarregado apenas no colo de uma Dilma muda e jejuna em politica. No mínimo, a sonambulismo  presidencial funde as duas coisas: um pedaço da crise e o reflexo da sua imensa dureza.

Não fosse isso, por que então nada se move depois que Lula, Falcão, Tarso e outros se desdobram em evocações pela resistência?

Pela gravidade e abrangência do que precisa mudar para desviar o país do buraco negro conservador que diuturnamente vai sugando tudo ao redor, mas principalmente os corações e mentes da sociedade.

O Datafolha é o monitor de controle do mutirão sombrio. O relatório deste domingo avisa ao comando central: ‘estamos indo bem’.

 À implosão do espaço acomodatício desfrutado em 12 anos de governo de composição emerge agora a clareza vertiginosa do despreparo organizativo, ideológico e programático para ir além da atual e angustiante  desconexão entre o apelo e a resposta.

Entre o gesto e o efeito.

Pior que tudo.

A desconexão imobilizante revelou um punhal de aço cravado contra as próprias costas do corpo prpgressista:  não há canais de comunicação  para uma urgente repactuação do futuro com a sociedade.

 Nada se faz sem  a mediação tóxica da emissão conservadora.

Cujas prioridades editoriais estão mobilizadas para acelerar a velocidade disso que o Datafolha colhe em intercurso orgânico.

Quando Lula diz ‘temos que voltar às bases, o PT se tornou um partido de gabinetes’, o que se veicula é  a derrisão,  não a gravidade da autocrítica abraçada pelo maior líder progressista do país.

Como é possível que um partido formado por franjas de toda a esquerda, quadros de alta qualidade e distintas filiações, tenha cogitado construir um Estado de Bem-estar social tardio, na oitava maior economia do mundo –na era da livre mobilidade dos capitais chantageadores--  sem dispor de canais pluralistas de comunicação?

Sem espaço ideológico  para exercer o repto à hegemonia expressa pela dama de ferro do neoliberalismo, Margareth Tatcher: ‘Não há alternativa’.

Não apenas não há, como o que virá ‘será doloroso’, sapateava o Financial Times, antes das eleições, em editorial onde apregoava a inevitabilidade de  um conjunto de medidas cujo efeito ‘será doloroso’. ‘Ganhe quem ganhar a eleição’.

Os dias que correm parecem confirmar o vaticínio do porta-voz dos mercados financeiros globais.

Sem repactuação política desassombrada, sobra a receita seca do ajuste ortodoxo que, de tão postiço em relação ao que a transição de ciclo requer,  teve que ser terceirizado a um centurião de confiança do mercado.

O ‘estelionato eleitoral’  denunciado pelo coalizão conservadora abstrai  o fato de que ao esgotamento do espaço acomodatício  pela crise, juntou-se um cerco policial em torno da Petrobras, o derradeiro braço do Estado para induzir o capitalismo no país.

À mutilação desse órgão vital (que carrega 13% do PIB), associou-se a queda de 50% nas cotações do barril e a maior seca já vivida no país em 80 anos.

Uma tempestade perfeita estacionou nos céus de Brasília.

Por onde começar?

‘Temos a oportunidade histórica de elaborar um novo Manifesto do PT. Isso exige humildade e coragem’, disse-o bem  Lula na última sexta-feira.

Falta agora o principal:  correr riscos.

Adicionar ao enunciado a agenda capaz de erguer a ponte entre o apelo e a resposta.

Definir aquilo que, efetivamente, ofereça uma razão suficientemente forte, crível, palpável para a letargia deixar o sofá do descrédito e ir às as ruas, voltar às bases, cobrar, debater e pactuar  o passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.

Se o PT, a esquerda em geral, os movimentos sociais e o campo progressista não se entenderem a tempo de definir uma agenda comum –e não há tanto tempo assim, avisa o Datafolha--  o juiz Moro o fará por eles.

Dando uma razão conservadora suficientemente apelativa para aglutinar o passo final da marcha regressiva em curso no Brasil.

As graves denúncias de Paulo Henrique Amorim sobre as condições em que estão sendo extraídas as ‘delações premiadas’ da Lava Jato, bem como  o parecer ’Gandra/FHC’, indicam uma determinação muito clara: ir além do estado de direito.

Do:Ç http://caviaresquerda.blogspot.com.br/2015/02/urgente-falta-uma-ponte-entre-o-apelo-e.html

O que faz da Noruega o país mais democrático do mundo?


O país investiu os recursos derivados do petróleo em outras áreas produtivas que ajudaram a manter a estabilidade econômica
"Ao falar de vikings, petróleo e fiordes, a Noruega imediatamente vem à mente. Mas à lista de conceitos típicos associados ao país nórdico será preciso adicionar mais um: a democracia.

 

Pelo quinto ano consecutivo, a Noruega conseguiu foi considerada o país mais democrático do mundo, segundo o Índice de Democracia 2014 publicado pela The Economist Intelligence Unit (EIU) no dia 20 de janeiro.

O país escandinavo obteve 9,93 pontos em uma escala de 10 pelo terceiro ano consecutivo. A presença do país no topo da lista já é mais tradição do que surpresa dentro da lista de 165 países e dois territórios que o índice contempla.

A Noruega conseguiu a pontuação máxima em quatro dos cinco fatores avaliados pela medição (processo eleitoral e pluralismo, liberdades civis, funcionalidade do governo, participação política e cultura política).
Mas o que permitiu que o país nórdico se tornasse o mais democrático do mundo?

Igualdade, igualdade e igualdade

Os especialistas consultados pela BBC concordam que instituições públicas fortes, uma cultura baseada na confiança e na baixa desigualdade são essenciais.

As instituições públicas norueguesas são bastante valorizadas
"Um estado forte com pouca corrupção e favoritismo gera confiança e tem os instrumentos necessários para contribuir para baixar a desigualdade através de altos impostos que criam bons serviços públicos", disse à BBC Benedicte Bull, líder da Rede Norueguesa de Estudos Latino-americanos (Norlarnet).
No país, a igualdade parece ser um conceito chave.

"A Noruega é um país com uma forte cultura igualitária cujas origens estão na religião protestante, de ter sido um país pobre e austero e com uma profunda tradição de proximidade entre o poder público e a sociedade", disse à BBC Mariano Aguirre, diretor do Centro Norueguês para a Construção da Paz (NOREF), com sede em Oslo.

A alta valorização da igualdade tem muito a ver com a história do país. A Noruega é diferente de outros países europeus, já que nunca foi potência colonial. Na verdade, é o contrário.

O país foi historicamente dominado por outras potências como a Dinamarca, a Suécia e a Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo Aguirre, "a sociedade norueguesa não tem a melancolia do poder que alguns dos países que foram potências coloniais têm".

"Também acho que nós temos uma cultura de participação que vem de muito tempo atrás. Ela surgiu com os grandes movimentos sociais (de trabalhadores, movimentos laicos, etc.) do século 19 e alguns, pelo menos, continuam sendo fortes", completa Bull.

É a Noruega ou é a Escandinávia?

A igualdade é considerada um conceito chave na política do país, que tem um passado de austeridade

Mas o bom desempenho da Noruega no índice da EIU coincide com o do resto de sua região. Quatro dos cinco países mais democráticos, segundo o índice, são os nórdicos.

Historicamente, o primeiro lugar da lista quase sempre ficou com um país escandinavo: a Noruega nas últimas cinco medições e a Suécia nas edições de 2006 e de 2008.

"É uma sociedade pequena (menos de seis milhões de habitantes), rica devido a seu inteligente manejo do petróleo e a ter usado a renda que este recurso produz para desenvolver outros setores produtivos (como a pesca e a indústria hidráulica)", afirma Aguirre.

"Todos estes países têm estados de bem-estar social que geram confiança no sistema e também nivelam as desigualdades, o que, por sua vez, gera confiança nas instituições democráticas", explica Bull.

No entanto, a pesquisadora adverte que estes fatores podem estar em retrocesso em vários países escandinavos. Mesmo assim, "a cultura política que geraram permanece, pelo menos por enquanto".

O caso da Suíça

A Suíça é provavelmente o lugar mais emblemático da democracia direta, já que seus eleitores têm a oportunidade de participar frequentemente de referendos e iniciativas populares vinculantes, que costumam fazer parte da agenda do poder Executivo.

A capital da Noruega, Oslo, tem uma vibrante cultura urbana
No índice do EIU, no entanto, o país não aparece em primeiro lugar, e, sim, em sexto.

"O processo de consulta cidadã que a Suíça tem foi, em muitos sentidos, um modelo. No entanto, algumas dessas consultas deram resultados que não são muito democráticos", diz Francisco Panizza, da London School of Economics.

Por exemplo, a Suíça foi um dos últimos países a aceitar o voto feminino e graças às consultas populares foram tomadas decisões polêmicas, como a de proibir a construção de minaretes em mesquitas.

"A cidadania às vezes toma decisões que não parecem compatíveis com certos valoresda democracia."

Críticas e riscos

Apesar do bom desempenho da Noruega, há aqueles que advertem que a democracia também tem problemas nesses países.

"Nos últimos anos aumentou o déficit democrático", afirma Erik Oddvar Eriksen, diretor do Centro de Estudos Europeus (ARENA), da Universidade de Oslo.

Um dos principais desafios do país é integrar os imigrantes e evitar que a sociedade se radicalize contra muçulmanos
Eriksen diz que, uma vez que a Noruega é parte do Espaço Econômico Europeu, mesmo que seus cidadãos exerçam o direito a voto, eles não necessariamente estão elegendo as pessoas que tomam as decisões finais que afetarão suas vidas.

Hoje, o principal teste para a democracia norueguesa tem a ver com a imigração. "O desafio mais importante é integrar todos os grupos de imigrantes nas instituições democráticas", diz Benedicte Bull.

E um dos principais obstáculos é a integração da comunidade muçulmana.

"Há um risco de que parte da comunidade norueguesa se contagie e se radicalize contra a comunidade de imigrantes muçulmanos. O partido de extrema direita, Partido Progressista, ganhou votos suficientes nas últimas eleições para ser hoje parte do governo de coalizão", ressalta Mariano Aguirre."

A “massa cheirosa” vai feder em SP

Altamiro Borges, Blog do Miro

"Apesar das tempestades dos últimos dias, o nível do Sistema Cantareira – que abastece 6,5 milhões de paulistas – continua baixo. Nesta sábado (7), ele atingiu apenas 5,3% da sua capacidade. Para os especialistas do setor, a notícia é péssima, já que o período das chuvas está terminando. A tendência, afirmam, é do total colapso de abastecimento de água a partir de abril. Alguns especialistas, mais apocalípticos, preveem um cenário de “convulsão social” em São Paulo. O quadro é tão dramático que já incomoda até as tais celebridades midiáticas. A “massa cheirosa”, que sempre bajulou os tucanos que governam o Estado há 20 anos, teme ficar fedida. Reproduzo abaixo a hilária reportagem de Mônica Bergamo, na Folha deste sábado, sobre o clima reinante entre os “ricos e famosos”. Até Sophia Alckmin, filha do governador, revela: “Já não lavo o cabelo todo o dia”.

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"Me enxugar, 'bee'? Pra quê?", respondia Ivete Sangalo a um assistente no palco do Baile de Carnaval da revista "Vogue", na madrugada de sexta (6). Com o rosto em bicas, a cantora fazia ferver a pista do hotel Unique, nos Jardins, onde 1.500 convidados suavam e se abanavam no aperto para ver a baiana.

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Pouco antes, no camarim, com maquiagem e cabelo ainda impecáveis, Ivete falava da falta d'água no Estado. "Eu não penso nisso só quando venho para cá. No meu dia a dia também. O problema é que a gente só se preocupa quando há crise", dizia. A seca foi assunto entre os ricos e famosos da festa. Muitos deles fantasiados - Anitta foi de Michael Jackson, Sabrina Sato, praticamente nua.

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Angélica e Bruno Astuto, apresentadores do baile, cantavam ao microfone o que chamaram de "melô da Sabesp": "Bebeu água? Não!/ Tá com sede? Tô!/ Olha a água mineral". O jornalista disparou: "Quero agradecer à [marca de perfume de luxo] Chanel, que me ajudou a atravessar a semana passada sem água".

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Em matéria de chuveiro, a convidada Val Marchiori também mudou hábitos. "Parei de tomar banho de banheira. Fiz a minha parte", disse ela, que ainda não sofreu com o racionamento. "Nos Jardins ainda não faltou [água]. Você acha que faltaria?"

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O Itaim Bibi, onde mora Sophia Alckmin, filha do governador Geraldo Alckmin, já está sem água em alguns horários. "Estou fazendo muita coisa para economizar. Não lavo mais o cabelo todo dia. Agora uso xampu a seco. É ótimo", disse a blogueira.

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O apresentador Rodrigo Faro, que foi garoto-propaganda da Sabesp em fevereiro de 2014, dizia que a população está fazendo sua parte. "Agora é hora de [o governo]investir." "Quando fiz o vídeo, a Cantareira estava com 30%. Faria de novo, mas só se fosse para dizer o que as autoridades estão fazendo".

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Colega de Faro na Record, a apresentadora Ana Hickmann se dizia uma especialista no assunto. "Eu tenho casa em Itu [interior de São Paulo] e lá situação está ruim faz tempo. Já passei por isso."

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A apresentadora Luciana Gimenez engrossava o bloco dos revoltados. "Eu acho que o governo tinha que ter se preocupado antes! Tem desertos em que não falta água porque tem planejamento."