quinta-feira, 5 de maio de 2011

A crise tucana

Existem famílias que conseguem guardar seus segredos tão bem que ninguém adivinha os problemas que atravessam. Outras são incapazes de preservar a intimidade e revelam a qualquer um as dificuldades. Ficamos até constrangidos de conhecer detalhes que deveriam permanecer entre quatro paredes.
Com os partidos políticos acontece coisa semelhante. Alguns são hábeis na defesa de sua vida interna, não a expondo à curiosidade alheia. Mesmo quando algo grave acontece, mantêm a fleuma e reagem como se tudo estivesse na mais perfeita normalidade.
E há partidos que fazem o oposto. À menor turbulência, ficam desnorteados e não sabem como reagir. Suas lideranças dão declarações desencontradas. Umas exageram para menos e dão a impressão de estar no mundo da lua, não vendo o que todos enxergam. Outras falam demais, se descabelam e aumentam a importância do momento pelo qual passam.....
O PSDB está dando mostras de ser desse segundo tipo. Quem ouve alguns de seus filiados e intelectuais só pode concluir que o partido está acabando.
Esta semana, um simpatizante ilustre, o professor Leôncio Martins Rodrigues, colega e amigo de FHC dos tempos de universidade, foi ao máximo de afirmar, em entrevista a um dos jornais paulistas, que o PSDB “corre o risco de virar uma legenda maldita”. Nem o petista mais aguerrido faria uma previsão tão lúgubre.
Talvez seja apenas uma distorção de perspectiva. Afinal, para os tucanos paulistas, especialmente para os que pertencem ao grupo e à geração do ex-presidente e de José Serra, o panorama é muito mais ameaçador do que parece a seus companheiros de outros estados.
O curioso é que, no ano passado, em São Paulo, o PSDB colheu alguns de seus resultados mais animadores. Não só Serra derrotou Dilma nos dois turnos, como Geraldo Alckmin teve uma vitória expressiva, ganhando de um bom candidato petista. No Senado, em uma arremetida de última hora, Aloysio Nunes acabou eleito.
Hoje, Alckmin é um dos mais bem avaliados governadores do país, repetindo o desempenho de suas administrações anteriores. Nada sugere que seu governo viva uma crise. Está em paz com a opinião pública.
É verdade que meia dúzia de vereadores da capital deixou o PSDB para se filiar ao PSD, algo que se explica pelo fato de seu líder maior, o prefeito Gilberto Kassab, continuar com a caneta nas mãos. É verdade que Walter Feldman, um quadro respeitável, fez o mesmo caminho — talvez pelos mesmos motivos, pois foi ser “embaixador” da prefeitura (?) em Londres. É verdade que, interior afora, alguns perfeitos e outros vereadores podem fazer igual.
Daí, no entanto, a dizer que está em curso uma “debandada do PSDB”, como tem afirmado a grande imprensa paulista, há uma distância. Ela não parece ocorrer nem em São Paulo, onde a crise tucana seria mais grave, nem, muito menos, no resto do Brasil.
O que talvez esteja acontecendo é a transição de um para outro PSDB. A “debandada” é irrelevante, importante é o declínio de um PSDB e a ascensão de outro.
A imprensa e os intelectuais alinhados ao PSDB de FHC e Serra não gostam do que veem quando imaginam o futuro do partido. Como disse Martins Rodrigues, Alckmin é apenas “esperto” e Aécio “não consegue fincar um pé em São Paulo” (a respeito de outras lideranças tucanas, como Beto Richa ou Marconi Perillo, nada falou). Respondendo à pergunta da jornalista (que, mais que uma pergunta, era uma exortação), sobre por que Serra estaria “tão calado” e se “não seria a hora de ele, que galvanizou tantos votos (...) tomar a frente do partido e botar ordem na casa”, só conseguiu retrucar que talvez seja por ele ter ficado “um pouco abatido com a derrota”.
Para Martins Rodrigues, “as lideranças do PSDB estão envelhecendo”. É verdade, se pensarmos no PSDB dele (e de sua entrevistadora). Esse está mais que envelhecido.
O que não quer dizer que não exista outro PSDB.
Marcos Coimbra - Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
no Com textolivre

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