sábado, 14 de junho de 2014

Desculpas, dona Dilma


Luiz Caversan

Cara dona Dilma,

dirijo-me à senhora Dilma Rousseff pessoa física mesmo, não à presidente do meu país, e chamando-a de dona porque foi assim que aprendi a me dirigir a pessoas do sexo feminino que já tenham uma certa idade e sejam mães ou avós de família.

E sabe onde aprendi como me dirigir educadamente a quem quer que seja, mas principalmente às senhoras?

Foi na zona leste, dona Dilma, lá mesmo pras bandas do estádio em que a senhora foi tão rude e desrespeitosamente tratada na última quinta-feira.

Tendo nascido e sido criado naquele cantão da cidade e conhecedor da índole daquele povo todo, dona Dilma, eu humildemente peço desculpas pelo tratamento que a senhora recebeu ali no nosso pedaço. E tenho toda a serenidade do mundo para lhe garantir: não fomos nós, povo da Zona Leste, que a ofendeu daquele jeito.

Ah, não foi mesmo, viu?

Sabe por quê? Porque mandar uma senhora como a senhora pro lugar onde a mandaram já resultou em muita briga e até morte pra aquelas bandas. Isso não se faz, ninguém por ali deixa barato ir xingando assim a mãe dos outros, ainda mais com a filha sentada do lado, onde já se viu?

A gente boa da zona leste, dona Dilma, não é disso, não.

Respeita pra ser respeitada.

Tampouco é um pessoal que fica adulando poderosos ou puxando o saco de quem quer que seja, não se trata disso. Se é pra protestar, o povo protesta. Se é pra vaiar, vaia.

Mas a educação que a gente recebeu em casa ensinou que não se fala palavrão para uma senhora e não é desta maneira, ofendendo a todos os que ouviram os absurdos que lhe disseram, que se vai se mudar alguma coisa, qualquer coisa.

Não, dona Dilma, não fomos nós da ZL que xingamos a senhora –eu falo nós, embora não more mais por aquelas bandas, porque meu coração nunca sairá de lá, e vira e mexe estou zanzando por ali, visitando gente amiga na Penha, Vila Esperança, Vila Granada, Vila Ré, Guaianases, Itaquera...

Também achei necessário me dirigir à senhora, dona Dilma, porque uns amigos que foram ao jogo me informaram que os xingamentos, as palavras de baixo calão vieram principalmente do setor do estádio em que os ingressos custavam quase mil reais ou as cadeiras eram ocupadas por VIPs –e milão prum ingresso não rola aqui na ZL, não, muito menos a gente é very important people pra receber este tipo de convite.

De modo que, mesmo sem procuração, falo em nome da gente boa da ZL para não apenas me desculpar pela grosseria, pela deselegância e pelas ofensas que foi obrigada a ouvir, mas também para fazer um convite: aparece de novo lá no nosso estádio!

Mas vai num dia de jogo do Timão.

Olha, pode ser até que a senhora ouça alguma vaia, viu, porque afinal é difícil separar uma mulher que tem filha e neto, e já merece respeito apenas por isso, da presidente da República - e ali a gente vota como quer, respeita opinião diferente e acredita em democracia.

Agora, garanto que com o estádio sem toda aquela gente diferenciada que tomou conta de Itaquera no jogo do Brasil, ninguém vai mandar a senhora àquela parte, não.

Porque se algum engraçadinho se atrever a fazer isso, vai acabar levando um tapa na boca.

Porque é assim que fomos educados.

Um abraço pra senhora e um beijo pro Gabriel, seu neto, que aliás tem o mesmo nome do meu.

Medidas antipopulares de Aécio Neves, candidato do PSDB


Em suas reuniões fechadas para rentistas, Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência, assegura que implementará a cartilha ordenada pelos endinheirados.

Dr. Matusalém Toicinho, CEO do PIG de 1500 a 1938, e Dr. Toicinho, CEO do PIG desde 1939, sempre engajados com os demotucanos, prometeram espaços ainda mais generosos em suas publicações e emissoras de rádio e TV para o candidato representante da plutocracia e, evidentemente, matérias sempre negativas contra Dilma Rousseff.


O que se trama nos bastidores contra a população.

Os barões do dinheiro ouviram a sinfonia dos violinos. 


“Não posso falar em público. Apenas com vocês, os rentistas. São medidas antipopulares que adotaremos no primeiro minuto.”



“PSDB vai desempregar (esfriando a economia), aumentar as tarifas de luz e combustíveis (o Zé-Povinho está se aproveitando de preços baixos), dar mais juros aos banqueiros (nunca é demais, não é senhores?), detonar o salário mínimo (para pobre tem que ser o mínimo do mínimo), acabar com as bolsas vagabundagem (Bolsa família, ProUni, Mais médicos etc.) e, a cereja do bolo, adeus Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Soberania etc.”

Ademais, sabe-se que o traíra DuduFields também subscreve o mesmo programa de interesses antipopulares.


Brasileiros atentos

Mas os(as) brasileiros(as) não são idiotas.

Conhecem o histórico dos vendilhões da pátria e suas máscaras e artimanhas.

Falta água (Alckmin), falta luz (FHC). 

Tem Trensalão (Alckmin, Serra, Covas), tem Privataria Tucana (FHC, Serra, Alckmin etc.) 

#PSDBnuncamais
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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Quem é essa turma do vai tomar no cu ??

O Brasil é um país complexo e muito difícil de explicar, mas a sua elite não. Ela é previsível e está sempre no mesmo lugar. As elites do mundo não costumam ser muito diferentes, mas a brasileira é das piores.
Não à toa o Brasil foi o último país do planeta a acabar com a escravidão, não à toa somos um dos poucos países que só agora está vivendo um ciclo democrático de três décadas. Todos os outros nossos períodos de democracia duraram menos do que isso.
Na época da escravidão, essa elite também tinha lado
Na época da escravidão, essa elite também tinha lado
E todas as ditaduras e a escravidão longínqua que tivemos são obras da nossa elite. Que se julga o Brasil. Que se acha a dona do país. Que é altamente corrupta, mas que faz de conta que o que lhe move na política é a defesa do interesse público.
Os que xingaram Dilma na tarde de ontem de maneira patife e abjeta são os netos e bisnetos daqueles que torturam negros nas senzalas. São os filhos daqueles que apoiaram a tortura na ditadura militar. São os mesmos que há pouco fizeram de tudo para que não fosse aprovada a legislação da empregada doméstica e que nos seus almoços de domingo regados a champanhe francês e a vinho italiano sobem na mesa para gritar contra o Bolsa Família.
Essa elite que xingou Dilma daquela maneira no Itaquerão sempre envergonhou o país. E ontem só aprontou mais uma. Não foi um ponto fora da curva no processo histórico. E também não foi nada inocente.
Aécio Neves mais do que todos os outros candidatos que o PSDB já teve simboliza esse elite. É o típico bon-vivant, que nunca trabalhou na vida, que surfou até os 20 anos no Rio de Janeiro e que depois foi brincar de motocross até os 25 anos na montanhas de Minas Gerais, para só depois entrar na política e ir defender os interesses da família e de seu segmento social.
Ontem, Aécio deu uma entrevista ao Globo onde atiçava seu eleitorado a sitiar a presidenta da República. E ao mesmo tempo milhares de panfletos eram distribuídos na entrada do Itaquerão associando o PT à corrupção. Pra criar o clima do ataque à presidenta.
O mesmo Aécio que botou a polícia do Rio para invadir a casa de pessoas que ele suspeita estarem criticando-o na Internet. O mesmo Aécio que silenciou a imprensa de Minas Gerais e colocou-a de joelhos para os seus projetos pessoais.
Quem xingou Dilma não foi nem um punhado de inocentes e nem a massa ignara. Foi o pedaço do Brasil que odeia o brasileiro.
Para este pedaço do Brasil que é a cara de Aécio, tanto faz se o presidente é Dilma, Lula, José ou Maria. O que eles não aceitam e que o país não seja apenas um lugar para eles exercerem sua sanha dominadora.
E por isso que o Bolsa Família, o aumento do salário mínimo, as políticas de cotas, a legislação da empregada doméstica e alguns outros programas sociais são tão abominados por essa gente. Eles querem que o povo morra de fome. Querem que o povo vá tomar naquele lugar. O xingamento não é para a presidenta. É para o Brasil que a elegeu. Porque na democracia desses patifes, o voto deles teria que valer mais do que o do sertanejo ou da mulher que luta pela sobrevivência dela e dos filhos nas periferias das grandes cidades.
Os netos e bisnetos dos escravistas e os filhos dos que apoiaram a tortura na ditadura. É esse Brasil que nos envergonha do ponto de vista histórico que nos envergonhou ontem xingando uma presidenta legítima, uma chefe de Estado que tem atuado dentro dos limites da Constituição.
Esse Brasil precisa ser derrotado mais uma vez. Porque se o projeto petista tem seus limites e poderia ser muito melhor, o desses caras é o que há de mais asqueroso. É o vai tomar no cu.
SUGADO DO: http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2014/06/13/quem-e-essa-turma-vai-tomar-cu/

Análise das pesquisas mostram bom momento para Dilma após a Copa


A presidenta Dilma Rousseff defendeu a participação social e a consulta no processo de decisão de políticas do governo
Antonio Lassance, Correio do Brasil 

"É bom olhar além das pesquisas de opinião para dar um passo à frente na análise de conjuntura e perceber seus impactos na futura campanha eleitoral. O vento está virando a favor de Dilma.

Em termos políticos e econômicos, com todos os percalços, Dilma tem um cenário que caminha do estável para o positivo.

Como já se imaginava, PMDB e PDT oficializaram apoio à sua reeleição. PSD, PP, PTB, PROS e outros estão a caminho de fazer o mesmo, sem surpresas.
As resistências que a presidenta ainda encontra nesses partidos têm muito a ver com as disputas pelos governos estaduais. Mas, como em 2006 e 2010, é preciso olhar não só os candidatos a governador, mas a relação direta que o Planalto tem com prefeitos, inclusive os da oposição.

Mesmo a subida momentânea de Aécio nas pesquisas, maior e antes do esperado, contribui para configurar o cenário ideal para Dilma, na medida em que o PSDB se firma como o adversário principal e ideal para servir de saco de pancadas.

Dilma ainda depende, politicamente, de uma Copa do Mundo que transcorra com normalidade – torcida não só dela, mas da grande maioria da população.
Mesmo assim, os maiores riscos na Copa se concentram, sem sombra de dúvida, em São Paulo, com foco em um assunto do Governo do Estado – a campanha salarial dos metroviários.

Outro problema, a CPI da Petrobrás, tornou-se tão saturado que a própria oposição deixou de ir à sessão para ouvir o acusado que diziam ser o “homem bomba” do caso.

A possibilidade de segundo turno é ainda real, mas continua no fio da navalha. O desgaste de todos os políticos é um freio de mão puxado para os oposicionistas que, nos setores descontentes do eleitorado, são tidos mais como veneno do que como remédio para a política nacional.

Em termos econômicos, a inflação, alta no primeiro semestre, como no ano passado, tende a iniciar uma tendência de queda e reversão de expectativas negativas.

Além da melhora no preço dos alimentos, um fator crucial entrou em campo: o preço da energia está despencando. O nível dos reservatórios tem ficado acima do esperado, o que se reverte em uma previsão de afluência maior.

Somado à redução na demanda, durante o inverno, o preço da energia está caindo, e muito. A redução, em média, tem chegado a 45%. Na Região Sul, está sendo vendida 60% mais barata.

Na contramão, o governo tucano do Paraná pede que a ANEEL conceda um tarifaço de 32% em favor da companhia elétrica de seu Estado. O assunto já virou tema de campanha dos oposicionistas Roberto Requião (PMDB) e Gleisi Hoffmann (PT) e é um prato cheio para ser nacionalizado.

De quebra, a ameaça de crise do sistema (apagões generalizados) ficou cada vez mais remota.

A partir de agosto, com bastante tempo de TV para fazer frente à campanha midiáticatucanófila, será hora da candidata responder aos ataques e dizer a que veio, sem ter que se preocupar tanto com inflação, Petrobrás e Copa como tem feito agora.

O grande adversário de Dilma está no campo social. É o risco da mesmice, se seu programa não trouxer grandes e empolgantes propostas de mudança, e o desencanto com a política, para a qual a população gostaria de uma boa chacoalhada.

Quem sabe a própria oposição forneceu o mote ideal para chacoalhar o debate sobre o sistema político.

O decreto presidencial que reforça a participação popular no Governo Federal incomodou os partidos e a mídia tradicionais até mais do que se esperava.
É um ótimo sinal de uma boa briga – a mesma que se comprou em favor do Bolsa Família e dos Mais Médicos; a que faltou no Plano Nacional de Direitos Humanos-3."

Antonio Lassance é cientista político.

A seleção, espelho de uma elite careta e covarde


 Lacombe, Blog da Milly  / GGN

"Neymar faz o gol da virada, a torcida comemora por alguns segundos e então decide mandar a presidente tomar no cú. Nada poderia definir melhor a nossa elite.

Elite que conheceu Itaquera hoje. Elite que, se posso chutar, frequenta estádios com a mesma regularidade que o Halley passa por aqui. Elite que, ao escutar que ganharia ingresso para ir ao jogo da Copa que ela há quatro anos critica furiosamente, não apenas aceitou o ingresso como saiu correndo para comprar uma camisa da seleção.

A elite foi para o estádio de van, sabendo que estava segura porque não haveria povo no jogo. A arquibancada estava higienizada. E fodam-se as criticas à Copa, se ganhei ingresso vou mesmo e depois volto a reclamar do Brasil e da Copa e da roubalheira. Como chega lá nessa Itaquera, alguém sabe?

Hino à capela. Bonito, mas para que mesmo? Começa o jogo. Brasil!, Brasil! e silêncio e silêncio. O tempo passa, mais silêncio. Gol dos croatas. Silêncio se aprofunda. Empate de Neymar, cantoria começa e, depois de segundos, acaba. Educados que são, sentam-se.

Intervalo. Hora de instagramar e facebucar fotos da festa. Mulheres de salto, maquiadas, jeans justíssimos. Homens de gel, calças igualmente justas e mocassim. Reclamam das filas para lanchonete e banheiro e da conexão ruim. Volta o jogo. Brasil consegue um penalti suado e roubado. Comemoram por segundos e decidem xingar outra vez a chefe de estado.

É nesse ponto que minha indignação ganha ritmo e é sobre isso que quero falar.

Depois de um gol você comemora, e não dá as costas ao jogo para xingar. A questão é menos a manifestação coletiva, por mais deselegante que tenha sido, do que o momento em que ela aconteceu. Porque o momento – logo depois de um gol suado e decisivo – fala muito sobre quem somos.

É um sintoma da alienação. Estamos desconectados da realidade, não conseguimos nos ligar à emoção nenhuma. Estamos infectados de pragmatismo e carentes de alma. Somos, desde o berço, mimados e mal acostumados.

Em campo, a seleção reflete bravamente a burguesia paulista: acovardada, dissimulada, agressiva, preferindo enganar do que lutar. Fred poderia ter tentado matar a bola no peito e, quem sabe, fazer um golaço, mas escolheu se jogar bisonhamente no chão.

Alguém tuitou que xingar um chefe de estado coletivamente é fácil, e que duro é ir sabendo que será xingado. Nada poderia ser mais verdadeiro. Imaginemo-nos no lugar de Dilma, gostando ou não dela; quantos de nós teríamos ido ao jogo?

Ao lado dela, Sepp Blatter, o homem que comanda uma das corporações mais sujas mundo. Se Dilma estava sendo xingada porque a elite supõe que ela comande uma administração corrupta (vamos imaginar que seja por isso), por que Blatter foi poupado? Que tipo de ética seletiva é essa?

Foi poupado porque é homem, e o machismo é também uma característica de nossa classe mais alta.

Sempre que vejo um membro dessa elite indignado com o Brasil pergunto o que piorou na vida dele nos últimos dez anos. Eles não sabem responder e referem-se de forma geral à violência, ao trânsito e à educação, mas sem sacar direito do que estão falando, e quando tento me aprofundar não querem mais papo. Embora estejam hoje mais ricos do que jamais foram, seguem reclamando dessas generalidades.

Hoje, xingaram a chefe de estado por comandar uma instituição corrupta, porque não aceitam a corrupção de forma alguma ao que parece, mas gostaram de ganhar roubado, uma contradição que a alienação impede de detectar.

Eu me pergunto também se se naquele estádio houvesse apenas faxineiras, operários,motoristas, metroviários, sacoleiros etc etc etc Dilma seria xingada como foi.

Acho que não seria.

Acho que não seria porque eles sabem que muita coisa mudou para melhor nos últimos dez anos. Porque sabem que um jogo de Copa é importante e é preciso entrar nele com a alma. Porque quando essa galera vai ao estádio, gosta de ver o jogo e gritar e pular, especialmente em gols suados e decisivos. E porque a verdade com V maiúsculo é que esse povão que está excluído dos estádios é muito mais elegante do que a gente.'

terça-feira, 10 de junho de 2014

Torcer para o Brasil também é um direito


Torcer pelo Brasil é um direito. As pessoas que quiserem podem e devem exercê-lo em paz, sem constrangimento de qualquer espécie.

Embora o futebol seja, de longe, o esporte preferido dos brasileiros, um novo esporte ganhou muitos adeptos desde o ano passado.

É o esporte de falar mal da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, de torcer para que a competição seja um fiasco e para que a imagem do País seja a pior possível, aqui dentro e lá fora.

O campeonato nacional de esculhambação da Copa e do Brasil é um esporte diário que envolve pessoas que se dividem em pelo menos dois grupos.

Um é o pessoal totalmente anticopa, que empunha a bandeira do #NãoVaiTerCopa e quer sabotar o evento custe o que custar.

Outro é a turma dos Empata-Copa, que é cheia de dedos, de "veja bem" e "não é bem assim". Eles até acham que vai ter Copa porque a Copa "já foi" - o dinheiro já foi gasto.

Ambos compartilham o mesmo objetivo: fazer que essa Copa seja inesquecível - no pior sentido, claro.

Os Anticopa são o pessoal do ataque. Os Empata-Copa são os da retranca.

A turma do #NaoVaiTerCopa é o pessoal da ação direta. Os Empata-Copa não querem inviabilizar o evento, mas torcem por um empate. Para esses retranqueiros, o empate já seria uma grande vitória. O importante é todo mundo sair de cabeça baixa.

Essa turma tem um olho só - é aquele que só vê malefícios. Em terra de cego, quem tem um olho é contra a Copa. Assim tratam os que defendem o evento: como cegos e idiotas.

Os Empata-Copa e os Anticopa acham que defender o Brasil é patriotada do tipo "ame-o ou deixe-o". A velha ditadura de 1964 a eles agradece por ser condecorada como "patriótica" -  que bela homenagem de uma gente insuspeita!

O regime que cunhou a doutrina de que “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” agradece a força do pessoal que tem esse espírito crítico tão aguçado.

O “patriotismo” do "ame-o ou deixe-o", para quem já se esqueceu ou para quem nasceu ontem, é mera tradução do slogan usado pelo ex-presidente Richard Nixon: "USA: love it ou leave it". Patriótico pra caramba, né?

Engraçado que o antiamericanismo de alguns que vão às ruas não os impede de empunhar cartazes em Inglês. Seria injusto dizer que essa turma não torce por nada. Eles torcem para serem filmados pela CNN ou fotografados pela Reuters.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor, mesmo que oculta por uma fantasia de Batman ou pela máscara pálida de Guy Fawkes, imortalizado pela produção hollywoodiana “V de Vingança” - à venda nas melhores lojas.

Uma coisa é certa - a Copa trouxe o malefício de fazer com que algumas pessoas se esqueçam dos grandes problemas do País.

Por exemplo, os que reclamam dos R$ 8 bilhões gastos em estádios, crime número 1 desta Copa. Os R$ 8 bi são empréstimos. Retornarão aos cofres públicos do BNDES e da Caixa Econômica Federal.

Os Empata-Copa e os Anticopa, porém, não se mostram nada incomodados com o fato de que se paga um Maracanã a cada dois dias em juros da dívida pública. Só em 2013, se pagou R$ 248 bilhões em juros. Será que nosso real problema são R$8 bi de empréstimos?

Por ano, serão pagos R$ 20 bilhões a mais para o mercado financeiro a cada vez que o Copom do Banco Central vier a elevar a taxa de juros em 1 ponto percentual. Detalhe: esse dinheiro não retorna para os cofres do BNDES ou da Caixa.

A Copa é o alvo errado. É um palpite infeliz de quem malha o Judas fingindo estar enfrentando o Império Romano.

Virou um misto de performance teatral e de indignação mal informada que mais parece pura babaquice - é o termo técnico mais preciso.

Os brasileiros têm direito à saúde, à educação, ao transporte para levá-los ao trabalho, à escola, ao domingo no parque.

Pois torcer pelo Brasil também é um direito. As pessoas que quiserem podem e devem exercê-lo em paz, sem sofrer constrangimento de qualquer espécie. Os que quiserem sentir vergonha também podem ficar à vontade.

Vai ter Copa e milhões de brasileiros vão exercer o seu direito a essa alegria fugaz que só dura 30 dias. Dias inesquecíveis. Cada qual tem o direito de escolher a maneira que achar melhor para se lembrar desse momento.

(*) Antonio Lassance é cientista político.
via, http://esquerdopata.blogspot.com.br/2014/06/torcer-para-o-brasil-tambem-e-um-direito.html

A ‘sopa’ do PT esfriou?

"Por que as pesquisas indicam que a maioria dos eleitores quer mudanças? Quais mudanças querem esses eleitores? Querem os tucanos e o seu neoliberalismo rastaquera de volta ao poder?

Lula Miranda, Brasil 247

Teria a 'sopa' do PT esfriado? Ou amornado? É o que alguns já podem estar se perguntando. Sim, 'sopa', você leu a metáfora correta, pois, todos sabemos, o Partido dos Trabalhadores utilizou-se até então da política de tomar o caldo pelas beiradas, em vez de entorná-lo de uma vez. O partido pretendia assim, ao poucos, "pelas beiradas", como se diz, fazer as mudanças que o país tanto necessita. Sem maiores choques ou rupturas.

Tomar a sopa pelas beiradas sob o comando de Lula, o grande líder carismático, que caíra como "sopa no mel" ao gosto do nosso sebastianismo/messianismo. Lula funcionaria ainda, aos olhos das elites, bem como, por motivos e intenções diversas, na visão dos pensadores da extrema-esquerda, como uma espécie de providencial "pelego" amenizando o inevitável atrito e desgaste entre o capital e o trabalho, e daria lenta e progressiva vazão às inúmeras demandas sociais há muito represadas. Sem Lula e o seu providencial "pacto social", o atrito constante certamente esgarçaria o tecido social até a sua ruptura.

O que teria dado errado então? Se é que algo deu de fato errado – pois é isso que as manifestações de junho, o suposto mau humor das multidões e as recentes pesquisas parecem sinalizar.

O que teria dado certo? Sim, porque algo deu certo. O país melhorou em muitos aspectos – como é consenso.

Mas por que então tantas manifestações, greves e protestos?! Os movimentos sociais teriam apunhalado o petismo pelas costas? Ou estariam, cansados de esperar a tal sopa, reivindicando o que lhes é direito? É tudo culpa do governo federal e do PT?! Até que ponto iria também a negligenciada responsabilidade dos governos estaduais e municipais?

Por que as pesquisas indicam que a maioria dos eleitores quer mudanças? Quais mudanças querem esses eleitores? Querem os tucanos e o seu neoliberalismo rastaquera de volta ao poder? São muitas as questões que ora nos são colocadas.

O que teria dado errado – repito, se é que algo deu errado de fato – no projeto petista [o tal da 'sopa' pelas beiradas]? A sopa esfriou antes de saciar àquele que a sorvia? Ou quem a servia perdeu a firmeza necessária com que segurava o prato? Por que boa parte da população, mesmo a atendida por diversas ações e políticas do atual governo, sinaliza estar insatisfeita e arredia à política e aos partidos? Seria porque são ilimitadas as necessidades dos homens e limitados os recursos para atender a essas necessidades? – como aprendemos nas primeiras aulas de economia.

E o que se colocará no cardápio no lugar da 'sopa' petista? Esta última questão deveria a todos preocupar – não só às esquerdas, como também e principalmente, às elites e à classe média conservadoras. Mas estas parecem estar ocupadas apenas com o curto prazo. E o curto prazo, para as classes conservadoras e sua mídia servil, é entornar o caldo e apear o PT do poder. A única sopa que parece interessar às elites conservadoras é a sopa dos desvalidos embaixo dos viadutos em noites frias. Porém, ao que tudo indica, muitas noites frias se insinuam no horizonte pardacento.

Sim, porque há riscos, talvez não devidamente calculados.

Se Lula foi o grande avalista, e fiel da tal balança desse precário pacto social, o que restaria se a balança perdesse o seu fiel avalista e, consequentemente, seu equilíbrio?

Nas jornadas de junho, tivemos exemplos de manifestações e protestos sem lideranças e sem reivindicações ou pautas claramente definidas. Como então as elites irão mediar, filtrar e transformar em ações públicas as inúmeras demandas sociais há muito represadas numa sociedade sabidamente ainda muito injusta e desigual?

Será que as elites conservadoras no Brasil podem de fato prescindir do petismo, do sindicalismo e de seus elos com os movimentos sociais, com os demais órgãos de pressão e com a sociedade em geral?

Será que ao "detonar" o petismo as elites conservadoras não estariam rasgando o pelego que ainda lhe propicia certo conforto?

Será que a sopa a ser entornada ainda não estará demasiado quente?"

A queda da desigualdade de renda no Brasil é uma falácia ?

"Alô jornalista! As variações observadas na distribuição funcional da renda são compatíveis com a redução na desigualdade da distribuição pessoal da renda! 

José Carlos Peliano,

No melhor dos casos o jornalista Clóvis Rossi está equivocado. Na Folha de São Paulo, de 8 de junho, em seu texto Dilma se engana sobre desigualdade, ele argumenta que a presidente Dilma engana-se e por extensão engana o público ao afirmar que a desigualdade está diminuindo no Brasil na contracorrente do que ocorre no resto do mundo.

No pior dos casos ele, além de equivocado, julga o comentário da presidente sem ter informações e conhecimento suficientes a respeito. Apressou-se ainda em afirmar que parcela majoritária da intelectualidade apoia essa “falácia” por omissão ou covardia.

Nem omissão, nem covardia. Apenas realidade, fato e números. A desigualdade de rendas no país está diminuindo desde 2001. De um lado a realidade da classe C nas escadas rolantes dos shoppings, nos saguões dos aeroportos, nas revendedoras de veículos, nas imobiliárias, nos cartões de crédito. De outro lado os levantamentos do IBGE além de outras fontes organizadas.
Nos levantamentos do IBGE, em geral, as rendas se referem preponderantemente aos rendimentos do trabalho, ou seja, os salários e rendimentos afins recebidos pelos trabalhadores, os quais desde o início da década passada estão se aproximando uns dos outros, na média, entre todos os indivíduos ou grupos.

Com relação à desigualdade entre capital e trabalho, que não é a mais importante, mas igualmente relevante para se saber no conjunto as distâncias de rendas entre os brasileiros ricos e pobres, ainda não se dispõe de estatísticas ou informações oficiais atualizadas. Mas se tem sim informações diretas disponíveis, pelo menos da massa salarial em relação ao PIB.

O técnico do IPEA Estêvão Xavier Bastos no trabalho “Distribuição Funcional da Renda no Brasil: Estimativas Anuais e Construção de uma Série Trimestral”, Texto para Discussão 1702, de janeiro de 2012, faz um levantamento exaustivo das informações sobre as remunerações do trabalho de 1995 a 2009. Certamente haverá outros trabalhos sobre o assunto, os quais não houve tempo para enumerá-los aqui.

Utiliza das informações da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios) e da PME (Pesquisa Mensal de Emprego), ambas as fontes do IBGE, para obter uma série da distribuição funcional da renda no Brasil assim como utiliza de mais de um método de avaliação das informações.

Já no resumo da apresentação de seu trabalho Bastos indica com todas as letras o que lhe mostraram os resultados: “observa-se que variações na distribuição funcional da renda tanto na direção favorável à renda do trabalho quanto na direção favorável àa renda do capital são compatíveis com redução na desigualdade da distribuição pessoal da renda”.  Os números estão lá para quem quiser se informar melhor.

Esse fenômeno das variações na distribuição funcional da renda não é recente sendo observado desde 1970. Há períodos em que o trabalho ganha terreno e há períodos em que perde a favor do capital. Mas a tendência recente é de que há melhoria persistente para o lado do trabalho compatível com a diminuição da desigualdade pessoal da renda no Brasil.

Alô jornalista! As variações observadas na distribuição funcional da renda são compatíveis com a redução na desigualdade da distribuição pessoal da renda! Assim, a parcela majoritária da intelectualidade não é falaciosa nem omissa. Os dados estão aí para confirmar o que a presidente Dilma declarou. Ambas as distribuições recentes de renda, pessoal e funcional, e esta com variações, estão mais favoráveis aos indivíduos e ao trabalho.

A não ser que, mesmo assim, o jornalista continue duvidando a valer sua própria afirmação logo no início de seu texto que ainda tem lá suas dúvidas se houve mesmo redução na desigualdade pessoal da renda no país. Neste caso, se ele insiste assim, deve, no mínimo, provar o contrário.

Pelo simples fato de que, segundo suas fontes, as pesquisas do instituto, onde se inclui a PNAD, só captam 10% das famílias com juros, segue daí que, para ele, a PNAD é “a única fonte de informação sobre a suposta queda da desigualdade. Logo, afirmar que ela vem caindo é uma falácia, no melhor dos casos, ou uma baita mentira, no pior”. Acredito que ele foi longe demais ao duvidar dos levantamentos do IBGE.

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. É correto classificar como distribuição de renda as tabulações sobre as rendas do trabalho, que é o caso da PNAD, como também é correto classificar como distribuição de renda as tabulações sobre as rendas do capital.

Em economia, assim como nas ciências sociais em geral, quando se menciona distribuição de renda a referência que se tem é a distribuição dos rendimentos do trabalho, enquanto quando se menciona distribuição funcional da renda a referência é a distribuição dos rendimentos do capital e do trabalho.

Assim, a presidente não se enganou, nem enganou o público, como também o IBGE não publica informações falaciosas, tampouco é uma fonte de mentiras.

Sobre a subestimação das rendas dos mais ricos (entre os 10% ou 1%), é fato que isso ocorre, principalmente com relação a rendas de outras fontes relacionadas indiretamente ou não com o trabalho. Mas isso não é problema somente brasileiro.

Um aperfeiçoamento dessa base de informações aqui no país, caso permita a legislação, seria a inclusão dos dados da declaração anual de rendimentos, o que, no entanto, não garante a plena fidedignidade dos dados. Há manobras contabilistas para esconder informações bem como a conhecida resistência dos informantes.

Por outro lado, a inclusão ou a exclusão de impostos pagos pelos ricos e pobres pode apenas apurar o tamanho da desigualdade, mas não vai alterar o quadro geral da distribuição pessoal da renda. Pode afetar alguma coisa da distribuição funcional da renda. Assim, Paul Krugman, em artigo publicado pela Folha em 2 de junho último, Sobre a negação da desigualdade, tendo como referência os EUA, afirma que “impostos e benefícios não alteram fortemente o quadro da desigualdade”  americana.

Os chamados cientistas em geral se valem basicamente de pesquisas diretas apoiadas por técnicas e métodos científicos apropriados e validados e de fontes oficiais de informações (pesquisas indiretas), registradas e organizadas, para realização de seus estudos e pesquisas. Se a veracidade e a fidedignidade de suas informações não são reconhecidas, estamos nas mãos de opiniões e dane-se o aparato científico."

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A política em rede – como se dão os debates e conflitos políticos na internet

Exemplo de posts divulgados pela TV Revolta, à esquerda, e pela sua sátira, a TV Relaxa
Diário do Centro do Mundo 

"Com liberdade e possibilidade de compartilhar conteúdos como nunca antes na história, cidadãos, políticos e jornalistas tentam se adaptar à internet e às redes sociais.

É comum ouvir comentários a respeito da influência da internet na sociedade, na relação entre as pessoas e na política. Dizer que ela mudou nossa forma de agir, paquerar, viajar, sair etc., já virou clichê. O campo político, obviamente, não é uma exceção: não faltam discussões, debates, ataques, críticas e boatos direcionados a partidos, políticos ou ideologias. Mas sendo um fenômeno recente na história da humanidade, a internet, especialmente as redes sociais, desperta mais perguntas do que certezas: ela contribui para o debate democrático ou apenas alimenta o ódio entre os grupos? Traz mais informação ou desinformação? Até onde pode ir sua influência no resultado de uma eleição? Para tentar responder a essas perguntas, é necessário entender quando e como tudo começou.

O primeiro caso de sucesso: Obama e a rede em 2008

Não é preciso ser um especialista em marketing político para, pelo menos, já ter ouvido falar sobre a importância da internet na primeira campanha vitoriosa de Barack Obama. Não foi o primeiro caso de uso bem sucedido da rede numa campanha eleitoral, mas com certeza foi aquele que chamou a atenção do mundo para o tema. “Ele traçou uma estratégia que se tornou referência o fez virar um case unânime”, conta André Rossi, diretor de comunicação da Veto, agência especializada em política digital. “Era uma tática muito interessante de doação partidária, onde as pessoas podiam doar por vários mecanismos muito simples, e ganhavam alguns benefícios como participar da escolha do candidato a vice-presidente do Partido Democrata”.

Além disso, a facilidade de comunicação gerada pela internet possibilitou a criação de mini-comitês nos bairros das cidades americanas. “Havia a possibilidade de conversar com pessoas dos bairros e estabelecer cabos eleitorais”, explica André. Essa tática aumentava o poder de penetração da imagem e das ideias de Obama em cada comunidade, pois fazia de pessoas comuns verdadeiros cabos eleitorais.

André não acredita, entretanto, que a vitória de Obama possa ser colocada totalmente na conta de sua atuação na rede: “Não acredito que tenha sido decisiva; foi um dos fatores. O momento político dos EUA ‘pedia’ um candidato como ele”. Mesmo assim, foi o momento em que o mundo da política passou a olhar para a internet e as redes sociais com mais atenção. Com a explosão do Facebook, pouco depois, essa tendência tornou-se uma necessidade, parte integrante da estratégia de comunicação de políticos, partidos, empresas e veículos de mídia.

Boatos e estratégias na eleição de 2010

Dois anos após a vitória do Partido Democrata, foi a vez de o Brasil descobrir a influência da rede numa eleição presidencial. “Foi em 2010 que o país percebeu que a Internet é uma área importante do marketing e que ela é capaz de conseguir angariar votos e pautar o que será discutido na ordem pública”, afirma Ricardo Miranda Azarite, consultor em marketing político. No entanto, esse acontecimento não foi apenas positivo, pois “também descobriu-se que a internet, até então tida como ‘terra dos sonhos’ graças à ‘romantização’ da campanha de Obama em 2008, também poderia ser usada de maneira não tão ética assim”.

Dois casos famosos ilustram o que Ricardo afirma. Um deles foi o “ataque” com uma bolinha de papel e José Serra. “Foi algo que surgiu de um fato e ganhou proporções grandes na rede”, diz André Rossi, que cita a desconfiança de o caso ter sido forjado ou, pelo menos, amplificado pelos noticiários, principalmente o Jornal Nacional. O outro foi o boato espalhado pela internet e pelo Orkut, naquele momento a rede social mais popular no Brasil, de que a então candidata Dilma Rousseff era uma defensora do aborto. Dilma teve de fazer declarações públicas  negando a especulação e reuniu-se com grupos religiosos para deixar claro que não tentaria a legalização do aborto caso fosse eleita. André critica o aspecto moral da discussão no final do primeiro turno: “O caso do aborto surgiu de uma maneira que não trouxe nada para o debate. A agenda política ficou em segundo plano”.

Mas, segundo os especialistas, o que realmente marcou a eleição de 2010 foi a atuação de Marina Silva na rede.

A estratégia consistia em tentar compensar a desvantagem da candidata do Partido Verde na propaganda de televisão – ela tinha 83 segundos contra 12 minutos e Dilma Rousseff e 9 minutos de José Serra – usando a internet e as redes sociais. Segundo André Rossi, Marina usava o pouco tempo na TV para retransmitir a audiência para as redes, indicando que os eleitores poderiam conhecer mais sobre suas propostas no meio virtual. Nele, sua imagem e suas ideias estavam buscando a atenção do público de diversas formas, por meio de site oficial, blog, perfil no Twitter, comunidade no Orkut, página no Facebook, canal no YouTube, fotos no Flickr, um social game chamado “O Mundo”, além de um sistema de arrecadação online de recursos e, obviamente, o monitoramento constante do nome da candidata na internet.

Segundo Caio Túlio Costa, um dos coordenadores da campanha, Marina Silva não era muito íntima da internet, e assim procurou aproximar-se de seu público. Ela teve seu “batismo digital” ao participar da Campus Party 2010 com a intenção de expandir seus conhecimentos sobre tecnologias e redes e mostrar-se interessada no assunto. Em seu artigo O papel da internet na conquista dos votos de Marina Silva, Caio Túlio afirmaque essa estratégia foi determinante para que Marina se firmasse como a terceira via nas eleições e forçasse um segundo turno ao obter quase 20 milhões de votos. Assim, o jogo da política brasileira uniu-se definitivamente ao ambiente virtual. Para o bem e para o mal.

Informação e desinformação; debate e guerra

Depois desses acontecimentos e da expansão da internet no Brasil, ocorrida nos últimos três anos, é de se esperar que as redes sociais ganhem cada vez mais força no debate público e no confronto de ideias. Em época de campanha eleitoral, essa movimentação se acirra de tal forma que é comum ouvir jornalistas se referindo ao fenômeno como “guerra”. Mas, desta vez, a batalha se dá majoritariamente no Facebook, entre cidadãos comuns, mais ou menos moderados, que se aliam a um partido político ou se unem para combater aquele que representa a pior opção na eleição.

Segundo Fabio Malini, professor e pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo, responsável pelo estudo Dilma nas redes sociais: o fim da bipolaridade política e o desejo de radicalizar mudanças, “em tempos eleitorais, frequentemente muito passionais, os argumentos são motivados pela emoção partidária, o que faz multiplicar o disse me disse, as meias-verdades, os desacordos, as rusgas entre militantes virtuais. As redes potencializam essas emoções em tempo real, o que parece fazer da rede o lugar onde a verdade não é possível”. No entanto, Fabio explica que “a internet possibilita compreendermos como os lados, antes de argumentos políticos consistentes, optam sempre pela violência, pela guerra, pelo dedo em riste”. Para André Rossi, o confronto se assemelha a uma guerra, pois há “exércitos conflitantes, que lutam por um fim específico. As páginas afins conversam entre elas mesmas e não expandem seu círculo. Falam para um público específico, do seu partido, e assim ficam entrincheiradas virtualmente”.

Esse movimento foi traduzido em forma de um mapa de rede por Max Stabile, pesquisador em democracia eletrônica e coordenador de contas da FSB Digital. Nele, as ligações representam o conteúdo que é compartilhado por curtidores de diferentes páginas. Quanto maiores essas ligações, mais o público delas demonstra interesse pelos mesmos temas e curte ou compartilha os mesmos posts. De cara, é possível perceber a polarização entre os apoiadores do PT e do PSDB, enquanto os do PSB ficam no meio termo. Além disso, fica bastante clara a interação entre as páginas dos partidos e aquelas que os apóiam indiretamente e, supostamente, sem o seu apoio.

O mapa de rede mostra como acontecem as interações entre fãs de páginas diferentes. As ligações explicitam o clima bipolar e radical do debate no Facebook
Nesse ambiente, páginas com conteúdos políticos ou relacionados a figuras políticas, como a TV Revolta e a Dilma Bolada, apareceram como possíveis catalisadores de votos. O caso da primeira já é relativamente bem conhecido: criada por João Vitor Almeida Lima, intérprete do personagem João Revolta, ela divulga conteúdos críticos a políticos, quase sempre do PT, teve um crescimento exponencial nos últimos meses e rapidamente passou das 3,6 milhões de curtidas. A crítica unilateral recebe críticas por seu radicalismo e pela falta de apuração das informações, divulgadas no afã de espalhar os ataques, justos ou não, aos petistas – o site e-Farsas fez uma matériamostrando seis casos de notícias falsas divulgadas pela página.

Para Ricardo Azarite, definir a internet e as redes sociais como guerra ou expressão democrática é uma definição superficial e simplista do fenômeno: “Acredito que são unívocos e praticamente mútuos – não há democracia sem guerra ideológica e conflito de opiniões”. De acordo com ele, os perigos são outros: “A desvalidação da liberdade de expressão, com a imensa quantidade de perfis de anônimos ou falsos; os crimes resultantes do compartilhamento e viralização de conteúdo difamatório e calunioso; e a manutenção ou confirmação de preconceitos provenientes da superficialidade do debate”. O melhor a fazer, segundo Ricardo, é criar conteúdos que desmistifiquem os pontos duvidosos, pois “não adianta pensar em como evitar os boatos. Eles sempre existiram e sempre existirão. O esforço que vale ser feito é quebrá-los”.

Fabio Malini acredita, por sua vez, que a tendência é as pessoas compartilharem conteúdo mais por afinidade do que pelos bons argumentos que ele traz. Assim, criam-se grupos de indivíduos afins, que funcionam como uma turma pronta para apoiar um de seus membros que entra em um debate (ou briga) com um rival. Ele também aponta uma solução para este conflito: a ironia. “A ironia é quase um modo de fuga das relações bipolares. É a arma daqueles que estão isolados, mas podem ganhar, com a franqueza, a discussão pública”. Deste modo, aqueles que preferem não escolher um lado definido da disputa eleitoral e ideológica podem ridicularizar os mais radicais, encontrando os pontos falhos e exagerados em seus discursos.

Como era de se esperar, os partidos políticos não estão alheios a essa movimentação. Em reportagem de capa em maio deste ano, a CartaCapital abordou o tema e trouxe dados sobre o investimento que vem sendo feito na internet e nas redes sociais para a eleição presidencial de outubro. Segundo a matéria, o PT investe cerca de 12 milhões de reais no segmento, mesmo valor destinado pelo PSDB. O PSB, apoiado por Marina Silva, fica atrás no que se refere às cifras, mas também demonstra sua preocupação com a rede: são 8,5 milhões de reais investidos.

Esse dinheiro é usado no treinamento de militantes virtuais, no monitoramento de redes sociais e na divulgação de campanhas na rede. Mas o que acontece nos bastidores não é tão claro assim, e as trapaças, como em qualquer outro lugar, também marcam presença. No mês passado, Jeferson Monteiro, criador da página Dilma Bolada, afirmou ter sido procurado por uma agência de publicidade interessada na compra da página pela equipe de Aécio Neves. Jeferson disse ter prosseguido com a negociação “para ver até onde ia a cara de pau desses tucanos”. Depois disso, Pedro Guadalupe, profissional de marketing digital, foi quem fez contato. Ele admite ter negociado com o dono da página satírica, mas nega que o tenha feito em nome do PSDB – Pedro diz ter feito isso justamente para impressionar os tucanos e então conseguir trabalhar na campanha. Sem provas conclusivas até agora, a verdade por trás do episódio não chegou a público.

Um dia antes, a TV Revolta também fez uma acusação. Um texto publicado dizia que o PT estaria fazendo uso de robôs e militantes pagos para atacar a página com acusações de que ela seria financiada por partidos políticos. Havendo ou não esse ataque por parte dos tais robôs, a verdade é que o crescimento da TV Revolta divide a opinião de especialistas – seria esse crescimento orgânico (sem fazer uso da publicidade paga do Facebook) ou seria fruto de um investimento de alguém ou algum grupo com recursos para tal? Vitor Azerite acredita que esse sucesso se deva, de qualquer modo, principalmente à capacidade da página de expressar a insatisfação de muitos cidadãos.

A respeito dos robôs, ou bots, eles “são perfis robôs que possuem a função de replicar automaticamente uma mensagem; se milhares deles replicam uma mensagem de algum indivíduo, este pode ganhar certa visibilidade momentânea”, explica Fabio Malini, que completa: “Os bots são o subproduto virtual da crise da política”. Para Vitor, esses perfis não precisam ser necessariamente falsos, pois esse papel pode ser desempenhado por militantes treinados a replicar conteúdo ao invés de questioná-lo. “É uma estratégia bastante amadora para obtenção de menções na Internet. É o que traz resultados mais fáceis”, completa.

Por mais que todo esse esforço esteja sendo feito, ainda não existe unanimidade quando a pergunta é sobre o quanto a atuação na internet pode mudar o voto de um eleitor. “Não existe nenhum estudo e nenhum dado que comprove isso. A pessoa pode mudar de ideia como pode mudar falando com uma pessoa na rua”, diz André Rossi. Já Ricardo Azarite discorda: “Por mais que a Internet seja onde se confirma opiniões, é comum que o cidadão não tenha opinião formada a respeito de seus candidatos, principalmente para candidatos legislativos. O eleitor, mesmo que indeciso, tem uma pré-determinação ideológica e buscará seu candidato dentro dessa fatia ideológica – e toda e qualquer mídia é essencial para sair-se vencedor”.

A internet, a televisão e as eleições do futuro

Mesmo diante deste cenário acirrado e por vezes radical, os especialistas em política digital enxergam a relação entre a internet e as redes sociais com a política como algo positivo. “A batalha vai continuar, mas acredito muito na evolução do debate. É algo gradual. Na eleição passada, a rede não tinha a amplitude que tem hoje”, avalia André Rossi. Desta vez, Ricardo Azarite concorda: “O advento das mídias sociais no debate público serviu para balançar a autoridade da TV como formadora de opinião, então acredito que a internet traz um enriquecimento no âmbito da discussão pública”, citando a impossibilidade de, hoje em dia, a televisão mudar o rumo de uma eleição presidencial, como a TV Globo fez em 1989 ao editar o debate televisivo entre Collor e Lula de modo a beneficiar a imagem do primeiro e prejudicar a do segundo.

Mais do que tirar o poder, até pouco tempo monopolista, da televisão, a internet está conseguindo cada vez mais influenciar o agenda setting, ou seja, definir pautas que saiam do mundo virtual para o real. Se antes as redes sociais, blogs e sites repercutiam na rede os acontecimentos da sociedade, atualmente conseguem propor os temas a serem debatidos entre jornalistas, eleitores e candidatos, exigindo dos últimos uma maneira de lidar com as reivindicações e se defender de boatos como a suposta opinião de Dilma a respeito do aborto e o suposto uso de cocaína por Aécio Neves. Ricardo diz que exemplos positivos disso são “as Jornadas de Junho, as revoltas da chamada Primavera Árabe etc. E isso acontece também fora da política, com o mundo empresarial, que ouve, cada vez mais, a voz de seus consumidoes
nas redes sociais para aprimorar produtos, processos, fluxos, comunicação…”

Se as perguntas do início da matéria ainda não têm respostas certas e não existe verdade definida neste tema, uma conclusão possível é que a internet e as redes sociais são ferramentas de comunicação às quais eleitores e candidatos ainda estão tentando se adaptar. Exageros, boatos, ataques e radicalismos nunca vão deixar de existir no mundo real ou virtual, mas a tendência é que, aos poucos, por meio de uma possibilidade de comunicação nunca antes vista na história, os cidadãos passem a ser menos passivos na defesa de suas ideias, crenças e até preconceitos. Mesmo com todos os problemas e conflitos, se a base da democracia é a liberdade de expressão e interação entre as pessoas, a internet apenas amplifica isso e deixa claro em quais pontos em que já evoluímos e em quais ainda temos muito a melhorar."

Precisamos falar sobre a Globo


Diário do Centro do Mundo 
"Está num artigo da Economist sobre a Globo. A revista diz que o governo trata a Globo com “docilidade”.

Tenho minhas restrições ao tom professoral da Economist ao falar do Brasil. Ora, se as fórmulas da revista fossem tão boas assim, o Império Britânico estaria mais vigoroso que nunca ainda hoje.

Notemos também que, a rigor, a Economist não tem sido capaz de resolver sequer os próprios problemas, quanto mais os da humanidade. Na Era Digital, a Economist é uma fração do que foi.

Feitas todas essas ressalvas, a revista acertou em cheio ao usar a palavra “docilidade”.

Nenhuma democracia pode conviver com tamanha concentração em um grupo de mídia. Nas contas da Economist, as Organizações Globo falam com 91 milhões de brasileiros.

Sabemos bem – a rigor, a Globo sempre disse o que diz hoje – que tipo de informação é passada aos brasileiros.

Tudo que beneficia o povo é uma “tragédia” – como o Globo definiu em sua primeira página o 13.o salário outorgado por João Goulart pouco antes do golpe militar.

A Globo faz mal ao Brasil, numa palavra. Mais especificamente: à ideia um Brasil socialmente justo. O Brasil da Globo é este que conhecemos, repleto de desvalidos em favelas e com os Marinhos no topo das famílias mais ricas do país.

Dada sua força, a Globo é a Bastilha brasileira, o símbolo da iniquidade. Para que a França avançasse, a Bastilha teve que ser derrubada. Para que o Brasil avance, a Globo tem que ser enquadrada.

Enquanto a Globo for deste tamanho, o Brasil continuará, essencialmente, o mesmo.

Enquadrar a Globo esbarra exatamente na “docilidade” do governo. Das administrações petistas, sublinhemos.

Porque antes você teve duas situações. Na primeira, durante a ditadura, a Globo fazia vassalagem e era recompensada majestosamente com mamatas indecentes.

Depois, com o fim da ditadura, a Globo passou de vassala a senhora. De Collor a FHC, todos os presidentes se ajoelharam para Roberto Marinho e para a Globo.

Com isso, a Globo conseguiu o milagre de sobreviver, ainda mais forte, àquilo que a fez ser o que é: a ditadura.

Esperava-se que o PT mudasse isso. Mas não foi o que ocorreu – ainda que fosse uma ação vital não para o partido em si, mas para a sociedade.

O PT foi dócil desde o início, sabe-se lá por quê. Pragmatismo, prudência, numa visão mais positiva. Medo, numa visão mais severa.

A docilidade se manifestou logo. A Carta aos Brasileiros, com a qual Lula se comprometeu a seguir as diretrizes básicas de FHC, teve as digitais de João Roberto Marinho, da Globo.

Pouco depois, em outro momento icônico, Lula compareceu ao enterro de Roberto Marinho, e lhe fez um elogio fúnebre.

Uma pequena medida de como as coisas se complicaram nas relações PT-mídia é que Dilma não compareceu ao enterro de Roberto Civita.

Mas Dilma também contribuiu para a dose de docilidade ao não trazer para o debate a regulação da mídia. Seu governo ficou marcado pela tese indefensável de que o controle remoto serve para lidar com a mídia.

Houve também o “republicanismo” na distribuição de verbas de propaganda do governo federal. O “republicanismo” carregou 6 bilhões de reais para a Globo em dez anos, a despeito de audiências cada vez menores.

Há detalhes difíceis de engolir neste “republicanismo” todo. Dias atrás, o portal ig publicou um artigo segundo o qual a Caixa Econômica Federal vai investir apenas 1% em publicidade nos meios digitais em 2013. Nem 2% e nem 3%: 1%.

Isso quer dizer que 99% da verba da Caixa terminam em mídias que rotineiramente massacram o governo. “Republicanismo” ou, como muitas pessoas dizem, “Síndrome de Estocolmo”?

É dentro desse quadro que Lula tem falado na campanha de desinformação promovida pela mídia. Coisas boas do governo Dilma, ou dele próprio, são ignoradas. Coisas ruins –reais ou imaginárias – são sublinhadas.

Entre os que reconhecem na concentração da mídia um enorme obstáculo ao avanço social brasileiros as palavras de Lula causam uma certa irritação. Ora, por que ele não fez nada a esse respeito em seus dois mandatos? Essa é uma das questões que um dia Lula terá que enfrentar.

Para regular de verdade a mídia, você tem que mexer no problema central: a Globo.

É o que Christina Kirchner fez com o Clarín, numa luta épica em que ela foi diariamente atacada sem jamais ceder. É o que o governo conservador do México está fazendo também com a Televisa.

No Brasil, sem que o caso Globo seja enfrentado, falar em regulação será pouco mais que jogo de cena.

Apenas para registro, até os militares começaram a ficar inquietos, num determinado momento, com o tamanho da Globo, porque isso poderia representar um Estado dentro do Estado.

O Brasil precisa, mais que nunca, de um estadista que diga aos brasileiros, com clareza e espírito público: “Precisamos falar sobre a Globo”.

SP: o espírito de 32 em 2014

"A alta finança hoje é a cafeicultura do século XXI. Vencê-la implica desmontar sua dominância sobre o desenvolvimento. E romper limites impostos à democracia.

Saul Leblon, Carta Maior

O PSDB  governa o Estado de São Paulo há 20 anos.

Mário Covas foi eleito governador em 1994, seis anos depois de criada a sigla que completa 26 anos de existência  neste 25 de junho.

Geraldo Alckmin, o plantonista atual do bunker concorre à reeleição em outubro, depois de ter participado diretamente de quatro das cinco gestões tucanas no estado.

Alckmin foi vice de Covas em 1994 e 1998.

Em 2001 assumiu o governo com a morte de Covas.

Emendou o terceiro ciclo à frente do estado em 2002, eleito governador.

Feito que repetiria em 2010.

Está na sua quarta passagem pelo poder, que  encerra pleiteando a reeleição para um 5º mandato em outubro.
No interregno de 2006 a 2010, quando não esteve diretamente no comando do governo, Alckmin assumiu a secretaria de Desenvolvimento do estado na gestão Serra.

Duas décadas no poder e 44% de intenções de voto para o pleito estadual de 2014, (a se dar crédito ao Datafolha do último sábado),  não é algo que se possa menosprezar.

O desconhecimento em relação aos demais candidatos  pesa significativamente a favor de Alckmin.

Padilha (PT) é um nome novo na política.

O fato de estar há tanto tempo no rodízio dá ao tucano uma aura de ‘normalidade’ em tempos de sobressalto e inquietação.

O sentimento, porém,  possivelmente  fosse o oposto, se o dispositivo midiático conservador não tornassem  difuso  aquilo que é estrutural.

Ou seja, as duas décadas de autodeclarada  proficiência administrativa  do PSDB em São Paulo não se traduziram em bem-estar social efetivo para o conjunto dos paulistas.

Na realidade, elas refletem mais a conveniência  da plutocracia brasileira,  que fez do estado sua  linha Maginot, do que a consagração de uma obra democrática.

Em parte, é o que explica a renitente presença desse insipido, mas fiel  gerente do comodato do dinheiro grosso  com o poder estadual.

Nenhum outro quadro dirigente do PSDB de São Paulo esteve tão presente  no ciclo de escândalos da Alstom, marca registrada do caixa 2 tucano na gestão do metrô paulista, quanto Geraldo Alckmin.

A julgar pelos relatos do próprio oligopólio associado às encomendas do metrô, o intercurso entre o cofre das empresas e o caixa pessoal e coletivo do tucanato começou em 1998, quando ele era vice de Covas.

E não parou mais de fluir.

Entre 1998 e 2001 sabe-se, graças às investigações realizadas pelo Ministério Público da Suíça, que pelo menos 34 milhões de francos franceses foram pagos em subornos  a autoridades  tucanas, na lubrificação de contratos do metrô.

Com a morte de Covas, em 2001, Alckmin assumiu o comando desse comodato. E se manteve à frente dele até 2006.

Seria injusto atribuir-lhe a exclusiva liderança do processo.

No  período de negociação de alguns dos grandes  contratos de transporte e energia o então genro do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, David Zylbersztajn, dirigia  a pasta de energia da gestão Covas e Alckmin (deixou o cargo em janeiro de 1998 para assumir a direção geral da Agência Nacional do Petróleo).

O serrista Mauro Arce comandava a de Transportes. Andrea Matarazzo bordejava o circuito.

Assim por diante.

Nada disso  retira de  Alckmin o que é de Alckmin.

Um contrato de R$ 223,5 milhões com a Alston, para a compra de 12 trens, foi assinado em 28 de dezembro de 2005.

Sem licitação.

Alckmin era o governador.

Um total de 139 contratos assinados entre a Alstom e o Governo do Estado de São Paulo nos últimos anos (governos  Serra e Alckmin) ,no valor  de  US$ 4,6 bilhões, está sob suspeita.

As investigações na justiça paulista se arrastam, em que pese o esforço solitário do ministério público suíço.

Sempre discreto, semi-invisível  tanto quanto a obra, Alckmin é um dente da engrenagem que move os interesses comuns do dinheiro e do PSDB no grande diretório do capitalismo brasileiro em que se transformou  o aparato estatal bandeirante.

A dissociação entre esse aparato  e o interesse público pode ser medida pelo hiato entre as promessas do tucano na campanha vitoriosa de 2010 e o saldo efetivo deste final de mandato.

Alckmin entregou então aos paulistas um compromisso sortido, cravejado de números suculentos.

Entre eles, o de construir 150 mil moradias, promover um salto no transporte público e na saúde, construir  12 piscinões em São Paulo etc.

Quatro anos depois, sobrou o quê?

Em janeiro de 2014 Alckmin comunicou que mudara de ideia em relação aos piscinões.

Desistiu, alega,  a partir  de cálculos hidrológicos que indicariam a suficiência de uma ‘otimização’ das instalações existentes.

Dos 12 piscinões prometidos, três foram feitos, outros dois estão em obras.

A meta de oferecer 150 mil moradias às faixas de renda mais pobres ostenta frustração igualmente grave.

Em 2013, a construção de unidades populares pelo governo estadual registrou queda de 80% na capital.

Isso num ano em que explodiram as ocupações de edificações públicas e privadas pelos sem-teto na cidade.

Das 150 mil unidades previstas,  seu governo entregou até agora  55.483 moradias.

Estamos falando da prioridade habitacional do PSDB no estado mais rico da federação, que tem um déficit de 1,11 milhão de moradias  --o maior do Brasil em termos absolutos.

Mesmo no confronto com seus pares, o desempenho  de Alckmin  é derrisório.

Em 1998, por exemplo, o então governador  Covas (PSDB) construiu, no ano, o equivalente próximo da marca que Alckmin atingirá ao longo de toda a sua quarta passagem pelo Estado (52.167 unidades).

Na área da saúde é sugestivo dizer que São Paulo receberá um dos maiores contingentes do Programa Mais Médicos: 1.279 profissionais vão atender a 7,2 milhões de moradores desassistidos do estado.

O corolário do modo Alckmin de governar  é o atual uso do ‘volume morto’ do sistema Cantareira –último recurso antes do racionamento oficial , presente na vida cotidiana de vários bairros da capital.

São Paulo vive a estiagem mais severa desde 1930. Ademais da exacerbação climática, porém, há o efeito cumulativo da contradição estrutural entre a lógica do poder bandeirante e as questões do interesse coletivo.

O abastecimento de São Paulo se apoia no mesmo fluxo de mananciais interligados ao final da década de 70, meados dos anos 80.

A população de São Paulo dobrou no período.

Nas últimas duas décadas, a curva demográfica conviveu com administrações que não se anteciparam  ao colapso implantando a infraestrutura capaz de evitá-lo.

O flanco do abastecimento de água foi escancarado pela estiagem.

Outros, de gravidade equivalente, caso da mobilidade urbana simbolizada na expansão de um metrô que se arrasta como uma lesma, ou do déficit habitacional, para não citar o desempenho constrangedor da rede estadual de ensino, inscrevem  as marcas da ineficiência no cotidiano sofrido da sociedade.

São Paulo tem 3% do território brasileiro, 22% da população e 33% do PIB nacional.

Há 84 anos, no bojo de uma crise mundial capitalista , que esfarelou os preços das matérias-primas e destroçou a inserção brasileira no mercado mundial, o poder da oligarquia  paulista foi afrontado  por Vargas.

A política centralizadora e industrializante de Getúlio  sacudiu o chão das oligarquias estaduais, especialmente o da mais sólida delas, em São Paulo.

O governo Vargas reconheceria oficialmente os sindicatos dos operários, legalizaria o Partido Comunista e adotaria uma política de direitos e valorização do salário dos trabalhadores.

O amparo de Getúlio à cafeicultura, com a política de compra e queima de estoques, combinou-se com um manejava  do  câmbio, de forma a capturar um pedaço da receita exportadora, como se fora um imposto sobre as vendas do setor.

O circuito do dinheiro, o quanto, como e onde aplicar deixou de ser prerrogativa exclusiva das elites paulistas e assemelhadas.

A sublevação de São Paulo em 1932 refletia esse desacordo travestido de ideais liberais democráticos.

A tentativa derrotada de 1932 iria se repetir ao longo da história.

Sempre que um governante tentou sobrepor os interesses gerais do país à lógica do dinheiro graúdo concentrado em São Paulo, a elite local reagiu.

São Paulo perdeu importância produtiva desde então, mas se mantém como o bunker financeiro do capitalismo  brasileiro.

A alta finança é o café atual.

O que significa, paradoxalmente, deter um poder de fogo em relação à esfera  federal e ao resto da economia muito superior ao disponível no ciclo da cafeicultura e mesmo  no seu auge como ‘a fábrica’ do país.

Para a plutocracia paulista e parte da classe média ter um governante do PSDB à frente do aparelho de Estado não é uma questão da democracia, mas  de fortificação de uma trincheira desse privilégio.

O governo Vargas, apesar do levante de 1932 – esmagado em três meses--  sustentou uma política de compromisso com os grupos cafeicultores, garantindo-lhes uma taxa de retorno em plena crise mundial.

Mutatis mutandis, os governos do PT fizeram o mesmo ao garantir ao setor industrial paulista, e à banca aqui centralizada,  uma demanda aquecida por bens de consumo e crédito, em pleno colapso da ordem neoliberal no mundo.

A exemplo do que ocorre hoje, nem por isso a oligarquia de São Paulo deixou de conspirar contra Vargas e contra a lógica de desenvolvimento que ele personificou.

Trinta e dois anos depois  de 1932, ela conseguiria finalmente, em março de 1964, atingir seu objetivo:  abortar as fundações de uma democracia social no país que subtrairia o seu mando o sobre o dinheiro e a nação.

Em 1964, os vapores constitucionalistas  de 32 revelariam sua frágil densidade liberal.

Sobreveio em seu lugar uma ditadura feroz, que derrubou um governo legitimamente exercido por um Presidente reformista e democrático.

Essa mesma lógica explica por que  –mesmo menosprezando Alckmin—essa mesma elite hoje cerra fileiras na sua reeleição.

Poupando-o  do que efetivamente significa em termos de mediocridade administrativa.

E esbanjando complacência diante de seus vínculos incontornáveis  com a malversação tucana dos fundos públicos em São Paulo.

Quem já sobrepôs a  baioneta ao voto para defender seus interesses de classe não vê dificuldade alguma em dar a esse  rebaixado  funcionário um quinto ciclo à frente do comodato de negócios que se incrustou no poder público estadual.

Vencer esse arranjo de forças encastoado em São Paulo vai além das urnas.

Requer, simultaneamente, desmonta-lo na dimensão superior do seu poder.

Vale dizer,  na dominância financeira sobre o desenvolvimento brasileiro.

E nos limites estreitos impostos ao exercício da democracia e ao fluxo da informação no país.

Essa dimensão do poder paulista será enfrentada no escrutínio presidencial de outubro. "