quarta-feira, 3 de julho de 2019

A IDEIA DE QUE OS DOMINGUEIROS POSSAM CARREGAR O GOVERNO NAS COSTAS NUNCA PARECEU TÃO DISTANTE

joel pinheiro da fonseca
NAS RUAS PARA QUÊ?
"o domingo de manifestação virou o dia do lazer bolsonarista"
A manifestação pró-governo está se tornando um programa rotineiro de domingo em São Paulo. Em outras cidades parece que os protestos murcharam, mas em São Paulo eles seguem fortes. 

Uma vez por mês, cidadãos vestidos de verde e amarelo, aguerridos defensores do governo Bolsonaro, caminham pela avenida Paulista, ouvem uns discursos, gritam algumas palavras de ordem e voltam para casa. 

A cada reedição, o número e a garra dos participantes parecem diminuir um pouco. É essa a grande estratégia do governo?

Moro sem dúvida agradece essa mostra de popularidade, mas não é como se ela trouxesse alguma novidade. Seus apoiadores agora estão estritamente circunscritos ao bolsonarismo. E é nessa condição de fiel escudeiro do Mito e nada mais que ele deve continuar ministro. Fora do governo, os protestos estão se tornando irrelevantes.

A ideia era que Bolsonaro não precisava negociar com o Congresso porque a força da pressão popular sobre os parlamentares os obrigaria a seguir as ordens do Executivo. Na prática, contudo, o Congresso vê os manifestantes entoando cantigas de amor ao presidente e seus ministros e não sente medo nenhum. Não vemos nas ruas as multidões a perder de vista. 
Não seria parcialidaderetrocesso e pibinho?

E como elas não apresentam grandes riscos de partir para a violência, invadir o Congresso, parar a cidade (até o dia dos atos é escolhido para não interferir no trânsito) ou algo do tipo, perdem o potencial intimidatório. O domingo de manifestação virou o dia do lazer bolsonarista.

Assim, deputados e senadores sentem-se à vontade para inviabilizar o decreto que liberava o porte de armas, propõem mudanças várias à reforma da Previdência sem se pautar pelo número mágico do R$ 1 trilhão em dez anos e já se preparam para tocar uma agenda econômica própria assim que a página da Previdência tenha sido virada. 

E ao fazê-lo criarão uma situação difícil para a militância bolsonarista: se o Congresso toma a dianteira nas reformas econômicas do Brasil, o governo não poderá acusá-lo de sabotar seu trabalho.

A pressão popular, para ter algum efeito, precisa ser rara e impactante. E ela o será tanto mais quanto mais parecer que o Congresso —para defender interesses próprios— se coloca contra mudanças importantes do país. Se ele for o motor dessa mudança, a grande crítica do bolsonarismo à velha política estará desarmada.
A kriptonita do Intercept o reduziu a piada

O governo terá três opções. A primeira é aceitar um papel menos importante, apostar na recuperação econômica que o Congresso trará e colher os frutos eleitorais disso. 

A segunda é continuar apostando no embate e tentar sabotar as iniciativas do Congresso (como a reforma tributária); mas transformar essa jogada pelo poder em alguma narrativa virtuosa que convença a opinião pública será difícil. 

E a terceira é correr atrás do prejuízo e fazer o trabalho que deveria estar fazendo, com menos conflitos, menos bravatas e mais discussão de projetos.

A cada nova intriga que vaza para a mídia, a cada nova humilhação pública e demissão sumária imposta a um ministro ou funcionário do alto escalão (como no caso de Joaquim Levy e do general Santos Cruz), o governo perde a confiança e a boa fé de todos aqueles que poderiam colaborar com ele, tornando mais difícil fazer um trabalho sério. 

Os domingueiros de verde-amarelo gostam, festejam cada novo ato intempestivo do Mito. Mas a ideia de que eles possam carregar o governo nas costas nunca pareceu tão distante. (por Joel Pinheiro da Fonseca)

SEIS MESES DE BOLSONARO: ATÉ QUANDO, JAIR, ABUSARÁS DE NOSSA PACIÊNCIA?


1. Na política, Bolsonaro patina, derrapa, escorrega quase todo dia. Em seis meses, não conseguiu formar uma base de apoio no Congresso. Cometeu erros primários na relação com o Legislativo e quis medir forças com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Perdeu terreno na negociação da reforma da Previdência, cedendo espaço e protagonismo na sua possível aprovação.
2. O partido do presidente, o PSL, mais atrapalhou do que ajudou. Foi pivô do principal escândalo até aqui, o caso das candidaturas de laranjas nas eleições passadas, que levou à queda de Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral e transformou o único ministro da sigla, o do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, em um morto-vivo na Esplanada. No Congresso, o PSL arrumou confusões desnecessárias, expôs divisões na bancada e nada fez para liderar uma base aliada.
3O modelo de Bolsonaro governar emitiu sinais trocados de janeiro para cá. Começou parecendo uma gestão descentralizada, com núcleos delineados (militares, Moro, Guedes, entre outros). Nos tempos recentes, no entanto, Bolsonaro tomou as rédeas e, muitas vezes de maneira atabalhoada, tem dado as cartas, trocando peças e anunciando medidas.
4A política externa não surpreende. É tacanha, da veneração ao governo Trump (EUA) a retóricas ideológicas. No G20, porém, Bolsonaro entrou no jogo: teve de puxar o freio do blá-blá-blá bravateiro para se enquadrar na liturgia do diálogo.
5Na economia, o governo comemora o acordo Mercosul-União Europeia. Mesmo tendo a digital de gestões passadas, o mérito de quem o celebrou fica. De resto, as fichas estão na Previdência, enquanto o PIB está em baixa e outras medidas adormecem no escaninho de Guedes. 
6. Fiador ético do governo, Sergio Moro está nas cordas com as mensagens graves da Lava Jato. Será defendido por Bolsonaro até quando não for mais útil para o presidente. 
                                                                                                                         
  .
TOQUE DO EDITOR — Bolsonaro começou seu governo acreditando que poderia encenar no Palácio de Planalto o show de besteiras ultradireitistas com que seus filhos e o Rasputin de Virgínia tolamente sonhavam.

Sua realização mais notável no semestre findo foi a sétima que faltou na enumeração do Colon: conseguiu reerguer espetacularmente o movimento estudantil, plantando sem querer a semente de uma indispensável nova esquerda, agora que a versão genérica das últimas décadas, após apostar tudo na conciliação de classes e perder até o último centavo, já nada mais tem a oferecer.

Finalmente, depois de ter sido colocado no seu lugar aqui (pelo Alcolumbre e pelo Maia) e lá fora (pelo Macron e pela Merkel), Bolsonaro acaba seus péssimos primeiros seis meses aparentemente decidido a deixar a pauta neofascista de lado e jogar o jogo tradicional da velha política (aquela que ele vinha vituperando após comer nesse prato por apenas três décadas...).

A boa notícia é que, se ele realmente tomar o rumo para o qual o sistema o empurra, ao invés de sustos e sobressaltos voltaremos a ter mais do mesmo de sempre.

A má notícia é que, nesse caso, provavelmente teremos de aturá-lo por mais três anos e meio (O horror, o horror!), ao passo que, insistindo no show de besteiras, ele não esquentaria cadeira.

COLOPROCTOLOGIA: TUDO QUE VC QUERIA SABER SOBRE A MASSA OLAVAL QUE OS BOLSONAROS TÊM NA CABEÇA.

VC QUERIA SABER SOBRE A MASSA OLAVAL QUE OS BOLSONAROS TÊM NA CABEÇA.

joel pinheiro
da fonseca
EM SEIS MESES, OLAVO FORNECE
A BOLSONARO MILITÂNCIA ATIVA
E FANÁTICA
É uma pena que, em 2019, Olavo de Carvalho ainda seja tema relevante no debate público brasileiro. Com efeito, ele talvez nunca tenha sido tão relevante.

No governo Bolsonaro, Olavo não é apenas um escritor de sucesso ou o professor de um curso online popular; é um dos principais ideólogos do governo e indicou ao presidente os ocupantes de dois ministérios, no que foi prontamente obedecido.

Embora esteja, aos seis meses de governo, um pouco mais afastado do entorno presidencial, seus seguidores e sua ideologia continuam a influenciar os rumos de Brasília.

Essa posição de influência não é fruto do puro acaso.

Olavo veio construindo sua base, doutrinando um número crescente de seguidores com pouca bagagem cultural, desde o início dos anos 2000. Nos anos 1990, fora um polemista e crítico de medalhões intelectuais da esquerda que dominavam o debate público.

Antes disso, vivera muitas e diversas aventuras: alega ter sido militante comunista na juventude. Mais tarde, se juntou a umatariqa (um grupo esotérico islâmico) e fez um mergulho no misticismo e no perenialismo; foi também astrólogo. Hoje, é católico e reside nos EUA.

Olavo já teve presença na mídia. Chegou a ter coluna no jornal O Globo. Mas, por seu pensamento crescentemente paranoico e sua incapacidade de travar uma discussão sem recorrer a ofensas e xingamentos, acabou perdendo todos os seus espaços na mídia, ao mesmo tempo em que investia em seu site, programa de YouTube e curso online.

Percebeu antes de muitos outros formadores de opinião que, com as novas tecnologias, não era mais necessário o crivo institucional da mídia ou da universidade para chegar ao público.

A aposta vingou. Morando nos EUA, Olavo dá um curso online de filosofia que já se estende por anos, tem milhares de alunos e mensalidade de R$ 60.

Ao mesmo tempo, ele conseguiu se transformar numa grande referência de cultura, filosofia e política para pessoas sem grande bagagem intelectual e com algum ressentimento do discurso dominante na mídia, na política, nas universidades e nas artes.

O QUE OLAVO ENSINA — Embora se considere filósofo e tenha escrito livros sobre filosofia, seu real interesse —e o de seus alunos e seguidores— é a política. Sua mensagem política é simples: tudo o que é de esquerda é maligno.

Em nome de extirpar a esquerda, vale tudo, inclusive derrubar à  força qualquer obstáculo institucional ao livre exercício de poder de um governante de direita.

Congresso, STF, mídia, universidades e mesmo as Forças Armadas: à medida em que não se curvarem ao mando de Bolsonaro, devem ser atacados sem trégua.

No passado, ele já torceu abertamente por um golpe que derrubasse o governo constituído, como no caso da greve dos caminhoneiros em 2018. Olavo foi um apoiador de primeira hora dos grevistas. Para ele, os caminhoneiros possuíam a virtude e a força que faltava aos militares para fazer uma revolução.

Num post em sua página no Facebook em 24 de maio de 2018, escreveu:
"Por que os caminhoneiros estão pedindo intervenção militar? Deveriam eles mesmos fazer a intervenção, pois já provaram, mais de uma vez, que têm capacidade e bravura para isso. Todo poder aos caminhoneiros!"
Digamos que a estabilidade institucional do país não lhe seja um valor muito caro.

Embora tenha abandonado há muito o mundo das seitas esotéricas, conserva ainda alguns de seus traços: cultiva perante seus seguidores a imagem de um grande sábio, cuja autoridade deve ser sempre respeitada e reconhecida.

Com essa autoridade, promove a fanatização de seus seguidores, fazendo-os crer que vivemos na iminência constante de um apocalipse esquerdista, do qual apenas Olavo (ou aqueles por ele apontados) podem nos salvar.

Toda sua filosofia, em última instância, aponta para a mesma conclusão: duvidar da argumentação racional e confiar acima de tudo na intuição superior do mestre (ele próprio).

A mídia, a universidade e a ciência de maneira geral são alvo de desprezo.

Recentemente, expressou dúvidas sobre se a Terra é plana. Não se sabe até que ponto manifestações como essas devem ser levadas a sério, mas creio que buscar saber se algo que Olavo diz é sério ou não já é perder o ponto central da filosofia olaviana: o conteúdo é o que menos interessa. O importante é fomentar a dependência do seguidor na autoridade do mestre.

As teses conspiratórias se seguem umas às outras e vão embora sem deixar rastro. Maçonaria, programação neurolinguística, Foro de São Paulo, globalismo, comunismo, marxismo cultural,Clube Bilderberg, segredos de Fátima. O importante é manter a fé cega e o ânimo exaltado.
.
O QUE OLAVO E OS OLAVISTAS FAZEM — Não se deve superestimar o papel de Olavo no governo Bolsonaro.

Ele não está presente no dia a dia da administração nem toma decisões. Permanece, contudo, como a fonte da ideologia dominante no discurso do governo (que combate inimigos como o globalismo e o Foro de São Paulo) e é o guru inspirador de figuras influentes: o ministro da Educação, Abraham Weintraub, o chanceler Ernesto Araújo, o assessor de política internacional da Presidência Filipe Martins e os filhos Carlos e Eduardo Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, desafetos seus na equipe do governo têm sido paulatinamente demitidos, como ocorreu com o general Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, que em maio foi xingado de “seu merda” por Olavo no Twitter.

Inegavelmente, o que os olavistas têm a oferecer ao governo Bolsonaro não é domínio técnico das pastas em que são alocados. Até agora, vimos o fracasso vergonhoso da primeira indicação de Olavo ao Ministério da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez.

Weintraub, seu sucessor, conseguiu transformar um contingenciamento normal numa crise de popularidade, faz o discurso de caça às bruxas contra professores e hoje se resume a xingar o PT no Twitter.

Nas Relações Exteriores os militares do governo tiveram que construir um verdadeiro cordão de isolamento para impedir que o ministro Ernesto Araújo comprometesse o interesse nacional com sua mistura curiosa de discurso nacionalista extremado e subserviência aos EUA.

A Apex, empresa pública que inicialmente fora deixada a cargo de olavistas, praticamente parou em meio à incompetência e às intrigas constantes por eles fabricadas. 
.
O QUE RESULTA DO OLAVISMO — O que os olavistas oferecem ao governo é uma militância altamente mobilizada e fanatizada, disposta a atacar alvos selecionados nas redes sociais e fazer barulho nas ruas quando necessário.

Bolsonaro vem apostando nessa ideia, alimentado talvez pela crença de que o grito das redes significa popularidade real nos lares brasileiros.

Cercado de conselheiros como Filipe Martins e seu filho Eduardo, parece crer na paranoia conspiratória de que todos fora de seu círculo íntimo conspiram contra ele.

Os institutos de pesquisa vêm apontando queda na popularidade do presidente, mas já que, de acordo com Olavo e sua ideologia, os institutos mentem, não há por que acreditar neles.

Mais recentemente, Bolsonaro se afastou um pouco da figura de Olavo —que ficou desgastado depois das sucessivas brigas com a ala militar do governo— sem com isso livrar-se dos olavistas que ocupam posições importantes na administração e da ideologia olavista (teorias da conspiração e fanatização da base a serviço de um projeto de poder absoluto).

Se de fato continuar nessa rota, encaminhará o governo para o sonho de Olavo e de seus seguidores: a ruptura institucional visando o poder total.

Parece uma estratégia fadada ao fracasso, mas dado o tamanho do abismo que o presidente criou entre si e o Congresso, talvez seja vista como o único caminho.

Em todos os projetos em que toca, Olavo deixa um rastro de desavenças, intrigas, ressentimentos, sem nenhuma realização. Com o governo federal não parece que será diferente. (por Joel Pinheiro da Fonseca)

domingo, 9 de junho de 2019

Há séculos, um açougueiro no poder


Acaba de ser lançado o Atlas da Violência 2019, do Ipea. Novamente, os dados provam que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo.

Entre as muitas conclusões que apresenta, a publicação revela que o número de homicídios cometidos com armas de fogo, crescia 5,44% anuais nos 14 anos anteriores ao Estatuto do Desarmamento. Já nos 14 anos posteriores, esse índice caiu para 0,85%.

Mesmo assim, o presidente do próprio Ipea, Carlos Von Doellinger, afirmou que “por uma questão de princípio, me incomoda a impossibilidade de o cidadão ter uma arma para a defesa da sua integridade física, de sua família e do seu patrimônio”.

É esta a lógica dos integrantes do governo Bolsonaro. Há mortes demais nas estradas? Flexibilizem-se as leis, punições e fiscalização de trânsito. O agronegócio abusa dos venenos agrícolas? Liberem-se ainda mais agrotóxicos. Mulheres são agredidas? Ofereça-se a elas uma arma para se defenderem.

Mas nada disso é um raio no céu azul. A alcateia louca que está no poder se vale de fake news, mentiras, calúnias e difamações. Mas seu modo de administrar o País é perfeitamente coerente com nossa realidade social e histórica.

Bolsonaro na presidência é a classe dominante sem filtros. Sem sociólogos, metalúrgicos ou guerrilheiras a tentar dourar a pílula venenosa da dominação extremamente truculenta dos poderosos locais.

A eleição de Bolsonaro é a mais pura demonstração da debilidade de uma Constituição cujas belas vestes da democracia moderna já não escondem o emporcalhado avental de um velho açougueiro sanguinolento.

Chegamos à pílula no 2.000. Doses suspensas por algumas semanas.

Inteligência Artificial à imagem e semelhança da estupidez social

l

Marildo Menegat é doutor em Filosofia pela UFRJ. Em entrevista publicada na página IHU On-Line em 29/05/2019, ele falou sobre inteligência artificial. 

Mais especificamente, sobre aquilo que seria uma espécie de emburrecimento da condição humana devido ao uso que vem sendo dado a essa ferramenta.

Por exemplo, nossos contatos cada vez mais frequentes com atendentes virtuais. Como observa Menegat, esses robôs já se comunicam perfeitamente conosco. Mas:

...não lhes pergunte se o tempo está bom, ou se andam estressados com tanto trabalho. Eles delimitam a conversação na resolução de uma mediação na qual você mesmo se torna a representação de uma coisa, no caso, o dinheiro-consumidor.

Trata-se, afirma o entrevistado, da:

...redução da linguagem a este momento empobrecedor da vida social. Uma troca entre coisas. Na contraparte a este contato, cada vez mais frequente as pessoas vão desaprendendo a riqueza e a inteligência presente no uso cotidiano da linguagem.

Para ele, haveria dois momentos nessa mediação. “Na primeira parte da mediação, a máquina nos roga para deixarmos de lado o especificamente humano e nos concentrarmos na nossa representação de consumidor (dinheiro); na segunda, nos convencemos que o horizonte rebaixado do dinheiro é o zênite do pensamento humano”.

Sendo que:

O atual domínio da técnica confina não apenas a linguagem, mas a imaginação e as capacidades sociais a um estreito cubículo, uma espécie de domesticação que em muito se assemelha ao método que os grandes frigoríficos utilizam para criar animais para o abate.

É assim que a Inteligência Artificial demonstra funcionar à imagem e semelhança da estupidez da sociedade que a vem criando.

O meteoro somos nós


José Eustáquio Diniz Alves é professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. Em recente artigo, ele revelou dados impressionantes sobre o crescimento da população e da economia nos últimos dois Jmil anos. Por exemplo:

Do ano 1 da Era Cristã até o ano 2000, a população mundial passou de cerca de 225 milhões de habitantes para 6 bilhões e a renda per capita global passou de US$ 467 para US 6.055.

Ou seja, no período, o PIB global foi de US$ 106 bilhões a US$ 36,3 trilhões. A população aumentou 26,5 vezes, enquanto a economia cresceu 342,7 vezes. A renda per capital mundial, por sua vez, aumentou 13 vezes.

Mas, ele alerta, esse crescimento não foi uniforme ao longo dos dois milênios:

Entre o início do século 19 e o final do século 20, a população mundial passou de 1 bilhão de habitantes para 6 bilhões, aumentando 6 vezes. Já a renda per capita passou de US$ 667 para US $ 6.055 em 2000. Um aumento de 9,1 vezes em dois séculos.

Durante o século 19, aconteceu a Revolução Industrial, que, para muitos, inaugura o Antropoceno. Trata-se de um período que teria proporcionado “um aumento significativo do padrão de vida” da humanidade. Mas, diz o autor, “às custas do empobrecimento da natureza e do holocausto biológico dos demais seres vivos do Planeta”.

Por isso, conclui Alves, pessimista:

O “meteoro” que está provocando uma grande extinção de espécies no Antropoceno e gerando mudanças climáticas catastróficas se chama ser humano, que parece buscar o mesmo destino dos dinossauros.

Agora, vá dizer isso aos “terraplanistas”!

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Uber: de volta ao século 19


“O Trabalho na Uber é neofeudal”, diz o título de entrevista publicada no portal Sul21, em 13/05/2019. As palavras são do procurador Rodrigo de Lacerda Carelli, que integra o Grupo de Estudos “GE Uber”, do Ministério Público do Trabalho.

O grupo realizou um estudo sobre “as novas formas de organização do trabalho relacionadas à atuação por meio de aplicativos”. Para Carelli:

A estrutura da relação entre as empresas que se utilizam de aplicativos para a realização de sua atividade econômica e os motoristas se dá na forma de aliança neofeudal, na qual chama os trabalhadores de “parceiros”. Por ela, concede-se certa liberdade aos trabalhadores, como “você decide a hora e quanto vai trabalhar”, que é imediatamente negada pelo dever de aliança e de cumprimento dos objetivos traçados na programação, que é realizada de forma unilateral pelas empresas.

Ainda segundo o procurador:

...as ordens do empregador não são mais dadas diretamente por ele mesmo ou por um preposto qualquer. O preposto passa a ser o aplicativo.

(...)

Antigamente você xingava seu empregador porque ele não estava pagando um salário decente. Hoje em dia, os trabalhadores reclamam do aplicativo, do sistema. Ergueram uma parede entre o empregador e o trabalhador. O aplicativo consegue invisibilizar o empregador.

A comparação do entrevistado com o feudalismo faz algum sentido. Mas nas relações feudais, não havia nada de tão invisível. O servo sabia perfeitamente que reis e outros poderes o exploravam.

Tornar a exploração invisível é uma especialidade capitalista. Bem antiga, inclusive. O pagamento de salários por peças era uma espécie de “uber” do século 19. É a isso que estamos voltando.

Leia também: Teria Marx previsto o Uber?

Bolsonaro e a aposta no caos


O bolsonarismo aposta no caos para levar adiante seu projeto autoritário. Resumidamente, é isso o que pensa o professor da UFMG Roberto Andrés, em entrevista que concedeu recentemente para o IHU. Segundo ele:
...talvez o presidente não esteja tão preocupado com a significativa queda de aprovação nos primeiros três meses, tendo a proeza de ser o presidente com pior avaliação nos 100 dias do primeiro mandato desde a redemocratização – comparando-se com Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma. Como a queda parece que atingiu um piso de cerca de 30% de aprovação positiva e este piso é bem maior do que aquele que era o teto do então candidato antes da facada nas eleições (cerca de 17%), a situação, por ora, é confortável. Pensando bem, esta é a verdadeira proeza: um governo que entrega muito pouco, que passa os dias criando falsas polêmicas e batendo cabeça com aliados, ter 1/3 da população, achando que está tudo ótimo.

Como tem sido dito, não se trata, para este governo, de buscar dialogar com a maioria, mas de garantir a “melhor minoria” – a mais fidelizada, engajada e barulhenta. O risco maior para a democracia brasileira é o bolsonarismo conseguir, enquanto governo, levar adiante a estratégia de campanha bem-sucedida dos últimos quatro anos e fazer sua minoria barulhenta aumentar, chegando à metade do eleitorado. Hipótese que para muitos parece improvável, mas ainda hoje tenho arrepios quando me lembro dos analistas, em meados de 2016, que diziam que o teto do bolsonarismo estava entre 6 e 8% do eleitorado.


Arrepios não nos faltam, mas precisamos deixá-los para trás urgentemente

quinta-feira, 9 de maio de 2019

DÓLARES FOGEM DO BRASIL E DO BOLSONARO


Saída de dólares supera entrada em mais de US$ 1 bilhão! Um colosso!

Via Conversa Afiada -
Do G1:

A saída de dólares do Brasil superou a entrada em US$ 1,625 bilhão em abril, segundo informações divulgadas pelo Banco Central nesta quarta-feira (8).

A entrada de dólares se dá quando investidores enviam dinheiro ao Brasil para pagar por compra de produtos brasileiros ou para realizar aplicações financeiras e investimentos em empresas, por exemplo.

O dólar sai quando esses investidores retiram recursos do Brasil para, normalmente, aplicar em outros países, ou para pagar pelas importações realizadas. Essas operações ocorrem por meio de remessas feitas por bancos contratados por esses investidores.

(...)

10 MIL PROTESTAM CONTRA CORTES NA UFF, EM NITERÓI



por Fernando Brito, Tijolaço -
 
Ontem, foram dois ou três mil jovens do Colégio Pedro II, do Cefet e dos Institutos de Educação Tecnológica, diante do Colégio Militar.

Hoje, perto de 10 mil estudantes universitários param o centro da cidade de Niterói num protesto contra o corte de 30% nas verbas da Universidade Federal Fluminense.

O mesmo está acontecendo no campus da Univeridade em Macaré, no Norte do Estado.

E vai se repetir em centenas de campus de universidades federais por todo o país.