segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O QUE A ESQUERDA DEVERIA DIZER ÀS SUAS OVELHAS NEGRAS: FORA TUDO, FORA TODOS!!!".

O QUE A ESQUERDA DEVERIA DIZER ÀS SUAS OVELHAS NEGRAS, SEGUNDO O DALTON ROSADO: "FORA TUDO, FORA TODOS!".

O FACCIOSISMO COMO CRITÉRIO
 NEGATIVO DA CRÍTICA
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"Às pessoas facciosas, depois de admoestá-las
severamente, evita-as, pois, senão, também
serás corrompido" (Bíblia, Livro de Tito)
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Nestes dias nos quais se escancaram as provas da promiscuidade do todo o segmento político (só estão de fora os que ainda não tiveram força de acesso ao poder ou de interferência nele, mas logo, logo caminharão para tal comportamento, à medida que dele se aproximarem) com o empresariado, expressos pela grande mídia na cobertura da decretação da prisão do bilionário Eike Batista, nós podemos aferir quão facciosas e inconsequentes são as defesas dos corruptos de um lado e de outro. 

Globonews se apressa em demonstrar enfaticamente que os jatinhos do empresário Eike Batista serviram aos governantes petistas e seus aliados, omitindo o fato de que dito empresário, como sói acontecer, também servia aos políticos mais conservadores. Nisto não há nenhuma novidade.

O capital costuma corromper a todos os que exercem o poder político, o qual funciona como sua submissa linha reguladora auxiliar. Desta onda não escapa ninguém: os poucos que não se corrompem, perdem o jogo e são dele expulsos como um vírus estranho ao organismo. 
Aécio Neves, outro amigo desde criancinha do Eike Batista

Por seu turno, constato que os companheiros da esquerda, ao contestarem tal facciosismo midiático, verdadeiramente inaceitável, fazem-no no sentido de isentar de culpa os governantes que pertencem ao seu campo político.   

Aos revolucionários, que não compactuam com a promiscuidade, seja ela praticada por companheiros ou pelos corruptos históricos (os insensíveis, prepotentes e intolerantes governantes da direita), cabe a denúncia de todos os corruptos, indistintamente; e o apoio àqueles que, movidos por sentimento de neutralidade jurídica (difícil de ser mantida numa sociedade na qual predomina o poder do capital), norteiam a sua atuação jurisdicional para o combate à corrupção, provenha ela do agrupamento político que provier.. 

A eterna cantilena de que os membros do poder judiciário que combatem a corrupção estão a serviço das forças da direta ou do capital estrangeiro é inconsistente, ainda que eles estejam enquadrados por uma ordem jurídica opressora na sua essência. Mas nós precisamos distinguir as coisas, sob pena de condenarmos as boas ações, ainda que paliativas ou ingênuas. 

O combate, por parte do Judiciário, da corrupção derivada de práticas promíscuas do poder publico com o empresariado privado, equivale a enxugar gelo, na medida em que a grande corrupção sistêmica (aquela que subtrai do trabalhador parte do seu tempo de trabalho, não remunerando-o, via extração de mais-valia) é oficialmente permitida. 

Mas, isto não significa que a corrupção considerada oficialmente como criminosa não deva ser denunciada e combatida, com a punição de quem quer que a pratique, qualquer que seja o campo político do corrupto, e quaisquer que sejam as suas intenções. É o mínimo que se deve fazer. 

Admitir que a corrupção possa ser consentida desde que praticada por companheiros, supostamente servindo para alavancar boas causas, significa permitir o uso continuado de um mesmo cachimbo, acreditando que ele não vá entortar a boca. Tal concepção corresponde a um equívoco moral e a uma ética hipócrita, deturpada e facciosa, amoralista em sua essência.

O empresário Eike Batista construiu a sua meteórica fortuna a partir de maracutaias com o poder, praticadas em todos os níveis deste mesmo poder e em conluio com as siglas partidárias, tudo na base do é dando que se recebe

A corrupção associada ao poder público sempre envolve esferas diferenciadas de controle; de tão variada, não pode ser atribuída apenas a uma ou outra corrente política. Trata-se de um agir entranhado na ordem institucional sistêmica, no qual todos os agentes públicos dirigentes e privados saem ganhando e a imensa maioria do povo, que é quem paga os impostos, sai sempre perdendo.         
À esquerda seria indispensável que abandonasse a defesa de seus pares corruptos, readquirindo credibilidade para combater os seus adversários ideológicos igualmente corruptos. 

Aos revolucionários somente cabe uma frase, cada vez mais necessária: FORA TUDO, FORA TODOS! (*)
                                                       (por Dalton Rosado)
* "Fora tudo, fora todos!" é o refrão da música Coquetel molotov, de autoria de Dalton Rosado, que você pode escutar aqui..
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/01/o-que-esquerda-deveria-dizer-as-suas.html

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

RELEMBRANDO A PRIMEIRA PREFEITURA QUE O PT CONQUISTOU NUMA CAPITAL E SEU SIGNIFICADO PARA OS REVOLUCIONÁRIOS


"Pedras no caminho? Eu guardo todas.
Um dia vou construir um castelo."
(Fernando Pessoa)

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Era 16 de novembro de 1985 e a apuração se aproximava do fim. Vinha decrescendo o candidato contrário mais destacado (deputado Paes de Andrade, sogro de Eunício Oliveira, atual presidente do Senado) e faltava a apuração dos votos da 1ª Zona eleitoral, situada na Aldeota, bairro rico de Fortaleza.

No ginásio Paulo Sarasate, onde se apuravam manualmente os votos, nós estávamos ansiosos, acreditando na vitória, quando um vereador de Fortaleza, com muita experiência em processos eleitorais, me tranquilizou: "Vocês ganharam a eleição, a Aldeota votou em vocês".         

Fiquei surpreso, porque, do alto da minha inexperiência eleitoral, sempre achei que eram apenas os deserdados da sorte os nossos eleitores. Eu não sabia que a chamada classe média estava insatisfeita e querendo mudanças.

Até que veio uma explosão de alegria incontida da multidão: Maria Luíza Fontenele, candidata do Partido dos Trabalhadores (o PT de Fortaleza daqueles tempos) era a primeira mulher a ser eleita para a prefeitura de uma capital brasileira, a quinta cidade do país.

A candidata eleita tinha um perfil histórico de lutas populares e era reconhecida como adepta do marxismo. A dose era muito forte para todo o sistema. 

Lembro-me de estar no teto de uma kombi, multidão em volta, tendo ao lado um figurão do PT de São Paulo que chegou de última hora e estava eufórico com a perspectiva do poder. 

Eu, que havia ajudado na coordenação de campanha comandada por Jorge Paiva, estava feliz, mas preocupado. O companheiro petista de São Paulo me perguntou por que e eu lhe respondi:
"A multidão está feliz porque imagina que vamos promover a sua redenção, mas teremos de administrar uma máquina estatal com ferrenha oposição sistêmica".
Isto em razão:
  • da total dependência financeira, já que a nova constituição em elaboração somente proporcionaria aos municípios alguma autonomia financeira depois que entrasse em vigor (as prefeituras equivaliam a meras secretarias de estado, segundo as leis ditatoriais do governo militar);
  • da impotência no que tange ao atendimento das demandas sociais populares (algo que também só melhorou – um pouco! – com a Constituição de 1988);
  • e das circunstâncias em  que o novo governo assumiria, sem nenhum vereador e nenhum deputado.
Tudo nos era adverso; até mesmo o PT, que desde cedo se mostrou contrariado com nossa postura intransigente face àquilo que recriminávamos (principalmente com o presidente Sarney, que mais tarde se tornaria grande aliado petista). O desenlace deste processo de recriminações mútuas e constantes atritos acabaria sendo a nossa possa expulsão do partido.

Não tínhamos à época muita clareza do equívoco que representava a contradição de se ser contrário ao sistema capitalista e querer administrar uma máquina estatal formatada ao serviço do capital.

Talvez a minha relativa tristeza derivasse da intuição disso tudo. O tempo se encarregou de nos mostrar a ingenuidade de nosso atrevimento eleitoral histórico: desbancar o capital do menor dos seus tronos – uma prefeitura municipal , e sem com ele conciliar.

Aprendemos, a duras penas e ao longo do tempo, que é necessário desconstituir todos os construtos em volta da sociedade mercantil, mas, principalmente, o seu móvel principal – a forma-valor – para podermos nos emancipar.

Apesar de tudo, aquele foi um dia para a História, pois, afinal, o aprendizado pode ser adquirido a partir de um caminhar libertador, por mais sofrido que seja, em consonância com uma correta teoria. E de modo que a luta se transforme numa práxis verdadeiramente emancipatória. 

O caminho do PT daí pra frente foi a proximidade com o poder burguês; o nosso, o do desapego e da denúncia deste mesmo poder. 

Os resultados bem demonstram o acerto da nossa escolha, apesar do alto preço que pagamos por não conciliarmos com o capital. E é isto o que nos habilita, hoje, a uma crítica consistente.
(por Dalton Rosado, que foi o secretário de 
Finanças da administração popular de Fortaleza)

Esta bela canção caiu como uma luva na campanha eleitoral de Maria Luíza

no: https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/02/relembrando-primeira-prefeitura-que-o.html


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

É HORA DE TERMOS NOVAMENTE O CÉU COMO BANDEIRA E DE VOLTARMOS A TOMAR A HISTÓRIA NA MÃO!


No início do ano letivo de 1968, sem que ninguém esperasse, a repressão da ditadura atacou com bestialidade extrema um restaurante para estudantes carentes no Rio de Janeiro, acabando por matar a tiros um secundarista de apenas 16 anos, Edson Souto.

O movimento estudantil brasileiro, que tinha sido praticamente extinto pela repressão em 1964, já tentara renascer nas chamadas  setembradas  de 1967, mas a violência dos usurpadores do poder novamente havia prevalecido. Em março de 1968, no entanto, os estudantes voltaram às ruas... para ficarem! Com  a certeza na frente, tentando tomar  a História na mão [1], marcaram fortemente sua presença ao longo do ano.

Aprofundando um pouco a análise, podemos dizer que o final da década de 1960 marca a transição da sociedade rígida e patriarcal, característica da fase da industrialização, para o amoralismo da sociedade de consumo, em que tudo e todos devem estar disponíveis para omercado.
Então, de certa forma, a contestação à autoridade de autoridades, reitores, sacerdotes, doutores disso e daquilo, dos luminares da sociedade em geral, convinha ao próprio capitalismo, que estava passando da etapa das grandes individualidades para a da liderança participativa. O foco passaria a ser o consumidor, o cidadão comum, em lugar do grande homem, a personificação da elite.

Respirava-se antiautoritarismo. As artes passavam por um momento de ousadias e experimentalismo no mundo inteiro, a imprensa se modernizava a olhos vistos, a liberalização de costumes e a liberação sexual entravam com força total. O movimento estudantil, estimulado pelos ventos de mudança, foi fundo na tarefa de  derrubar as prateleiras, as estátuas, as estantes, as vidraças, louças, livros, sim! [2].
E, no hiato entre a etapa capitalista que terminava e a que ia começar, muitos jovens sonharam com algo maior: uma sociedade sem classes, em que não existisse a exploração do homem pelo homem e na qual a economia se voltasse para a satisfação das necessidades humanas em vez de ser regida pela ganância. Um ideal simbolizado por Che Guevara, o último revolucionário internacionalista de dimensões míticas, com seu  corpo cheio de estrelas e tendo  el cielo como bandera [3].

Mas, a repressão brutal desencadeada pela ditadura, principalmente após a assinatura do AI-5, inviabilizou a mudança maior que muitos pretendiam. Então, sobre a terra arrasada, o que floresceu foi mesmo a sociedade de consumo.
A classe média, eufórica com o milagre brasileiro, tratou é de enriquecer. E a esquerda estava tão debilitada pela perda de seus melhores quadros que pouco pôde fazer contra a conjugação de  boom  econômico e terrorismo de estado.

O movimento estudantil de 1968 foi, portanto, resultado de circunstâncias especiais e únicas. Daí não poder ser comparado com o de hoje (como muitos fazem, para depreciá-lo), quando os jovens, ademais, têm de esforçar-se no limite de suas forças para começarem bem uma carreira, o que acaba fazendo-os desinteressarem-se por quase todo o resto.
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COMPETIÇÃO OBSESSIVA
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A própria dificuldade insana que encontram para afirmar-se profissionalmente deveria levá-los a refletir sobre as distorções da sociedade atual. A competição obsessiva que aborta talentos e condena tanta gente a não desenvolver seu potencial é um dos horrores do capitalismo globalizado.

Então, é tempo de os estudantes começam a se indagar sobre a validade de continuarem nesse funil perverso, passando por cima dos despojos dos que tombarem no caminho, com enorme possibilidade de, adiante, baterem com o nariz na porta, à medida em que a crise do capitalismo for aprofundando-se e o descompasso entre a oferta de empregos para profissionais com formação superior e o contingente de candidatos dela dotados a buscarem empregos se tornar  cada vez maior, condenando a grande maioria à frustração e ao exercício de funções sem nada a ver com aquelas para as quais se capacitaram.

Desde a onda de ocupações iniciada em 2007 pela tomada da reitoria da USP em 2017, o movimento estudantil brasileiro vem tentando renascer. Mas, uma década depois, ainda está longe de atingir a amplitude e a consistência do de 1968, talvez por não haver tido como fermento a truculência e o obscurantismo de uma ditadura, contra a qual, necessariamente, os melhores seres humanos tomavam partido.
Mas, Zuenir Ventura está certo: 1968 foi um ano que não terminou. A revolução ainda voltará a identificar-se com as flores e as primaveras, depois deste inverno da desesperança que nos foi imposto.

Ainda veremos outras primaveras como as de Paris e de Praga, pois há uma lição que a História várias vezes nos ensinou: a humanidade não aguenta viver indefinidamente sem solidariedade e compaixão.

O mundo se tornou um lugar muito ruim para se habitar sob o neoliberalismo, ainda mais na versão selvagem que Donald Trump agora nos tenta enfiar goela abaixo. Algo tem de mudar – e esta mudança precisa começar o quanto antes, para deter a marcha da insensatez enquanto ainda existe algo para salvarmos.
E, depois dos terríveis fracassos a que a esquerda domesticada, populista e reformista nos tem conduzido ao longo deste século, a esperança de volta por cima é encarnada pelas novas gerações, pela juventude que ainda é capaz de sonhar com uma sociedade igualitária e justa, e de lutar com todas as suas forças para concretizar este sonho. 

Temos de aprender a lição que a História, ultimamente, não cansa de nos ensinar: os que se contentam com um mínimo, acabam ficando sem nada. É hora de voltarmos a mirar o prêmio máximo, aquele pelo qual vale realmente a pena lutar: o fim do capitalismo. E é a juventude que pode e deve encabeçar esta luta.
Lembrando a grande música do Sérgio Ricardo:  se você não vem, eu mesmo vou brigar [4]

Lembrando o Edu Lobo dos melhores momentos:  vou ver o tempo mudado e um novo lugar pra cantar [5].

Lembrando o Raulzito, profeta da sociedade alternativa que nos serve de inspiração para transformarmos a sociedade como um todo a gente ainda nem começou [6].
[1] Geraldo Vandré, "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores"
[2] Caetano Veloso, "É Proibido Proibir"
[3] Gil, Capinam e Torquato, "Soy Loco Por Ti, América"
[4] Sérgio Ricardo, "Esse mundo é meu"
[5] Edu Lobo, "Ponteio"
[6] Raul Seixas, "Cachorro Urubu"

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Partidos Social-Democratas europeus que adotaram a Terceira Via Neoliberal estão rachando e se enfraquecendo!

Partidos Social-Democratas europeus que adotaram a Terceira Via Neoliberal estão rachando e se enfraquecendo! - Marcos Doniseti!

Pedro Sánchez defende reformas moderadas para promover mudanças na economia e na sociedade espanholas. Mas ele foi derrubado do cargo de Secretário-Geral do PSOE pelas lideranças mais conservadoras do partido. Agora, ele disputará as eleições primárias que o PSOE convocou para este ano e tentará voltar ao cargo, com o apoio dos eleitores do partido.

As velhas e tradicionais legendas social-democratas europeias que aderiram à Terceira Via Neoliberal de Tony Blair e Anthony Giddens estão rachando e se enfraquecendo cada vez mais.

Estes são os casos do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), do PSF (Partido Socialista Francês), do Partido Trabalhista britânico e do Partido Democrático italiano.

A única exceção a este processo é o PSP (Partido Socialista Português), que lidera um governo progressista moderado de coalizão bem sucedido em Portugal.

1) Espanha - PSOE: O partido, liderado por Felipe González, foi o segundo mais votado na eleição para o Parlamento espanhol e acabou permitindo que o Partido Popular (Direita neoliberal), vencedor da eleição, mas que não conseguiu a maioria absoluta, continuasse governando a Espanha.

Assim, o PSOE acabou abrindo mão de fazer uma aliança com o Podemos, liderado por Pablo Iglesias, que conquistou uma votação muito próxima à do PSOE na eleição para o Parlamento espanhol.
Felipe González fez o tradicional PSOE adotar as políticas neoliberais da Terceira Via e ajudou na manutenção do governo do PP (liderado por Mariano Rajoy), o que provocou grandes divisões e conflitos no partido. 
Isso gerou uma grande crise no PSOE, que levou à renúncia de Pedro Sánchez do cargo de Secretário-Geral depois que a maioria dos líderes da legenda ficaram contra a sua liderança. 

Com isso, o PSOE está cada vez mais dividido entre suas alas mais conservadoras (liderada por Felipe González) e as mais progressistas (lideradas por Pedro Sanchéz).

Em algum momento esta divisão poderá levar a um racha ou a um brutal enfraquecimento do partido, que poderá perder seus eleitores mais conservadores para o PP ou para o Ciudadanos, e os seus eleitores mais progressistas poderão debandar para o Podemos.

E este racha poderá acontecer ainda em 2017, quando o PSOE irá realizar eleições primárias para escolher o seu novo líder. 

2) França - PSF: Já o segundo (o PSF) governa a França, mas tem um Presidente da República (François Hollande) que fez um governo totalmente neoliberal e que é tão impopular que sequer tentou a reeleição. A reforma trabalhista, extremamente impopular, que Hollande impôs acabou sendo rejeitada pela maioria dos deputados do próprio PSF.
François Hollande fez um governo neoliberal e impôs uma reforma trabalhista extremamente impopular. Seus baixos índices de aprovação levaram-no a desistir da reeleição. No entanto, o seu ex-ministro da Economia (Emmanuel Macron) é o favorito para vencer a eleição presidencial.  
E agora, nas primárias do partido, os eleitores do PSF literalmente se rebelaram contra as políticas neoliberais de Hollande e escolheram Benoît Hamon, da ala mais esquerdista da legenda e que é um forte crítico do governo francês, para ser o candidato à Presidente da República.

Isso fez com que uma parte dos eleitores de Manuel Valls, ligado a Hollande e que é um defensor das políticas deste, se disponha a votar em Emmanuel Macron, candidato independente e de perfil mais moderado e centrista, abandonando a candidatura de Hamon.

Assim, existe o risco de Hamon (que tem 16% nas pesquisas) não passar para o 2o. turno (que contará com a presença mais do que certa de Marine Le Pen, que lidera as pesquisas com 26% das intenções d voto) pois também temos a presença de um candidato mais à Esquerda, que é Jean-Luc Mélenchon (líder da Frente de Esquerda), obtém 10% dos votos.

Assim, a divisão entre as duas candidaturas mais progressistas poderá fazer com que o 2o. turno seja disputado entre a Extrema-Direita (Marine Le Pen) e um direitista (o neoliberal Fillon ou o moderado Macron).
Emmanuel Macron (ex-ministro da Economia do governo de Hollande e que saiu do Partido Socialista) foi o maior beneficiado pelo escândalo que atingiu fortemente a campanha do direitista Fillon e tornou-se o favorito para vencer a eleição presidencial francesa. 
Somente uma eventual união, já no 1o. turno, entre Hamon e Melenchon é que poderia evitar esse desastre histórico para as forças mais progressistas da França de ficar de fora do 2o. turno da eleição presidencial.

3) Reino Unido - Partido Trabalhista: Já no Reino Unido, o novo líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, enfrenta as fortes resistências dos deputados da legenda, quase todos comprometidos com as políticas Neoliberais da Terceira Via de Tony Blair, enquanto que a base política e eleitoral trabalhista, na sua maioria, rejeita tais políticas.

Inclusive, a maior parte do eleitorado trabalhista votou a favor do Brexit, contrariando totalmente a posição dos deputados da legenda, favoráveis à manutenção do Reino Unido na União Europeia.

Assim, Corbyn fica numa corda bamba, tendo grandes dificuldades para liderar um partido tão dividido.

Somente uma nova eleição para o Parlamento britânico, que levasse o eleitorado trabalhista a renovar inteiramente o seu quadro de deputados, com a eleição de parlamentares comprometidos com as políticas progressistas e keynesianas preconizadas por Corbyn, é que poderiam resolver esse impasse.
Benoit Hamon (à direita) derrotou Manuel Valls nas primárias do Partido Socialista Francês, defendendo propostas como a criação de uma Renda Básica Universal e a taxação das riquezas geradas pelos robôs da 4a. Revolução Industrial. 
Mas elas não acontecerão tão cedo e, enquanto isso, Corbyn e os deputados trabalhistas vão intensificando os conflitos, agravando o racha interno.

O fato do Partido Conservador ter uma Primeira-Ministra, Theresa May, que adotou uma política mais nacionalista e que é bastante dura nas críticas ao Neoliberalismo, poderá levar os divididos e rachados trabalhistas a sofrer uma nova derrota na próxima eleição para o Parlamento, que irá acontecer apenas em 2020;

4) Itália - Partido Democrático: Governa a Itália atualmente, mas o então Primeiro-Ministro, Matteo Renzi, foi derrotado em um referendo a respeito de propostas de mudanças no sistema político do país, no qual 60% dos eleitores votaram contrários às mesmas. Isso provocou a renúncia de Renzi que, no entanto, continua sendo uma importante liderança do partido. 

O governo Renzi também promoveu a adoção de reformas neoliberais, bastante impopulares, e o PD também está dividido sobre as políticas que deveria adotar. 

Além disso, o partido que mais cresce na Itália e que lidera as pesquisas mais recentes, neste momento, é o 'Movimento 5 Estrelas' (liderado pelo humorista Beppe Grillo) e que combina, em seu programa, propostas mais progressistas (fim das políticas neoliberais e de arrocho), com outras mais conservadoras, fazendo ainda duras críticas à União Europeia. 

Assim, o 'M5S' tem grandes chances de vir a liderar um futuro governo na Itália. 
Matteo Renzi (à esquerda) foi derrotado no referendo italiano, onde o 'Não' para as suas propostas de reforma constitucional foi vitorioso 60% dos votos, provocando a sua renúncia. O 'M5S' (liderado por Beppe Grillo) condena as políticas neoliberais (adotadas por Renzi) e é o partido que mais cresce na Itália. 
5) Portugal - PSP (Partido Socialista Português): Este foi o único caso de recuperação vitoriosa por parte de um tradicional Partido Socialista europeu que tivemos nos últimos anos.

Na eleição para o Parlamento português que se realizou no final de 2015, as forças políticas mais progressistas acabaram conquistando a maioria absoluta.

Apesar da divisão dos deputados entre quatro partidos (Socialista, Comunista, Verdes e Bloco de Esquerda) os mesmos conseguiram fechar um acordo e elegeram Antonio Costa (PSP) para Primeiro-Ministro.

Com isso, as políticas neoliberais e de arrocho foram enterradas e o salário mínimo voltou a ter aumentos reais.

Desta maneira, Portugal retomou o crescimento econômico e está conseguindo reduzir o desemprego.

Por isso mesmo é que, segundo uma pesquisa divulgada em Janeiro deste ano, mostra que se a eleição para o Parlamento português fosse realizada neste momento, os quatro partidos progressistas (Socialista, Comunista, Verdes, Bloco de Esquerda) que governam o país teriam, no total, 54,6% dos votos (conquistaram 50,75% dos votos em 2015), contra apenas 36,9% da oposição formada pelos partidos PSD/CDS-PP (Direita Neoliberal; conquistaram 38,4% dos votos em 2015). 

Assim, a maioria parlamentar dos partidos progressistas ficaria maior caso a nova eleição fosse realizada agora. 

Como se percebe, a defesa ou a rejeição de políticas neoliberais está dividindo, rachando e enfraquecendo os principais e tradicionais partidos da Social-Democracia europeus. A única exceção entre os mesmos é o do PSP, pelas razões que apontei.

Tais partidos enfrentam um dilema: Eles deverão manter o seu apoio às políticas neoliberais, que são cada vez mais impopulares na União Europeia e que estão provocando sucessivas derrotas eleitorais para tais legendas? 

Ou então eles devem retomar projetos e ideias mais progressistas, de perfil keynesiano, tal como fizeram em suas origens (quando eles foram fundamentais na construção do Welfare State na Europa Ocidental no Pós-Guerra), como desejam promover, por exemplo, Jeremy Corbyn, Benoit Hamon e, em menor grau, Pedro Sánchez?
Jeremy Corbyn foi eleito o líder do tradicional Partido Trabalhista britânico (Labour Party), mas as suas propostas social-democratas e keynesianas enfrentam uma forte resistência dos deputados da legenda, que são defensores da Terceira Via Neoliberal de Tony Blair e Anthony Giddens, provocando fortes divisões entre os Trabalhistas. 

Links:

Benoit Hamon recupera propostas progressistas para o Partido Socialista Francês:


A fratura da Esquerda europeia:


Direção do PSOE entrega o governo espanhol para o PP:


Pedro Sanchéz lança candidatura para liderar novamente o PSOE:


O momento de Emmanuel Macron:


Portugal: Partidos que apoiam Antonio Costa teriam 54,6% dos votos em eleição para o Parlamento, contra apenas 36,9% da oposição (Direita Neoliberal):


Portugal: Taxa de Desemprego diminui para 10,2% com o fim das políticas neoliberais e de arrocho:


Portugal: Taxa de Desemprego era de 12,2% no final de 2015:


Emmanuel Macron ultrapassa Fillon no 1o. turno e derrotaria Marine Le Pen, no 2o. turno, com 65% dos votos:

via: http://guerrilheirodoentardecer.blogspot.com.br/2017/02/partidos-social-democratas-europeus-que.html