segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O capitalismo tem que morrer de “morte matada”


Da coluna de Pablo Ortellado, na Folha, em 10/10:

Num instigante estudo comparativo sobre o surgimento e o desenvolvimento dos impostos progressivos, Kenneth Scheve e David Stasavage (Taxing the rich: a history of fiscal fairness in the United States and Europe. Princeton: Princeton University Press, 2016) demonstraram, apoiados na história de vinte países, que a introdução de impostos progressivos e a consequente diminuição da desigualdade na Europa e nos Estados Unidos não se deveu ao chamado "efeito democrático" (pelo qual maiorias pobres com direito a voto imporiam um sacrifício aos mais ricos), nem a uma reação política à desigualdade crescente, mas a circunstâncias muito específicas do esforço de guerra, sobretudo durante as duas guerras mundiais.

Num contexto que era de turbulência e ameaças, as esquerdas conseguiram fazer prevalecer o argumento de que assim como os trabalhadores estavam se sacrificando, colocando a vida em risco nos campos de batalha, os empresários também deveriam se sacrificar, contribuindo para o esforço de guerra com impostos muito mais elevados sobre a sua renda e o seu patrimônio.

Ou seja, diminuição da desigualdade no capitalismo, só co

Ou como disse Rosa Luxemburgo, ou é socialismo ou é barbárie!m muita matança de trabalhadores.

É mais ou menos o que afirmou Pedro Herculano de Souza em entrevista comentada na pílula Distribuição de riqueza, só com catástrofe.

Certa vez, o marxista estadunidense Fredric Jameson disse que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

Mas isso só é verdade se o capitalismo morrer de “morte morrida”. Nossa única chance de salvação é que ele morra de “morte matada”.

Ou como disse Rosa Luxemburgo, ou é socialismo ou é barbárie!




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

ORIGENS DA POLARIZAÇÃO BRASILEIRA: GUIA PARA ENTENDER A NOSSA POLÍTICA

Ao contrário do que muitos dizem, o PT não dividiu o Brasil; a nossa polarização política é inevitável e é uma consequência do nosso passado escravocrata.




Gostaria de começar esse texto pedindo para o leitor imaginar um caso hipotético, prometo que não será muito complicado. Numa terra muito distante, um político foi eleito para o cargo máximo, com uma plataforma que buscava fortalecer o mercado interno desse país e expandir a sua capacidade industrial. Numa democracia ideal, após eleito, o novo chefe da nação teria a liberdade (ou melhor, a obrigação) de colocar em prática aquilo que havia sido debatido e decidido durante a campanha eleitoral.
Mas o nosso país tinha um longo passado escravocrata, uma sociedade estratificada e aristocrática. Lá nada era simples. O novo presidente já vinha sendo acusado de ditador e populista (que na linguagem vulgar desse país significava aquele que se aproveitava dos mais pobres para angariar prestígio político). Ele, em busca da governabilidade, havia convidado um político conservador para ser seu vice-presidente. Acreditava que, desse modo, acalmaria os mercados e a oposição. Após as eleições, a vitória do nosso político hipotético foi contestada na justiça. Queriam impugnar sua candidatura. Não deu certo. Quando o novo presidente finalmente assumiu o governo, ele tentou montar um governo de coalizão, chamando políticos de todas as legendas para compor o ministério. A ideia era arquitetar uma conciliação entre as forças políticas. No poder, ele adotou uma postura ambígua, ora acenando para os nacionalistas, ora para os liberais. O país, porém, estava polarizado. A imprensa, esmagadoramente ao lado da oposição, acusava o governo de corrupção. Uma quadrilha estaria no poder e o chefe era o presidente eleito. A classe média estava apavorada.
Foi então que, depois de um escândalo político, o vice-presidente se aproximou da oposição. A união da parte da base do governo e a oposição, somado ao apoio a mídia e a sucessão de denúncias, delações e convicções, emparedou o presidente e colocou fim ao seu governo. O vice-presidente, um homem fraco, com baixíssimo carisma e nenhuma base social, assumiu o governo. Apoiado pela oposição e por empresários, ele passou a adotar o programa de governo que havia sido derrotado nas urnas.
Essa historinha poderia parecer absurda em muitos lugares do mundo. O leitor brasileiro, contudo, sabe que esse país é real. Quem está acompanhando esse texto também já imagina que eu estou falando do Brasil. Porém, o que você provavelmente ainda não descobriu é que eu não estava me descrevendo o atual presidente Michel Temer, mas ao obscuro Café Filho. E o presidente não era um político do PT, mas nada mais nada menos que Getúlio Vargas.
Se eu disse no início que se tratava de um “lugar distante”, era em função do espaço temporal. Mas, como se estivéssemos preso a uma cápsula do tempo, a um passado que não passa, essa terra nos é familiar. Não é curioso que eu tenha descrito de forma genérica um governo dos anos 1950 e muito leitores tenham confundido com o momento atual? Muitos irão dizer, com razão, que eu montei a narrativa de modo proposital, com o intuito de confundir. Assumo que essa era a intenção. Mas eu não menti. De fato, tal qual em 2016, em 1954 houve um golpe (que não se concretizou em função do suicídio), com o objetivo principal de colocar em prática o projeto da oposição, que havia sido derrotado anos antes.
O método científico trabalha com as regularidades. Nas ciências humanas não é diferente, apesar de essas regularidades serem mais problemáticas que no mundo natural. Se um fenômeno perdura no tempo, talvez ele esteja relacionado com causas mais profundas e não apenas com eventuais erros de cálculo político. Precisamos, portanto, entendê-lo melhor.
Muitos têm dito, recentemente, que a sociedade brasileira está dividida. O que é uma verdade. Fala-se também que é preciso fugir da polarização (eu tendo a concordar, mas há alguns problemas nessa afirmação que serão explicitados mais adiante). Outros afirmam que Lula e o PT dividiram o Brasil. Esse ponto eu rejeito completamente. Como no exemplo acima, nossa polarização, nossas paranoias e nossos golpes, possuem longa tradição. Este texto pretende fazer alguns apontamentos que podem ajudar na compreensão desse fenômeno da política brasileira, sem, obviamente, ter a pretensão de esgotar o assunto.

Origens Ideológicas e Políticas da Polarização

Por que somos um país que, de tempos em tempos, é rachado ao meio pela força devastadora das ideologias políticas? Grosso modo, poderíamos dizer que a história recente do Brasil é marcada, com alguns recuos, por tentativas de ampliar a democracia formal, sempre contrabalançada por práticas de contenção da participação popular. A ideia é criar uma democracia sem povo. Pareceu confuso? Abaixo explicarei de forma mais detalhada.
Após 1945, a democracia finalmente chegou ao Brasil. É nesse período que emergem dois projetos antagônicos: o desenvolvimentista e o liberal. De um modo geral, para os desenvolvimentistas, a ordem internacional era dividida entre centro e periferia. O Brasil, enquanto nação subdesenvolvida, estaria na periferia do sistema, na condição de dependência. Os países centrais, por outro lado, teriam “chutado a escada” que ergueria à modernização. Para subverter essa condição, diziam os partidários dessa corrente, o Brasil precisaria buscar um caminho autônomo. Seria preciso modernizar sua base produtiva, investir em tecnologia e expandir o mercado interno. Anos depois, com o surgimento das Reformas de Base, o “nacional desenvolvimentismo” seria vertido no “social-desenvolvimentismo”. Para o social-desenvolvimentismo, apenas o crescimento econômico e industrial, seriam insuficientes. As mazelas e o atraso brasileiro seriam basicamente em função das suas exorbitantes desigualdades sociais, que deveria ser combatida por meio de reformas estruturais. Em termos mais claros, o que estava sendo proposto era uma redistribuição do poder político e econômico.
Um modelo de inclusão social, em um país em que a maior parte da população era pobre (e muitos possuíam direito ao voto), era muito sedutor. O PTB, principal defensor dessa ideologia, por exemplo, saltou de 22 deputados federais, em 1946, para 116 em 1962. Tornou-se a maior legenda no Congresso. Dos quatro presidentes eleitos, Eurico DutraGetúlio VargasJuscelino Kubitschek e Jânio Quadros, apenas o último venceu sem apoio dos trabalhistas. João Goulart, eleito duas vezes vice-presidente, também ostentava uma ampla base eleitoral.
Na oposição estavam os liberais. Esses, no geral, recusavam a dualidade centro e periferia. Eles reconheciam o atraso brasileiro, mas acreditavam que a modernização viria do mercado, da iniciativa privada. Como não havia poupança interna no Brasil para financiar o crescimento endógeno, os recursos deveriam ser buscados fora, nos países ricos. O caminho para superar nossas mazelas, diziam, está na atração de investimentos estrangeiros, e para que isso fosse feito, seria necessário tornar o Brasil atrativo para esse capital. O principal partido que sintetizava essa posição era a UDN. Os liberais eram muito fortes também na mídia e entre as classes médias urbanas.
Repare que eu falei em dois projetos. Não me entenda mal, não quero dizer que não havia outras ideias, nem que tudo se resumia a uma lógica binária. Havia muitas nuances, inclusive dentro dessas duas doutrinas principais. Só para dar mais dois exemplos: à esquerda do PTB estavam os comunistas, que defendiam mudanças mais radicais. Havia vida também à direita da UDN. Os integralistas, que nessa época não eram mais um partido, mas ainda estavam na ativa, queriam um conservadorismo ainda mais forte, de molde fascista.
Além do PTB e da UDN, também havia partidos menores e movimentos sociais fora da política partidarizada. Mas há um detalhe. A despeito de a política ser multifacetada, as eleições terminavam na disputa entre os dois principais grupos. Tanto o PCB quanto os Integralistas não tinham força suficiente para disputar o Palácio do Catete. Assim, fatalmente, por mais que tentassem uma candidatura própria em alguns momentos, os comunistas terminavam por apoiar o projeto do PTB. O mesmo acontecia com a direita. Plínio Salgado, principal liderança integralista, por exemplo, esteve ao lado do Brigadeiro Eduardo Gomes (da UDN) nas eleições contra Getúlio Vargas. Portanto, por mais que a política fosse mais diversificada, as corridas eleitorais terminavam polarizadas. Por quê?

Origens Históricas da Polarização

Minha hipótese é que a nossa polarização é uma herança histórica da colonização e da escravidão. Explico. A colonização impôs uma ambiguidade à política brasileira. Ao mesmo tempo em que nós dependemos dos países mais ricos (recursos, investimentos, dólares, tecnologia, bens de produção, exportações etc), nós os vemos como os causadores de parte do nosso atraso. Ou seja, sem ajuda, podemos quebrar. Com ajuda, continuaremos estagnados. Como superar essa condição? A resposta a essa pergunta divide o país, polariza as opiniões.
Para ilustrar a força política desse debate. Décadas depois, na virada do século XXI, o governo Fernando Henrique afirmava que a globalização era a grande chance do Brasil entrar de vez no comércio mundial e, assim, ampliar suas bases produtivas. O caminho seria a aceitação das regras e uma aproximação política com os EUA. Quando Lula o sucedeu, o discurso era outro.
Para o ministro Celso Amorim, as regras do comércio mundial favoreceriam as grandes potências. A solução não seria apenas a integração do país à globalização, mas um fortalecimento do que ele chamava de “parceria sul-sul”, entre os países em desenvolvimento, para, juntos, interferirem nos rumos tomados pela globalização. Todos nós sabemos o quanto se falou nesse assunto na época dos governos petistas. Essa pauta, no entanto, nada mais é do que a reedição desse debate político a respeito da inserção e da posição brasileira na comunidade internacional, que remonta, pelo menos, à independência do país.
A escravidão, por sua vez, ao longo de quase quatro séculos, conformou uma sociedade estratificada. Tanto liberais quanto fascistas tinham uma visão de mundo aristocrática (apenas a defesa de um modelo social aristocrático poderia explicar, por exemplo, a estranha aliança entre o fascista Plínio Salgado e os liberais da UDN). A democracia, contudo, como já dizia Aristóteles, é o único sistema político em que o poder soberano está com o mais pobres, pois estes são maioria e seria esperado que defendessem os seus direitos. A tendência é que, em uma sociedade desigual e democrática, as disparidades convirjam para o centro. Mas isso não ocorreu no Brasil, ou melhor, nas vezes em que esse processo foi iniciado, houve transformações que colocaram o país de volta ao estágio inicial. Essa fricção, portanto, provocada pelo choque entre as forças que buscam a ampliação das bases política, em uma sociedade de tradição aristocrática, é outra fonte de polariza.

As Características da Polarização Brasileira

Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda discutem Frente Ampla: um raro momento de diálogo entre oposição e governo.
Como vimos, as características históricas de longa duração foram materializadas, na segunda metade do século passado, de modo geral, em duas plataformas políticas. A quantidade de vezes que eu usei o número dois mostra que havia uma tendência implícita à polarização. Mas há dois problemas. Primeiro: o Brasil não é um país permanentemente polarizado, se assim fosse, nós não estaríamos assustados com a atual divisão política. Segundo: em uma democracia, tais disputas são normais, sobretudo em época de eleições. As divisões e os embates são parte da natureza do jogo político. Por isso existem os partidos, e sem eles, não há democracia. A nossa polarização, porém, age no sentido contrário. Ela não fortalece nosso sistema representativo, mas o bloqueia. Para explicar essa outra contradição é preciso sair um pouco da teoria e voltar para a nossa história.
Para entender essa parte será necessário olhar um pouco para os métodos usados pelas correntes políticas. A UDN que, como dito, representava os liberais, tinha dinheiro, muita influência na mídia e uma base social sólida. Porém, convivia com um dilema. O partido era visto como elitista. Antipovo. Não se elege um presidente apenas apelando para uma classe social. O discurso liberal tinha pouca aceitação entre os trabalhadores, pois esses entendiam que a CLT era o que os protegia das oscilações do mercado e das arbitrariedades dos mais poderosos. Como, então, defender o liberalismo e ao mesmo tempo ser popular? Tarefa difícil. Nas eleições de 1945, por exemplo, após uma fala infeliz do candidato Brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), o PTB lançou a campanha: “marmiteiro” não vota em “grã-fino”. Referência ao elitismo do militar, que havia dito num comício que desprezava o voto dos getulistas, uma “malta de desocupados”.
Portanto, se a política estava polarizada, os recursos políticos não. O PTB tinha o poder simbólico. O partido era herdeiro do varguismo, da CLT e, em tese, defendia valores universais como igualdade e justiça. A UDN, por outro lado, tinha muito poder financeiro, controlava a imprensa e grande parte do judiciário.
Na impossibilidade do liberalismo seduzir grande parte da opinião pública, em um país tão desigual quanto o Brasil, após sucessivas derrotas, a UDN buscou outras formas para impor o sua agenda. Essa estratégia pode ser dividida, para fins didáticos, em duas etapas, que obviamente não eram tão claras assim, na época. Em um primeiro momento, houve um apego à moralidade, turbinado pelos meios de comunicações. Ora, ninguém, do mais pobre ao mais rico, gosta de pagar impostos e ver seu dinheiro indo parar no bolso de terceiros. O discurso anticorrupção, portanto, serviria a dois propósitos: por um lado, ele proporcionava à direita um valor ético que ia além da mera disputa política. Um político da UDN poderia dizer, e ser aplaudido, que não estaria se candidatando a um cargo em função de um projeto pessoal, mas estava sendo impelido por algo maior. A busca pela eficiência e pela moralização da política brasileira. Nada poderia ser mais nobre.
Do outro lado, esse mesmo discurso serviria para desqualificar a oposição. Meu adversário, diria esse mesmo político, não passa de um demagogo, populista que promete a igualdade e a justiça aos mais pobres, enquanto enriquece às custas do dinheiro público. O controle da mídia proporcionava à direita o poder de agenda, ou seja, de pautar o debate na esfera pública. Em outras palavras, os liberais poderiam escolher certos problemas e encobrir outros e, desse modo, colocar no centro do debate público os temas que achassem relevantes. E o assunto escolhido foi a moralidade na política. Estratégia ao mesmo tempo potente e perigosa.
Por que discutir a importância estratégica da Petrobrás? Melhor acusá-la de balcão de negócios. As histórias dos escândalos de corrupção acompanham, de forma impressionante, a estruturação de um projeto nacional autônomo. Os jornais, seguindo essa linha, manipulavam de modo seletivo os casos de corrupção. O jornalista Carlos Lacerda, filiado à UDN, notabilizou-se por essa prática. Lacerda dizia, de modo enfático e emotivo, que o governo Getúlio estaria atolado em um “mar de lama” da corrupção. Quando Juscelino Kubitschek (JK) assumiu, não foi diferente. Pela segunda vez, eles tentaram impugnar a posse do vitorioso e, novamente, não obtiveram sucesso. Os liberais, então, recorreram à arma secreta: as acusações de corrupção. Os casos de desvio de dinheiro e as denúncias de pagamentos de propinas abundavam nos jornais. Até um apartamento em Ipanema, que teria sido ocultado, virou manchete nos periódicos. O mar de lama tinha agora outro CPF. Ou melhor, tinha nome, mas seu endereço havia sido ocultado e não estava na sua lista de patrimônios. No fim, claro, nada ficou provado. Mesmo assim, Lacerda definiu JK como o “condensador da canalhice nacional”.
Essa prática tinha outro lado. O desfecho lógico desse raciocínio é simples: se um grupo compra o apoio de uma massa de ignorantes, não existe vontade popular. Se não há soberania popular, não existe democracia. Se não existe democracia, o voto não precisa ser respeitado. Outros caminhos precisam ser buscados. Essa narrativa pode parecer absurda, mas em um país de forte tradição aristocrática e de desprezo pelos mais pobres, ela tem forte aderência. Acoplado ao discurso moralista está a lógica catastrófica. O perigo iminente do caos, que também deita longas raízes na cultura nacional.
O perigo da catástrofe iminente é a segunda perna da estratégia da direita para impor a sua agenda. Ora, se um grupo de cegos está em um bonde que caminha para o precipício e o condutor se recusa a pisar no freio, e uma única pessoa enxerga tal perigo, ela teria a obrigação de remover o motorista independente dele ter sido escolhido pela maioria dos passageiros.
Voltando para exemplos políticos reais. Quando o PSD anunciou a candidatura do popular JK para a presidência, e com o endosso do PTB; a UDN, sempre capitaneada por Lacerda, dava as eleições como perdidas. Iniciou-se, então, no partido, uma campanha para cancelar o pleito. Mas qual seria a justificativa? Segundo outro proeminente político da legenda, Rodrigues Alves Filho, membro de um tradicional clã político paulista, “só os militares tinham força para calar a mazorca, a imundice dos nossos costumes políticos”. O vocabulário é revelador. A palavra mazorca é antiga, pode ser que muitos não saibam o seu significado, mas ela ainda se encontra nos dicionários. Mazorca é sinônimo de tumulto e de baderna. Está no mesmo campo semântico de “malta”, palavra que, ao ser dita em um discurso, sepultou a campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes. O pensamento democrático louva a soberania popular, coloca o cidadão como agente soberano. Praticamente todas as constituições democráticas começam evocando essa entidade mítica, que seria a o povo reunido para decidir seu destino. Ao se referir aos mais pobres, e os exemplos são inúmeros, como mazorca ou malta, a direita brasileira deixava bem claro o quanto a sua mentalidade estava distante de qualquer pensamento que cheirasse a democrático.
O moralismo e o discurso catastrófico preparavam o terreno. Após essa etapa, no segundo momento, chegara a hora de derrubar o presidente eleito pela “malta”. Dois caminhos eram possíveis: o judiciário ou os militares. Quando Getúlio venceu as eleições, sua vitória foi contestada. Diziam que ele não alcançara mais de 50% dos votos válido. A alegação, contudo, não tinha base legal e não prosperou. JK também esteve às voltas com a justiça. Lacerda afirmou que o político havia se beneficiado dos votos dos comunistas e, estando o Partidão na ilegalidade, tais votos seriam ilegais. Sim, você não leu errado, o bravo jornalista se arrogava o direito de anular votos anônimos. Não colou. Anos depois, em um raro momento de sinceridade, Lacerda declarou:
eu comecei a defender a tese, primeiro, de maioria absoluta, para ver se tentávamos, através dela, evitar uma eleição de uma pequena minoria que entregasse o país de volta àquelas forças que o tinham levado a todas essas crises. (…) E, vamos ser sinceros, o povo sentiu que era uma manobra em cima da eleição, quer dizer, era uma manobra para “mudar a regra do jogo”, depois do jogo começado. Evidentemente não pegou.
A passagem não poderia ser mais clara. O que ele chama de “aquelas forças” era justamente a vontade popular. As manobras eram para frear a democracia, claro, sempre na justificativa de que era necessário para impedir a catástrofe. O filósofo Vladimir Safatle, em entrevista recente, afirmou que não existe liberal no Brasil, pois aqueles que assim se definem apoiam de forma constrangedora as soluções golpistas e as ditaduras. Essa afirmação faz sentido, apesar de ter sido considerada por muitos como exagerada. O liberalismo brasileiro sempre, desde a monarquia, conviveu com uma sociedade aristocrática. E sempre evitou que a “liberdade” fosse usada contra essa estrutura. Há uma correlação orgânica entre conservadores e liberais. Essa união empurra as forças da mudança para o lado oposto. Eis mais uma vez a polarização.

Conclusão

Esses são os mecanismos criados para conter a democracia no Brasil. Por isso, somos um país que fica dividido ante a qualquer possibilidade de reformas sociais. Se não somos um país permanentemente polarizado, somos potencialmente; a polarização é sempre um poderosa força, ora latente, ora aparente.
A última questão que queríamos colocar é: como fugir da polarização? Eu diria que é sim possível fugir desse binarismo. Porém, não pela esquerda.
Explico: o PSOL diz que Lula dividiu o Brasil e que é preciso sair dessa falsa dicotomia. Ciro Gomes segue o mesmo caminho. Acontece que não somos polarizados entre petralhas e tucanos, entre legalistas e golpistas ou entre coxinhas e mortadelas. Essa é a espuma da arrebentação. Somos polarizados por forças muito mais profundas e enraizadas. Se um candidato do PSOL for eleito, o país voltará a ficar polarizado, em torno da nova agenda que o partido adotará. O mesmo vale para o Ciro Gomes. O que não polariza o Brasil é um governo de direita, que navega a favor da corrente, que usa a política e a mídia para calar os descontentes e, portanto, mascara os conflitos. A esquerda invariavelmente polarizará Brasil. Pois essa divisão binária é a principal arma para impedir o avanço da democracia em um país estruturalmente e historicamente desigual.
Muitos dirão: “Lula e o PT não são de esquerda”. Eu não queria me aprofundar nos governos petistas, para fugir da polarização (com perdão do trocadilho), mas como esse é o tema, responderei a essa questão com outra analogia. Na época da Guerra Fria, os americanos desenvolveram uma teoria conhecida como “dominó”. Diziam que qualquer país no mundo que se tornasse comunista poderia influenciar o seu entorno e provocar um “efeito dominó”, ou seja, entusiasmar outras nações a seguirem o mesmo caminho. Por isso as tropas americanas eram usadas para combater em países que eles nem sabiam localizar no mapa. Podemos usar esse pensamento no caso brasileiro. Se o povo deve ser mantido afastado da política, é preciso destruir qualquer esperança reformista, ainda que nascente. Ainda que moderada. Se a população perceber que a atividade política tem o poder de transformar a sua realidade, ela pode tomar gosto pelo tema e seria quase impossível frear as mudanças. Por isso, a criminalização da política, as generalizações e a descrença na democracia.
Lula, portanto, por mais que tente ser aceito, sempre será um intruso. Um perigo. O petista, como parte da “malta”, não está sendo perseguido pelos seus erros, que de fato existem, mas pelo o que ele representa. É a força histórica de um país desigual que divide o Brasil, que gera essas tensões. Não um senhor de 70 anos.
O filósofo Karl Marx, referindo-se a Luis Napoleão, escreveu a famosa frase que a história acontece como tragédia e se repete como farsa. Tal afirmação foi usada para caracterizar o contexto político da segunda metade do século XIX. Não é uma lei absoluta, como muitos imaginam. Outra passagem interessante, também repetida a exaustão, é a de Lampedusa, quando diz que às vezes é preciso que tudo mude para que as coisas permaneçam como estão.
Esses dois aforismos são instigantes e nos ajudam a pensar a política nacional. A democracia sem povo é uma forma de aceitar uma realidade inevitável e ao mesmo tempo controlar as mudanças. Parte de nossa história política pode ser descrita como mudanças feitas para conservar a ordem aristocrática. Por isso, aqui as tragédias se repetem sucessivamente como farsa.
https://voyager1.net/historia/para-entender-as-origens-historicas-da-polarizacao-brasileira/




quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Psicologia de massas e capitalismo


A crise capitalista deixa os neonazistas cada vez mais à vontade. Demonstram suas crenças racistas, homofóbicas, machistas, autoritárias e truculentas à luz do dia.

Um traço muito comum dessas manifestações é seu caráter coletivo. Pessoas apenas conservadoras podem se transformar em monstros de intolerância quando formam bandos ou multidões. O fascismo é bem mais perigoso quando conquista milhões.

É por isso que o marxista alemão Wilhelm Reich escreveu seu famoso livro “Psicologia de massas e fascismo”. A obra foi lançada em 1932, pouco antes de Hitler chegar ao poder. Reich queria saber por que o nazismo atraía grandes parcelas da classe trabalhadora. 

Explicações que buscassem causas apenas racionais eram insuficientes. O próprio Hitler sabia disso. Em seu livro, “Mein Kampf”, ele diz que os pensamentos e ações do povo “são determinados muito mais pela emoção e sentimento do que pelo raciocínio”.

Por isso, Reich buscou unir as obras de Marx e Freud. Era preciso levar em conta o inconsciente, o irracional, a repressão sexual. Seus estudos fornecem pistas importantes. Mas parecem muito presos aos esquemas explicativos da psicanálise.

Oitenta anos depois, o desafio permanece. Além de Freud e Marx, muitos outros pensadores e teóricos podem ajudar a enfrentá-lo. Gramsci e Foucault, por exemplo.

De qualquer modo, Reich formula corretamente o problema. Não se trata apenas do fascismo. Como ele diz, é preciso “saber por que razão os homens suportam desde há séculos a exploração e humilhação moral, em resumo, a escravidão”.

A massificação dessa “servidão voluntária” é um dos segredos da dominação capitalista. É desse estrume que o fascismo surge e se fortalece.

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2012/07/psicologia-de-massas-e-capitalismo.html

Desde seu berço, o capitalismo olha para a morte


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Em 23/10/2012, Bob Fernandes publicou em seu blog a matéria “863 índios se suicidaram desde 86”. O texto fala dos Kaiowá-Guarani. A Justiça Federal decretou a expulsão de 170 deles de suas terras, no Mato Grosso do Sul.

Diante disso, os indígenas lançaram uma carta-testamento. Nela, pedem às autoridades “para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui”.

Os Guarani-Kaiowa não estão sozinhos. Na Europa em crise ou na China em expansão, aumentam os casos de suicídio. A morte voluntária atrai os que estão no centro do capitalismo e os que são por ele marginalizados.

Em 1846, Marx escreveu o livro "Sobre o suicídio", em que afirma:

A sociedade moderna é um deserto habitado por bestas selvagens. Cada indivíduo está isolado dos demais, é um entre milhões, numa espécie de solidão em massa. As pessoas agem entre si como estranhas, numa relação de hostilidade mútua: nessa sociedade de luta e competição impiedosas, de guerra de todos contra todos, somente resta ao indivíduo ser vítima ou carrasco. Eis, portanto, o contexto social que explica o desespero e o suicídio.

Em ensaio sobre a música de Mahler, o filósofo Jorge de Almeida menciona a Viena do final do século 19. Considerada “o berço do mundo moderno”, a cidade reuniria inúmeros artistas, cientistas e escritores que “teriam rompido com a tradição e revolucionado a cultura europeia”. Metade dessas cabeças brilhantes cometeu suicídio entre 1895 e 1914. Pareciam negar a possibilidade de convivência entre sua sensibilidade e a sociedade que nascia.

Ainda em seu berço, o capitalismo olhava para a morte.

Leia o ensaio de Almeida, clicando aqui

Se a luta de classes não vai à Maomé...


Em resposta a ações atribuídas a terroristas muçulmanos na Tunísia, Kuwait e França, Estados Unidos, Inglaterra e França elevam alerta contra o terrorismo, dizem os jornais.

Prepara-se nova onda de medidas para endurecer a repressão e aumentar a vigilância estatais. Seus alvos são tanto as populações muçulmanas, como os movimentos anticapitalistas. Ambos cada vez mais tratados como terroristas. 

O pretexto que tenta legitimar tais ações é “o combate ao terrorismo”. A verdade por trás da intenção é mais terror por parte de países imperialistas, como Estados Unidos e Inglaterra, e seus satélites, como Israel e Arábia Saudita.

A resposta das forças populares anti-imperialistas e da esquerda em geral deve partir do princípio que Reza Aslan defendeu em seu 
livro “No god but God”. Nesta obra, o autor diz que não há um choque entre Ocidente e Islamismo. Ao contrário, é dentro do Islã que a batalha decisiva vem sendo travada.

De um lado, aqueles que distorcem a fé islâmica para manter no poder minorias tirânicas e aliadas do imperialismo. De outro, forças que lutam para derrotar a minoria fanática do islamismo que fornece os pretextos que a ordem capitalista utiliza para espalhar seu terror.

As armas desta batalha podem ser os fuzis, como na resistência curda ao Estado Islâmico. Mas, na maioria dos casos, é a luta política e social que pode ser decisiva. E as forças islâmicas anticapitalistas são as únicas capazes de derrotar o fanatismo muçulmano, jamais o fundamentalismo imperialista. 


Ou seja, se a luta de classes não vai a Maomé, Maomé precisa ir à luta de classes.

http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/search/label/anticapitalismo




domingo, 8 de outubro de 2017

A BOSTA NA GENI VAI SOBRAR PARA TODOS

feiceibuqui do Ademir Assunção via Poste


A imagem pode conter: atividades ao ar livre

Não quero mais voltar ao assunto. Porque já me baixou o astral demais. Porque tenho achado inútil. Minha vontade, neste momento, é ir-me embora daqui. Gastar os anos que me restam em um lugar onde a dedicação de uma vida inteira ao pensamento, à reflexão, à curtição, à linguagem artística, seja um pouco mais respeitada. E, principalmente, porque o cenário que está se montando é terrível.

 E a reação a isso será débil.

Não quero mais voltar ao assunto, mas me espanta ver pessoas, que considerava referencias importantes, ainda insistirem na ideia de que os escândalos de corrupção foram o motivo da queda da coligação de esquerda.

Me espanta, neste momento, ver pessoas que considerava referencias importantes lançarem toda a culpa na coligação de esquerda por não ter demarcado mais terras indígenas, não ter enfrentado com mais vigor os rentistas, não ter feito a reforma agrária.

Como se fosse isso que a tivesse derrubado.

Não consigo entender como essas pessoas não conseguem enxergar que a coligação de esquerda foi derrubada não pelo que não fez, mas pelo que fez.

Não consigo entender como essas pessoas não conseguem enxergar que a coligação de esquerda foi derrubada por ter profissionalizado o trabalho das empregadas domésticas, por ter colocado negros nas universidades públicas, inclusive nos cursos de medicina, por ter possibilitado que pobres viajassem de avião, inclusive para o exterior, por ter criado mecanismos para que pobres, negros, gays, mulheres, tivessem seus direitos mais respeitados, por ter criado 12 novas universidades federais, por ter criado políticas culturais que chegaram em periferias onde jamais chegaram, por ter tentado, ao menos, discutir um modelo mais democrático de comunicação de massas. E, finalmente, por ter fortalecido os mecanismos de investigação da corrupção.

Foi contra isso que a medíocre e mesquinha classe dominante do Brasil se rebelou, com o apoio dos medíocres que se espalham em todas as classes sociais.

Foi esse o motivo de todo o ódio.

Foi isso o que derrubou a coligação de esquerda. Ou você acha que esses cidadãos de bem que já votaram a reforma trabalhista, que vão votar a reforma da previdência, que vão implantar o modelo da escola sem-partido, mas com religião, que já fecharam exposições, que vão queimar livros, que vão vender para os gringos tudo o que puderem, querem realmente um novo país, livre, soberano e Incorruptível?

Alguém ainda se lembra o motivo da derrubada de Dilma Rousseff? Pois eu lembro: pedaladas fiscais. Prosaicas pedaladas fiscais.

Os cidadãos de bem que se insurgiram contra as pedaladas fiscais vão roubar mais terras indígenas, vão matar mais indígenas e pequenos agricultores, vão concentrar mais rendas, mais terras, vão sufocar mais os escravos, vão acabar com qualquer indício de inteligência e liberdade.

Vão, não. Já estão fazendo isso.

Não era melhor manter o pacto democrático, ainda que débil, pressionar e fortalecer a coligação de esquerda, ainda que cheia de tranqueiras, para que avançasse mais, para que enfrentasse com mais vigor os seculares problemas dessa sociedade podre e desigual, que prendesse os corruptos e os corruptores, que acumulasse forças para repartir melhor os meios de difusão do conhecimento?

Eram dias perfeitos? Óbvio que não. Havia um monte de tranqueiras? Óbvio que sim. Cagadas homéricas. Por supuesto que sí.

Mas era a Geni possível. Era a Geni que foi ter com o capitão do Zepelim. E ao jogar bosta na Geni, entregaram de bandeja o país ao prefeito de joelhos, ao bispo de olhos vermelhos e ao banqueiro com um bilhão.

Agora estamos vendo cada vez mais a volta da sombra do Zepelim Prateado crescendo sobre as cidades.


E ainda escuto o coro nas alcovas da grande rede social: maldita Geni!

sábado, 7 de outubro de 2017

A ameaça das urnas


Lula acabava de retornar da bem-sucedida caravana pelo Nordeste e calhou de Antônio Palocci depor a Sérgio Moro. Imediatamente os comentaristas da mídia corporativa se lançaram em previsões catastróficas sobre a candidatura do petista.

A euforia durou pouco. Não que a intenção de voto em Lula tenha sofrido algum abalo, ou mesmo encontrado seu teto, situações compreensíveis nas circunstâncias. Pelo contrário, ela cresceu ainda mais, consolidando o horizonte de vitória no primeiro turno e até certa vantagem no segundo, algo há pouco tido como improvável.

Teriam os futurólogos se referido à situação jurídica do ex-presidente? Duvido. Todos sabiam que o depoimento de Palocci não teve obrigação de veracidade e que a sua delação, isolada, será nula como prova. Em resumo, o cenário processual contra Lula permanecia mais ou menos semelhante ao de meses atrás.

Na verdade, os comentaristas quiseram nos convencer de que a Lava Jato seria um contraponto subjetivo do lulismo. Uma espécie de antagonista sem rosto cujo avanço levaria de forma automática ao declínio da imagem pública do ex-presidente.

A premissa ignorava três evidências fundamentais confirmadas pelas pesquisas.

Primeiro, os recortes sociais e ideológicos do apoio a promotores e juízes. O apelo popular desses rapazotes aburguesados e arrogantes que incorporam o Estado punitivo é muito menor do que o imaginário conservador gostaria de admitir.

Segundo, a fragilidade da imagem positiva da Cruzada Anticorrupção. Reproduzindo a rotina tendenciosa e arbitrária do microcosmo cotidiano dos abusos de poder, a Lava Jato caiu no ceticismo dos cidadãos que sobrevivem driblando injustiças.

E, finalmente, a desmoralização do condomínio golpista. A impopularidade de Michel Temer afunda consigo a mídia e os partidos que o defenderam, além de incentivar a nostalgia pelas conquistas sociais dos governos Lula.

O anunciado fracasso do líder nas pesquisas é uma dessas invenções que só encontramos no jornalismo brasileiro. Aí se revelam o medo da direita de disputar com Lula no voto e, afinal, a verdadeira função saneadora da Lava Jato.

Mas não havia sinceridade alguma no fatalismo dos analistas. A estratégia de supervalorizar o poder propagandístico da Lava Jato visava encobrir o verdadeiro obstáculo à reeleição de Lula: o impedimento de sua candidatura pelo TRF-4. Tratava-se de amenizar a responsabilidade do tribunal, “naturalizando” a derrota eleitoral do petista.

Afinal, quanto mais ele aparecer na liderança, principalmente contrapondo alternativas escabrosas, maiores as suas chances nas inevitáveis articulações políticas da corte. E falta pouco para que a campanha lulista incorpore anseios democráticos mais amplos, colocando os desembargadores na posição de inimigos de 40 milhões de eleitores.

De qualquer forma, as pesquisas forçam uma mudança de estratégia. Não surpreenderia se alguém arranjasse um meio jurídico de impedir as viagens de Lula. Ou de antecipar o seu sacrifício, enquanto ainda é possível acreditar em fatos consumados.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2017/10/a-ameaca-das-urnas.html

Vamos (começar a) discutir “big data”?


Caio Almendra publicou no Facebook um ótimo texto sobre o “big data”, termo que se refere a um imenso conjunto de dados, cuja estruturação feita de forma adequada pode revelar informações detalhadas e valiosas sobre praticamente qualquer tema. Por exemplo, desde hábitos de consumo a preferências politicas de determinadas parcelas da população.

Aí vai um trecho:

O controle empresarial do big data, a commoditização, opera como o controle empresarial e commoditização operam em qualquer área: escolhem determinadas perguntas a serem feitas e ocultam outras. Como fazer o consumidor comprar como queremos é uma pergunta comum; como saber onde o consumo gera mais dano ambiental e como evitar esse dano, é a típica pergunta esquecida. Posso dar outro exemplo simples: o que o controle empresarial sobre a produção de medicamentos fez ao longo do século passado? Focou em doenças difíceis e caras de serem tratadas, abandonou as doenças que estatisticamente mais matam. Zilhares de remédios para um tipo específico de câncer, nenhum para a malária, doença que mais mata (e mata majoritariamente pobres de países periféricos e etnias oprimidas) no mundo. Agora que descobrimos o uso na medicina social do big data, o que o controle empresarial promete para nós? Uso do big data para salvar milhões de pessoas da malária, ou uso do big data para convencer as pessoas a comprarem mais e mais remédios inúteis ou questionáveis?

A resposta parece óbvia, mas recomenda-se a leitura da íntegra do texto, não só para conferir, como para aprender. Porque neste campo, como se já não bastasse tantos outros, a esquerda nem chega a engatinhar.
http://pilulas-diarias.blogspot.com.br/2017/10/vamos-comecar-discutir-big-data.html

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

VEJA NO BLOG UM FILME COMPLETO E LEGENDADO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DE MARX E ENGELS, ATÉ CRIAREM O 'MANIFESTO'

AINDA PODE SER VISTO O FILME COMPLETO E LEGENDADO SOBRE OS PRIMÓRDIOS DE MARX E ENGELS, ATÉ CRIAREM O 'MANIFESTO'

Se você, caro leitor, chegou até aqui e não se deparou com o filme que prometi, devo-lhe uma explicação e algumas dicas de como ainda encontrá-lo na web.

Eu o achei disponibilizado no Youtube na 2ª feira, 2, e não pensei que a empresa proprietária dos direitos autorais (California Filmes) fosse tão rapidamente exigir sua retirada do ar. É indício de que o lançará nos cinemas ou em DVD/blu ray dentro em breve.

Felizmente, encontrei uma página do Facebook na qual O Jovem Karl Marx está postado e ainda pode ser assistido on line: esta.

Tenho também dois links a sugerir àqueles que sabem baixar filmes: este (pelo Mega) e este (por torrent).

Suponho ser desnecessário avisar que, tanto quanto no Youtube, tudo isso pode mudar rapidamente. Então, recomendo aos interessados n'O Jovem Karl Marx que façam jogo rápido.

"Com pouco mais de 20 anos, Marx conheceu em Paris Friedrich Engels, o filho de um industrial de Wuppertal, que trazia consigo uma rica experiência da Inglaterra. Em Manchester, seu pai tinha uma tecelagem.

Marx e Engels ficaram amigos. Junto a Jenny, esposa de Karl Marx, os jovens desenvolveram o Manifesto Comunista. O texto deveria reunir tudo o que os três consideravam importante observar numa época de grandes mudanças sociais.

O filme acompanha a juventude de Marx e Engels, delineia a amizade inabalável entre os dois e mostra como um trio único nasce a partir das dificuldades que eles viveram durante a sua turbulenta juventude."

Assim o diretor e roteirista haitiano Raoul Peck introduz seuO jovem Karl Marx (2017), que reconstitui a trajetória de Marx (August Diehl), Engels (Stefan Konarske) e Jenny (Vicky Krieps) entre Paris, Bruxelas e Londres, nos primeiros cinco anos de sua amizade e colaboração intelectual, até criarem um dos livros mais influentes da história da humanidade, o Manifesto do Partido Comunista.

https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2017/10/veja-no-blogue-um-filme-completo-e.html?spref=fb

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O Capital pode sofrer de apendicite?


Em um famoso capítulo de “O Capital”, Marx fala sobre a transição entre antigos processos produtivos e aqueles sob a lógica do capital:

Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, ele serve à máquina. Lá, o movimento do meio de trabalho parte dele; aqui, ao contrário, é ele quem tem de acompanhar o movimento. Na manufatura, os trabalhadores constituem membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, tem-se um mecanismo morto, independente deles e ao qual são incorporados como apêndices vivos. 

Na mesma obra, Marx apresentou o conceito de fetichismo da mercadoria para explicar o caráter mistificador da economia capitalista. Vivemos sob uma forma de produção em que as relações humanas são cada vez mais intermediadas pelas mercadorias.


Enquanto elas circulam livremente pelo planeta, a enorme maioria de seus produtores vive isolada em suas fronteiras. Enquanto as mercadorias têm uma vida social, nós somos meros portadores de suas marcas, especificações, cores, modelos.

Esse fetichismo se revelava mais claramente no consumo. Agora, talvez, ele fique mais evidente, assustador e perigoso no nível da produção. Os locais de trabalho seriam dominados quase inteiramente por coisas robotizadas.

A Quarta Revolução Industrial pode ser a radicalização da redução dos trabalhadores aos “apêndices” a que Marx se referiu 100 anos atrás. Só que, agora, o Capital pretende extirpá-los.

Na verdade o que os capitalistas tomam por apêndices são órgãos vitais. Sem eles, sua exploração simplesmente não funciona ou funciona muito mal. O capitalismo é usuário dependente da exploração do trabalho humano.

Para tentar entender melhor essa questão, leia Robôs não ficam desempregados.