quinta-feira, 10 de setembro de 2020

DIA APÓS DIA CONSTATAMOS QUE O FUNDO DO POÇO FICA AINDA MAIS PARA BAIXO

 

 dalton rosado
INFLAÇÃO PARA OS POBRES: ISENÇÃO
 FISCAL PARA OS NEGÓCIOS RELIGIOSOS
O Brasil quase sempre surpreende os turistas que aqui chegam por sua incrível desigualdade social. 

Ao lado de edifícios luxuosos, casas de fazer inveja às celebridades hollywoodianas ou carros caros de último tipo, vicejam favelas e uma imensa periferia com:
— ruas esburacadas;
— casas mal-acabadas e sem esgotamento sanitário na maioria das residências;
— escolas públicas em estado precário e com professores mal remunerados;
— sistema de transportes públicos deficientes e caros; e
— chocante índice de assassinatos, bem demonstrando a segregação social própria a um sistema infeliz que funciona voltado para privilégios de uma parcela menor, mas amplamente beneficiada, da população.

Isso estarrece os nossos turistas egressos de países economicamente dominantes porque em suas nações de origem, apesar de também haver desigualdade social, tal fenômeno, característico do capitalismo, por lá ele não é tão acentuado. Por aqui ainda se mantém a mentalidade de colonizadores e colonizados pela elite econômica e política.

Agora estamos a observar um fenômeno curioso na economia brasileira. Embora estejamos com índices inflacionários baixos, causados por uma depressão econômica renitente que nos fustiga há mais de cinco anos, disparam os preços dos alimentos, justamente aquele componente de custos de consumo que representam a maior parcela de gastos da população pobre. 

Os salários não aumentam, ou aumentam em valor insignificante, como é o caso da última elevação do salário-mínimo, que cada vez fica mais mínimo e foi alterado em janeiro de R$ 1.039 para R$ 1.045, ou seja, subiu míseros 6 reais.

É mais uma comprovação de nossa insistente pobreza, que se traduz em baixos salários e no desemprego estrutural que vem crescendo assustadoramente, seja pela paralisia da economia por fatores próprios à sua dinâmica contraditória, seja  pela pandemia de assola o mundo de maneira alarmante, apontando para um quadro de 1 milhão de mortes no mundo e 200 mil mortes por aqui ainda em 2020.

O Brasil, que conta com cerca de 3% da população mundial, deverá responder por 20% do total de mortes por covid-19, o que dá bem a dimensão do genocídio em curso por aqui, cujo principal responsável tem nome e endereço.

Segundo o veterano jornalista José Paulo Kupfer, que mantém uma coluna de Economia no Estadão, o fenômeno começou com a carne, em fins de 2019 e agora outros alimentos estão sofrendo forte alta nos mercados varejistas. É o caso de alguns itens importantes da cesta básica (como leite, arroz e feijão), cujas majorações superam 20% no ano. 
 
Tem sido, por isso, cada vez mais comum ouvir relatos de sustos com esses preços nas visitas aos supermercados. Estive no supermercado e me espantei com a alta da inflação é uma frase que se escuta muito no momento atual.
 
Os alimentos realmente encareceram. Mas isto não quer dizer que, a inflação esteja alta. Pode não parecer, mas preço alto e inflação são coisas diferentes – relacionadas, mas não idênticas. 

A cesta básica de alimentos tem subido bem acima da inflação oficial, e isto tem correlação com a crise mundial causada pela pandemia. Países populosos, como a China e Índia, têm aumentado a compra dos ditos cujos, e isto força a subida de preços aqui no Brasil. 
Ademais, com a subida do dólar dos EUA, ficamos mais competitivos no mercado internacional de alimentos. Menos oferta de alimentos aqui acarreta subida de preços em razão da lei da oferta e da procura. 

A inflação nominalmente baixa decorre do método de apuração de tal índice, o qual é calculado por uma média de preços de todas as mercadorias (sendo que a maioria delas se mantém em níveis baixos).

Entretanto, com a distribuição de dinheiro sem lastro feita pela Governo Federal como forma de suprir necessidades prementes da população de baixa renda, já se anuncia um aumento do índice geral de preço.

O resumo da ópera é de que os pobres estão ganhando menos (isto quando não encontram-se totalmente desempregados e sem salário algum, pois a taxa oficial de desocupação da mão-de-obra subiu de 9,% para 12%). 

É importante destacar que o cálculo de nível de desemprego somente leva em conta o número de pessoas demitidas e admitidas, deixando de considerar aqueles que já estão fora de mercado há mais tempo e se tornaram invisíveis aos olhos das estatísticas (caso contrário, estaríamos com níveis de desemprego beirando 30% da população economicamente ativa).

Vivemos uma tragédia social na qual míseros R$ 600 distribuídos à população de baixa renda ou renda nenhuma é capaz de reverter a popularidade de um populista de plantão. Assim mesmo, tal benefício já está sendo reduzido para R$ 300,00 e em data próxima terá de ser extinto, sob pena de a inflação explodir a inflação e idem a nossa dívida pública em relação ao PIB, sobre a qual pagamos os elevados juros próprios aos países da periferia capitalista. 

Tudo conspira contra a nossa combalida economia, prenunciando um desgaste futuro ao governante de plantão, seja ele o trapalhão que a tudo assiste indiferente e só tem olhos para sua reeleição, seja qualquer outro que os poderosos coloquem no seu lugar para tentar salvar alguma coisa do naufrágio em curso.    

Pari passu, vimos agora, a aprovação pelo Congresso Nacional de uma esdrúxula isenção de impostos já lançados, que se estima em torno de R$ 1 bilhão, para os negócios de igrejas que funcionam como verdadeiras empresas imobiliárias de venda de lotes no Céu, e que faturam alto com negócios correlatos que pouco ou nada têm com as atividades de cunho religioso. 

Tal proposição, oriunda da bancada evangélica que a cada dia aumenta de número nas cadeiras legislativas, constitui-se num agravo da nossa já deficitária balança de ajuste fiscal. O comércio da fé além de enriquecer parlamentares, produz poder político (a deputada Flordelis é um exemplo chocante dessa vertente).

Somos visceralmente avessos à cobrança de impostos, por princípio e, principalmente, porque incidem em maior parte sobre uma população já explorada pela extração de mais-valia dos assalariados em geral. Impostos significam sustentação da máquina estatal mantenedora da opressão política e da exploração capitalista. 
Mas, essa proposição de isentar o mercado da fé chega a ser um capítulo à parte: um verdadeiro deboche!
  
O veto a tal proposição legislativa cabe ao presidente Boçalnaro, o ignaro, do qual nada de bom se pode esperar em mais esta questão, dadas as suas oportunistas ligações com as igrejas evangélicas. 

Tamanha é a importância que ele confere ao apoio delas recebido que, embora sua verdadeira fé continue sendo a católica, recentemente se tornou membro nominal das ditas cujas, após o batismo nas águas do bíblico rio Jordão pelas mãos do pastor Everaldo (ora preso por corrupção). Então, é de se esperar que avalize a irresponsabilidade legislativa.

Dia após dia constatamos que o fundo do poço fica ainda mais para baixo. Até quando??? (por Dalton Rosado)

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