sábado, 19 de novembro de 2016

REDEMOCRATIZAÇÃO PELA METADE DÁ NISSO!

A meia centena de viúvas da ditadura grunhindo e zurrando no plenário do Congresso Nacional assustou o articulista Vladimir Safatle, professor de filosofia na USP, inspirando-lhe um alerta agourento: "Nada morreu, tudo pode retornar". 

Parece que as vitórias do Brexit e de Trump deixaram nossa intelligentsia à beira de um ataque de nervos, tendo pesadelos com Bolsonaro no papel de Hitler brasuca, prontinho para implantar o 3º reich (depois dos de Vargas e dos generais). 

Há um tanto de exagero nesses receios, não só por se tratarem de épocas e crises diferentes, como também porque seria a repetição da História já nem mais como farsa, mas sim como chanchada da Atlântida...

Evidentemente, concordo com Safatle quanto à imperdoável omissão dos governantes brasileiros que deixaram de revogar a anistia de 1979, abrindo caminho para a apuração e punição dos crimes cometidos pelas forças repressivas durante a ditadura militar. Era algo a ser feito tão logo o País se redemocratizasse, mas a uns faltou convicção e a outros, coragem. 

Collor, provavelmente, simpatizava com os pitbulls do arbítrio. Sarney, como governador e senador, servira repulsivamente ao regime de exceção que lhes retirou as focinheiras. Itamar Franco não era homem para comprar tal briga. Mas FHC, Lula e Dilma ficaram com suas biografias manchadas para sempre. 

Quem teve de exilar-se e quem chegou a ser preso durante aquela ditadura jamais poderia sair pela tangente para evitar problemas, como os pusilânimes fazem; estava moralmente obrigado a defender os valores civilizados, custasse o que custasse!

FHC amarelou e, comoprêmio de consolação para os humilhados e ofendidos, instituiu programas de concessão de reparações às famílias dos assassinados e aos sobreviventes do morticínio. 

Lula se apavorou com uma nota oficial do Alto Comando do Exército (vide aqui) que não passava de blefe e, ao invés de destituir imediatamente os insubmissos, determinou a seus ministros que ficassem em cima do muro, nem sim nem não, muito pelo contrário, apontando aos que tinham sede de Justiça o caminho dos tribunais. 

O Supremo Tribunal Federal tomou em 2010 uma das decisões mais infames de sua história (na contramão do entendimento sobre crimes contra a humanidade que vem se consolidando mundialmente desde o Julgamento de Nuremberg), ao outorgar a déspotas o direito de anistiarem a si próprios e aos seus esbirros com o arbítrio em  plena vigência. 

Dilma ignorou a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre a necessidade de apuração integral da chacina do Araguaia e sobre a não-validade de autoanistias promulgadas por ditadores, montando, como alternativa meramente propagandística, uma comissão da verdade engana-trouxas. 

Em meados de 2008 (vide aqui), percebendo que a falta de vontade política para se punir os algozes dos anos de chumbo inviabilizaria seu merecido encarceramento, eu já tentava convencer a esquerda e os cidadãos com espírito de Justiça a adotarem uma postura mais flexível: exigirem a condenação dos culpados, mas relevarem o cumprimento das penas, eliminando o ingrediente emocional que lhes poderia granjear alguma solidariedade na caserna.

Ou seja, como o Estado brasileiro demorara uma eternidade para fazer o que lhe competia e os réus, ou já haviam morrido, ou tendiam a falecer em breve, além de não representarem mais perigo para a sociedade, então que se concertasse alguma iniciativa no sentido da condenação inequívoca da ditadura de 1964/85, considerando criminosos os torturadores e seus mandantes, mas permitindo (sob pretextos humanitários, em funçao da idade avançada, etc.) que terminassem a vida fora das grades. 

Propus, portanto, abdicarmos do que (saltava aos olhos!) jamais conseguiríamos mesmo obter, em troca do encerramento da questão em termos minimamente aceitáveis, legando um precedente jurídico correto para os pósteros.

Clamei no deserto, claro, porque no Brasil as bravatas que invariavelmente conduzem às derrotas tendem a prevalecer sobre a sensatez que permite salvar algo do incêndio.

E é graças aos erros por nós cometidos no passado que as atrocidades totalitárias voltaram a ser bandeira dos rancorosos anônimosComo ressaltou Safatle:
"Esse é o preço pago pelo Brasil ser um país incapaz de encarar seu passado ditatorial, prender torturadores, exigir das forças armadas um mea-culpa pelo golpe contra a democracia, retirar o nome de membros da ditadura de suas praças e estradas, ensinar a seus jovens o desprezo por intervenções militares...
Não nos enganemos. Essas pessoas que estão a vociferar por mais um golpe de Estado não estão expressando uma opinião. Clamar por golpe militar não é uma opinião. É um crime, o pior de todos os crimes em uma democracia. Quem quer a causa quer os efeitos. Quem pede por golpe militar está a gritar por assassinato, tortura, ocultação de cadáver, censura, estupro, terrorismo de Estado.
Em qualquer democracia mais ou menos consolidada no mundo, o lugar dessas pessoas seria na cadeia, por sedição e incitação a crime".
Veio, assim, ao encontro do que proponho desde a década passada: que apologias da ditadura passem a receber no Brasil o mesmo tratamento jurídico dado à negação do Holocausto nos países civilizados (talvez substituindo as penas de prisão por prestação de serviços à comunidade, pois as condições das penitenciárias daqui são tão terríveis que nelas correriam risco de vida, algo que nem mesmo os pregadores do ódio merecem).

A EBULIÇÃO SOCIAL, A CORRUPÇÃO E A SUTILEZA DA MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA.


"A pior forma de desigualdade é tentar
fazer duas coisas diferentes, iguais"
(Aristóteles, filósofo grego) 
Como dizia a letra do samba intitulado Plataforma, “não sou candidato a nada... mas o meu peito não se conforma”. 

Não tenho o perfil de ganhador de Prêmio Pulitzer, do Nobel de Literatura, e muito menos eu me habilito a vestir um fardão de qualquer academia de letras. De pessoas com fardão só aceito aqueles humildes atendentes de portarias de hotéis cinco estrelas que, quando tiram aquela ridícula fantasia de gala, pegam ônibus lotados para as suas humildes residências. 

É por não pretender galardão de qualquer espécie que tenho a pretensão (talvez vaidosa, pois existe a vaidade de não ter vaidade) de tentar botar o dedo na ferida com liberdade e isenção.  

Vivemos um incrível período de ebulição dentro do chamado Estado de Direito, cujas causas e efeitos merecem análise acurada.

Os três poderes da República funcionam institucionalmente,  os estados e municípios têm governantes eleitos. Só que: 
- prendem-se políticos corruptos em processos judiciais como nunca antes se viu neste país (um ex-presidente da Câmara dos Deputados há um mês e dois ex-governadores do Rio de Janeiro em menos de 24 horas); 
 - a presidente eleita é afastada do cargo por diversos fatores, que vão da convivência com a corrupção até a manipulação contábil do Tesouro como forma de se encobrir o verdadeiro caos das contas públicas; 
- o vice-presidente que dirigia o partido que dava sustentação política à presidente deposta termina se beneficiando do próprio caos que ajudou a criar (e da chapa eleitoral) e se torna presidente da República. Tudo constitucionalmente resolvido e continuado;     
- nada funciona na economia. O PIB do Brasil permanece caindo; 
- o desemprego, aumentando; 
- a União apresenta um orçamento com déficit de bilhões;  
- os estados e municípios, que não emitem moeda sem lastro (como disse o Pesão, governador do RJ, num arroubo de sinceridade que denuncia a prática comum aos governos federais, causadora de inflação num período de depressão econômica, tal é a gravidade da situação), estão falidos e com dificuldades até de pagar salários do funcionalismo e dos aposentados. 
Não é de se admirar que numa situação destas, pre-anomia política, grupos das mais variadas tendências políticas se sintam compelidos a resolver tais problemas na marra. 

Foi o que se viu quando um grupo de manifestantes interrompeu sessão da Câmara Federal agredindo pessoas e pedindo intervenção militar, como se os fardados tivessem o poder de resolver problemas econômicos que não dominam (ou que dominam tanto quanto a turba que os quer no poder).

QUESTÃO NODAL: A FALÊNCIA DO CAPITALISMO.  

O mais grave disso tudo é a perigosa manipulação midiática da crise. Ouvi e vi, na cobertura em TV fechada de um canal pertencente a uma grande rede de televisão, uma multidão exultando com a prisão dos ex-governadores. Havia quem usasse lenços brancos na cabeça e estourasse champanhe, numa alusão a um triste evento num restaurante de luxo internacional patrocinado por um dos ex-governadores presos. Uma apresentadora afirmou ser "triste vermos que todo o sofrimento da população vem dessa corrupção com o dinheiro público”. 

Qualquer espectador passivo e justificadamente indignado com a corrupção engole tal pílula midiática sem água e sem perceber a mensagem subliminar. Tentam convencer a todos e a si próprios que tudo é uma questão de gestão competente e honesta, e não de forma e conteúdo de uma relação social falida por seus próprios fundamentos, silenciando sobre a questão nodal: a falência do capitalismo!

O dano causado pela corrupção é grave. Além de retirar do povo recursos que deveriam ser utilizados em seu benefício ao invés de desperdiçado em espetáculos grotescos de mulheres de políticos recebendo joias e mimos de milhares de dólares em meio a uma celebração bizarra num hotel internacional suntuoso, demonstra a relação promiscua dos governantes que não se regem pela definição de prioridades num orçamento público sabidamente deficitário, mas sim pelo interesse econômico que dita o processo eleitoral e pelo desejo de enriquecimento fácil. 

Mas apesar de tantos desvios de dinheiro e de conduta, este ainda não é ponto fulcral do problema, como quer fazer-nos crer o comentário da tal apresentadora, cujo subtexto é: “Se acabarmos com a corrupção, tudo se resolverá”. 

Tal comentário, superficial mas muito bem elaborado, dentro dos limites aceitáveis para uma crítica jornalística chapa branca, incita a população revoltada contra um alvo equivocado, pelo menos para quem guarda um sentimento de credulidade sistêmica conservadora ou por quem se considera um mudancista (ainda que meramente reformista); ou ainda, se quisermos rotular os comportamentos (o que é sempre uma postura temerária e susceptível de equívocos), para a chamada direita e a chamada esquerda.

Há um silêncio midiático retumbante (se é que cabe tal figura de retórica) quanto a um ponto fundamental, sobre o qual nada se ouve e não se lê uma linha sequer: o fato de que o sistemanão tem mais uma conexão mínima com a capacidade de provimento das necessidades sociais. Este ponto fundamental silenciado se refere à ocorrência, às causas e às consequências da falência sistêmica econômica e política mundial (o segundo aspecto ligado ao primeiro) do capitalismo!

Por que a apresentadora e comentaristas da referida rede de televisão passam batidos pela questão da falência do sistema capitalista? 
Por que não reconhecem a sua existência e não aprofundam as razões de sua ocorrência? 

É porque a empresa para a qual trabalham faz parte de um sistema que é corrupto ontologicamente e antologicamente. Embora noticie o combate à corrupção, é do sistema corrupto que retira os seus lucros para remunerar os empregados jornalistas, deles extraindo mais-valia (uma das espécies de corrupção), ainda que os ditos cujos sejam excepcionalmente bem pagos na comparação com os demais trabalhadores jornalistas de mídias menos abrangentes.    

A corrupção política é um cancro social abominável, que deve ser combatido com antibióticos jurídicos penais e civis em dosagens fortes, como agora ocorre graças a magistrados e promotores que se vestem com as roupas de paladinos da justiça. A corrupção sistêmica, contudo, é consentida por leis e inalcançável pela justiça, daí sua letalidade em termos sociais! (por Dalton Rosado)
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Antiantipetismo

é necessário ser petista ou sequer simpatizante para notar que o antipetismo é uma versão atualizada de uma ideia que infelizmente perpassa toda a história do Brasil

antipetismo
Rafael Mantovani*, Pragmatismo Político
Em 1984, o antropólogo Clifford Geertz escreveu o texto Anti anti-relativismo, com o propósito de criticar os críticos do relativismo. Geertz notou a má formulação do conceito de “relativismo” por parte dos seus adversários para atacá-lo, devido ao medo que tinham (e têm) da diversidade que havia (e há) lá fora. O ataque era resultado do desejo de uma espécie de retorno a uma moral transcendente que pudesse dizer o que é certo e o que é errado. Esses críticos do relativismo diziam que os relativistas defendiam uma ideia ao estilo “tudo pode”. Geertz, então, esclareceu que os chamados relativistas só queriam que os antropólogos se preocupassem com o “provincianismo”, dizendo que não deveriam ser provincianos, não deveriam fazer uma análise do outro pautada nos valores próprios, ou seja, provindos da própria sociedade do investigador. Se caso fosse para julgar a outra sociedade, não haveria motivo para existir antropologia.
A analogia do título do texto foi inspirada no “antianticomunismo”, movimento formado por pessoas que não acreditavam na visão dominante nos Estados Unidos da época da guerra fria de que o “perigo vermelho” era o fato primordial da vida política. Mas o grupo não era comunista, apesar de diversas vezes ser associado aos bolcheviques. O valor do antianticomunismo foi ter criticado McCarthy, não para que pudesse ser implantado o comunismo (coisa em que os antianticomunistas não acreditavam), mas simplesmente porque a perseguição aos comunistas não era salutar à sociedade norte-americana e tampouco condizia com a liberdade de pensamento e expressão. Da mesma forma, Geertz se viu na obrigação ética (homem de opiniões firmes que era) de criticar aqueles que afirmavam erroneamente que, para os relativistas, não havia ética, não havia valores. Dizia Geertz que tentar trazer de volta ideias como fato bruto, lei natural, verdade necessária, beleza transcendental não poderia ser, de forma alguma, salutar para a antropologia. Afinal, isso só seria possível se a moral (que provém do observador) fosse posta acima da (diferente) cultura analisada. E brilhantemente termina dizendo que “se quiséssemos verdades caseiras, deveríamos ter ficado em casa”.
O que deve ser primeiramente destacado no raciocínio de Geertz é o quanto uma crítica a determinada coisa pode dizer pouco a respeito da própria coisa e muito a respeito dos que fazem a crítica. Nesse caso, primeiramente, o horror ao diferente. Em segundo, o preconceito ao diferente. Em terceiro lugar, a certeza da possibilidade de um conhecimento moral e objetivamente construído: uma crença de pessoas que tentam ignorar que essa objetividade e moralidade provém, necessariamente, dos valores vindos “de casa”. Nesses três pontos, o antipetismo se assemelha ao antirrelativismo. Comecemos pelo terceiro ponto e desenrolemos em direção ao primeiro.
O “conhecimento objetivo” do antipetista se divide em duas partes. A primeira é a certeza de que a economia é uma ciência neutra e o mercado é um ser independente da sociedade e dos interesses particulares dos grupos sociais. A segunda é que as diferenças sociais são, na verdade, naturais. Vamos por partes.
Para explicar o primeiro ponto do conhecimento objetivo antipetista, pode-se evocar Carlos Alberto Sardenberg que, certa vez, disse que o governo “errou” ao baixar a taxa de juros. Note o leitor que o governo “errou”. Tratou-se de erro, de análise mal feita, não de escolha política. Ora, a taxa de juros controla o aquecimento da economia e índice de inflação, portanto, a escolha por aumentá-la ou diminuí-la se trata, na realidade, de uma escolha muito bem definida, traçada em busca do resultado que o governo pretende alcançar. É claro que há atitudes políticas que se mostram erradas, desastradas, mas não é disso que se trata aqui. Há uma forma de expor as análises econômicas por parte do antipetista que tende a dar a entender que haveria uma neutralidade na escolha, uma neutralidade que não é captada pelo grupo político adversário por ser incompetente. A ideia de que o governo do PT “erra” provém de uma tentativa muito clara de mascaramento do descontentamento pelo fato de que este governo específico não tem privilegiado a classe da qual ele, jornalista, é porta-voz. Tal mascaramento é conseguido pelo convencimento da “neutralidade” da economia e da “naturalidade” do mercado. Para que o mercado fique “melhor para todos”, é necessário ver atentamente os dados e decidir cientificamente. “Os dados mostram”. “Os números não mentem”. Claro que não mentem, os números nem falar falam. Quem fala é o analista. A naturalidade do mercado e a neutralidade da economia são a tentativa de transformar o que é escolha político-econômica em uma ação objetivamente certa ou errada de acordo com um único raciocínio possível. É como um motorista que quisesse chegar a São Paulo e pegasse o caminho do meio, quando, na verdade, precisaria ter pegado à direita. Para se chegar a São Paulo, portanto, era necessário ele ter pegado à direita, mas o motorista se equivocou pegando a linha central e não se vai mais chegar ao destino desejado. Entretanto, nas ciências humanas – conjunto de saberes do qual a economia política também é parte – as coisas não são tão inequívocas assim. As escolhas podem tanto ser guiadas por erros como por clara intencionalidade. A clara intencionalidade de uma ação político-econômica, quando não beneficia a classe a que o antipetista faz parte, ele a encara como erro, como ingenuidade. Só que tentar definir-se a si mesmo como neutro é uma atitude que carrega muita intencionalidade guiada por interesses específicos.
A segunda parte da neutralidade e objetividade do conhecimento antipetista começa ainda com um chavão econômico mal formulado, desemboca em uma sociologia muito ruim e tem como conclusão uma proposta jurídica calhorda. Começa “constatando” duas coisas. A primeira é que há pobres e ricos no mundo apesar de todos os indivíduos, diz ele, estarem em condições iguais de competição, asseguradas também por regras jurídicas (“teoria” econômica). A segunda “constatação”, obscuramente vinculada à primeira, é que a classe pobre teria uma predisposição ao crime (“teoria” sociológica). E, se há muito crime, deveria haver mais punição – conclui (sugestão aos magistrados de direito).
De acordo com a vontade antipetista de ressuscitar a legalidade do suplício, a punição é o melhor remédio para os índices “alarmantes” de criminalidade. Portanto, que reduzamos a maioridade penal e, no limite, restabeleçamos entre nós a pena de morte para dar a marcha ré mais imponente da história. Ignora-se que os crimes mais combatidos são os cometidos por uma classe específica (a pobre), e que, sendo a mais punida, é a que tem os crimes que mais comete (furtos e pequenos roubos) potencializados. E são potencializados esses crimes não pelo fato de serem os típicos da classe x ou y, mas pela própria punição que marca aquele indivíduo como desviante e, exatamente por esse fato, passa a ter apenas a “carreira” desviante como opção social [Para mais detalhes a repeito, ver o clássico e claríssimo texto de Howard Becker, Outsiders]. Diferentemente disso, o raciocínio de quem defende a redução da maioridade penal e a pena de morte se pauta na ideia de que “esse aí não tem jeito, não”. Esse aí é naturalmente ruim.
Séculos atrás, a escravidão era o sistema econômico do Brasil. E ela era também justificada racionalmente. Obviamente, primeiro veio a escravidão, depois a sua justificativa; entretanto, ela não era uma justificativa consequencialista, ou seja, “precisamos da escravidão, portanto, mantenhamo-la”. Não. Ela tinha uma justificativa deontológica: deveria haver escravidão para moralizar o negro. A escravidão fornecia “panis, et disciplina, et opus servo”, ou seja, pão, disciplina e trabalho para o servo – os elementos necessários para o caminho da virtude. E a punição era o elemento essencial para a educação escravocrata, afinal, era o único “incentivo” ao trabalho, pois ele não era remunerado e nem trazia nenhuma satisfação pessoal. Restava a chibata como argumento.
Em um dos relatórios de 1835 a respeito do estado da prisão da cidade de São Paulo (coletados por Nuto Sant’Anna no volume II dos Documentos históricos), o relator se indignava com o fato de estarem presos brancos e negros, misturados. Os brancos que, por desgraça, haviam cometido algum crime seriam muito mais sensíveis à prisão do que pretos, de natureza preguiçosa, indolentes e sem princípios de decência. Os pretos encontrariam na punição não um mal, mas antes, uma benção. Dessa forma, os brancos deveriam ser menos punidos pelos seus crimes; já os pretos, mais. Curiosamente, hoje acontece o mesmo: a prisão está repleta de pobres que, curiosamente, são de maioria “nãobranca”. Ao notar a maioria sócio-racialmente selecionada pelo sistema judiciário e policial no momento de encarcerar, o preconceito mal escondido quase aflora ao dar a entender que os princípios da criminologia lombrosiana estavam certos: haveria, sim, predisposição biológica ao “crime”. E “que se puna mais” – é o raciocínio. É o desejo de chicote que o antipetista tem, da chibata que ele nunca teve em mãos, mas mesmo assim sente muita saudade. Bons tempos devem ter sido aqueles de quando, apesar de em lei não se poderem matar os negros, na prática, sim.
E não surpreende que todas essas bandeiras anti-“minorias” tenham São Paulo como solo fértil. Primeiramente, os desbravadores do sertão; depois, os barões do café e, também, seguindo até os dias de hoje, a “locomotiva do Brasil”. O lugar que mais se beneficia economicamente com a desigualdade de um país como o Brasil precisa ser aquele em que qualquer bandeira que prometa uma melhor distribuição de renda precisa ser totalmente rechaçada. É claro que há a desculpa esfarrapada da corrupção, mas isso não deveria enganar nem o mais ingênuo dos otários, uma vez que são criticadas apenas as corrupções do partido dito de esquerda que parece pôr em risco o poder político da elite, nunca as do seu partido porta-voz (porta-voz dos interesses da sua classe de rentistas. Porta-voz da política de tolerância zero contra “o crime”. Porta-voz da criminalização dos movimentos sociais). Na realidade, mais importante do que os escândalos de desvio de dinheiro público desse partido adversário é a estrela vermelha como slogan. É o conflito simbólico resultante do fato de esse partido ter como liderança um ex-sindicalista e sempre se associar à classe que não é a alta. Trata-se de um partido que se vincula simbolicamente à ralé da sociedade e procura atender aos seus anseios (de forma um tanto acanhada, diriam os mais revoltosos). Mas a ralé é a ralé. “Por que a ralé entra no planejamento político?” se pergunta o antipetista. A ralé que apodreça na senzala, nas prisões, nos sertões, na favela, na pobreza. O antipetista diz pensar que não existe uma causa socialmente relevante para a existência de problemas que são, na realidade (diz ele), fruto de naturezas humanas diferentes.
Trata-se apenas da atualização de um discurso muito antigo.
E o mais curioso é que esse discurso não tem se restringido apenas às classes que mais lucram com o brutal sistema sócio-econômico brasileiro: ele provém também das classes médias com grande vigor e, curiosamente, também das classes baixas. Em sociedade que continua naturalizando como falha biológica a desigualdade social, ninguém quer se associar à ralé. Pode-se até não se ter ganhado dinheiro na vida como ganhou a Maité Proença, mas é importante ser antipetista como ela. Dizer-se antipetista é colocar-se discursivamente mais próximo da classe patronal e, por isso, simbolicamente mais longe da senzala, da prisão, do sertão, da favela e da pobreza, por mais que materialmente a ligação efetiva seja com esse mundo, não com o senhorial. E talvez até fizesse sentido, em um primeiro momento, que se dissesse defender os interesses dos senhores. Afinal, todas as armas estão apontadas caso se seja negro, pobre e minimamente relacionado a movimentos sociais: as armas são a rede Globo (como cabeça de um grupo também formado pelos jornais O Globo, O Estado de São Paulo e a irresponsável revista Veja), a polícia militar e a recusa do mercado de trabalho. Mas não se trata mais apenas de uma artimanha das classes mais pobres. O sentimento entranhou-se. Mas o motivo do “entranhamento” do antipetismo inclusive nas classes pobres é assunto para outro texto.
Seja para o antipetista rico, seja para o antipetista pobre, por mais que se tenha perfeita consciência da desigualdade social no Brasil, programa social é panela de fazer vagabundo. A culpa é dele. A punição é para ele. Afinal, a violência da classe pobre com relação à rica sempre foi vista como crime. Já a violência da classe rica com relação à classe pobre é correção. Ao invés de corrigir e/ou eliminar os pobres, esse partido vermelho diz querer eliminar a pobreza. E como eliminar a pobreza sem eliminar os pobres? Talvez utilizando-se de todos os meios legais para distribuir a renda, o que, aliás, é o que se tem tentado fazer com algum grau de êxito.
Aliás, o Brasil saiu pela primeira vez do mapa de subalimentação da ONU. Mas… isso é aumento de Índice de Desenvolvimento Humano? Sim, é mais um resultado do constante aumento do IDH brasileiro. Índice esse, aliás, que não entra na conta do PIB. Mas o Brasil precisaria (dizem tanto a mídia brasileira quanto o FMI) ter feito um superávit maior! Por que o Brasil esteve nesses últimos anos mais preocupado em distribuir a renda? Ora, esta não deveria ser a questão principal, diria a ciência exata que é a economia; a questão principal era o crescimento econômico, nem que fosse por meio, novamente, da “via prussiana brasileira”, como já foi diversas vezes chamada a selvagem maneira brasileira de crescer.
Até porque, segundo o antipetista, não se trata de uma gigantesca desigualdade social de um país que teve mais de três séculos de escravidão. Não. Segundo ele, se trata de uma diferença entre “país produtivo” e “país improdutivo”. E tampouco se trata de “distribuição de renda”, isso é discurso ideológico de esquerdista. Na verdade, é “país produtivo pagando a conta do assistencialismo de Estado ao país improdutivo”. No seu raciocínio, se rico ganha bolsa para estudar no exterior, é investimento bom; se pobre ganha bolsa para conseguir não morrer de fome para tentar exercer (com as condições biológicas exigidas para tal) alguma atividade produtiva, aí o dinheiro foi mal investido. Porque, diz ele, o que o governo deveria fazer era ensinar a pescar ao invés de dar o peixe. Entretanto, o filho do antipetista, quando vai aprender qualquer coisa na escola, ganha um café da manhã reforçado, porque ele, o antipetista pai, sabe perfeitamente bem a importância desse fato. Por isso, se for um bom pai, colocará à disposição do filho o necessário de carboidrato, proteínas, vitaminas, mega x, y e z. Sabe que se o filho dele estiver desnutrido (imagem horrenda que nunca lhe ocorreu jamais), não será capaz de aprender nada. Só que no caso dos outros, a nutrição tão necessária para qualquer processo de aprendizagem é safadamente ignorado. É que o raciocínio da Casa Grande é e sempre foi um raciocínio safado: os “naturalmente” “vagabundos”, “indecentes”, “indolentes”, aprendem com a dor. Por isso, a política deveria considerar ele. Só ele. E caso você não concorde com o raciocínio dele, você não pode jamais estar sendo razoável. Você é burro, diria o Jabor. Você está se aliando aos analfabetos para perpetuar a burrice, a asnice, a jumentice brasileira. Não o contrário. E assim sendo, se você é petista, você é burro; se é tucano, é inteligente. Como se nota, novamente entra em cena a tal neutralidade das escolhas políticas e político-econômicas. Não se trata de “escolha”. Trata-se de “saber”, de “descobrir” o valor intrínseco do combate ao PT. Se não sabe, é burro…
É curioso até esse raciocínio. Se não fosse trágico, seria cômico.
Por essas e outras não é necessário ser petista para notar que o antipetismo é uma versão atualizada de uma ideia que infelizmente perpassa toda a história do Brasil. Como nos contou Renato Janine Ribeiro recentemente em entrevista à CartaCapital, nos anos 1960, quando havia a discussão sobre o fim da segregação racial nos Estados Unidos, no Brasil, dizia-se que aquilo não era necessário aqui porque os negros do Brasil sabiam bem o seu lugar. No Brasil, o pobre deveria continuar lembrando qual é o seu lugar. E qualquer menção de tentar fazê-lo esquecer se trata, diz o antipetista, de esquerdismo de gente corrupta, de burrice. Tudo o que não fortalece o domínio dos grupos que se sentem não tão privilegiados como outrora é falso, burrice, jumentice, asnice. Como já apontava Geertz, a “verdade” está em casa, e sair de casa para encarar o outro pode ser muito difícil. Por isso, é importante que a “verdade” seja apenas a verdade de casa. No caso do Brasil, é a verdade de uma Casa Grande que não consegue lidar com as consequências sociais da sua própria existência. Reclama com muita indignação quando alguém diz que tentará aumentar o nível de vida dos miseráveis, e os mais exaltados se dizem com medo dos comunistas, por mais que ninguém, nessa relação, esteja pondo em risco o seu domínio. Entretanto, para o antipetista, esse domínio deveria ser o mais absoluto e completo, sem a menor contra-argumentação. E o seu domínio deveria estar no âmbito econômico, político, social. E também no intelectual, espiritual e moral.
*Rafael Mantovani é doutorando em sociologia pela USP, mestre em Ciências Sociais pela PUC/SP e colaborou para Pragmatismo Político
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/11/antiantipetismo.html



A arte de dialogar com quem fala por clichês

A difícil arte de argumentar com quem está limitado por uma bolha de intolerância e de ignorância onde só há espaço para odiar, gritar e julgar. Todos os clichês escolhidos para compor o diálogo abaixo são reais. Qualquer semelhança com o seu dia a dia não é mera coincidência

clichês de direita charge
(Charge: Vitor Teixeira)
– Petralha! Petralha!
– Desculpe, é comigo?
– Petralha imundo! Desgraçado! Corrupto! Boçal! Seu idiota intolerante!
– Acho que você está me confundindo. Votei no Eduardo Jorge no primeiro turno e no Aécio, no segundo.
– Vermelho é a cor dos comunistas do PT!
– Mas eu votei no Aécio!
– Comunista assassino! Defensor de ideologia genocida!
– Meu amigo, nem eu sou do PT, nem vermelho é monopólio de comunista, nem sou comunista, nem o PT é comunista. Aliás, nem o PT é de esquerda mais.
– Vermelho é comunista!
– Claro, Papai Noel veste vermelho por conta de uma marca de refrigerantes que está tramando a revolução.
– Você tá num país livre! Cala a boca e volta pra Cuba, seu cretino!
– Voltar como se eu não vim de lá?
– Vai morar na Venezuela, na Coreia do Norte.
– Não consigo nem tirar um final de semana para descer para Mongaguá, que dirá Venezuela…
– Tenho ódio de vocês! Se você gosta de pobre, por que não viver com eles? Mas o circo está fechando! Seus amigos vão todos parar na Papuda!
– Não, meus amigos vão todos lá para a Vila Madalena, hoje à noite, porque tem roda de samba no Ó do Borogodó.
– Então, você aprova o mensalão!
– N ão, aprovo o samba.
– Tô cansado de tudo isso! Tô cansado de vocês afundarem o Brasil com o dinheiro dos meus impostos!
– Meu amigo, acho que você não está bem. Você tá ficando vermelho…
– Cala a boca! Vermelho é cor de comunista!
– Meu Deus…
– Se eu não fosse alguém de paz, já teria te enchido de porrada para parar de falar mentira. O PT é que criou a pobreza, a divisão entre ricos e pobres e a luta de classes.
– Não sou petista, mas desconfio que isso seja um pouco mais antigo. Quando eu falo com meus alunos…

– Seu bandido! Os comunistas colocaram representantes nas escolas para doutrinar nossas crianças! Você deveria ser preso! Morra! Moooorraaaaaa!
– Como na época da ditadura?
– Saudades da época em que comunistas não podiam nos fazer mal. Deve estar ganhando um por fora para defender a Petrobras, mensaleiro dos infernos, ladrão, corrupto!
– Se tivesse, acha que estaria a pé para economizar o dinheiro do bumba?
– No dia em que os militares restituírem a ordem você vai ver. Vai ser o primeiro a ser preso para parar de roubar os cofres públicos! Vamos acabar com todas essas bolsas-esmolas e botar o povo no eixo, fazê-los trabalhar, que é trabalhando que se conquista a dignidade.
– Arbeit macht frei?
– O governo controla minha liberdade de expressão, não posso falar o que penso mais! Sou censurado!
– Imagina se pudesse.
– O Brasil está acabando.
– Nisso concordamos.
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/11/arte-de-dialogar-com-quem-fala-por-cliches.html

terça-feira, 15 de novembro de 2016

MESMERIZADA PELA INDÚSTRIA CULTURAL, A HUMANIDADE AFUNDA NUM NOVO TIPO DE BARBÁRIE.

A NAÇÃO MAIS DESENVOLVIDA ELEGEU UMA CRIATURA DA INDÚSTRIA CULTURAL (extrato)


"...as luzes da razão científica transmutaram-se em mistificação massificadora. Hollywood, o rádio, desenhos animados, o jazz e o pop configuravam a indústria cultural. Ela é o triunfo da mercadoria e do mito sobre o esclarecimento libertário.

As usinas da cultura oferecem produtos que são sempre a mesma coisa: mais uma novela, uma série de internet, um blockbuster, um best-seller, um meme, um funk pancadão. Na cela de seu celular, ou ante uma pergunta do Enem, o homem automático se crê livre.
Trump quando comandava o reality show O aprendiz
Divertir-se, para ele, significa teclar um like e mudar de tela, estar de acordo com a vida mutilada. Por isso, Adorno e Horkheimer afirmam que a humanidade, 'em vez de entrar numa condição verdadeiramente humana, afunda num novo tipo de barbárie'.

...A nação de maior desenvolvimento científico e cultural da Terra, de bem assentada democracia, elegeu (1) uma criatura da indústria cultural.

Um astro de reality show será presidente. Trump é uma figura do progresso. Seu modo de comunicação preferido é o Twitter. Seus comícios combinam a oratória de um rapper com a de um comediante de stand-up. Tem a retórica violenta de um blogueiro.

Reagan: canastrão em Hollywood e na Casa Branca
O racismo, a demagogia e a agressividade de Trump condizem com a tecnologia mais avançada. Com a combustão tóxica de forma adiantada com conteúdo atrasado, venceu os partidos tradicionais, a grande imprensa, os institutos de pesquisa, as opiniões bem estabelecidas, o venerado Obama e o sistema político inteiro.

Sua oponente, representante politicamente correta de Wall Street, teve mais votos populares. Mas Trump foi eleito segundo as regras da democracia americana. Elas permitem que possa deflagrar, sem consulta ao Congresso, uma guerra nuclear (2).

...Onde outros enxergavam caricaturas políticas e divertimentos inócuos, Adorno apontou as semelhanças entre a opressão fascista e a liberal. Onde o irracionalismo anárquico dava o tom, ele auscultou os mecanismos ocultos da exploração do capital."
1) já o havia feito: Ronald Reagan, que cumpriu dois mandatos presidenciais na década de 1980, tinha sido locutor de rádio, ator de cinema e apresentador de TV. Seu papel mais lembrado é o de delator dos colegas durante o macartismo. 
2) Torçamos para que ele ainda seja capaz de distinguir a realidade do faz-de-conta dos entretenimentos baratos e não sinta vontade de imitar os presidentes de filmes de sci-fi, que desencadeiam o apocalipse nuclear...  
 https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/mesmerizada-pela-industria-cultural.html

JAIR BOLSONARO EM 10 LIÇÕES


1. “O erro da ditadura foi torturar e não matar.” (sobre os crimes cometidos pelo Exército –do qual ele foi oficial– e outras forças repressivas brasileiras no período 1964/85)

2. “Pinochet devia ter matado mais gente.” (sobre o golpista chileno que usurpou o poder por meio de um banho de sangue)

3. “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.” (em entrevista à Playboy)

4. “Não te estupro porque você não merece.” (em bate-boca com a deputada Maria do Rosário)

5. “Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem educados” (respondendo a Preta Gil, que lhe indagou o que faria se seus filhos se relacionassem com uma mulher negra ou com homossexuais)

6. “A PM devia ter matado 1.000 e não 111 presos.” (sobre o Massacre do Carandiru)

7. “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater.” (sobre campanhas contra a homofobia)

8. “Você é uma idiota. Você é uma analfabeta. Está censurada!” (em bate-boca com a repórter Manuela Borges, da Rede TV)

9. “Parlamentar não deve andar de ônibus." (declaração publicada pelo jornal O Dia em 2013)

10. “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida.” (portanto, justificou, deixa de comparecer no emprego durante os últimos meses de gravidez e também no mês subsequente ao parto )
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(frases do deputado federal ultradireitista Jair Bolsonaro compiladas por Fernando Paladini e Guilherme Eufrasio, estudantes da UFSC, e publicadas pelo 
companheiro Rui Martins no Correio do Brasil/Direto da Redação)
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/jair-bolsonaro-em-10-licoes.html

A República de mentira. Ou as mentiras da República que nunca foi


Sempre que ocorre um feriado pátrio no Brasil, faz-se a manjada pergunta: "as pessoas sabem o significado do 7 de Setembro, do 15 de Novembro?" Em muitos casos não sabem, porém, o cerne da questão não é nem esse. O mais correto seria questionar se o brasileiro reconhece os caminhos históricos que produziram a Independência do país ou que levaram à Proclamação da República. Nesse caso, o desconhecimento de causa é dos mais gritantes. Enquanto isso, a execução do Hino Nacional em eventos esportivos é obrigatória, bem como dentro das escolas, isso sem falar no folder a respeito do Dia da Bandeira, que foi distribuído nesse mês de novembro para vários estudantes brasileiros; segundo o próprio, respeitar e cultuar a bandeira do Brasil denota educação e civismo. Só mesmo em um país débil como esse verifica-se esta idolatria das externalidades, estas tolas abstrações sem nenhum real significado político.
Considerando a Proclamação da República e o Dia da Bandeira, que se situam no contexto destes dias que estamos vivenciando, o besteirol patrioteiro um vez mais surge como uma espécie de falso consolo perante uma população que mal sabe o que se passou em sua história, o que leva muitos incautos a pensarem confortavelmente que cantar o Hino, reverenciar a Bandeira ou louvar uma República anódina lhes confere indulto moral. Haja besteira!
A República no Brasil foi proclamada por militares positivistas, o que é fato, ao contrário do que tem tentado transmitir um certo revisionismo republicano. Mais do que isso, o positivismo ditou os rumos da Proclamação em um período histórico no qual a filosofia positivista já se encontrava para lá de marginalizada no mundo desenvolvido, entretanto, como retardatário no que quer se refira aos processos de desenvolvimento intelectual, foi o paradigma a dar as cartas do republicanismo no Brasil. O lema "Ordem e Progresso" inscrito na bandeira é a marca indelével do positivismo republicano. Reverenciar o positivismo, uma filosofia rigorosamente falha, ainda por cima um positivismo extemporâneo? Definitivamente, algo está muito errado. O que denotaria educação e conhecimento cívico seria fazer a crítica da bandeira, não cultuá-la. Da mesma forma que o bom alvitre manda refletir criticamente acerca do nosso republicanismo de mentira.
A etimologia do termo "república" vem do latim res publica, isto é, "coisa pública". Daí pode se presumir corretamente que em uma república a população deva ter participação efetiva nas discussões políticas. Aqui é interessante recorrer à Antiguidade Clássica, dado que a própria expressão da cidadania se dá por meio da participação política, como ensinou o legado grego. O cidadão, desse modo, é aquele que debate política. Se grande parte da população brasileira nem sequer sabe ao que se refere o 15/11, nem o significado de "república", quanto mais o que é ser cidadão republicano, indaga-se: o Brasil é um país formado por uma maioria de cidadãos politicamente cônscios de deveres e direitos? O "não" que se faz resposta óbvia é capaz inclusive de oferecer pistas importantes sobre o atual regime político brasileiro.

Montesquieu deixou um contributo essencial no entendimento de um regime republicano. Uma vez que um sistema do tipo deve guardar lugar para a participação efetiva da população nos rumos políticos, não pode de maneira alguma haver concentração de poderes nas mãos de quem governa. É daí exatamente que vem a separação dos Três Poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário que, para o pleno funcionamento de uma República, precisam necessariamente atuar autônoma e separadamente. Fica então outra pergunta ao leitor: em quais conjunturas históricas desde 1889 até hoje teve-se no Brasil um quadro político com clara separação dos Três Poderes? Um rápido flashback de lá para cá nos mostra na sequência: uma República proclamada por militares de alta patente, o poder das aristocracias agrárias com seu viés claramente patriarcal, uma era de desenvolvimentismos, ora ditatoriais e populistas, ora mais abertos polticamente, mas sempre economicamente centralizadores, ditadura militar, abertura política da década de 1980, uma tentativa atrapalhada de construir a democracia, governo FHC, com controle da economia e fortalecimento institucional, todavia incapaz de reformas importantes, como a tributária, a partidária e a educacional.

A historiografia do revisionismo republicano, se é que pode assim ser chamada, pois se resume a poucos estudos, tem afirmado que a República representou um novo sistema político no qual a população depositava esperanças de melhora. "Esperança"?! Um termo dos mais vagos é o máximo que o republicanismo dos militares pode ter representado, o que basta para reforçar a fragilidade de uma conjuntura republicana sem participação civil. O erro é supor que a essência de um sistema político está na sua forma, não no conteúdo. Se a maior parte da população brasileira assistiu bestializada ao desfile militar de 15/11/1889, segundo o famoso dito de Aristides Lobo, tão bem estudado na obra de José Murilo de Carvalho, e nem mesmo sabia - e continua sem sabê-lo - os significados políticos do republicanismo, de que adiantaria depositar esperanças nele? Teria como cumprir deveres e exigir direitos? Assim como a democracia, a república, sua irmã xipófaga, depende de uma cultura a ser exercida no dia-a-dia. Em um sistema verdadeiramente republicano e democrático a população não vive sob ele, o que faria dela não mais do que uma multidão de súditos, a população o faz viver. Em termos hodiernos, a cultura republicana e democrática se traduz na busca constante do resguardo dos mecanismos de representatividade, no incessante debate político e na livre associação, elementos que devido à estrutura política brasileira, sempre pautada na ideia de que a sociedade existe para o governo, quando o correto seria o oposto, não podem ser colocados em prática.
Os mecanismos de representatividade pouco se fizeram solidamente desde 1889. O debate político é quase inexistente em uma sociedade de massas dominada pela ignorância. A livre associação não se pode erigir sobre uma centralização tão avassaladora e onde não há federalismo algum. República e democracia no Brasil, só para quem acredita que a reverência aos símbolos pátrios pode fazer as vezes da correta atuação do cidadão em assuntos realmente capazes de propiciar desenvolvimento ao país. Só o que sobra para estes são o falso consolo e as patéticas manifestações patrioteiras de quem se furta a refletir sobre os tantos problemas que afligem esta combalida nação. É a cara do Brasil!
http://aristaire.blogspot.com.br/2012/11/republica-de-mentira-ou-as-mentiras-da.html

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

NA GUERRA, QUEM MORRE SÃO OS PEÕES...

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"O erro da ditadura foi torturar e não matar”
 (deputado federal Jair Bolsonaro, militar da reserva)
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Quando analisamos os fatos ocorridos na 1ª Guerra Mundial (que decorreu do desenvolvimento de um novo nível de produtividade de mercadorias como consequência da segunda revolução industrial fordista estadunidense do início do século XX e fenômenos sociais por ela desencadeados, que geraram a disputa pela hegemonia do mercado internacional), podemos extrair alguns ensinamentos elucidativos quanto ao sentido deste genocídio que ceifou a vida de 20 milhões de pessoas. Tratou-se do da primeira aparição dos sintomas, hoje, consolidados, do que viria a ser a globalização dos mercados.

Naquele que foi até então o maior confronto militar da História, demonstrando toda a bestialidade da chamada civilização ocidental, forças militares europeias, sedentas de poderio econômico-militar, jogaram na fogueira de uma sangrenta guerra mundial (na qual foram utilizados gases mortíferos contra soldados entrincheirados e sem proteção suficiente contra tal recurso ignóbil), milhões de homens incultos que sequer sabiam o porquê de ali estarem e sem que sequer entendessem o idioma dos seus companheiros de armas e adversários. 

A maioria desses homens vinha das colônias europeias na Ásia e na África (principalmente os indianos, chineses e africanos da costa ocidental norte da África, mas também de muitos outros lugares). 

Foram milhões de pessoas trazidas compulsoriamente de seus rincões rurais e doutrinadas para o heroísmo militar por chefes militares que falavam os seus idiomas ou dialetos. 

São muitos os tristes relatos dos soldados saudosos das suas terras natais; da incompreensão quanto ao que estavam fazendo (matar pessoas contra as quais não tinham o menor ressentimento); e da certeza da morte iminente, que ficaram gravados em cartas, fotos, filmes e até em falas e músicas em gravações de discos.     

Eram peões, enfim. 

Recorro a este exemplo histórico, emblemático do caráter belicista do capitalismo (que elimina todo e qualquer sentido de convivência fraterna e virtudes humanas, positivando o seu oposto), para dizer que vivemos sob uma mesma mentalidade, cem anos após. 

O festival de horrores foi mais intenso ainda na 2ª Guerra Mundial, ocorrida apenas 21 anos depois, cujo balanço macabro saltou para mais de 50 milhões de óbitos. Então, não podemos jamais esquecer estas lições que parecem já se esmaecer em nossa memória coletiva, embora estejam muito longe de pertencerem a um passado sem conexão com o presente. 

Ledo engano. As causas da guerra de ontem são as mesmas dos dias de hoje, com o agravamento das diferenças próprias da realidade tecnológica, com seus impasses político-econômicos e monstruosa letalidade. 

Às guerras convencionais que ocorrem hoje mundo afora, ou conflitos políticos internos de guerras civis que não são poucos (Ucrânia, Síria, Cáucaso do Norte, Iraque, Afeganistão, Mali, Nigéria, Sudão, Sudão do Sul, Líbia, República Cento-Africana, Somália, República do Congo, Paquistão, Filipinas, Iêmen, Israel/Palestina, e outras) somam-se sintomas de guerra urbana como as explosões de revoltas contra a intolerância racista nos Estados Unidos. 

Tudo isso resulta de uma forma de mediação social one world que se tornou anacrônica. 

No Brasil, país tido tradicionalmente como infenso às guerras convencionais e que promove uma das maiores miscigenações raciais do planeta (que é, verdadeiramente, um mérito nosso!), observamos um número de assassinatos urbanos que supera muitas das guerras hoje em curso e acima citadas. 

Tivemos em 2014 uma média nacional de 143 mortes por homicídios/dia (hoje está maior), que correspondeu a um total de mais de 52.000 óbitos por ano. Espantosas e inaceitáveis 25,81 mortes para cada 100 mil habitantes, que, se lhes fossem aplicados os critérios da Organização Mundial de Saúde, equivaleriam a um surto epidêmico. 

O pacifista Brasil tem uma guerra urbana cujas causas e consequências são atribuídas única e exclusivamente à ineficiência do aparato policial, sem que se discutam as causas e responsabilidades sistêmicas em tal genocídio. 

A grande maioria das pessoas que engrossam essas estatísticas é de jovens pobres da periferia, em sua maioria negros, miscigenados de negros, índios e brancos pobres, analfabetos. Integrantes, enfim, da geração nem-nem (que nem estuda nem trabalha, não apenas por culpa deles mesmos, mas também, e principalmente, devido a questões estruturais sistêmicas). 

Podemos concluir sem qualquer esforço sociológico mais acurado que somos uma fábrica de criminosos marginalizados e descamisados (afora os tradicionais criminosos do colarinho branco, que aqui brotam como cogumelos, mas não são encontrados nas estatísticas de assassinatos).  

Não há estrutura policial, judiciária e prisional que possa conter tal avalanche de criminalidade. 

Qualquer um que analise o dia-a-dia de uma delegacia em qualquer estado brasileiro vai notar a total incapacidade do aparelho policial em cumprir a sua função social (e isto quando seus membros não estão em greve, o que vem ocorrendo com frequência...). 

Da mesma forma, o aparelho judiciário (juízes, promotores públicos, funcionários e logística funcional) vem se mostrando incapaz de cumprir os trâmites legais e e julgar todos os processos. 

E, por fim, podemos constatar que os estabelecimentos prisionais nos remetem às masmorras medievais, como todos sabemos e como deve ter observado a ministra Carmem Lúcia, presidente do Conselho Nacional de Justiça, ao visitar recentemente tais estabelecimentos.

Um preso é financeiramente mais oneroso do que um professor e o Estado capitalista falido, agora com dificuldades de pagar até salários de aposentados e funcionários ativos, não pode fazer frente a criminalidade de tal proporção. Assim, os seus agentes policiais matam e morrem sem que nos aproximemos um milímetro da solução de tal problema social crônico. 

Daí a impropriedade (para não dizer ignomínia) de se considerar que a responsabilidade pelo genocídio urbano brasileiro é das vítimas. E seria também hipócrita inculpar apenas as autoridades, fazendo de conta que não temos nada com isso, numa cômoda transferência de responsabilidades, até sermos atingidos pessoalmente pela violência... 

Nas estatísticas das mortes estão também incluídos os jovens policiais egressos da periferia que, do assim como antigos feitores negros de escravos (ou como alguns judeus nos campos de concentração nazistas), açoitam os seus irmãos de raça, matando e morrendo em nome de um sistema que oprime a todos eles. 

Seja na guerra convencional ou na urbana, hoje como ontem, os que morrem são quase sempre os peões. 
Por Dalton Rosado
https://naufrago-da-utopia.blogspot.com.br/2016/11/na-guerra-quem-morre-sao-os-peoes.html