quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Antígona e o governo Lula

Odair Rodrigues *


Cinco eleições diretas, sete presidentes empossados e 26 anos após o fim do golpe de 1964 e ainda se teme enfrentar os criminosos do regime? Em nome de quê? De uma estabilidade política que já não é construída nas salas do SNI?
A peça Antígona, de Sófocles (496 - 406a.c.), tem como tema central a defesa de leis que devem ser invioláveis por qualquer ser humano ou Estado.

A obra inicia-se com o relato da morte simultânea das personagens Etéocles e Polinices, irmãos de Antígona, que combateram entre si às portas da cidade Estado de Tebas. Creonte, rei de Tebas, decreta honras fúnebres a Etéocles e proíbe o sepultamento Polinices, porque este voltou contra o tirano ao aliar-se aos inimigos da cidade Estado de Argos.

Antígona, ao saber da proibição, desafia o decreto real e realiza os rituais do funeral de Polinices. Capturada, defende a justiça como um valor acima de governantes e do Estado para argumentar sobre o direito de enterrar dignamente seus mortos.

As tradições de nossa cultura, sejam elas originadas na Grécia, África, ou nos ensinamentos dos povos que sobreviveram ao genocídio da colonização, sempre prezaram o enterro digno dos mortos.
Toda vez que esse princípio humanitário não foi respeitado, as consequências para o povo foram as mais terríveis porque somente uma tirania consegue suplantar um direito inalienável até mesmo aos carrascos.

Na tragédia de Sófocles, Antígona levanta sua voz contra o silenciamento opressivo de Creonte – O povo fala. Por mais os tiranos apreciem um povo mudo, o povo fala. Aos sussurros, a medo, na semi-escuridão, mas fala – No Brasil muitas foram as Antígonas que elevaram sua voz contra a ditadura de 1964/1984, e tiveram o mesmo destino da personagem ao serem condenadas à morte física ou pelo silêncio.

Enterrar os mortos, não o passado

Enterrar os mortos da ditadura militar compreende localizar os corpos, saber como foram eliminados e por quem. Isso extrapola o direito das famílias. É um direito da coletividade que não pode viver sob a ameaça constante de um estado tirânico que suspende as garantias de vida, de defesa e sepultamento dos cidadãos.

Nossa tragédia se repete todos os dias nas delegacias, nos presídios, na cidade e no campo. A impunidade aos assassinos e torturadores que comandaram um dos períodos mais execráveis da história nacional, naturalizou a tortura, o sequestro, a queima de arquivo perpetrada todos os dias por organizações criminosas e paramilitares atuantes no país.

Argentina, Chile, Uruguai e Peru condenaram seus carrascos. Por que não aqui? Por quanto tempo vamos temer uma “reação” dos militares? Por quanto tempo ficarão os assassinos livres e os corpos insepultos? Por quanto tempo canalhas, como os de uma determinada folha diária, nos dirão que ouve uma ditabranda?

Não podemos enterrar o passado como querem fazer os mesquitas, os frias, os civitas, os marinhos, jobins, tucanos e demos. Seria como aguardar, passivamente, outra ditadura com todas sua truculência e desrespeito aos vivos e mortos.

Em nome de quê?

Cinco eleições diretas, sete presidentes empossados e 26 anos após o fim do golpe de 1964 e ainda se teme enfrentar os criminosos do regime? Em nome de quê? De uma estabilidade política que já não é construída nas salas do SNI?

O governo Lula já se mostrou ousado na economia, no protagonismo do Brasil no exterior, na defesa da autonomia dos países da Ámerica Latina e precisa ter a coragem de aplicar a justiça aos que a negaram ao povo brasileiro. Coragem que não se confunde com a humilhação imposta pelo seu antecessor às Forças Armadas ao reduzir seu seus recursos e diminuindo seu papel como instituição de defesa do território nacional.

Coragem para que possamos enterrar os mortos, contar a história de sangue, solidariedade e luta da qual o presidente e muitos de seu governo participaram.

Esse papel histórico não será concretizado no governo Lula se continuar deixando que o ministro Nelson Jobim nos arraste para a tragédia contínua da impunidade dos terroristas de Estado. Até que façamos justiça, nossa voz também se manisfesta pela fala de Antígona, dos mortos e torturados do Araguaia, do DOPS, DEOPS, dos transportados pelos carros da Folha de São Paulo, dos corpos do cemitério clandestino de Perus...

*É professor de língua e literatura no Estado do Paraná, web cronista, poeta, e militante da Unegro e do PCdoB. Autor do blog Ruminemos:

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