sábado, 3 de abril de 2010

A arrrogância de Globo tem um tom Dourado

Só pra variar, a Globo se comportou muito mal no BBB 10. A escolha de três homossexuais assumidos, um fato inédito que poderia promover a tolerância, acabou servindo para mostrar o quanto nosso país ainda é preconceituoso. Não foi à toa que o vencedor foi quem bateu de frente com os gays. Tá certo que eles não ajudaram (Serginho é um alienado; Angélica, quando não apagada, é burra, e Dicesar passou a imagem de falso).











Mas a edição certamente favoreceu Dourado, e a ideia do Poder Supremo (até o nome é mezzo nazista) consolidou o favoritismo do troglodita.





Sem dúvida o pior, pior mesmo, foi a Globo ter transmitido a já-clássica fala de Dourado de que “hetero não pega Aids”. O lutador profissional afirmou que consultou médicos, que lhe disseram que “um homem transmite para outro homem, mas uma mulher não passa para o homem”. Apesar do pay-per-view, o BBB é um programa editado.





Se a Globo quisesse, se tivesse alguma responsabilidade, poderia ter deixado de fora essa declaração atroz, ignorante e homofóbica (porque reforça aquele velho clichê da Aids ser um “câncer gay”, uma praga de Deus contra essa "pouca vergonha" – mesmo que o grupo contaminado que mais cresça no mundo seja o de mulheres héteros). Melhor: podia ter corrigido a desinformação logo em seguida. Mas não. Depois da declaração do brucutu, surgiu Pedro Bial (que pra mim é idêntico ao Dourado, o mesmo preconceito, a mesma grosseria) e, debochado, avisou que cada participante diz o que quiser, e que as pessoas devem consultar o site do Ministério da Saúde para se informar sobre transmissão da Aids.





Olha só o tamanho da irresponsabilidade! Não custa lembrar que as tevês são concessões públicas. Não podem (ou não deveriam poder) fazer o que bem entendem. Há regras claras para essa concessão. Mas é só falar nisso que a mídia esperneia, grita “Censura!”, chora que a liberdade de expressão está acima de tudo (ela precisa de liberdade para aumentar as estatísticas da Aids?) , e clama que o Brasil está se transformando numa Venezuela (onde o Chavez não renovou a concessão pública de uma emissora, uma entre as várias responsáveis pelo golpe militar de 2000. As emissoras precisam ter liberdade para dar golpes de Estado?).





O que eu penso da Globo não é novidade, pois sou de esquerda e do tempo das Diretas Já (1983-84). Pra quem não sabe das Diretas, a Globo ocultou um movimento gigantesco que pedia o voto pra presidente. Ainda estávamos na ditadura militar, e a Globo optou por não transmitir as dezenas de manifestações que pipocavam em todo o país, algumas com centenas de milhares de pessoas. A emissora mentiu descaradamente, fingindo que aquelas pessoas estariam reunidas na Praça da Sé ou na Candelária por algum outro motivo.





A revolta popular contra a emissora foi tão grande que a Globo teve que cobrir o logotipo de seus carros porque o pessoal ameaçava quebrá-los. A gente gritava “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Mas o povo era muito mais bobo em 89, quando o Jornal Nacional ainda tinha índices de 80 pontos no Ibope e força para poder decidir uma eleição. Hoje, tem 30 pontos. Ficou mais difícil manipular todo um país. Mas bem que se empenha.





O que mais me deixa indignada é a arrogância da emissora (e de toda a grande mídia, que raramente reconhece seus erros). No caso da declaração do troglô, o Ministério Público teve que exigir que a Globo corrigisse o que Dourado falou. A Globo enrolou durante dias, não quis dar declarações (essas empresas de comunicação não são lá muito comunicativas) e, quando finalmente se manifestou, veio com um discurso dado por Bial sobre como a Globo é uma campeã da diversidade e da liberdade de expressão. Nenhuma correção, nenhum pedido de desculpas. Pelo contrário.





Apenas na véspera da final a Globo, muitíssimo a contragosto, cumpriu o que determinou o Ministério Público. Passou um informe antes dos comerciais. Não com a voz do Bial, não nas palavras do Dourado, mas algo formal, visivelmente distante do programa. Foi o jeito da Globo reclamar que foi forçada, pobrezinha, a corrigir a fala de um participante de um reality show. E onde já se viu o Estado pautar uma empresa privada de comunicação? Tem que ser o oposto, ué! Porque, como sabemos, governo é sempre ineficaz e corrupto. Competente mesmo é a iniciativa privada! Competente e sem nepotismo! Os filhos do Roberto Marinho continuam no comando da emissora pela sua eficiência comprovada, não por serem filhos do homem (mas aí a Globo não está sozinha: 80% das empresas privadas são negócios de família. Nepotismo só é algo feio e malvado quando é feito pelo Estado).





Na eliminação do Dicesar, Bial fez aquele teatrinho de pedir que dois inimigos durante o programa inteiro se cumprimentassem. Como se isso apagasse as declarações de Dourado. Uma das últimas havia sido “Apesar de ser viado, seje [sic] homem”. E, na final, a Globo decretou que Dourado não é homofóbico. Não importa que a ONG Arco-Íris diga que o troglô é homofóbico (a mesma ONG, inclusive, já havia sido hackeada e tirada do ar pela Máfia Dourada). A opinião dos alvos da homofobia não vale nada. O que vale é a palavra do Bial (aquele um que foi pego, em off no Fantástico, dizendo que balé é coisa de viado). Falou que Dourado não é homofóbico, tá falado. Afinal, a Globo já deu inúmeras provas na sua história de como é democrática e aberta a discussões.





By: Escreva Lola Escreva

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