domingo, 2 de novembro de 2014

DIVIDIR PARA CONQUISTAR

A eleição acabou, mas ainda são ouvidos os ecos de uma facção que não aceita as regras democráticas. Como disse uma prima, ao votar, você endossa o que as urnas apontam, seja favorável às suas ideias ou não. Infelizmente, não é o pensamento dominante entre os defensores do impeachment: insistem em absurdos, como a suposta supressão das liberdades individuais, vociferando contra o governo a plenos pulmões e por todos os canais possíveis e imagináveis.


Esse pessoal lembra os boleiros sulamericanos. Argentinos, chilenos, uruguaios e paraguaios são useiros e vezeiros desta prática: quando percebem a derrota iminente e que não têm mais forças para reagir, se entregam às botinadas, procuram todo tipo de confusão, tentam diminuir a conquista do rival, não aceitando o destino inglório da derrota.

Para não ser mal interpretado, esclareço que é apenas uma metáfora, pois eleição não é uma competição desportiva. Ninguém é obrigado a comemorar a derrota, mas sim a acatar o resultado legítimo que representa a voz do povo. Não existe o tal Fla x Flu eleitoral, como bem lembrou Ana Moser: você faz opções políticas racionais e, independente das escolhas da maioria, as mantém, de acordo com a força das suas convicções.

Outra tese berrada por essa turma é a da divisão do país. Um ícone das liberdades ameaçadas pelo governo, Romeu Tuma Jr.propôs um muro ao estilo Palestina x Israel, para dividir o Brasil entre o que ele gosta e o que ele despreza. É interessante que ele toma para seu lado MG e RJ, estados onde Dilma venceu e desdenha de RO, AC e RR, onde seu candidato saiu-se melhor. Deste "país da maravilhas" de Tuma Jr., saíram quase 30 dos 54 milhões de votos que elegeram Dilma Presidenta da República. Outro defensor das garantias ameaçadas pelo PT, o coronel Telhada dá ares de seriedade ao seu manifesto: "Já que o Brasil fez sua escolha pelo PT entendo que o Sul e Sudeste (exceto Minas Gerais e Rio de Janeiro que optaram pelo PT) iniciem o processo de independência de um país que prefere esmola do que o trabalho, preferem a desordem ao invés da ordem, preferem o voto de cabresto do que a liberdade".

Não é a primeira vez que o Brasil é atacado por separatistas. Na ditadura militar, de onde emergem alguns destes que pregam novamente a secessão, ficou famoso o slogan "Ame-o ou Deixe-o", sem qualquer espaço para o diálogo ou a construção de uma nação plural. A mensagem era clara: ou se amava o país, do jeitinho que os militares o tratavam, ou a porta da rua era serventia da casa. Ao contrário do que fez Lobão, que prometeu chispar e arregou, essa possibilidade não existia naquela época.

Como disse Breno Altman, por ora, a tese da divisão do país mal acoberta a tentativa de desestabilização e sabotagem de um governo recém-eleito. Em sua faceta mais visível, esse tese busca coagir este governo a medidas e nomeações afeitas ao bloco político-social batido nas urnas. Como se a vitória por margem estreita retirasse legitimidade da governante, que só a recuperaria se atendesse aos interesses dos adversários. Alguém imagina o contrário, Aécio Neves eleito por exígua diferença sendo obrigado a nomear um ministro do trabalho sindicalista ou ainda a reduzir taxa de juros como indutor do crescimento da economia?

Sobre a vantagem da candidata eleita ser pequena e isso ensejar o movimento sepatista, é sempre bom ter à mãonúmeros confiáveis. Em 2012, na França, Hollande derrotou Sarkozy por 51,6 x 48,4, mas nem o Le Pen ousou questionar a legitimidade do sufrágio.

É a velha chantagem do dividir para conquistar. Vem de Felipe da Macedônia, passa por Júlio César e Napoleão. Os europeus ao chegarem aqui, a utilizaram, explorando as rivalidades locais entre os indígenas. Expediente retido à exaustão nas colõnias da África e da Ásia. Ao colonizado, resta o papel de joguete das potências, o que cai como luva na mentalidade de Tuma Jr, Telhada, Lobão e companhia golpista.
sugado do: http://oantipig.blogspot.com.br/2014/10/dividir-para-conquistar.html

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