domingo, 8 de novembro de 2009

Caetano e os analfabetos

A história ensina a não confiar nos artistas. A quantidade de artistas que aderiram às teses de Mussolini, alguns mesmos tornando-se verdadeiros heróis do Il Duce, como o poeta D'Annunzio, já mostra que um artista entende tanto de política quanto de matemática. Por acaso, há artistas que entendem de política, como há artistas que talvez entendam de matemática; mas trata-se, por assim dizer, de coincidências.

Nosso alegre boêmio, Augusto Frederico Schmidt, por exemplo, apoiou o golpe de Estado de 1964, ou pelo menos foi isso que os jornais deram a entender, quando publicaram manchete com uma frase sua favorável ao regime. Céline teve que esperar alguns anos antes de poder retornar a França, pois havia sido condenado à morte por causa de sua posição dúbia - em alguns momentos até favorável - quanto ao nazismo; e o incomparável Knut Hansum, que escrevera o romance mais doloroso do século XX, A Fome (que traz a descrição mais humana, mais viva e mais autêntica da fome, segundo Josué de Castro), filiou-se entusiasticamente ao partido nazista, recebendo, inclusive, condecorações!

Portanto, não estranhem quando um grande artista como Caetano Veloso dá voz a preconceitos tão mesquinhos, como fez na entrevista ao Estadão, na qual declarou que "votava em Marina porque ela não era analfabeta como Lula".

Dias depois, o "cafona", o "grosseiro", era, pela enésima vez, recebido pela rainha da Inglaterra, que tinha um sorriso sincero e admirativo no rosto. O analfabeto estava lá para receber um prêmio internacional da Chatham House... O Primeiro Mundo nem sempre foi o mar de rosas pacífico, limpo e desenvolvido que gostamos de imaginar. Inglaterra, França e EUA já viveram fome, guerra, miséria, revoluções, e aprenderam que somente superaram suas dificuldades em virtude da sabedoria, criatividade e força dos homens simples, dos homens do povo.

Afinal, o que é ser "analfabeto" para Caetano? Sua crítica, aliás, está na boca de muita gente. Há uma consciência de classe muito específica aqui. Sim, porque, a questão não é saber ler ou não, pois Lula sabe ler muito bem. A questão é possuir uma determinada cultura, mas qual é, exatamente, essa cultura? São os clássicos? Lula deveria ter lido a Ilíada, de Homero? Aí entramos numa situação curiosa. É que Homero era, ele sim, um analfabeto, embora no caso dele não seria possível outra condição, porque, segundo a maioria dos pesquisadores, o alfabeto grego ainda não fora inventado. Andei lendo bastante sobre isso, e descobri que uma das teorias mais respeitadas entre os estudiosos é que a pessoa que inventou o alfabeto grego (que é uma cópia do fenício, adaptada ao vocabulário grego) o fez justamente para anotar os versos de Homero. A seguinte cena deve ser imaginada: Homero recitando os versos para que esse astuto e pioneiro escrivão anote-os, e daí nasce a literatura ocidental!

Não precisamos ir tão longe. Antropólogos e historiadores vem estudando com muito afinco, desde os anos 60, o poder das culturas populares, baseadas sobretudo na tradição oral. Pode-se transmitir conhecimentos oralmente? É claro que sim, pois de outra maneira qual o sentido de pagarmos 120 mil dólares para ouvir um professor "falar" sobre Platão, numa sala em Harvard? Não poderíamos, simplesmente, ler Platão no conforto de nossa casa - e sem gastar os 120 mil dólares?

As palavras ouvidas e faladas valem menos que as palavras escritas? Bem, talvez não seja isso o que pretendia dizer Caetano, porque suas letras são "cantadas" e não "lidas", e não é preciso ter lido Levi-Strauss para saber apreciá-las corretamente. Caetano expressou uma noção sobre "etiqueta". Uma visão (embora inconscientemnete, e mesmo assim indesculpável) um tanto fascista sobre uma determinada forma de se comportar, de falar, de se expressar, e que inclui o conhecimento, mesmo que superficial, mesmo que seja apenas um verniz, sobre um cânone.

O mundo produziu milhões de livros importantes, e hoje em dia é virtualmente impossível estabelecer precisamente quais devem ser lidos ou não. Caetano não leu nem 1% desses livros, assim como Lula. Eu também não li. Por outro lado, poderia-se acusar Lula de não ter lido Dom Casmurro. De fato, é um livro interessante. Mas aí precisamos fazer um interrogatório detalhado ao presidente, porque corremos o risco de quebramos a cara se ele responder: "eu li Dom Casmurro. Não gostei muito". Aliás, é fácil entender porque um operário de chão de fábrica, sem grande interesse pela literatura universal, não demonstre entusiasmo pela história de um burguesinho ciumento...

Milhares de brasileiros leram Dom Casmurro, mas permanecem na condição de "analfabetos", pois continuam cafonas e grosseiros. Depois ter cantado em dupla, por tantas vezes, com Júnior (o irmãozinho genial da Sandy), supreendi-me com esse súbito repúdio de Caetano à estética cafona... Ah tá, Júnior com certeza não é analfabeto... Claudia Leite também não é analfabeta... É de se perguntar, além disso, se Caetano chamaria Cartola, Pixinguinha e Nelson Cavaquinho de "analfabetos", por não possuirem instrução formal e se comportarem de forma um tanto "cafona". Pixinguinha recebia seus convidados segurando um copo cheio de cachaça e Cartola, sempre um orgulhoso e inveterado cachaceiro, trabalhou como flanelinha no centro do Rio...

Porque ainda há milhões de analfabetos de verdade, que não sabem assinar o próprio nome. Há casos tristes, trágicos, de pessoas que não conseguem sequer se expressar. Todos conhecemos casos assim, em geral associados às condições econômicas miseráveis. Há outros, que, apesar de não saberem ler, desenvolveram admirável capacidade oratória. Há pessoas que lêem muito, mas não conseguem falar. Meu pai era assim, coitado. Um homem culto, mas que não conseguia encaixar uma frase em outra. Era uma espécie de analfabeto da fala, e isso o fazia sofrer muito, porque dificultava a socialização e ele era um homem que amava muito seus amigos e via-se que ele se esforçava, às vezes, para superar sua deficiência. Bebia muito em função disso, para tentar se soltar. Eu herdei um pouco dessa dificuldade e também bebia muito tentando "destravar" a língua. No colégio, sofria horrivelmente com a insuperável dificuldade em abordar as meninas, em comunicar minha admiração por elas. Mas eu acabei superando essas barreiras, e tornei-me um tagarela quase insuportável.

Enfim, a humanidade oferece uma heterogeneidade muito grande de saberes linguísticos. Neste quesito, acho que Caetano, se tivesse a oportunidade de reelaborar suas colocações, aceitaria que Lula é um mestre, e não apenas no Brasil. A sensibilidade linguística de Lula é reconhecida internacionalmente. Seria desonesto negar os fatos, e a popularidade de Lula prova isso. A própria oposição política, não querendo dar o braço a torcer sobre sua qualidade como administrador, atribui a popularidade de Lula exclusivamente à sua técnica verbal.

Então de que analfabetismo fala Caetano? Voltamos ao cânone. Caetano tem um cânone na cabeça. São os livros que ele mesmo leu, e que ele considera, preconceituosamente, que todos deveriam ler, se querem ser inteligentes. Há também a questão do comportamento. Em outras entrevistas, Caetano admitiu, muito sapecamente, que adora o jeito 'classe-média' de ser, como fazer comprar no supermercado Zona Sul, etc... Daí voltamos àquele repúdio sanguíneo ao sindicalista barbudo, grosso, cachaceiro, que não sabe segurar um garfo e faca, com quem não podemos conversar sobre vinhos franceses...

Eu conheço bem esse preconceito tolinho, esses olhos que brilham quando falamos em Marcel Proust, essa admiração canina por um diploma. O irônico de tudo é que a literatura autêntica nasce da vida, e os escritores vão as ruas estudar a personalidade de indivíduos como Lula para se inspirarem. Afinal, há os que escrevem, há os que lêem, e há os que inspiram livros. São os líderes políticos, os guerreiros, revolucionários, chefes sindicais, bandoleiros famosos.

Outro ponto que me veio à cabeça, quando li essa entrevista do Caetano, foi sobre Sancho Panza, o astuto escudeiro de Don Quixote. Sancho é uma figura fundamental no clássico de Cervantes, e até hoje talvez não tenha merecido a devida atenção. Lembrei de Sancho porque Lula é uma espécie de Sancho Panza da política. É um homem do povo que simula uma simplicidade muito maior do que a que realmente possui. Sancho Panza é muito mais prudente, esperto e lúcido do que seu patrão. Don Quixote é um bem-intencionado, um valente, um culto, mas é um indivíduo completamente destrambelhado, um louco. Sancho Panza é sua maior ligação com a realidade. E Sancho é leal e corajoso.

Outra figura muito parecida à Sancho Panza é Sam Weller, o empregado do Sr.Pickwick, no admirável romance de Charles Dickens. O escritor publicava os capítulos num folhetim. Quando introduziu Sam, houve um êxito instantâneo. Sua inserção no quinto capítulo da narrativa alavancou as vendas de forma estrondosa: do quarto número foram tirados 400 exemplares, após o surgimento da figura, a tiragem saltou para 400 mil antes mesmo do vigésimo capítulo.

Hoje poucos leram esse romance, o primeiro do escritor inglês. É um romance absurdamente hilário. As trapalhadas do Sr.Pickwick são de fazer qualquer um morrer de rir. Tão diferente das xaropadas melancólicas que Dickens irá escrever depois! Pois bem, o Sr.Pickwick resolve contratar um empregado para o ajudar em suas viagens pela Inglaterra e encontra Sam. O rapaz se revelará o verdadeiro "cérebro" do romance. É ele que inventa os planos mirabolantes e sempre bem sucedidos para tirar seu chefe das mais incríveis enrascadas. Além disso, possui um humor incomparável, e não economiza-o em momento algum. A genialidade de Sam retrata a admiração dos britânicos pela sabedoria popular, e explica a simpatia franca e humana com que a rainha Elisabeth recebe Lula toda a vez que o presidente põe os pés na ilha. Em toda Europa, a cultura (entendendo aí o comportamento, os modos, a maneira de falar) dos trabalhadores é respeitada com quase reverência. Na França, milhares de aristocratas tiveram suas cabeças cortadas por muito menos que entrevistas como essa de Caetano. Nos Estados Unidos, a criatividade do homem do povo é honorificada constantamente em filmes e livros.

Pois a cultura "livresca" que Caetano e grande parte da classe média brasileira prezam como condição mínima para uma pessoa pertencer à boa sociedade, para ser um não-analfabeto, implica também em matar a espontaneidade natural, aquela graça original, a força, a virilidade. Tantos historiadores já escreveram sobre isso, sobre a auto-censura a que o homem civilizado é sujeito, causa de tantas neuras e debilidades psíquicas! Afinal, qual o objetivo do ser humano? É ser um indivíduo com algumas leituras, ou mesmo um gênio da poesia, como D'Annunzio, mas que defende o fascismo? É ser um homem culto, porém sem graça, sem coragem, e broxa?

É muito difícil ser um homem inteiro, e conciliar o desenvolvimento pleno de todas as nossas faculdades físicas e psicológicas com uma participação criativa na sociedade. Muitos dizem que essas coisas estão ligadas, e que a debilidade psicólogica tem origem numa relação doentia e medrosa com o ambiente social. Eu acredito nisso. Gosto de participar da vida política do mundo porque sinto-me mais forte quando o faço. Sinto saúde. É uma relação de parceria. Eu ajudo (ou tento ajudar) o mundo e o mundo me ajuda.

Voltando ao analfabetismo de Lula, as pessoas como Caetano deveriam entender que o conhecimento deriva-se não apenas dos livros, mas da observação dos homens, superação das dificuldades, conversas noturnas, amor, casamento, sexo. Muitas pessoas querem encontrar nos livros o que talvez encontrassem numa boa conversa de botequim, ou simplesmente num passeio solitário pelas ruas. Muitas firulas psicológicas podem ser resolvidas com um saudável mergulho na vida, e a política, muitas vezes, proporciona essa aproximação com as forças primevas da sociedade. Esse conhecimento é genuíno. É tão válido quanto qualquer máxima filosófica. O próprio Kant entendia isso quando abre a sua obra-prima, a Crítica da Razão Pura, dizendo que todo e qualquer conhecimento nasce da experiência. E o que importa ao conhecimento são os frutos. De que adianta ler muitos livros e ser um idiota preconceituoso, ou um medíocre inútil e corroído pela inveja? Se Lula conseguiu se tornar um estadista invejável, admirado internacionalmente, dono de uma popularidade inédita no Brasil e no mundo, é porque ele colheu conhecimentos em algum lugar, não importa onde, processou-os, e converteu-os em vida, em talento, em sucesso, em redenção econômica e social para milhões de brasileiros. Se mesmo assim ele for considerado um analfabeto, então viva os analfabetos!

# Escrito por Miguel do Rosário #

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