segunda-feira, 9 de março de 2015

O país está mais uma vez nas mãos do PMDB


Ricardo Kotscho, Balaio do Kotscho

"Trinta anos após a morte de Tancredo Neves, que antes da posse deixou o cargo para o vice José Sarney (ex-Arena e ex-PDS), primeiro e último presidente da República do PMDB, o principal partido da transição da ditadura para a democracia está novamente dando as cartas no poder central.

Quanto mais fraco o governo, mais forte fica o PMDB, o fiel da balança nestas últimas duas décadas em que PSDB e PT se revezaram no Palácio do Planalto.

Com brevíssimos intervalos, o antigo partido de Ulysses Guimarães, hoje comandado pelo vice Michel Temer e os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e Eduardo Cunha, da Câmara, integrou todos os governos após a redemocratização. Só meu amigo Nelson Jobim, por exemplo, foi ministro de três deles: de FHC, de Lula e Dilma.

Por maior que seja seu poder, até hoje ninguém descobriu qual é o projeto do PMDB para o país, aonde seus líderes querem chegar. Este talvez seja o segredo do seu longevo sucesso: o PMDB só tem projeto de poder, quanto mais, melhor.

É por isso que agora, antes mesmo da inclusão dos nomes de Renan e Cunha na lista dos políticos investigados na Operação Lava-Jato, os peemedebistas abriram guerra contra governo Dilma-2, que tentou reduzir os espaços do partido no segundo mandato. Sabe-se lá por quais misteriosos desígnios, a presidente resolveu montar um governo à sua imagem e semelhança, reforçando o papel de partidos menores, como o PSD de Gilberto Kassab, distanciando-se do PMDB e do PT, e do seu criador e mentor Lula. E deu no que deu.

Em apenas dois meses, Dilma conseguiu transformar sua folgada maioria no Congresso em minoria. Quem comanda a oposição agora é o PMDB velho de guerra, o primeiro a pular do barco que começou a fazer água, como é de sua tradição e costume. Mais do que adversários descontentes com a divisão de cargos e verbas, os dois peemedebistas comandantes do Congresso são agora inimigos declarados e furiosos.

"O governo quer sócio na lama", disparou Eduardo Cunha neste sábado, indignado como todos os políticos limpinhos que apareceram na lista do Janot.
"Sabemos exatamente o jogo político que aconteceu. O procurador agiu como aparelho visando a imputação política de indícios como se todos fossem partícipes da mesma lama. É lamentável ver o procurador, talvez para merecer sua recondução, se prestar a esse papel."

Na mesma linha de tiro, Renan deu uma ideia do nível do debate daqui para frente: "Dilma só soube que o Aécio estava fora da lista na noite de terça, quando o Janot entregou os nomes para o Supremo. Ficou p... da vida. Aí a lógica foi clara: vazar que estavam na lista Renan e Eduardo Cunha. Por quê? Porque querem sempre jogar o problema para o outro lado da rua".

Para quem acompanha a política brasileira, por dever de ofício, há mais de 50 anos, dá um certo cansaço e um profundo desânimo ver a repetição dos mesmos enredos, pois nada mais parece capaz de nos espantar.  Se já é difícil governar o país tendo o PMDB como aliado, é fácil imaginar como será com o PMDB na oposição.

A gravidade do quadro político chegou a tal nível de combustão que já se voltou a falar até num diálogo entre PT e PSDB na tentativa de salvação da lavoura. Esquece-se quem ainda acredita nisso que o PSDB é apenas uma costela do PMDB, consequência de um racha do partido em São Paulo, quando era comandado por Orestes Quércia, o que provocou a saída de FHC, Mario Covas, José Serra e Franco Montoro, entre outros, para a criação da nova sigla da socialdemocracia.

A esta altura, o que os líderes dos dois partidos teriam a dizer uns aos outros, em que termos seria costurado um pacto pela governabilidade? Não há a menor chance, como deixou bem claro o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), um dos mais entusiasmados com as marchas pelo impeachment marcadas para o próximo domingo: "A condição para tirar o Brasil da crise é tirar o PT do poder". Qualquer semelhança com o que acontece no Oriente Médio não é mera coincidência.

Este é o clima. Pobre país."

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