terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O contragolpe virá quando a esquerda descobrir o povo brasileiro




Ao longo de sua história a direita brasileira praticou diversos golpes contra a própria direita. Pouquíssimos foram os governos da Velha República que conseguiram levar a término o mandato único, pois o café transbordava o leite ou vice-versa de acordo com os interesses dos clãs mais fortes. Aí veio Getúlio Vargas que como Pedro II foi derrubado por ferir os clãs pelo simples fato de atender interesses mínimos das camadas populares.

A popularidade alcançada pela monarquia, sobretudo com a abolição da escravatura, não foi suficiente para promover um contragolpe contra a república dos coronéis. Apenas algumas mobilizações isoladas como a de Canudos na Bahia e os fuzilados na fortaleza de Anhatomirim em Desterro, à qual Floriano Peixoto impôs uma homenagem a si mesmo, dando à cidade o nome que até hoje se preserva: Florianópolis.

Já a popularidade obtida pelo ditador que promoveu a primeira democratização social brasileira instituindo leis trabalhistas, saúde e ensino público, impulsionando a economia do país através das primeiras indústrias de base, resultou em ser levado novamente ao cargo executivo através do voto popular que passou a ser desrespeitado por alguns jornais de São Paulo e Rio de Janeiro.

Para ser mais exato “A Tribuna da Imprensa” de Carlos Lacerda e “O Estado de São Paulo” da família Mesquita. Um que outro adotou a mesma linha de defesa dos interesses estrangeiros contra a política nacionalista de Getúlio, mas é falta de memória ou desconhecimento da história dos que tentam comparar os esforços da Mídia de hoje com aqueles tempos em que isso de Mídia praticamente inexistia e o que havia de mais próximo era o grupo Diários Associados de Assis Chateaubriand.

Apesar de viver as turras com Getúlio, amiúde trocavam favores, como quando Chatô obteve do ditador interferência na legislação para manter a guarda de sua filha após a separação matrimonial. Mas nem Lacerda nem Mesquitas puderam impedir a comoção popular promovida pelo suicídio de Getúlio em 54. Um ato individual, mas é o que se pode considerar como único movimento contragolpista de nossa história, pois quanto ao de 64 somente arremedos como o das Ligas Camponesas de Paulo Francisco Julião e do governo Miguel Arraes em Pernambuco. Movimentos suspensos por seus líderes para evitar inútil derramamento de sangue.

Desde a criação da estrategia golpista do Mensalão se ouve da própria militância e de integrantes do próprio PT muitas críticas ao governo, afirmando que deveria tomar esta ou aquele atitude, evitar isso ou aquilo. Culpa-se ao governo e ao partido pelo que cada um considera o erro primordial e apenas para citar um exemplo dessas duvidosas autocríticas, citam-se os que consideram contratação de Waldomiro Diniz como origem dos motivos do golpe como se na testa daquele ex-assessor já estivesse escrito: “Fui corrupto”, ou como se houvesse milhares de técnicos experientes a disposição e dispostos a compor uma equipe de governo, ou como se José Dirceu fosse amigo do Carlinhos Cachoeira. No entanto, raro se ouvir críticas à manipulação da Mídia através de um fato ocorrido anteriormente no governo Garotinho que sequer era aliado do PT ou do governo Lula.

E graças à esquerda brasileira o golpe prossegue. Golpe iniciado lá na abolição da escravatura e sempre presente e permanente a cada vez que algum governo brasileiro implanta medidas de interesse popular.

O inverso de tal situação se exemplifica na história de Cuba.

O Partido Comunista Cubano, como todos os partidos comunistas, não concordava com a revolução armada, mas desde a tomada de Moncada as esquerdas de Cuba se uniram em um único propósito. Fidel, Che ou Raúl não foram conscientizar a população cubana sobre estes propósitos de casa em casa. Evidentemente este foi um trabalho de toda a esquerda daquele país.

Dizer que o povo cubano era mais consciente do que o brasileiro é desconhecer a história e a localização geográfica de Cuba ao lado da Meca do consumismo da qual se tornou colônia tão logo finda a revolução da independência cubana da coroa espanhola. Em Cuba não houve independência, apenas troca de colonizadores.

Sujeito ao tráfico de drogas e intensa exploração do lenocínio, por décadas o povo cubano foi educado à subserviência profissionalmente utilizada em cassinos e hotéis de turistas americanos e a exploradores da mão de obra produtora de charutos, cana de açúcar e rum. No entanto, apesar de 5 décadas do mais restrito bloqueio comercial já imposto a um país de tão reduzido território, apesar das inúmeras tentativas de assassinato de Fidel, os Estados Unidos não se estimulam a darem um passo para invadir a Ilha mesmo após 2 décadas de finda sua única proteção internacional: a União Soviética. Atravessaram o mundo para invadir Afeganistão e Iraque e promoverem golpes em Líbia, Síria, etc.; mas o governo de Cuba está preservado.

O programa Mais Médicos tem permitido maior contato com cubanos, sejam da área da saúde ou os que para cá vieram para administração do plano binacional. Estes, mesmo quando inquiridos a respeito muito pouco se referem a Fidel ou Raúl Castro, tampouco ao comunismo ou qualquer ideologia política, mas repetidamente e com muito orgulho se referem a uma entidade: “nosotros cubanos".

Quando deixarmos de ser da Europa ou dos Estados Unidos e nos descobrirmos em nossa consciência como “nosotros brasileños”, talvez possamos vir a entender que o golpe contra o Brasil não resulta de imaginárias deficiências de comunicação e políticas de um governo que tem cumprido a risca com os propósitos de inclusão social e democratização de oportunidades e acessos à educação e saúde e outras necessidades básicas de nossa população, promovendo a retirada do Brasil do Mapa Mundial da Fome e nosso IDH como jamais nenhum outro o fez antes.

Quando a esquerda brasileira descobrir o povo brasileiro, talvez se conscientize do que realmente seja ser de esquerda e só então poderemos promover o primeiro movimento de contragolpe da história política do Brasil.

* É jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis e é colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Pouso Longo”.

Por Raul Longo

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