quinta-feira, 4 de junho de 2015

Razão e emoção


Nunca imaginei, nem nos momentos em que estive imerso nos pensamentos mais desesperançosos, que depois de ultrapassar a barreira dos 60 anos, num mundo repleto de maravilhas, estaria sentindo o desconforto espiritual daqueles que nada entendem, por mais que busquem as respostas para os enigmas que cotidianamente lhes são propostos.

Tolo, achei que com a idade viria a sabedoria, se não aquela dos iluminados, pelo menos a que proporciona ao homem comum a tranquilidade de ver os dias escorrerem sem sobressaltos pela ampulheta do tempo.

Confesso, porém, que, mais que nunca, estou tomado pela estupefação, pelo temor, e por uma ignorância absoluta da compreensão destes dias.


Será que o mundo enlouqueceu - se não todo, ao menos este colorido Brasil no qual vivo?

Ou será que a loucura que constato é apenas minha - como se sabe, os loucos são os últimos a saber de sua condição...

Volto ao tempo.

Lembro de como eu era há quatro décadas - um jovem idealista, mais ou menos sério, que tentava, por meio de seu trabalho, contribuir, de alguma forma, para melhorar a comunidade em que vivia, a sonolenta Jundiaí dos anos 70.

Sem saudosismo, apenas como modo de comparação, recordo que, naqueles anos, tinha a sensação de que as pessoas eram mais compreensivas, mais tolerantes, mais dispostas a conversar e, de certa forma, aceitar as diferenças dos outros.

Vejo o Coelho, o saudoso sociólogo Antônio Geraldo de Campos Coelho, um dos meus tipos inesquecíveis, abrigado detrás do balcão do Bar e Lanchonete Ponto Chic, discordar frontalmente da nossa visão de mundo - ele, um antimarxista extremado, nós, plenos de certezas com as convicções da juventude...

E discutíamos, apaixonadamente, sem que nenhum dos lados impusesse ao outro nenhuma palavra ofensiva, sem que houvesse nenhum resquício de ressentimento depois da cansativa refrega.

Discordávamos como discordam os homens civilizados - os copos de cerveja que tomávamos eram a nossa testemunha.

Não, a sociedade não era menos desigual que a de hoje - ao contrário, o fosso que separava os pobres dos ricos era ainda maior.

O que ocorria, não sei se pela educação que recebíamos em casa e na escola, é que pensávamos mais, refletíamos mais, nos informávamos mais - uma contradição em tempos sem a facilidade da internet...

E eramos, pelo menos aparentávamos ser, mais corteses e mais cordiais.

Retorno ao presente.

Dou uma espiada no Facebook, passo os olhos pelo Twitter.

E observo o ódio se espalhar, a intolerância aumentar, o preconceito crescer, a estupidez grassar e a violência dominar os corações - o brasileiro, parece, está em guerra contra seus próprios compatriotas, seus vizinhos, seus colegas de trabalho, seus amigos e seus familiares.

A minha porção racional tenta me tranquilizar - não julgue o todo pela parte, diz. É apenas uma minoria que está expondo suas frustrações, suas derrotas, seus fantasmas e seus traumas. Ela é barulhenta, mas não tem força para convencer ou influenciar os milhões que estão calados.

Antes fôssemos apenas razão...

Lá no fundo, no canto mais escondido do cérebro, a dúvida persiste - e se desta vez a emoção sobrepujar a razão?
Do: http://cronicasdomotta.blogspot.com.br/2015/06/razao-e-emocao.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário