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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

OS JUROS DA DÍVIDA E O TERRORISMO ESPECULATIVO


"Vamos direto ao assunto e falar apenas de números: se você comparar a execução do orçamento de 2014 e 2015, há apenas um desvio de curva desproporcional.
O país gastou R$ 978 bi com o sistema de dívida em 2014 e a estimativa para 2015 é de R$ 1.150 tri. Essa diferença de mais de 170 bilhões é responsável por si só pelo deficit, mesmo em um quadro de arrecadação minguado. Veja bem, não estou sendo radical de propor a correta auditoria da dívida, mas apenas imagine que o gasto tivesse se mantido, nós não teríamos deficit orçamentário se tivéssemos gastado "apenas" R$ 978 bi na dívida neste ano.
Isso é péssimo porque, como todos sabem, não é que o governo pegou um dinheiro para fomentar algum projeto e agora está pagando, é apenas a alimentação de juros e rolagem de dívidas. Cada investidor joga de acordo com as regras. Se eu tivesse hoje R$ 5 milhões parado no bolso, você acha que eu ia ser otário de investir em algo, abrir um negócio para gerar renda e emprego?
Claro que não. Basta comprar tudo em títulos da dívida e esperar o governo lhe pagar. Em época de DRU, eu tenho certeza que vão fazer de tudo para poder desvincular o orçamento (cortar saúde, cortar educação) para poder me pagar. O pagamento dos títulos da dívida é a coisa mais sagrada nesse país. Nesse ponto o governo não ousa descumprir a Lei De Responsabilidade Fiscal.
Então eu me torno esse "investidor" que vive como urubu. Se o governo aperta, eu tiro meu dinheiro como bem quiser e vou especular em alguma outra economia desregulamentada.
Temos a configuração mais clara do terrorismo especulativo, o parasitismo econômico que é uma disfunção do capitalismo. No Brasil, pune-se o consumo e incentiva-se a acumulação de capital em detrimento da geração de riquezas.
OK, temos então uma crise econômica 100% psicológica, fundamentada na especulação financeira. Se 49% de todos os impostos que pagamos vão para a dívida, é óbvio que essa é a questão fundamental de nossa economia e do orçamento da União. Se não tivéssemos a dívida, poderíamos ter o dobro de serviços públicos ou a metade de impostos. Parece surreal, mas são os números.
Temos um governo que diz ser de esquerda, mas é extremamente liberal na economia. Não vamos nos enganar, 90% do governo é a economia, o resto vem a reboque.
O governo jamais vai enfrentar essa lógica da dívida ou mexer no sistema financeiro. Se isso é verdade e se a crise é de terrorismo especulativo, qual a solução?
O primeiro diagnóstico sincero que Levy e cia deveriam fazer é que se você vai jogar pelas regras do mercado, é impossível ser liberal e social ao mesmo tempo. O orçamento nunca vai fechar enquanto o governo tiver vergonha de assumir a sua postura. Por isso o mercado tanto quer alguém da direita verdadeira, para governar de forma liberal "sem vergonha" de ser.
A crise de especulação financeira não se resolve com medidas técnicas. Está óbvio como 2 + 2 = 4 que o mercado não vai dar trégua enquanto Dilma não sair do governo. Mesmo que ela descobrisse a solução mágica para o problema hoje, ainda assim não seria necessário.
É tarde demais para lamentar que não mexemos nos grandes interesses, nem nos sistemas da podridão político-econômica do país, mas é o que é. Se jogamos esse jogo, um ato de grandeza seria admitir que perdemos e devemos levantar a bandeira branca. Essa teimosia de tentar cumprir mandato porque "assim disseram as urnas" deixa o país todo refém dessa guerra especulativa interminável.
Alguém precisa dizer em alto e bom tom que os empresários só vão investir e os urubus especulativos só vão se acalmar quando trocarem o governo. Não é CPMF, DRU ou qualquer outra medida de enxugar gelo que vai resolver.
Vivemos a política do cachorro correndo atrás do rabo. Falta alguém reconhecer que o problema da inflação no país é cultural. Ou você tenta resolver congelando preços (década de 80) ou você tenta resolver quebrando o país e acabando com o consumo (Plano Real).
Ambas soluções são medidas artificias e remendos para tentar solucionar a questão. Em qualquer outro país em recessão seria inexplicável você ter esse cenário econômico e inflação de 10-15%. Justificar a inflação dizendo que é reflexo de tarifaço não engana nem estagiário de economia.
No atual ciclo, você aumenta juros para frear a inflação, com isso explode a dívida e corta o orçamento, cortando o orçamento você freia investimentos e crétidos, freia o consumo e tem queda na arrecadação. No final do ciclo você percebe que tem que cortar mais e aumentar os juros, e ainda reclama que seu plano não funcionou?
Nada faz lógica matemática em nossa economia. O economês de universidade diz que a demanda e a oferta regulam o preço. Pois bem, vejamos o setor automobilístico: os caras estão vendendo 30% menos que em 2014 e nenhuma montadora do cartel brasileiro mexeu sequer um milimetro em suas margens de lucro.
Pela lógica capitalista, o carro 1.0 de plástico vendido em 2014 por R$ 40 mil hoje deveria estar custando 30, ou até mesmo 20 caso eles fossem reduzir a margem de lucro para vender.
Mas não, elas preferem vender 1000 carros com margem de lucro em 50% do que 10000 carros com margem de lucro de 25%. Óbvio, se eu altero isso agora, o brasileiro que se acostumou a ver o carro como um objeto de luxo aprenderia que é um bem de consumo, e isso seria terrível para as montadoras. Elas perderiam o mercado que proporciona as maiores taxas de lucro do mundo, mesmo que a escala de vendas tenha que ser reduzida.
E aí vemos tantas medidas técnicas e assépticas que não fazem sentido diante da complexa realidade do nosso mercado e sistema financeiro. Muitas vezes nos perguntamos: será que são tão burros assim? Claro que não, as medidas não são 100% erradas.
Funcionar, funciona. Eu, especulador descrito no início do texto, sou dono de milhares de títulos de dívida e estou ganhando cada vez mais sem fazer nada. É óbvio que eu vou advogar mais cortes, menos Estado. Não se mexe em time que está ganhando. Eu quero que o governo continue com essa política e aprofunde o arrocho. Tanto faz se o consumo vai mal, ou as pessoas perdem emprego e renda. Eu quero é meu título pago, meus lucros garantidos. E eu, especulador nato, sou prioridade número um neste país.
É muito simples: o governo precisa fazer uma escolha, se quer enfrentar os grandes interesses ou jogar o jogo de acordo com as regras que estão postas. Se eu não posso ser ingênuo de achar que o governo vai fazer algum tipo de enfrentamento, pela mesma lógica eu não posso acreditar que é possível ser social e liberal ao mesmo tempo. Se escolhemos viver em uma economia desregulamentada, com privilégios e submissão ao rentismo, então é melhor passar o bastão para quem é liberal de berço e vai fazer a mesma coisa só que sem os efeitos de tanto terrorismo especulativo."





(Comentário - aqui - de Bruno, leitor do Jornal GGN, ao post "As pontes para a normalização da economia", de Luis Nassif, publicado na mesma fonte.

Sem dúvida, o terrorismo especulativo é algoz do Brasil, mas o cenário econômico apresenta complexidade bem mais ampla. Por exemplo: Em quanto a carga tributária poderia ser reduzida caso a SONEGAÇÃO FISCAL se situasse em nível civilizado? As estimativas atuais indicam que a sonegação alcançará 500 bilhões de Reais em 2015. Os iluminados apregoam as virtudes do famoso Estado Mínimo, mas espertamente omitem qualquer alusão a privilégios e sonegação. No confronto entre montantes, observa-se que o SERVIÇO DA DÍVIDA supera os estragos da SONEGAÇÃO FISCAL, mas na vida real o que ressalta é o fato de que os gestores econômicos podem, a despeito do cipoal jurídico protetor dos grandes sonegadores, agir consequentemente nesse âmbito - a operação Zelotes/Carf configura reação, ainda que 'forçada' e a posteriori. Já quanto ao SERVIÇO DA DÍVIDA, o buraco é mais embaixo. Exemplo: A Grécia realizou, em 2014, AUDITORIA de sua leonina dívida - cujo montante ultrapassa com folga o seu PIB - e chegou à conclusão de que parcela ponderável era fajuta, inflada por manobras contábeis as mais absurdas. O relatório foi divulgado, a Grécia pôs a boca no trombone. E daí?, perguntaram os integrantes da Troika? E daí?, indagaram os grandes bancos credores. E a Grécia se mantém envolta na mais absoluta desesperança...

Cumpre observar, finalmente: Há outros terrorismos a afligirem o Brasil, além do especulativo e do sonegador. Afinal, como dito inicialmente, o cenário econômico apresenta complexidade bem mais ampla).